sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Verdades não doem, mal caratismo sim!

Eu só peço licença para ser um idiota quando minha inteligência é insultada. To caminhando pela internet quando num texto que começa com "O difícil de ser feminista, é que de repente a gente percebe que homem dá nojo." Até aí tudo bem. Mas depois de ler e reler e reler, porque eu me dou a esse trabalho até mesmo pelos textos pequenos, eu percebo que o texto não é para abordar uma verdade universal, e sim pra falar das dores de uma mulher mal amada.

"A verdade dói, mas é melhor uma verdade que doa do que uma mentira que oprima."

Não consigo pensar em nada mais senso comum do que essa frase. A verdade doer é a desculpa para os covardes não abraçá-la completamente. A verdade não dói, liberta. O que dói é a distorção da verdade para conquistar objetivos individuais e mesquinhos.

Queria eu que a verdade fosse um deus e pudesse condenar a todos aqueles que fazem uso do seu santo nome em vão apenas para criar uma frase de efeito, um impacto impressionável, uma distorção da realidade.

Essa deusa da verdade pode vir como já disse o profeta lá, enfeitada em pele de cordeiro, mas na verdade ser um lobo. É uma pena porque eu gosto tanto de lobos.

Não existe pior coisa do que usar uma particularidade de sua própria vida e aplicar numa situação para torná-la universal. Essa é a famosa Anedótica, ou talvez a "falácia da experiência pessoal", onde as pessoas admitem que "se aconteceu comigo pode acontecer com todo mundo, então é verdade". Não, não é.

Separar a experiência pessoal do todo e falar sobre isso como sendo algo único é uma coisa, agora universalizar sua experiência negativa para criar um argumento sólido é uma coisa completamente diferente. Em se tratando de relacionamentos amorosos, toda história tem dois lados. Um lado é chamado de feminismo vitimista, enquanto que o outro é apenas o machismo paternalista crápula.

Haja vista que a maioria dos homens que entendem o discurso feminista acabam sendo machistas com culpa de consciência. Então, seguindo a sua mesma lógica anedótica, eu afirmo que nós homens machistas estamos sofrendo os males dessa criação paternal, que não é inteiramente culpa nossa. A contra reação já é por si só algo louvável, e o respeito e posição a favor dos direitos das mulheres, de querer que elas sejam livres para viver e fazer o que quiserem, já nos dá uma vantagem em relação àqueles homens que são machistas porque se sentem ameaçados. De certa forma, acho que por criação, ainda vai se levar muito tempo até que um garoto não seja educado com a consciência de gênero incutida no seu comportamento diário. Só cabe lembrar que existe uma diferença crucial entre a mulher ser feminista e a mulher ser o pior ser humano do mundo com as pessoas, e depois justificar suas atitudes sem ética e nem coerência no feminismo. Isso é que realmente me dá nojo. "Você não pode se queixar de eu ser assim porque eu sou livre, sou mulher, sou feminista". Ah faça-me o favor. Por Maria Deraisme vê se não fode comigo!

No fim das contas, isso só tem alguma utilidade se você realmente faz vez pra que isso te tire o sono. Como eu tenho mais o que fazer, deixa eu usar aqui o meu poder masculino opressor pra que esse discurso fajuto entre por um ouvido e saia pelo outro. De repente eu consigo entender o que Dalberg-Acton disse. E sim, como é ótimo estar absolutamente corrompido às vezes.

Um comentário:

Mulheres Livres Amor Libertário disse...

Tudo nesse vida é processo, nada nasce pronto inclusive o pensamento. No caso do pensamento feminista, como qualquer conhecimento libertário é também um processo e tem suas etapas. Penso que essa repulsa é uma tendência inicial, mas que depois de certo tempo se dilui e leva a outras questões e reflexões.
A esmagadora maioria das mulheres passa por esse momento de repulsa ao sexo masculino quando iniciam seu processo de libertação, basta acompanhar os grupos onde relatos são compartilhados diariamente nas redes sociais. Portanto, talvez o texto que vc leu não seja fruto apenas de uma experiência pessoal isolada, basta conversar com meia dúzia de feministas que observamos tal fenômeno.
Se pensarmos que o despertar do pensamento feminista é também um processo de reconhecimento e identificação da opressão sofrida, dá até pra entender de onde vem esse impulso inicial. Pois, sentir repulsa, asco pelo opressor é algo natural, converse com vítimas de estupro ou de qualquer tipo de violência física... E uma questão que é preciso pensar quando falamos de abuso e opressão em relacionamentos amorosos, é a violência psicológica que muitas vezes é invisível ou mascarada mesmo, mas a vítima sente, sofre, padece e claro vai desenvolver repúdio ao agressor.
No âmbito mais geral do despertar da chamada consciência feminista, o processo acaba sendo semelhante. Quando as mulheres começam a perceber a opressão a qual são submetidas diariamente, naturalmente desenvolve-se um sentimento de repúdio, de asco. O radar fica ligado 24h e passamos a enxergar as opressões em tudo quanto é lugar e nos incomodamos não apenas pelo que é diretamente conosco, mas também com o que vemos acontecer com nossas manas e a raiva pulsa forte. Afinal, quem aguenta sofrer violência/opressão da hora que acorda a hora que vai dormir? E isso vem de todos os lados explícita ou implicitamente, vem do estranho que nos assedia na rua a caminho do trabalho, do colega machista e abusado do trabalho, do companheiro, do irmão, do pai, do tio, enfim de qualquer homem que cruze nosso caminho sem o mínimo de respeito. É bem difícil não desenvolver o sentimento de "nojo" como foi mencionado.
De qualquer forma ainda penso que talvez seja uma fase e como toda fase geralmente é superada pelas mulheres que se põe a refletir profundamente a questão da mulher e novas problemáticas se colocam para se questionar, debater, refletir. Mas o radar anti-opressão permanece ligado, pois uma mulher empoderada jamais vai aceitar passivamente abuso, opressão, violência. A libertação é irreversível.
agora pra coisa avançar, do mesmo modo que as mulheres precisam ter paciência com o processo de desconstrução do machismo nos homens, os homens precisam ter paciência com o despertar da consciência feminista. Como disse em outro comentário, juntos somos mais fortes e o feminismo é bom pra todos nós!