sábado, 31 de dezembro de 2016

Você

Meu corpo
Não é mais minha cela embaraçada
Obscura e confusa
Confiscando os desejos.

Entra o pasto a rua cidadela
Passo, após, passo,
Andarilho pensante
Seu passo insistente e amante

Minha mente é a minha chave
E desde então nada é estranho
Sem cercas, portões ou células

Borboleta. Laranja. Libélula.
Aquelas coisas que só nós entendemos.

Subi ao patamar de anjo
Ou desceste ao inferno
Ou apenas nos vimos na rua
E nos reconhecemos.

Eu te vejo nesta vida cínica e teimosa
De fechar os olhos para a dor
De deixar-se seduzir pelo mundo
Optar a tudo, e no fim, ser amor.

E que me transforma no melhor que tem de mim
Sem que eu saiba direito quem eu sou.
E que se esconde em mim sem que eu sinta vergonha
De aceitar a vida com tudo o que ela traz

Faça bem ou faça mal, faça.
Não importa com qual pronome se conjugue
Apenas é isso, apenas me abraça.

Tudo fez mais sentido e mais clareza
Quando achei melhor sentir medo,
chorar de tanta tristeza,
perceber que a solidão é o prato principal
Nesta obscura mesa que é o universo
Do amor que trouxe pra mim
Nesta terça-feira de manhã
Em que não sabemos mais
Qual calendário seguiremos
Na hora em que baterem com a pá
Na porta de nossa última cama.

Apenas apenas
Diz que me ama.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Verdades não doem, mal caratismo sim!

Eu só peço licença para ser um idiota quando minha inteligência é insultada. To caminhando pela internet quando num texto que começa com "O difícil de ser feminista, é que de repente a gente percebe que homem dá nojo." Até aí tudo bem. Mas depois de ler e reler e reler, porque eu me dou a esse trabalho até mesmo pelos textos pequenos, eu percebo que o texto não é para abordar uma verdade universal, e sim pra falar das dores de uma mulher mal amada.

"A verdade dói, mas é melhor uma verdade que doa do que uma mentira que oprima."

Não consigo pensar em nada mais senso comum do que essa frase. A verdade doer é a desculpa para os covardes não abraçá-la completamente. A verdade não dói, liberta. O que dói é a distorção da verdade para conquistar objetivos individuais e mesquinhos.

Queria eu que a verdade fosse um deus e pudesse condenar a todos aqueles que fazem uso do seu santo nome em vão apenas para criar uma frase de efeito, um impacto impressionável, uma distorção da realidade.

Essa deusa da verdade pode vir como já disse o profeta lá, enfeitada em pele de cordeiro, mas na verdade ser um lobo. É uma pena porque eu gosto tanto de lobos.

Não existe pior coisa do que usar uma particularidade de sua própria vida e aplicar numa situação para torná-la universal. Essa é a famosa Anedótica, ou talvez a "falácia da experiência pessoal", onde as pessoas admitem que "se aconteceu comigo pode acontecer com todo mundo, então é verdade". Não, não é.

Separar a experiência pessoal do todo e falar sobre isso como sendo algo único é uma coisa, agora universalizar sua experiência negativa para criar um argumento sólido é uma coisa completamente diferente. Em se tratando de relacionamentos amorosos, toda história tem dois lados. Um lado é chamado de feminismo vitimista, enquanto que o outro é apenas o machismo paternalista crápula.

Haja vista que a maioria dos homens que entendem o discurso feminista acabam sendo machistas com culpa de consciência. Então, seguindo a sua mesma lógica anedótica, eu afirmo que nós homens machistas estamos sofrendo os males dessa criação paternal, que não é inteiramente culpa nossa. A contra reação já é por si só algo louvável, e o respeito e posição a favor dos direitos das mulheres, de querer que elas sejam livres para viver e fazer o que quiserem, já nos dá uma vantagem em relação àqueles homens que são machistas porque se sentem ameaçados. De certa forma, acho que por criação, ainda vai se levar muito tempo até que um garoto não seja educado com a consciência de gênero incutida no seu comportamento diário. Só cabe lembrar que existe uma diferença crucial entre a mulher ser feminista e a mulher ser o pior ser humano do mundo com as pessoas, e depois justificar suas atitudes sem ética e nem coerência no feminismo. Isso é que realmente me dá nojo. "Você não pode se queixar de eu ser assim porque eu sou livre, sou mulher, sou feminista". Ah faça-me o favor. Por Maria Deraisme vê se não fode comigo!

No fim das contas, isso só tem alguma utilidade se você realmente faz vez pra que isso te tire o sono. Como eu tenho mais o que fazer, deixa eu usar aqui o meu poder masculino opressor pra que esse discurso fajuto entre por um ouvido e saia pelo outro. De repente eu consigo entender o que Dalberg-Acton disse. E sim, como é ótimo estar absolutamente corrompido às vezes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Amor da minha Vida

Às vezes te quero tanto como nunca
Como nunca quis nada da vida.
Às vezes te encontro assim, largada
Como refúgio, como sonho
Como ilusão perdida.

Sempre me engana e por isso
Às vezes te odeio
Às vezes choro por ti,
Agarrada em convulsão
Num travesseiro na cama.

Às vezes fico séria,
E quando me perco de ti
Tudo se alastra em drama.

Às vezes te amo
E como te quero
Começo o dia sorrindo
Tudo brilha, tudo é perto
Andar por cima é fácil

Às vezes chove
Essa metáfora dos românticos
Dos realistas e dos modernos
É fresco, é triste, é silêncio, é paz
Às vezes te quero tanto que não te quero mais.

Às vezes sinto vontade de ficar aqui
Agarrada aos joelhos, longe de ti
Às vezes quero apenas o teu conforto
A certeza de que é meu amigo

Tem vezes que me quero só, comigo.

Na maioria dos reveses
Reveze felicidade com tristeza
Isso com aquilo
Controlo-me, controla-me
Vejo o dia como dia
Ou como metáfora
Igreja vira vidro, ou fé
Prédio vira pedra ou moradia
Seu olhar às vezes dura
Mas às vezes fria.

Às vezes tu não sabes do que estou falando
Então só ouve o que quer, e segue sua vida
Às vezes queria ser assim, mais querida
Mais que esse olhar de superfície
Que não sabe do que falo, cria ferida.

E às vezes que eu me deparo com ti
Paro pra te pensar no tanto
Quando às vezes que quis tudo e não podia,
Morria.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Perdendo

Transborda de mim o mundo de minhas costas
Perdi dos meus olhos a minha criança
Cirandando por aí, vejo-a mal, um vulto
Persigo-a, adepta à covarde nostalgia
A nuvem flutuante que de seu canto vem

Dilui-se em alívio, um respiro, o ar
Tão simples, o ar.
A medicina para o pisar no chão

Aquele homem bom, com aquele manto, suas feridas, braços abertos
Não sei mais, até isso repousa na mente

Mas me promete amor?
Felicidades?
Não duvidar de mim?

Bebi, porém, sozinho, da fonte
Extraí o néctar da vida
Não foi por egoísmo
Foi por pura dor.