sábado, 29 de outubro de 2016

A Luz da Montanha

"Eu não vou solucionar a situação de vida dessas crianças, eu não sou governo. Eu adoraria mudar esse bairro, essa situação, mas eu não posso resolver o problema deles sozinho, estou aqui pra contar histórias, levá-los pro mundo de faz de contas e tirá-los um pouco da sua realidade dura" - Professor Jairo

Esta é uma citação que veio após o professor compartilhar um pouco da sua experiência de Contador de Histórias em um projeto Nossa Senhora de Caropita com crianças carentes.

Isso me faz pensar do quanto estamos infelizes com a nossa condição social e tendemos a projetar essa insatisfação no indivíduo, nos esquecendo dos principais culpados, os desgraçados que estão no governo.

Essa divisão ideológica que assola as nossas mentes é o principal alimento desses abutres que nos bicam nas costas quando não estamos percebendo.

Como professor, eu repenso a minha função. Repensar é fácil, o desafio é vivê-la.

Sou professor, não sou a solução. Minha função é, quando muito, mostrar o caminho. É apontar e dizer: "está vendo aquela montanha ali? Vê aquela luz lá no alto? Aquele ponto brilhante, que se move? Depois daquelas copas de árvores? Pois bem, ali está o seu sonho. O caminho é por aqui. Precisará sobreviver, então me escute com atenção. Não, não posso ir contigo. Cada um é dono de uma luz única, e com ela terá o que precisa para fazer o que sente para que veio, sua missão, seu motivo, sua razão de viver, chame como quiser. Eu não posso ir. O que tem ali é para você e apenas para você, não para mim, portanto apenas ouça-me e aprenda como te direi para chegar lá."

De certa forma querem que professores, médicos, policiais, juízes, arquitetos, engenheiros, profissionais em geral, subam na montanha e tragam a luz de cada aluno e as deposite em seus colos. Esta concepção está muito errada. Esta concepção explica muita coisa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Amigos para Sempre: A mentira da geração Coca Cola

Eu não sei nem por onde começar.

Não falo por todos, falo apenas por mim, pela minha experiência, e isso aqui não é uma fórmula ou uma receita de bolo, portanto não me siga, apenas leia, se quiser.

Minha vida foi sempre vítima do idealismo televisivo. Acho que todas as nossas foram. Nosso comportamento foi condicionado, dia após dia, a ser de modo x, isso não é novidade para ninguém. Qualquer pessoa adulta com um mínimo de consciência sabe disso, e também não vejo problema algum nisso. Já vi pessoas com mais de 25 anos que brigam e perdem a cabeça porque o mundo não entra nos trilhos do seu trem individual (eu mesmo já fui um deles, até bem irritante), mas isso é puro narcisismo, escapismo, negação da realidade. A vida é o que é, ponto final.

Você pode me dizer: mas não podemos nos conformar. Esta resposta messiânica de que temos que mudar tudo o que nos incomoda é o que realmente mais me deixa transtornado. Porque honestamente eu gostaria apenas de ser e só. Só ser, simplesmente, sem ter que me sentir culpado que o meu ser esteja desagradando alguém.

Por causa disso eu desesperadamente moldei toda a minha adolescência para se encaixar nos eixos de outrem, em busca de amizade, de parceria, de compreensão. Abri mão de muita coisa para conseguir alcançar esse ideal. Mudei tanto de ideia, de religião, de crença, de descrença, que cheguei a um certo ponto que já não sabia mais quem eu era.

Para muitas pessoas isso vem de forma natural, são excelentes comunicadores, aquela imagem do rapaz que fala apaixonadamente sobre qualquer assunto e consegue torná-lo interessante, enquanto todos em volta escutam e riem. Lá está ele falando de quando comprou Danone mas queria na verdade ter comprado sorvete, e isso se torna mais atraente do que discutir energia geotérmica.

Ou a situação em que eu esteja passando por algum problema pessoal, e de repente surge aquela pessoa que me dá todas as respostas pro que eu preciso pra lidar com aquilo, nem ao menos que seja dizer: você consegue.

Foram muitas as vezes: as novelas, os seriados, os filmes, as músicas. Muita coisa mundo afora trazendo essa mensagem de que a vida sem amigos é uma vida infeliz. Isso é uma tremenda mentira, descobri hoje.

Mas porque ao mesmo tempo não consegui me educar em dizer: acredite em si mesmo?

Cheguei à conclusão de que a infelicidade de não ter amigos é equivalente a infelicidade de tê-los, sem o agravante de que precisamos buscar alguma coisa. É uma lacuna da vida que requer muita energia e disposição, toma muito tempo e no fim das contas, quando uma pessoa simplesmente se vai, traz uma sensação desesperadora de um tempo e investimento de vida que nunca mais terei retorno. Isso não é egoísta demais?

Por que imprimiram nas cabeças da minha geração essa ideia falsa de "amigos para sempre"? Não existe isso e nunca existirá. A pessoa que acredita que terá um amigo para sempre não deve estar colocando o seu tempo nesse mundo em perspectiva. Pessoas seguem em frente, mudam de cidade, mudam de pensamento, mudam de ideia, morrem, e na pior de todas as situações, decepcionam.

Viver sem amigos, de certa forma, não é de todo ruim quando se busca algo para si mesmo. Não quero aqui exprimir uma regra, é só algo que digo a mim mesmo para diminuir minha miséria, porque honestamente, cansei de tentar.

Sim, eu sou inconveniente, me entedio fácil com qualquer assunto, não gosto de falar de coisas mundanas, tenho interesses por coisas diferentes, não me choco ao falar de assuntos que todo mundo considera tabu como sexo, estupro, pedofilia, e pode ir piorando essa lista. Eu não tenho esse recalque moralista e sinceramente me cansa a covardia moral das pessoas em não querer falar de certas coisas, porque eu quero falar sobre elas. É como se eu estiver falando de estupro as pessoas automaticamente começam a pensar que eu concordo com o estupro, ou que eu gosto de estupro, ou que eu estou motivando o estupro, e só isso já demonstra a forma covarde como todo mundo lida com as questões da realidade. Então vamos ao escapismo: amigos para sempre. Eu gosto de assuntos que muita gente considera entediante, e já me cansei de tentar ser desinteressante para que me considerem interessante. 

Ou tem aquela situação em que você tenta fazer amizade com alguém que não te dá abertura, e as conversas não passam de monossílabas, e logo depois de um tempo você passa a se sentir um verdadeiro imbecil que está implorando pela atenção de alguém. Esse jogo social é muito cansativo.

Amizade para sempre. Que patético. Não, não existe. e a partir de hoje eu vou passar a repudiar qualquer pessoa que tente imprimir esse conceito de sempre na minha cabeça. Nada é para sempre no que diz respeito à vida humana, é tudo uma ilusão que criamos porque não queremos aceitar a ideia de que um dia iremos embora daqui e ninguém mais vai se lembrar de nós. Ninguém mesmo. Seremos varridos do planeta e mal teremos vestígios de que um dia aqui habitamos.

Quando começamos a ler sobre ideias incríveis do tipo multiverso, teoria das cordas, matéria escura, percebe-se o quão mundano essa ideia de amigos para sempre se torna. Imprimir todas as nossas perspectivas na crítica alheia é algo que me faz sentir pânico e paranoia ao mesmo tempo.

Durante muito tempo, para se poder ser amigo para sempre de alguém, era necessário estar à disposição de agradá-lo. Não só isso me tornou uma pessoa fraca e covarde como me fez sentir incômodo por qualquer pessoa que aja de forma diferente da que eu espero.

Eu posso naturalmente conhecer uma pessoa e ter tudo o que ela possa me oferecer naquele momento, por sabermos da fragilidade da vida, ali, naquela hora, sem esperar que ela esteja comigo pelo resto da vida. Não há necessidade, é esperar demais de mim, é cobrar demais dela.

Por que eu faria isso? Por que eu submeteria uma pessoa a ser completamente diferente do que ela costumava ser apenas para que ela possa me fazer bem, ou vice-versa? Por que simplesmente não encará-la como uma pessoa que é livre e independente, e deixá-la seguir o que quiser como eu poder seguir o que quiser? Por que a interação entre duas pessoas deve-se dar sempre nesse campo do idealismo?

"Não podemos mais ser amigos porque não acreditamos mais na mesma coisa". Por que não? Seria o mesmo que dizer que uma palmeira não pode dividir o mesmo espaço que uma alga apenas porque elas se desenvolveram de forma completamente diferente.

E é por causa desse narcisismo e egocentrismo moderno estúpido que vemos um crescente de pessoas desesperadas porque não conseguem encontrar alguém que se encaixa com elas, ou não conseguem fazer com que alguém as ame. É cruel demais, simplesmente assim.

Apenas cansei de sofrer por causa desse idealismo, amizade. De forma tão óbvia, e simples, e chega mesmo até me dar raiva do tempo que levei para perceber isso, pensei: se fosse por não ter amigos, pare de querer tê-los. Sua vida ainda pode ser boa assim. E agora sinto um alívio como não sentia em anos.

Uma vez disseram: "se quiser ter amigos, seja um, eles virão". Vejamos então.

domingo, 16 de outubro de 2016

Apoena

Nessa casa que aí passeias
Há anos que habito
E tudo que faço não é por hábito
Só não gosto da casa suja

Querê-la silenciosa
Calma, presente
Sem aquele ardor iludido de ontem
De quando temos todas as respostas

Nessa casa que aí passeias
Há tempos que são só perguntas
Ambiente arejado, fresco, incômodo
Senta aí é só ouve o quanto é difícil

Tem coisa que fica porque ser humano
Como essa vidraça que o olho ofusca
Mas quando foca, limpa.

O que não se sabe é que a fachada é feia
Mas por dentro
Tudo é combustão por culpa
Por ter nascido como é

Mas não há parede que não possa ser derrubada
E feita de novo
Dá-me tempo
Encontrarei as ferramentas certas
Mas não para você

Essa casa que aí passeias
Ela é minha
E há tempos que por hábito
Habito.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Eu posso não ser tão bom com crianças, mas eu sou ótimo com plantas, cachorros, gatos e outros tipos de animais.


Non posso essere buono con i bambini, ma sono eccellente con piante, cani, gatti e altri animali.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Elogio uma anônima passada

Estava vendo um filme pornô um dia desses e me lembrei de você. Eu sei que soa mal educado, mas na minha cabeça isso é bastante lisonjeiro. Eu lembrar de você me desperta meus instintos mais animais, que no fim das contas, é a única coisa em que eu realmente acredito, porque eu posso ver minha própria ereção.

Peônias após a dinastia Han

Enxofre, carvão, nitrato de potássio

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa

O café amarga, azeda, queima
Sem a fumaça do consolo

Largo ali a xícara
Que permanece por uma semana

Porta entreaberta, todos os dias
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Luz vai e volta sozinha
O calor existe, mesmo debaixo da sombra da árvore.

Ouço um choro na caverna
Nesse som que bate no fundo e ressoa.

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa.

Caverna escancarada, todos os dias
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Bebo o café, acabou o café

Largo ali a xícara
Que permanece por um mês

Odeio o lago da calmaria
Quando se tem medo de nadar

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa

Mar aberto, escancarado, agitado, calmo, todos os dias.
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Badala o sino anunciando a missa
Ninguém chega.

Enxofre, carvão, nitrato de potássio.

Pedaços de porcelana ao chão.
Ninguém chega, todos se vão.

domingo, 2 de outubro de 2016

Soma numa conversa com Aldous Huxley

Na festa em que todo mundo vai,
Permanecer
É a melhor forma de protesto

Célebre como ponto radiante
Irradia tudo
De luz fresca ao negro véu cortante

O que importa é o que importa
O que não vale é o que não vale
O que não quer, joga-se fora
Nenhum resto é fora de moda

Pedintes de vida também precisam de vida.

Não há nada mais irresistível do que um pedinte onde tudo sobra
Do que um choro convulsivo onde tudo é sombra
Da verdade onde tudo é cobra.

Nesta era em que o sorrir é quase uma tortura
Chorar pelo direito ao mal-estar
Parece ser a única forma de cura

Naquela hora em que é quase obrigatório o riso do palhaço
Fazer o caos sem explicação é o maior alívio
Da covardia senil, falsa, em estardalhaço.