quarta-feira, 6 de julho de 2016

Reforma

A lâmpada pisca acima, são seus sinais de sobrevida
Quase não a noto, quase não percebo
Há muito ruído lá fora
Muita responsabilidade que ficou por ser cuidada
Muita louça na pia por ser lavada
Muita roupa suja por ser lavada

Na última canção do violão uma nota ficou vaga
Sobrou no ar, perdeu-se no espaço
Quase não se pode escutar o que ela soa

Talvez um branco gelo na parede para encobrir esse encardido
E depois pegar a mochila, sair por aí
Ver o mar ou as montanhas
Andar errante, pro lugar desconhecido
Ou tentar, quem sabe, preencher o espaço vazio de tudo.

Não se cabe em si tanto quanto lhe falta
A lâmpada enfim morre e só sobra escuro
Sobra tanto que se esparrama pelos braços e cabelos
E os cabelos, esses cabelos sujos, sem comportamento

Bate-se uma porta tão forte na casa ao lado
Assusto-me mais com a porta do que com os gritos
Mas tudo bem, mistura-se aos gritos da galera
A galera da rua que grita pra não ser desgraça
Esses gritos de felicidade incauta pra afastar a beleza da cisma social

Gritar é a única coisa que ainda pode-se fazer
Quando não se pode nem falar do próprio nome

Essa mania tola de existência constante
Em que estamos todos em todo lugar
Menos em si mesmo, mesmo aqui.

Não cabe em si e em lugar algum
Nem em parede branca
Por baixo, saberei, estará sempre sujo

No escuro, uma explosão!
Pow, pow pow!
Momentânea, assustadora, fisicamente impossível de ser!
Até que o teto caiu
Abriu um buraco no chão
E saiu um pedaço de nuvem!

Estávamos idiotas demais de felicidade
Pra entender o que aconteceu.

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