segunda-feira, 18 de julho de 2016

A valsa de máscaras de Bethlem Royal

Leve e irrequieta a noite vai chegando
E sei que contigo ela o traz em seu encalço
Um misto de inquietude intensa me desmancha

Tuas garras, mãos delicadas acercam-me fortuitas
Perco-me só, isolada, não sei o que faço
Esgueiro-me furtiva, finjo estar falando, estou quieta.

Fecho os olhos, acalmo-me, sei que estás me olhando
Pego um copo, outro copo, outro copo, outro corpo
Sorrio em nervosismo, morro em silêncio, afundando.

Levanto-me, deito-me, sento-me, levanto-me
Um outro copo, um outro corpo, o coração palpita
O pensamento, túrbito, se escancara enquanto eu quase...

Tu chegas, suave, sorri e não me aguarda
Segura-me nas mãos, eu me levo, indefesa
E quando menos quero, estás em mim

Estás em minha vida, em meu corpo, em minha roupa
Estás em minha cama, estás na minha gente, sem licença
E tudo o que de mim conheço, não dura mais que um beijo

E este beijo, ele é frio, deixa-me a sofrer
E de mim sei, não te preciso, mas estás aqui, um vício
Observa-me enquanto tremo, quero ir morrer.

Essa mancha escura em meu peito, de tormento mudo
Que na vigília extensa me sufoca, me intranquiliza
E sua-me, asfixia-me no leito, não tenho escudo

E você, que condena-me a sandice à tortura
Transparente pessoa por fora, pessoa por dentro
Em explosão ardente no peito, sem candura.

A multidão passa, sou só uma mulher plana
Nada do que está dentro está óbvio
O que parece amor, é mais que uma intensa chama.

Sou só uma mulher, nem de mulheres ou de homens
Terei a atenta vista, sofrendo por isso, incógnita
Calada, disforme, valsa de máscaras, sem nomes.

Dirão, no fim, que foi a causa da mais solúvel.
Tão simples assim, sem profundeza de pensamento.
O complexo se deixa, porque é fácil deixar ao relento.

Terão o verso por superfície, isso não é uma dedicatória
Pois quem souber a quem, diga-me, não entendo,
É claro que enquanto houver, não haverá história.

sábado, 16 de julho de 2016

Vamos falar sobre o feminismo

Vamos falar de feminismo.

Sempre que me perguntam sobre o feminismo, eu digo que não consigo ver coerência em um homem ser feminista. Feminismo é uma luta da mulher, é uma busca pelos direitos igualitários em relação ao homem, dentro de uma sociedade em que homens prevaleceram por séculos. O máximo que posso fazer é dar o meu apoio.

Eu percebo que a minha sociedade brasileira tem uma inteligência social muito limitada no que diz respeito às questões de relação com outros grupos, uma vez que preciso ver oposições falaciosas para desaprovar e injustificar lutas sociais como feminismo (mas e quando a mulher chama o homem de gostoso?) e racismo (se um negro me chamar de boneco de neve, isso não é racismo?). Tal postura é covarde, ignorante e falaciosa. Feminismo e Consciência Negra não existem para contrapor a predominância e tomar o lugar do Machismo e do Racismo, mas sim para acabar com isso de uma vez por todas.

Agora como o machismo é prejudicial até mesmo para os homens? Existem homens peculiares, que tem atitudes e comportamentos que não condizem com o que é esperado de um homem. Por causa da sociedade machista, é esperado do homem um papel que é fisicamente e psicologicamente desgastante, como por exemplo, o de ser o provedor da família, algo que, nos dias atuais, tem se tornado cada vez mais difícil. Existe uma questão de auto estima caso uma mulher passe a ganhar um salário melhor do que o homem. As implicações psicológicas que recaem sobre um homem por causa da predominância machista são tão prejudiciais que nem ele mesmo é capaz de perceber. E como um homem poderia responder a isso? Esse tipo de violência psicológica não fica inerte, como toda interação social, isso também corresponde a algum tipo de reação: adultério, desinteresse em progredir financeiramente, abandono das obrigações familiares, etc, etc. Coisas que o tradicionalismo tende a confundir com honra ou responsabilidade, não passam de uma cobrança constante sobre a cabeça dos homens para manter um papel que é esperado pela sociedade. A luta das feministas é, em primeiro lugar, e principalmente, uma causa em favor das mulheres, mas defendê-lo rompe com um modelo de sociedade que nos torna obsessivos por poder, por sucesso e por conquistas imaginárias impostas por uma sociedade consumista.

Eu também, como um apoiador do feminismo, vejo-me no direito de ser um homem incomum. Não sou menos homem caso uma mulher seja financeiramente mais poderosa do que eu, afinal, cada um sabe das metas que traçam para si.

Viva o feminismo, e que tenhamos mais mulheres poderosas e menos homens com sentimento de ameaça.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Triste História de Dali Salvador

A Triste História de Dali Salvador


Essa é a história de um pintor triste
Vindo de um reino distante, seu nome é Dali Salvador,
É, porque ele ainda existe, e tão triste é sua história
Que a cidade definhou, sem um pingo de memória.
Dali Salvador, pintor artista de mão cheia
Sabia de todas as técnicas da época
Pintor de bons santos e santas ceias.
Paladino da alegria e da ternura
Um relance em um quadro seu
Era uma benção e alegria que perdura.
Mas como toda vida o sossego estranha
para Salvador algo lhe faltou
Uma donzela que não só o seu olhar
Mas seu coração ingênuo roubou
"Oh musas, que tanto me deram" clamou
"Daria tudo por uma última pintura
Mas que pudesse conquistar tamanha candura"
O clamor foi tão sincero e tão honesto
Que um trovão num dia quente ecoou
Assustado, Dali saltou, do momento funesto
"Dali Salvador, nobre criatura" disse a musa
"Estava ali ocupada com meus afazeres eternos
Como não pude escutar sobre a sua perdição
Artista belo do nosso tempo, de puro coração?"
"Oh musa, ouviste minha prece
O que faço com este amor que me apetece?"
"Teu amor é especial, pois tão especial é tua conquista. Levará o teu amor com algo que jamais estivera em sua vista"
"Busque nos confins do reinado, dos galhos de uma floresta encantada, nas profundezas do seu lago, e nas cerdas de um mágico corcel, tudo o que precisas. Dos galhos fará um cabo, da água, uma tinta, e das cerdas, um pincel."
"Desta tinta pintarás sua amada em sua mais bela forma
Ausente de tudo o que é pecado, de tudo que é mal"
Com o coração ardente, Dali Salvador partiu em sua busca
Enfrentou perigos que nunca imaginou. Pra aventura não nasceu, era artista. Mas seu amor era fogo, e diante dos perigos do mundo não feneceu.
Durante 7 dias peregrinou, quando as mãos na lagoa encantada se lavou. Encheu seus frascos e 3 galhos do chão recolheu. O corcel, domado, roubou suas cerdas, e dali pra volta viajou.
Ao longo do trajeto forjou os seus pincéis e sua tinta, e já tinha o coração em brasa. Imaginou-se, par em par, feliz e completo, e dali mais 7 dias, na cidade se encontrou.
Mas algo estava errado, algo era novo, diferente e assustador. Os muros outrora alegres, eram cobertos de musgo e limo. O ambiente alaranjado e sorridio, deu lugar a um ambiente de murmúrios e amargores. "Olá" dizia com preocupação, mas ao fundo só se ouviam uns tambores.
Pois soube que ali se instalou o novo Duque da região. Pretendia em um duelo, provar ao pai de sua donzela a sua mão. Dali Salvador aceitou em silêncio, provar o duelo com sua arte, e entregar a sua amada o seu tesouro.
Passou dias confinado em busca do que já sabia, "mas como dar vida nova à perfeição?" a si mesmo dizia, quando mais uma vez à sua musa ele clamou:
"Oh musa, pela última vez, eu te suplico e te prometo. Dai-me a luz do que preciso, e em troca tudo lhe dou."
"Como bem já esperava, digo-te como pintar sua amada. Mas em troca também desejo ser pintada."
"Tão simples tarefa por tão difícil exigência?"
"As musas pedem pouco por tanta clemência" disse a musa a seu artista.
E com toda a orientação, uma obra prima, em poucas horas, podia ser vista. Era a pureza em tinta e tela, era a beleza em meias pinceladas, tornando quase em vida uma pintura, laçando seus encantos em moldura.
"Agora vamos, pinte-me como combinado"
"Para tamanha exigência, faço de bom grado"
Pobre Salvador que mal sabia o que fazia. Pintou sua esperança e sua tragédia, ambas no mesmo dia.
Carregou Salvador o seu prêmio até sua amada, porém foi tarde. Já estava ela feliz, apaixonada, envolvida e desposada, O Duque de quem tanto se falou, lançou-lhe aos olhos o ouro, prêmio maior e de qualquer outro valor, que aos corações tão ansiosos seduz, não há valor maior num mundo em que pouco reluz.
Não sabia o que sentir o amargurado pintor. Seu ódio e imagens do apocalipse de seu pincel brotou. Sentiu medo da solidão, o que nos deu túmulos, sepulturas, casas de terror e de perdição. Sentiu uma tristeza, pior que a tristeza dos poetas, e o horror deprimido de sua fantasia nos deu essa pintura, a sua última face, diante do que resistia.
Em sua busca, pouco antes de desistir da vida, Dali Salvador pode perceber. Muito pode se fazer enquanto se reveste em ornamentos pueris, mas nenhum deles é capaz de ser manipulado e preso em uma moldura. O coração dos homens não se comanda, nem com encantos, nem com pintura.
Morreu infeliz e só, mas sua própria cara pintada em tela ganhou vida. A musa que pintou em tinta ganhou vida, e a tudo que a cercava, deu a vida, ainda que a vida triste.
Essa cara, eterna expressão de dor, é para que a gente nunca se esqueça dessa história triste. A história triste de Dali Salvador.

Reforma

A lâmpada pisca acima, são seus sinais de sobrevida
Quase não a noto, quase não percebo
Há muito ruído lá fora
Muita responsabilidade que ficou por ser cuidada
Muita louça na pia por ser lavada
Muita roupa suja por ser lavada

Na última canção do violão uma nota ficou vaga
Sobrou no ar, perdeu-se no espaço
Quase não se pode escutar o que ela soa

Talvez um branco gelo na parede para encobrir esse encardido
E depois pegar a mochila, sair por aí
Ver o mar ou as montanhas
Andar errante, pro lugar desconhecido
Ou tentar, quem sabe, preencher o espaço vazio de tudo.

Não se cabe em si tanto quanto lhe falta
A lâmpada enfim morre e só sobra escuro
Sobra tanto que se esparrama pelos braços e cabelos
E os cabelos, esses cabelos sujos, sem comportamento

Bate-se uma porta tão forte na casa ao lado
Assusto-me mais com a porta do que com os gritos
Mas tudo bem, mistura-se aos gritos da galera
A galera da rua que grita pra não ser desgraça
Esses gritos de felicidade incauta pra afastar a beleza da cisma social

Gritar é a única coisa que ainda pode-se fazer
Quando não se pode nem falar do próprio nome

Essa mania tola de existência constante
Em que estamos todos em todo lugar
Menos em si mesmo, mesmo aqui.

Não cabe em si e em lugar algum
Nem em parede branca
Por baixo, saberei, estará sempre sujo

No escuro, uma explosão!
Pow, pow pow!
Momentânea, assustadora, fisicamente impossível de ser!
Até que o teto caiu
Abriu um buraco no chão
E saiu um pedaço de nuvem!

Estávamos idiotas demais de felicidade
Pra entender o que aconteceu.