sábado, 20 de fevereiro de 2016

Astreia

Lembra de quando conheci
E depois de algum tempo
Te conheci

Da primeira vez em que te vi
Como se fosse a primeira vez em que te vi.

Lembra dos dias de calor
Do corpo suado sem se importar
Lembra dos lençóis amarrotados

Lembra de quando tudo era presente
Sem ansiedade, sem preocupação
Lembra da minha mão na sua mão

Lembra da primeira porta que batemos
De quando entre um e entre outro
Havia uma janela aberta

Lembra das noites descobertas
Com o turbilhão no pensamento
Da solidão, do tormento

Lembra da música que dizia tudo
Que era como um casamento

Lembra do ruído incômodo da noite
E de repente o som tornou-se mudo.

Lembra do sorriso da manhã seguinte
Do coração leve e perdoado
Lembra do arrependimento

Lembra quando notamos a primeira falha
Quando a voz causava furor
E quando despertava o amor

Lembra quando quis acordar contigo
E quando quis acordar sozinho
E quando quis acordar comigo
E não quis mais ser meu amigo.

Quando fomos ao parque sorrindo
E retornamos chorando
E quando nos encontramos no meio do caminho
E voltei gynos
E voltou andros

E quando te vi, menina
E quando te vi menina
E quando te vi, mulher
E quando te vi mulher.

Lembra quando surgiu sobre nós
E parou entre a lua e o sol
A luz forte da estrela Libra

Quando dia e noite se misturam
Quando som e silêncio se agarraram
Quando és meio homem, meio mulher
Sem saber como começou, ou como terminou.

Lembra quando a culpa de tudo era minha
Quando a culpa de tudo era sua
Quando a culpa de tudo era nossa.
Quando a culpa não existia.

Quando era Zeus e Têmis
Afrodite
Apolo
Atena

Lembra quando todo poema de amor surgia
Sem que a vida fosse tragédia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Idéia

Efêmera como a respiração
Cristalizamos o nada
E por ele matamos e morremos
Vivendo os mesmos dias de cada vez.

Quando te disseram que eras único
Mentiram para ti
Não és único.

E te disseram que voarias alto
Mas não tens asas
Nunca terás asas.

E quando te disseram
Sigas teu coração
Seguiste, e viste que nada te aconteceu
Pois é só um coração.
É apenas sangue.

E quando sangraste
Disseram: sangra pelo que é sagrado!
Mas tudo o que ficou foi dor e cicatriz.

E tua platéia se foi sem apagar a luz
O lixo ficou no chão para que tu apanhaste.
Dali ninguém te comentou
E ficou aquela emoção tardia de que talvez nada tenha mudado
E não mudou.

Tu não és a natureza que muda sem querer que mude.
Nem o impávido que joga a pedra no mar
E não se importa com o que transborda.

Não é a natureza quando não sentes vontade
Ou ao menos a natureza quando tua vontade
É a vontade dos outros.

E quando te disseram: a vida valeu apena!
A vida não valeu a pena
Foi apenas um breve instante
E a menos que tu deixes uma lápide
Mal serás uma memória.
Serás, tanto mais, pó atrás de pó atrás de pó.

Não serás o molde que forma teu horizonte
Sobrarás o resto de ti
Apenas aquilo que te lembrarão.
Mas não serás o que quer

Amanhã, na porta de tua casa, talvez no auge do meio dia, pode ser que te tragam uma flor.