sábado, 31 de dezembro de 2016

Você

Meu corpo
Não é mais minha cela embaraçada
Obscura e confusa
Confiscando os desejos.

Entra o pasto a rua cidadela
Passo, após, passo,
Andarilho pensante
Seu passo insistente e amante

Minha mente é a minha chave
E desde então nada é estranho
Sem cercas, portões ou células

Borboleta. Laranja. Libélula.
Aquelas coisas que só nós entendemos.

Subi ao patamar de anjo
Ou desceste ao inferno
Ou apenas nos vimos na rua
E nos reconhecemos.

Eu te vejo nesta vida cínica e teimosa
De fechar os olhos para a dor
De deixar-se seduzir pelo mundo
Optar a tudo, e no fim, ser amor.

E que me transforma no melhor que tem de mim
Sem que eu saiba direito quem eu sou.
E que se esconde em mim sem que eu sinta vergonha
De aceitar a vida com tudo o que ela traz

Faça bem ou faça mal, faça.
Não importa com qual pronome se conjugue
Apenas é isso, apenas me abraça.

Tudo fez mais sentido e mais clareza
Quando achei melhor sentir medo,
chorar de tanta tristeza,
perceber que a solidão é o prato principal
Nesta obscura mesa que é o universo
Do amor que trouxe pra mim
Nesta terça-feira de manhã
Em que não sabemos mais
Qual calendário seguiremos
Na hora em que baterem com a pá
Na porta de nossa última cama.

Apenas apenas
Diz que me ama.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Verdades não doem, mal caratismo sim!

Eu só peço licença para ser um idiota quando minha inteligência é insultada. To caminhando pela internet quando num texto que começa com "O difícil de ser feminista, é que de repente a gente percebe que homem dá nojo." Até aí tudo bem. Mas depois de ler e reler e reler, porque eu me dou a esse trabalho até mesmo pelos textos pequenos, eu percebo que o texto não é para abordar uma verdade universal, e sim pra falar das dores de uma mulher mal amada.

"A verdade dói, mas é melhor uma verdade que doa do que uma mentira que oprima."

Não consigo pensar em nada mais senso comum do que essa frase. A verdade doer é a desculpa para os covardes não abraçá-la completamente. A verdade não dói, liberta. O que dói é a distorção da verdade para conquistar objetivos individuais e mesquinhos.

Queria eu que a verdade fosse um deus e pudesse condenar a todos aqueles que fazem uso do seu santo nome em vão apenas para criar uma frase de efeito, um impacto impressionável, uma distorção da realidade.

Essa deusa da verdade pode vir como já disse o profeta lá, enfeitada em pele de cordeiro, mas na verdade ser um lobo. É uma pena porque eu gosto tanto de lobos.

Não existe pior coisa do que usar uma particularidade de sua própria vida e aplicar numa situação para torná-la universal. Essa é a famosa Anedótica, ou talvez a "falácia da experiência pessoal", onde as pessoas admitem que "se aconteceu comigo pode acontecer com todo mundo, então é verdade". Não, não é.

Separar a experiência pessoal do todo e falar sobre isso como sendo algo único é uma coisa, agora universalizar sua experiência negativa para criar um argumento sólido é uma coisa completamente diferente. Em se tratando de relacionamentos amorosos, toda história tem dois lados. Um lado é chamado de feminismo vitimista, enquanto que o outro é apenas o machismo paternalista crápula.

Haja vista que a maioria dos homens que entendem o discurso feminista acabam sendo machistas com culpa de consciência. Então, seguindo a sua mesma lógica anedótica, eu afirmo que nós homens machistas estamos sofrendo os males dessa criação paternal, que não é inteiramente culpa nossa. A contra reação já é por si só algo louvável, e o respeito e posição a favor dos direitos das mulheres, de querer que elas sejam livres para viver e fazer o que quiserem, já nos dá uma vantagem em relação àqueles homens que são machistas porque se sentem ameaçados. De certa forma, acho que por criação, ainda vai se levar muito tempo até que um garoto não seja educado com a consciência de gênero incutida no seu comportamento diário. Só cabe lembrar que existe uma diferença crucial entre a mulher ser feminista e a mulher ser o pior ser humano do mundo com as pessoas, e depois justificar suas atitudes sem ética e nem coerência no feminismo. Isso é que realmente me dá nojo. "Você não pode se queixar de eu ser assim porque eu sou livre, sou mulher, sou feminista". Ah faça-me o favor. Por Maria Deraisme vê se não fode comigo!

No fim das contas, isso só tem alguma utilidade se você realmente faz vez pra que isso te tire o sono. Como eu tenho mais o que fazer, deixa eu usar aqui o meu poder masculino opressor pra que esse discurso fajuto entre por um ouvido e saia pelo outro. De repente eu consigo entender o que Dalberg-Acton disse. E sim, como é ótimo estar absolutamente corrompido às vezes.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Amor da minha Vida

Às vezes te quero tanto como nunca
Como nunca quis nada da vida.
Às vezes te encontro assim, largada
Como refúgio, como sonho
Como ilusão perdida.

Sempre me engana e por isso
Às vezes te odeio
Às vezes choro por ti,
Agarrada em convulsão
Num travesseiro na cama.

Às vezes fico séria,
E quando me perco de ti
Tudo se alastra em drama.

Às vezes te amo
E como te quero
Começo o dia sorrindo
Tudo brilha, tudo é perto
Andar por cima é fácil

Às vezes chove
Essa metáfora dos românticos
Dos realistas e dos modernos
É fresco, é triste, é silêncio, é paz
Às vezes te quero tanto que não te quero mais.

Às vezes sinto vontade de ficar aqui
Agarrada aos joelhos, longe de ti
Às vezes quero apenas o teu conforto
A certeza de que é meu amigo

Tem vezes que me quero só, comigo.

Na maioria dos reveses
Reveze felicidade com tristeza
Isso com aquilo
Controlo-me, controla-me
Vejo o dia como dia
Ou como metáfora
Igreja vira vidro, ou fé
Prédio vira pedra ou moradia
Seu olhar às vezes dura
Mas às vezes fria.

Às vezes tu não sabes do que estou falando
Então só ouve o que quer, e segue sua vida
Às vezes queria ser assim, mais querida
Mais que esse olhar de superfície
Que não sabe do que falo, cria ferida.

E às vezes que eu me deparo com ti
Paro pra te pensar no tanto
Quando às vezes que quis tudo e não podia,
Morria.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Perdendo

Transborda de mim o mundo de minhas costas
Perdi dos meus olhos a minha criança
Cirandando por aí, vejo-a mal, um vulto
Persigo-a, adepta à covarde nostalgia
A nuvem flutuante que de seu canto vem

Dilui-se em alívio, um respiro, o ar
Tão simples, o ar.
A medicina para o pisar no chão

Aquele homem bom, com aquele manto, suas feridas, braços abertos
Não sei mais, até isso repousa na mente

Mas me promete amor?
Felicidades?
Não duvidar de mim?

Bebi, porém, sozinho, da fonte
Extraí o néctar da vida
Não foi por egoísmo
Foi por pura dor.

sábado, 29 de outubro de 2016

A Luz da Montanha

"Eu não vou solucionar a situação de vida dessas crianças, eu não sou governo. Eu adoraria mudar esse bairro, essa situação, mas eu não posso resolver o problema deles sozinho, estou aqui pra contar histórias, levá-los pro mundo de faz de contas e tirá-los um pouco da sua realidade dura" - Professor Jairo

Esta é uma citação que veio após o professor compartilhar um pouco da sua experiência de Contador de Histórias em um projeto Nossa Senhora de Caropita com crianças carentes.

Isso me faz pensar do quanto estamos infelizes com a nossa condição social e tendemos a projetar essa insatisfação no indivíduo, nos esquecendo dos principais culpados, os desgraçados que estão no governo.

Essa divisão ideológica que assola as nossas mentes é o principal alimento desses abutres que nos bicam nas costas quando não estamos percebendo.

Como professor, eu repenso a minha função. Repensar é fácil, o desafio é vivê-la.

Sou professor, não sou a solução. Minha função é, quando muito, mostrar o caminho. É apontar e dizer: "está vendo aquela montanha ali? Vê aquela luz lá no alto? Aquele ponto brilhante, que se move? Depois daquelas copas de árvores? Pois bem, ali está o seu sonho. O caminho é por aqui. Precisará sobreviver, então me escute com atenção. Não, não posso ir contigo. Cada um é dono de uma luz única, e com ela terá o que precisa para fazer o que sente para que veio, sua missão, seu motivo, sua razão de viver, chame como quiser. Eu não posso ir. O que tem ali é para você e apenas para você, não para mim, portanto apenas ouça-me e aprenda como te direi para chegar lá."

De certa forma querem que professores, médicos, policiais, juízes, arquitetos, engenheiros, profissionais em geral, subam na montanha e tragam a luz de cada aluno e as deposite em seus colos. Esta concepção está muito errada. Esta concepção explica muita coisa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Amigos para Sempre: A mentira da geração Coca Cola

Eu não sei nem por onde começar.

Não falo por todos, falo apenas por mim, pela minha experiência, e isso aqui não é uma fórmula ou uma receita de bolo, portanto não me siga, apenas leia, se quiser.

Minha vida foi sempre vítima do idealismo televisivo. Acho que todas as nossas foram. Nosso comportamento foi condicionado, dia após dia, a ser de modo x, isso não é novidade para ninguém. Qualquer pessoa adulta com um mínimo de consciência sabe disso, e também não vejo problema algum nisso. Já vi pessoas com mais de 25 anos que brigam e perdem a cabeça porque o mundo não entra nos trilhos do seu trem individual (eu mesmo já fui um deles, até bem irritante), mas isso é puro narcisismo, escapismo, negação da realidade. A vida é o que é, ponto final.

Você pode me dizer: mas não podemos nos conformar. Esta resposta messiânica de que temos que mudar tudo o que nos incomoda é o que realmente mais me deixa transtornado. Porque honestamente eu gostaria apenas de ser e só. Só ser, simplesmente, sem ter que me sentir culpado que o meu ser esteja desagradando alguém.

Por causa disso eu desesperadamente moldei toda a minha adolescência para se encaixar nos eixos de outrem, em busca de amizade, de parceria, de compreensão. Abri mão de muita coisa para conseguir alcançar esse ideal. Mudei tanto de ideia, de religião, de crença, de descrença, que cheguei a um certo ponto que já não sabia mais quem eu era.

Para muitas pessoas isso vem de forma natural, são excelentes comunicadores, aquela imagem do rapaz que fala apaixonadamente sobre qualquer assunto e consegue torná-lo interessante, enquanto todos em volta escutam e riem. Lá está ele falando de quando comprou Danone mas queria na verdade ter comprado sorvete, e isso se torna mais atraente do que discutir energia geotérmica.

Ou a situação em que eu esteja passando por algum problema pessoal, e de repente surge aquela pessoa que me dá todas as respostas pro que eu preciso pra lidar com aquilo, nem ao menos que seja dizer: você consegue.

Foram muitas as vezes: as novelas, os seriados, os filmes, as músicas. Muita coisa mundo afora trazendo essa mensagem de que a vida sem amigos é uma vida infeliz. Isso é uma tremenda mentira, descobri hoje.

Mas porque ao mesmo tempo não consegui me educar em dizer: acredite em si mesmo?

Cheguei à conclusão de que a infelicidade de não ter amigos é equivalente a infelicidade de tê-los, sem o agravante de que precisamos buscar alguma coisa. É uma lacuna da vida que requer muita energia e disposição, toma muito tempo e no fim das contas, quando uma pessoa simplesmente se vai, traz uma sensação desesperadora de um tempo e investimento de vida que nunca mais terei retorno. Isso não é egoísta demais?

Por que imprimiram nas cabeças da minha geração essa ideia falsa de "amigos para sempre"? Não existe isso e nunca existirá. A pessoa que acredita que terá um amigo para sempre não deve estar colocando o seu tempo nesse mundo em perspectiva. Pessoas seguem em frente, mudam de cidade, mudam de pensamento, mudam de ideia, morrem, e na pior de todas as situações, decepcionam.

Viver sem amigos, de certa forma, não é de todo ruim quando se busca algo para si mesmo. Não quero aqui exprimir uma regra, é só algo que digo a mim mesmo para diminuir minha miséria, porque honestamente, cansei de tentar.

Sim, eu sou inconveniente, me entedio fácil com qualquer assunto, não gosto de falar de coisas mundanas, tenho interesses por coisas diferentes, não me choco ao falar de assuntos que todo mundo considera tabu como sexo, estupro, pedofilia, e pode ir piorando essa lista. Eu não tenho esse recalque moralista e sinceramente me cansa a covardia moral das pessoas em não querer falar de certas coisas, porque eu quero falar sobre elas. É como se eu estiver falando de estupro as pessoas automaticamente começam a pensar que eu concordo com o estupro, ou que eu gosto de estupro, ou que eu estou motivando o estupro, e só isso já demonstra a forma covarde como todo mundo lida com as questões da realidade. Então vamos ao escapismo: amigos para sempre. Eu gosto de assuntos que muita gente considera entediante, e já me cansei de tentar ser desinteressante para que me considerem interessante. 

Ou tem aquela situação em que você tenta fazer amizade com alguém que não te dá abertura, e as conversas não passam de monossílabas, e logo depois de um tempo você passa a se sentir um verdadeiro imbecil que está implorando pela atenção de alguém. Esse jogo social é muito cansativo.

Amizade para sempre. Que patético. Não, não existe. e a partir de hoje eu vou passar a repudiar qualquer pessoa que tente imprimir esse conceito de sempre na minha cabeça. Nada é para sempre no que diz respeito à vida humana, é tudo uma ilusão que criamos porque não queremos aceitar a ideia de que um dia iremos embora daqui e ninguém mais vai se lembrar de nós. Ninguém mesmo. Seremos varridos do planeta e mal teremos vestígios de que um dia aqui habitamos.

Quando começamos a ler sobre ideias incríveis do tipo multiverso, teoria das cordas, matéria escura, percebe-se o quão mundano essa ideia de amigos para sempre se torna. Imprimir todas as nossas perspectivas na crítica alheia é algo que me faz sentir pânico e paranoia ao mesmo tempo.

Durante muito tempo, para se poder ser amigo para sempre de alguém, era necessário estar à disposição de agradá-lo. Não só isso me tornou uma pessoa fraca e covarde como me fez sentir incômodo por qualquer pessoa que aja de forma diferente da que eu espero.

Eu posso naturalmente conhecer uma pessoa e ter tudo o que ela possa me oferecer naquele momento, por sabermos da fragilidade da vida, ali, naquela hora, sem esperar que ela esteja comigo pelo resto da vida. Não há necessidade, é esperar demais de mim, é cobrar demais dela.

Por que eu faria isso? Por que eu submeteria uma pessoa a ser completamente diferente do que ela costumava ser apenas para que ela possa me fazer bem, ou vice-versa? Por que simplesmente não encará-la como uma pessoa que é livre e independente, e deixá-la seguir o que quiser como eu poder seguir o que quiser? Por que a interação entre duas pessoas deve-se dar sempre nesse campo do idealismo?

"Não podemos mais ser amigos porque não acreditamos mais na mesma coisa". Por que não? Seria o mesmo que dizer que uma palmeira não pode dividir o mesmo espaço que uma alga apenas porque elas se desenvolveram de forma completamente diferente.

E é por causa desse narcisismo e egocentrismo moderno estúpido que vemos um crescente de pessoas desesperadas porque não conseguem encontrar alguém que se encaixa com elas, ou não conseguem fazer com que alguém as ame. É cruel demais, simplesmente assim.

Apenas cansei de sofrer por causa desse idealismo, amizade. De forma tão óbvia, e simples, e chega mesmo até me dar raiva do tempo que levei para perceber isso, pensei: se fosse por não ter amigos, pare de querer tê-los. Sua vida ainda pode ser boa assim. E agora sinto um alívio como não sentia em anos.

Uma vez disseram: "se quiser ter amigos, seja um, eles virão". Vejamos então.

domingo, 16 de outubro de 2016

Apoena

Nessa casa que aí passeias
Há anos que habito
E tudo que faço não é por hábito
Só não gosto da casa suja

Querê-la silenciosa
Calma, presente
Sem aquele ardor iludido de ontem
De quando temos todas as respostas

Nessa casa que aí passeias
Há tempos que são só perguntas
Ambiente arejado, fresco, incômodo
Senta aí é só ouve o quanto é difícil

Tem coisa que fica porque ser humano
Como essa vidraça que o olho ofusca
Mas quando foca, limpa.

O que não se sabe é que a fachada é feia
Mas por dentro
Tudo é combustão por culpa
Por ter nascido como é

Mas não há parede que não possa ser derrubada
E feita de novo
Dá-me tempo
Encontrarei as ferramentas certas
Mas não para você

Essa casa que aí passeias
Ela é minha
E há tempos que por hábito
Habito.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Eu posso não ser tão bom com crianças, mas eu sou ótimo com plantas, cachorros, gatos e outros tipos de animais.


Non posso essere buono con i bambini, ma sono eccellente con piante, cani, gatti e altri animali.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Elogio uma anônima passada

Estava vendo um filme pornô um dia desses e me lembrei de você. Eu sei que soa mal educado, mas na minha cabeça isso é bastante lisonjeiro. Eu lembrar de você me desperta meus instintos mais animais, que no fim das contas, é a única coisa em que eu realmente acredito, porque eu posso ver minha própria ereção.

Peônias após a dinastia Han

Enxofre, carvão, nitrato de potássio

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa

O café amarga, azeda, queima
Sem a fumaça do consolo

Largo ali a xícara
Que permanece por uma semana

Porta entreaberta, todos os dias
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Luz vai e volta sozinha
O calor existe, mesmo debaixo da sombra da árvore.

Ouço um choro na caverna
Nesse som que bate no fundo e ressoa.

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa.

Caverna escancarada, todos os dias
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Bebo o café, acabou o café

Largo ali a xícara
Que permanece por um mês

Odeio o lago da calmaria
Quando se tem medo de nadar

Badala o sino anunciando a missa
Perco a missa

Mar aberto, escancarado, agitado, calmo, todos os dias.
Espero alguém chegar
Ninguém chega.

Badala o sino anunciando a missa
Ninguém chega.

Enxofre, carvão, nitrato de potássio.

Pedaços de porcelana ao chão.
Ninguém chega, todos se vão.

domingo, 2 de outubro de 2016

Soma numa conversa com Aldous Huxley

Na festa em que todo mundo vai,
Permanecer
É a melhor forma de protesto

Célebre como ponto radiante
Irradia tudo
De luz fresca ao negro véu cortante

O que importa é o que importa
O que não vale é o que não vale
O que não quer, joga-se fora
Nenhum resto é fora de moda

Pedintes de vida também precisam de vida.

Não há nada mais irresistível do que um pedinte onde tudo sobra
Do que um choro convulsivo onde tudo é sombra
Da verdade onde tudo é cobra.

Nesta era em que o sorrir é quase uma tortura
Chorar pelo direito ao mal-estar
Parece ser a única forma de cura

Naquela hora em que é quase obrigatório o riso do palhaço
Fazer o caos sem explicação é o maior alívio
Da covardia senil, falsa, em estardalhaço.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Internet aproxima as pessoas? Ou um desabafo de uma pessoa que não aguenta mais de tanta solidão.

Eu sou um grande crítico de iniciar postagens com interrogações, porque isso passa a impressão de que eu não tenho certeza do que estou dizendo, mas para o caso a seguir, isso faz jus ao que eu quero dizer.

Não tem jeito, mas nós, jovens dos anos 80 e 90, que passamos boa parte de nossas vidas sem ter noção de que era possível um futuro em que as relações humanas interagiriam por intermédio de computadores, é difícil ainda aceitar um fato: vivemos a era online e isso não vai deixar de ser parte do cotidiano humano tão cedo.

E por anos a fio eu tenho escutado a premissa do porquê a internet é algo positivo para nós: ela aproxima as pessoas. Mais especificamente, as redes sociais, e-mails, canais de streaming, tudo nos dá a ilusão de que o nosso amigo que mora em outro continente está logo ali do nosso lado.

Agora vamos falar um pouco sobre o que é estar perto.

Estar perto no que diz respeito a termos acessos a fotografias selecionadas ou pensamentos recortados de um dia a dia entediante de nossos contatos? Ou quando temos a vantagem de estar em contato com gente de outras partes do nosso círculo social?

Mas o que eu ando percebendo é que isso é só mais uma das grandes mentiras que contamos a nós mesmos para não encararmos a realidade de que estamos vivendo uma realidade de merda. Não há como ter um diálogo rico e inventivo através de um site, uma vez que por mais disposto que se pareça, existe uma preguiça muito grande em se desenvolver uma conversa, a menos que haja um interesse muito intenso por trás dela, afim de que todas as conversas não passem de diálogos pobres e monossilábicos. As pessoas tornam-se fortalezas inacessíveis em que o máximo que conseguimos delas é o que elas estão fazendo naquele momento. Essa proximidade é falsa.

Como se não bastasse, combinando de encontrar essa pessoa, e vivê-la em caráter tempo real, não conseguimos extrair dela nada mais do que impressões superficiais do momento presente. Não se sabe mais a data de aniversário, a cor preferida, o nome dos pais e dos irmãos, essas coisas.

Eu venho sentindo esse incômodo de tentar me aproximar de pessoas inaproximáveis, que se fecham em suas preguiças de tentar mostrar um pouco mais de si mesmas. É triste, é a plastificação das relações humanas. Ou de repente é a mais pura hipocrisia e falsidade que permeia a vida adulta, que para mim não passa de um jogo de egos obceno e hostil.

sábado, 10 de setembro de 2016

Dez de Setembro

Amarelo
Porém preto constante

Trem em movimento
Ponte elevada
Cicuta
Som de disparo

Tanta gente querendo
E você sem querer

Mas sem querer eu não quis
Enquanto quis
Ninguém queria

Engraçadas estas coisas

Ninguém aplaude quando a moça dança
Ninguém se cala quando a moça sofre
Ninguém ajuda quando a moça morre

Num Domingo qualquer
A missa do sétimo dia vai ser
Mas vai ser pra expiar os erros

Enquanto isso, enquanto quer
A gente namora na praça
Ninguém se lembra mais

Amanhã nasce um outro sol
Que será o mesmo em nome do Pai.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Meu caso com Anna O.

Hoje, nesta tarde fria e nublada
Estarei te esperando, de coração,
Levando-te para todos os vazios
Pelas quais minha mente passeia

Depois da meia noite
Estarei só, ainda aguardando
Antes de que a gota caia surda
Deixa-me saber que tentou.

Leve-me daqui até onde der
Infinito, belo ou impossível
Faça-me apenas sentir livre
Enquanto olho pro inalcançável horizonte.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

A valsa de máscaras de Bethlem Royal

Leve e irrequieta a noite vai chegando
E sei que contigo ela o traz em seu encalço
Um misto de inquietude intensa me desmancha

Tuas garras, mãos delicadas acercam-me fortuitas
Perco-me só, isolada, não sei o que faço
Esgueiro-me furtiva, finjo estar falando, estou quieta.

Fecho os olhos, acalmo-me, sei que estás me olhando
Pego um copo, outro copo, outro copo, outro corpo
Sorrio em nervosismo, morro em silêncio, afundando.

Levanto-me, deito-me, sento-me, levanto-me
Um outro copo, um outro corpo, o coração palpita
O pensamento, túrbito, se escancara enquanto eu quase...

Tu chegas, suave, sorri e não me aguarda
Segura-me nas mãos, eu me levo, indefesa
E quando menos quero, estás em mim

Estás em minha vida, em meu corpo, em minha roupa
Estás em minha cama, estás na minha gente, sem licença
E tudo o que de mim conheço, não dura mais que um beijo

E este beijo, ele é frio, deixa-me a sofrer
E de mim sei, não te preciso, mas estás aqui, um vício
Observa-me enquanto tremo, quero ir morrer.

Essa mancha escura em meu peito, de tormento mudo
Que na vigília extensa me sufoca, me intranquiliza
E sua-me, asfixia-me no leito, não tenho escudo

E você, que condena-me a sandice à tortura
Transparente pessoa por fora, pessoa por dentro
Em explosão ardente no peito, sem candura.

A multidão passa, sou só uma mulher plana
Nada do que está dentro está óbvio
O que parece amor, é mais que uma intensa chama.

Sou só uma mulher, nem de mulheres ou de homens
Terei a atenta vista, sofrendo por isso, incógnita
Calada, disforme, valsa de máscaras, sem nomes.

Dirão, no fim, que foi a causa da mais solúvel.
Tão simples assim, sem profundeza de pensamento.
O complexo se deixa, porque é fácil deixar ao relento.

Terão o verso por superfície, isso não é uma dedicatória
Pois quem souber a quem, diga-me, não entendo,
É claro que enquanto houver, não haverá história.

sábado, 16 de julho de 2016

Vamos falar sobre o feminismo

Vamos falar de feminismo.

Sempre que me perguntam sobre o feminismo, eu digo que não consigo ver coerência em um homem ser feminista. Feminismo é uma luta da mulher, é uma busca pelos direitos igualitários em relação ao homem, dentro de uma sociedade em que homens prevaleceram por séculos. O máximo que posso fazer é dar o meu apoio.

Eu percebo que a minha sociedade brasileira tem uma inteligência social muito limitada no que diz respeito às questões de relação com outros grupos, uma vez que preciso ver oposições falaciosas para desaprovar e injustificar lutas sociais como feminismo (mas e quando a mulher chama o homem de gostoso?) e racismo (se um negro me chamar de boneco de neve, isso não é racismo?). Tal postura é covarde, ignorante e falaciosa. Feminismo e Consciência Negra não existem para contrapor a predominância e tomar o lugar do Machismo e do Racismo, mas sim para acabar com isso de uma vez por todas.

Agora como o machismo é prejudicial até mesmo para os homens? Existem homens peculiares, que tem atitudes e comportamentos que não condizem com o que é esperado de um homem. Por causa da sociedade machista, é esperado do homem um papel que é fisicamente e psicologicamente desgastante, como por exemplo, o de ser o provedor da família, algo que, nos dias atuais, tem se tornado cada vez mais difícil. Existe uma questão de auto estima caso uma mulher passe a ganhar um salário melhor do que o homem. As implicações psicológicas que recaem sobre um homem por causa da predominância machista são tão prejudiciais que nem ele mesmo é capaz de perceber. E como um homem poderia responder a isso? Esse tipo de violência psicológica não fica inerte, como toda interação social, isso também corresponde a algum tipo de reação: adultério, desinteresse em progredir financeiramente, abandono das obrigações familiares, etc, etc. Coisas que o tradicionalismo tende a confundir com honra ou responsabilidade, não passam de uma cobrança constante sobre a cabeça dos homens para manter um papel que é esperado pela sociedade. A luta das feministas é, em primeiro lugar, e principalmente, uma causa em favor das mulheres, mas defendê-lo rompe com um modelo de sociedade que nos torna obsessivos por poder, por sucesso e por conquistas imaginárias impostas por uma sociedade consumista.

Eu também, como um apoiador do feminismo, vejo-me no direito de ser um homem incomum. Não sou menos homem caso uma mulher seja financeiramente mais poderosa do que eu, afinal, cada um sabe das metas que traçam para si.

Viva o feminismo, e que tenhamos mais mulheres poderosas e menos homens com sentimento de ameaça.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Triste História de Dali Salvador

A Triste História de Dali Salvador


Essa é a história de um pintor triste
Vindo de um reino distante, seu nome é Dali Salvador,
É, porque ele ainda existe, e tão triste é sua história
Que a cidade definhou, sem um pingo de memória.
Dali Salvador, pintor artista de mão cheia
Sabia de todas as técnicas da época
Pintor de bons santos e santas ceias.
Paladino da alegria e da ternura
Um relance em um quadro seu
Era uma benção e alegria que perdura.
Mas como toda vida o sossego estranha
para Salvador algo lhe faltou
Uma donzela que não só o seu olhar
Mas seu coração ingênuo roubou
"Oh musas, que tanto me deram" clamou
"Daria tudo por uma última pintura
Mas que pudesse conquistar tamanha candura"
O clamor foi tão sincero e tão honesto
Que um trovão num dia quente ecoou
Assustado, Dali saltou, do momento funesto
"Dali Salvador, nobre criatura" disse a musa
"Estava ali ocupada com meus afazeres eternos
Como não pude escutar sobre a sua perdição
Artista belo do nosso tempo, de puro coração?"
"Oh musa, ouviste minha prece
O que faço com este amor que me apetece?"
"Teu amor é especial, pois tão especial é tua conquista. Levará o teu amor com algo que jamais estivera em sua vista"
"Busque nos confins do reinado, dos galhos de uma floresta encantada, nas profundezas do seu lago, e nas cerdas de um mágico corcel, tudo o que precisas. Dos galhos fará um cabo, da água, uma tinta, e das cerdas, um pincel."
"Desta tinta pintarás sua amada em sua mais bela forma
Ausente de tudo o que é pecado, de tudo que é mal"
Com o coração ardente, Dali Salvador partiu em sua busca
Enfrentou perigos que nunca imaginou. Pra aventura não nasceu, era artista. Mas seu amor era fogo, e diante dos perigos do mundo não feneceu.
Durante 7 dias peregrinou, quando as mãos na lagoa encantada se lavou. Encheu seus frascos e 3 galhos do chão recolheu. O corcel, domado, roubou suas cerdas, e dali pra volta viajou.
Ao longo do trajeto forjou os seus pincéis e sua tinta, e já tinha o coração em brasa. Imaginou-se, par em par, feliz e completo, e dali mais 7 dias, na cidade se encontrou.
Mas algo estava errado, algo era novo, diferente e assustador. Os muros outrora alegres, eram cobertos de musgo e limo. O ambiente alaranjado e sorridio, deu lugar a um ambiente de murmúrios e amargores. "Olá" dizia com preocupação, mas ao fundo só se ouviam uns tambores.
Pois soube que ali se instalou o novo Duque da região. Pretendia em um duelo, provar ao pai de sua donzela a sua mão. Dali Salvador aceitou em silêncio, provar o duelo com sua arte, e entregar a sua amada o seu tesouro.
Passou dias confinado em busca do que já sabia, "mas como dar vida nova à perfeição?" a si mesmo dizia, quando mais uma vez à sua musa ele clamou:
"Oh musa, pela última vez, eu te suplico e te prometo. Dai-me a luz do que preciso, e em troca tudo lhe dou."
"Como bem já esperava, digo-te como pintar sua amada. Mas em troca também desejo ser pintada."
"Tão simples tarefa por tão difícil exigência?"
"As musas pedem pouco por tanta clemência" disse a musa a seu artista.
E com toda a orientação, uma obra prima, em poucas horas, podia ser vista. Era a pureza em tinta e tela, era a beleza em meias pinceladas, tornando quase em vida uma pintura, laçando seus encantos em moldura.
"Agora vamos, pinte-me como combinado"
"Para tamanha exigência, faço de bom grado"
Pobre Salvador que mal sabia o que fazia. Pintou sua esperança e sua tragédia, ambas no mesmo dia.
Carregou Salvador o seu prêmio até sua amada, porém foi tarde. Já estava ela feliz, apaixonada, envolvida e desposada, O Duque de quem tanto se falou, lançou-lhe aos olhos o ouro, prêmio maior e de qualquer outro valor, que aos corações tão ansiosos seduz, não há valor maior num mundo em que pouco reluz.
Não sabia o que sentir o amargurado pintor. Seu ódio e imagens do apocalipse de seu pincel brotou. Sentiu medo da solidão, o que nos deu túmulos, sepulturas, casas de terror e de perdição. Sentiu uma tristeza, pior que a tristeza dos poetas, e o horror deprimido de sua fantasia nos deu essa pintura, a sua última face, diante do que resistia.
Em sua busca, pouco antes de desistir da vida, Dali Salvador pode perceber. Muito pode se fazer enquanto se reveste em ornamentos pueris, mas nenhum deles é capaz de ser manipulado e preso em uma moldura. O coração dos homens não se comanda, nem com encantos, nem com pintura.
Morreu infeliz e só, mas sua própria cara pintada em tela ganhou vida. A musa que pintou em tinta ganhou vida, e a tudo que a cercava, deu a vida, ainda que a vida triste.
Essa cara, eterna expressão de dor, é para que a gente nunca se esqueça dessa história triste. A história triste de Dali Salvador.

Reforma

A lâmpada pisca acima, são seus sinais de sobrevida
Quase não a noto, quase não percebo
Há muito ruído lá fora
Muita responsabilidade que ficou por ser cuidada
Muita louça na pia por ser lavada
Muita roupa suja por ser lavada

Na última canção do violão uma nota ficou vaga
Sobrou no ar, perdeu-se no espaço
Quase não se pode escutar o que ela soa

Talvez um branco gelo na parede para encobrir esse encardido
E depois pegar a mochila, sair por aí
Ver o mar ou as montanhas
Andar errante, pro lugar desconhecido
Ou tentar, quem sabe, preencher o espaço vazio de tudo.

Não se cabe em si tanto quanto lhe falta
A lâmpada enfim morre e só sobra escuro
Sobra tanto que se esparrama pelos braços e cabelos
E os cabelos, esses cabelos sujos, sem comportamento

Bate-se uma porta tão forte na casa ao lado
Assusto-me mais com a porta do que com os gritos
Mas tudo bem, mistura-se aos gritos da galera
A galera da rua que grita pra não ser desgraça
Esses gritos de felicidade incauta pra afastar a beleza da cisma social

Gritar é a única coisa que ainda pode-se fazer
Quando não se pode nem falar do próprio nome

Essa mania tola de existência constante
Em que estamos todos em todo lugar
Menos em si mesmo, mesmo aqui.

Não cabe em si e em lugar algum
Nem em parede branca
Por baixo, saberei, estará sempre sujo

No escuro, uma explosão!
Pow, pow pow!
Momentânea, assustadora, fisicamente impossível de ser!
Até que o teto caiu
Abriu um buraco no chão
E saiu um pedaço de nuvem!

Estávamos idiotas demais de felicidade
Pra entender o que aconteceu.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Vaso

Este alvo trabalho em lama branca
E um sopro de Deus que deste vida
Deste vida e nada mais
Podias ser 
um vaso 
de jardins ornamentais
Mas és oco, e só.
Posto indiferente em um 
corredor
pouco 
circulado
Quantas vezes passarão 
por ti
Para verem que és 
um 
Vaso quebrado?



quinta-feira, 17 de março de 2016

Carta Aberta a um certo Professor Japonês Indignado

Eu sou filho de nordestinos, paulista, mas me considero mais nordestino do que paulista, e é graças ao nosso jornalismo fajuto, que há mais de 14 anos envenena a cabeça dos seus cidadãos, parece que a minha descendência anda vindo com um certo falso DNA: sou petista, sou vagabundo, uso bolsa-família, roubamos o emprego de algum paulista aí.

Não sou nada disso. Eu não sou um estereótipo. Você é de humanas, não deveria se basear em estereótipos, pelo contrário, sua licenciatura tão sofrida deveria ter te ensinado a ser um investigador incansável, e saber analisar caso a caso. Julgar as pessoas por um DNA pré-estabelecido é o que fazem os números, e isso apenas para o levantamento da estatística. Até mesmo uma pesquisa vox populi carrega mais humanidade do que essa verborragia grotesca e sórdida.

Pois bem, a você que enche a boca para falar numa sala de aula, cheia de adolescentes em formação, todas as ilusões que você acredita serem verdades, que não passam de um alívio imediato de uma indignação que sequer você mesmo entende, aqui vão algumas palavras: eu sou sempre a favor da rebeldia e indignação com o mundo. Sou um anti-conformista, um anti-moralista por assim dizer. Mas esse sou eu, e como professor, cabe a mim mesmo me policiar da minha conduta, da minha postura e das minhas opiniões. A minha palavra cai de forma desfavorável num ambiente cujo sistema mede tudo pela dicotomia do certo e o errado. Não é à toa que temos um dos piores sistemas educacionais do mundo, e você está contribuindo para isso com a sua estagnação intelectual.

Existem documentos e leis que me previnem de ser um doutrinador em sala de aula, e até mesmo existe um código de ética. É uma relação completamente vertical, pois apenas quem tem a palavra, o professor, tem o direito de expressar a sua opinião. Qualquer opinião contrária é vista como errada, por mais que certa. Existem muitos profissionais colegas que se aproveitam dessa posição de vantagem para fazer uso de discursos totalmente tortos e descabidos, passando por cima das crenças e experiências individuais de qualquer aluno, subjugando-os de forma petulante a falas totalmente desconexas do foco educativo. Não estamos em sala de aula para ditar o que eles já sabem, que é a formação de uma opinião pessoal e crítica.

Isso é a típica atitude de um imbecil que perdeu completamente a linha e a noção do que está fazendo em sala de aula. Não, você não usa a sua sala de aula para doutrinar seus alunos e impor, como o pior dos ditadores da palavra, que a sua verdade é a verdade universal. É simplesmente covarde e de baixo nível. E não, você não destila preconceitos sem logo, mais tarde, exigir seu direito de opinião ou benefício. Por que demonstrar tanto ódio pessoal por pessoas que estão ali por uma mera relação profissional, e que serão passageiros? Portanto, eu repudio você, e da mesma forma que você pede que a presidência atual seja impedida, eu espero que a sua licenciatura também, pois a meu ver, não existe nada mais corrupto do que mentir para mentes em amadurecimento apenas pra satisfazer a sua sede por verdade.

Nós vivemos em um país desigual, não importa o quanto você tente negar isso pra não lidar com a dureza dessa realidade, nós vivemos em um país desigual, ponto final. As pessoas estão em um lugar por um motivo, a sua postura estúpida e nauseante deveria estar em outro lugar, onde as mentiras podem correr soltas sem sofrer o prejuízo do julgamento, ou melhor, sofrendo mesmo sob um medo invisível, como em uma Igreja por exemplo.

Mas como colega também, imagino que ao longo de suas aulas exista a atitude de uma formação crítica de seus indivíduos, e isso me dá a esperança, pois é essa a formação que os dará a liberdade de te considerar uma idiota.

PS> Existem idiotas em todos os lugares, inclusive no Japão.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Astreia

Lembra de quando conheci
E depois de algum tempo
Te conheci

Da primeira vez em que te vi
Como se fosse a primeira vez em que te vi.

Lembra dos dias de calor
Do corpo suado sem se importar
Lembra dos lençóis amarrotados

Lembra de quando tudo era presente
Sem ansiedade, sem preocupação
Lembra da minha mão na sua mão

Lembra da primeira porta que batemos
De quando entre um e entre outro
Havia uma janela aberta

Lembra das noites descobertas
Com o turbilhão no pensamento
Da solidão, do tormento

Lembra da música que dizia tudo
Que era como um casamento

Lembra do ruído incômodo da noite
E de repente o som tornou-se mudo.

Lembra do sorriso da manhã seguinte
Do coração leve e perdoado
Lembra do arrependimento

Lembra quando notamos a primeira falha
Quando a voz causava furor
E quando despertava o amor

Lembra quando quis acordar contigo
E quando quis acordar sozinho
E quando quis acordar comigo
E não quis mais ser meu amigo.

Quando fomos ao parque sorrindo
E retornamos chorando
E quando nos encontramos no meio do caminho
E voltei gynos
E voltou andros

E quando te vi, menina
E quando te vi menina
E quando te vi, mulher
E quando te vi mulher.

Lembra quando surgiu sobre nós
E parou entre a lua e o sol
A luz forte da estrela Libra

Quando dia e noite se misturam
Quando som e silêncio se agarraram
Quando és meio homem, meio mulher
Sem saber como começou, ou como terminou.

Lembra quando a culpa de tudo era minha
Quando a culpa de tudo era sua
Quando a culpa de tudo era nossa.
Quando a culpa não existia.

Quando era Zeus e Têmis
Afrodite
Apolo
Atena

Lembra quando todo poema de amor surgia
Sem que a vida fosse tragédia.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Idéia

Efêmera como a respiração
Cristalizamos o nada
E por ele matamos e morremos
Vivendo os mesmos dias de cada vez.

Quando te disseram que eras único
Mentiram para ti
Não és único.

E te disseram que voarias alto
Mas não tens asas
Nunca terás asas.

E quando te disseram
Sigas teu coração
Seguiste, e viste que nada te aconteceu
Pois é só um coração.
É apenas sangue.

E quando sangraste
Disseram: sangra pelo que é sagrado!
Mas tudo o que ficou foi dor e cicatriz.

E tua platéia se foi sem apagar a luz
O lixo ficou no chão para que tu apanhaste.
Dali ninguém te comentou
E ficou aquela emoção tardia de que talvez nada tenha mudado
E não mudou.

Tu não és a natureza que muda sem querer que mude.
Nem o impávido que joga a pedra no mar
E não se importa com o que transborda.

Não é a natureza quando não sentes vontade
Ou ao menos a natureza quando tua vontade
É a vontade dos outros.

E quando te disseram: a vida valeu apena!
A vida não valeu a pena
Foi apenas um breve instante
E a menos que tu deixes uma lápide
Mal serás uma memória.
Serás, tanto mais, pó atrás de pó atrás de pó.

Não serás o molde que forma teu horizonte
Sobrarás o resto de ti
Apenas aquilo que te lembrarão.
Mas não serás o que quer

Amanhã, na porta de tua casa, talvez no auge do meio dia, pode ser que te tragam uma flor.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Das justiças desse magnânimo mundo!

Enquanto uns nascem para advogar, outros se prestam a dar palestras ruins. Por alguma razão que a dicotomia não explica, ambos podem coexistir.