quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

De Humano pra Humano

Sou egocêntrico, narcisista, niilista, e recentemente me descobri perplexamente individualista e indiferente. Não consigo sentir todas estas coisas sem aquele misto de culpa e liberdade, aquela sensação fresca na alma de que você não precisa responder a nada, ao mesmo tempo em que você se vê como ser inserido em sociedade e por causa disso responsável por tudo o que o cerca. Bem, essa é a condição de ser humano em um tempo em que estamos quase à beira da extinção de tudo.

Nossa tradição está totalmente corrompida e talvez seja essa a maior de todas as crises que eu e todos os humanos estejamos vivendo, porque não sabemos pra onde seguir. Estávamos errados até pouco tempo atrás e agora estamos em busca de um desesperado motivo pra viver.

Minhas palavras são só um fluxo de pensamento e não precisam estar coerentes ou conectadas, mas eu tenho educação amigo, então eu justifico dessa forma.

Hoje cedo estava conversando com uma amiga sobre uma brincadeira de rede social, em que vocÊ fazia um teste pra saber qual tipo de criminoso nós seríamos. No resultado ela acabou sendo uma assassina se não me lembro, e aí eu comecei a dizer que vejo algum charme no ladrão que usa nada mais que a inteligência pra conseguir o que quer, sem deixar prejuízos às pessoas, afetando só quem sequer se sentiria afetado com uma investida. Mas um pensamento levou ao outro e eu soltei uma conclusão de bate papo: a criminilidade é mais uma das facetas que pode nos mostrar como o nosso sistema de sociedade (desapegue-se de ideologias aqui por favor) é genialmente arquitetado pra nos controlar e nos manter presos a esse rebanho repulsivo em que vivemos. O ponto de partida foi quando eu me perguntei porque as pessoas, mesmo as mais corruptas e mentirosas, sentem tanto ódio da criminalidade, até mesmo quando elas fazem parte disso?

Minhas palavras num Natal de pouco significado soam pesadas e indiferentes, mas eu só tive um ano muito difícil em que eu senti minha alma sendo arrancada de mim à força, e que eu vi meus ideais, que já eram frágeis, sendo atiradas na privada e levadas descarga abaixo pra qualquer esgoto em que resida outras das minhas ideias, esperanças ou fé. Hoje sou um homem que vivo apenas o agora, e não, isso não é um pensamento otimista.

O sistema.

Eu quis dizer exatamente como somos educados desde cedo para sermos obedientes e comportados, como estamos agarrados a uma definição tão frágil do ideal de um cidadão de bem, trabalhador e batalhador. E esse imaginário é tão forte e tão presente nas conversas cotidianas que a gente mal percebe depois, à noite, os motivos que fazem com que a gente se sinta um lixo por sermos o que somos exatamente.

Seguimos obecadamente esse ideal, seja lá quem o tenha imprimido na nossa mente, e morremos por ele, desfazemos amizades por ele. Eu tenho só 29 anos, mas desde sempre eu soube que nunca nessa vida nós teremos alguém olhando para nós com orgulho e satisfação dizendo que fizemos a coisa certa. Desperdiçar uma vida inteira em busca de um momento que duraria o quê? Cinco minutos? E cinco minutos num entreolhar tímido, às vezes vindo da pessoa mais inesperada, e não daquela que você gostaria, e ela vai sequer olhar nos seus olhos, ela vai olhar pro chão, ou para as próprias mãos, ou pra qualquer objeto em que ela possa se concentrar pra não transparecer o constrangimento de ser um pouco mais humano e digno de reconhecer algum esforço que para ela na verdade não faz o menor sentido e não tem o menor significado.

Mas e o sistema? Digo-lhes o sistema.

Você é proibido de ser inescrupuloso, invejoso, de sentir raiva, de sentir ódio por quem te faz mal, de ficar triste e querer se atirar na depressão. Você é proibido de ter pensamentos maldosos e impróprios, você é proibido de descarregar sua raiva momentânea num estereótipo, porque estamos presos também à ilusão de que a sua fala pode influenciar o comportamente coletivo, mas isso é apenas mania de grandeza, porque o que você diz não tem o menor significado na maioria das vezes, e na maioria das vezes as pessoas estão mais centradas em si do que prestando atenção ao que você está dizendo. E você é proibido de buscar o que você quer não importam quais sejam as consequências. Mas você sendo um ser de uma casta tão irrisória da sociedade, um ser que se desespera pra ser notado a todo custo, porque ser obediente afinal?

A subida ao poder, a história nos ensina, ela não é honesta. A busca pelo poder te leva a ser mesquinho, egoísta, sujo, baixo, antiético, imoral, indigno, traiçoeiro, não necessariamente ao mesmo tempo, e não necessariamente constantemente, mas é, e isso é verdade, e você sabe disso.

Sua primeira reação seria negar veemente a imagem de si mesmo agindo de uma forma que você repudia pra transparecer a sua imagem, aquela imagem mentirosa que foi impregnada na sua cabeça desde criança. Mas a verdade você sabe, mas não precisa admitir a ninguém, que em algum momento na vida você fez uma ou duas coisas pra conseguir o que quer, e usou do pior lado que o ser humano pode ter. Você sabe que já fez mal a alguém e que já fez muita gente chorar intencionadamente pra alcançar aquilo que você quer. E você vai ser julgado e derrubado por isso, e vai ser apedrejado e crucificado, e vai ser mal falado, e as pessoas virarão as costas pra você, mesmo as pessoas que também cometeram seus deslizes imorais ao longo da vida, e você vai se sentir um lixo de ser humano de novo.

Mas tem a Igreja. Ah, a Igreja. Não existe artifício melhor pra que você se sinta absolutamente escravizado mentalmente em falsas ideias do que um grupo aspirado por religião. Porque se a lei do sistema não funciona pra te por nos trilhos, funcionará a lei divina, a lei do ser que vai te castigar e te jogar no fogo do inferno quando você não for um bom cidadão, um ser humano digno e comportado.

Afinal de contas qual o meu objetivo com isso?

Diversidade cultural é a mentira do século. Fala-se tanto disso mas é apenas discurso de politcamente correto, de intelectualmente alinhado. Ninguém aceita ou acata a diversidade cultural, o máximo que você faz em si mesmo é um auto policiamento de todas as suas opiniões, é uma opressão individual em si mesmo na hora de expressar o que você realmente pensa sobre as coisas.

Essa sociedade nunca me doeu tanto. Exatemente, eu falo assim mesmo, como se eu estivesse de cima de um pódio, de um pedestal, isento de tudo, acima de tudo, porque eu me calo por tanto tempo, eu fico sem voz, sem ação, sem nada, diante de tanta barbaridade e de tanta crueldade que é exibida como espetáculo diário nas TVs e hoje em dia na Internet. Eu fico tão horrorizado com tanta coisa fútil e tanta coisa superficial e passageira que é mais valorizada que as coisas mais básicas de que nós precisamos, e nunca precisamos com tanta urgência: um pouco mais de amor e menos julgamento.

Porque o seu julgamento está preso a valores falsos, fabricados unicamente pra que você prossiga nessa vida consumista idiota que você leva. O seu julgamento está tão arraigado em mentiras, e te corrompe tão profundamente, que você mataria ou morreria pra que ele fosse dado como verdade, e você sequer percebe, de tão afundado em lixo e merda que está.

Eu vejo pessoas morrendo e matando, físicamente e verbalmente, só pra valer uma opinião vazia e distorcida de uma causa que você sequer luta. Os homens e mulheres de verdade estão acabando cada dia mais.

Eu sinto tanto repúdio dessa vida de rede social onde você sorri pra tirar uma foto que fique bem, que fique estilosa, que fique instantaneamente impressionável, mas você sabe aí dentro, onde ninguém atinge, mas que está por baixo até mesmo do seu mais profundo orgulho, você sabe que existe uma camada em si, que em algum momento do seu dia te diz: a sua vida é um lixo. E você é mesmo isso, um lixo de ser humano, que vive como um parasita consumista sem se importar com nada além de si mesmo, destilando verborragia nauseante pra aparentar a imagem de alguém que se importa com as coisas, mas que no fim das contas não se importa com nada além do seu ideal de mundo melhor.

A minha solução pra conviver com essa nova revelação de mim mesmo foi simplesmente não buscar ideal. Abandonar as expectativas dos outros e seguir o meu próprio caminho. As pessoas não vão entender, elas vão achar que você está se perdendo ou que está à beira de um precipício emocional, o que poderá te levar à autodestruição, ou talvez suicídio. Mas isso é só um desapego violento de tudo e de todos, porque no fim das contas, quando você estiver no seu caixão, seja com 30 ou 60 anos, não importa o que você tenha feito, a imagem final que as pessoas terão de você não será a que você idealizou de si mesmo. A sua última lembrança estará totalmente fora do seu controle e você será lembrado de uma forma que talvez nem concorde. Ou quem sabe até algo mais maravilhoso que isso: você talvez sequer seja lembrado.

Parece inacreditável, mas mesmo após os 30, até mesmo após a adolescência, eu não sei o que houve no nosso tempo, mas eu ainda vejo pessoas que estão desesperadamente tentando se provar, e elas destróem a sua saúde em função disso. Vindo de não sei qual corrente de pensamento eu digo, seja você mesmo. As suas falhas já estão perdoadas por si mesmo e você não tem que provar nada a ninguém.

Liberte-se dessa sujeira mental que imprimiram na sua cabeça de que você precisa alcançar alguma coisa pra se sentir bem consigo mesmo. Tudo o que você precisa é de água, um pouco de comida, um lugar seguro e confortável pra passar a noite e de ar. E é claro, um pouco de amor por si próprio. Todo o resto são coisas que as pessoas te cobram porque elas tem medo demais pra perseguir sozinhas, ou medo demais de admitir sozinhas que também são incapazes e cometem falhas.

Nenhum comentário: