quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Freya

Eis um corpo semi vivo esparramado na cama
Ou uma cama sustentando um corpo semi vivo

Da preguiça suprema até o desejo sombrio de apagar a luz
Quanto tempo leva não se sabe

E é a dúvida,
a dúvida do que se entra lá ou cá...
Então se deixa embalar nessa brisa fria
Do sono cansado dos convalescidos.

A nuvem é só nuvem
A flor é só flor
O chão é só chão
E o céu é só céu

Todo o resto fica preso no sono

E é a dúvida
Para a decepção dos desesperados
Que se espera.

E é só espera
E só se espera por ela chegar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Glassworks

Se flutuasse uma pedra
Nessa água imensa
Como as coisas se diriam?

Se cortasse a árvore
Com tronco, galho e tudo
Mas ela não caísse
Como explicaria?

Se o vento que ventasse furioso
Não movesse nada
Ou se todas as coisas na verdade
É que movessem o vento?

E se o gosto de tudo
Fosse do gosto do nada?

E se a interrogação
Não fosse interrogação
Mas pura exclamação
De uma simples insatisfação?

E se o simples fosse
Tão simples ou mais pudera
Que fosse tão complicado
Que seria simples de se explicar?

E se o menino que não sabe nada
Soubesse mais do que o necessário
Do que é necessário ser sabido?

E se nada se formasse
Desse nada?

E se todo movimento
Não tivesse direção
Ou toda direção
Não tivesse caminho
Ou se todo caminho
Fosse puro, transparente
E sem movimento?

E se toda alma fosse cética
E todo ceticismo tivesse a fé
De que cada alma é como uma pedra
Que flutua sobre água
E que não se explica
E que não se move
E que não pode
Ou satisfaz
Ou não sabe
E não tem gosto
Ou cheiro
Ou som
Do nada?

A resposta mais certa
Entre o aplauso do circo
E o momento de ir embora.
Entre o aplauso de pânico
E o momento de ir embora
A resposta mais errada

E se houvesse alguém
Que enquanto o mundo se danifica em transformação
Não se importasse em simplesmente
Virar expectador diante de tudo
Quando tudo perdeu o movimento ou a cor?
O que diria do morto que não quer se deitar?
Do pássaro que sabe das asas que tem
Mas não quer voar?
Da flor que se orgulharia de sua beleza
Mas opta por murchar?

Como se dá discernimento do deus que tudo pode
Mas tem preguiça de tentar?

Maravilhoso uivo de tristeza na campina alta
Menino menina de braços abertos
Sorri chora alegretristemente

Quando perde o gosto de tudo
Lembrou-se de si
E lembrou-se de si
E lembrou-se de si
E lembrou-se de si.
E lembrou-se do primeiro choro no mundo.
Mas quando perde o gosto de tudo
Não volta como era antes.

No porto da despedida
Metade que fica vai
Metade que vai fica
E quando volta
Volta mais medade do já que foi
E fica mais dobro do que já foi

Mas e se o barco afundasse
Na água?
Ou a água encobrisse o barco?
E tudo permanecesse igual?

E se a nossa importância
Não fosse nossa importância?

E se Deus não precisasse de nós?
Por que Se importaria?

E se o fogo queimasse mas não doesse?
Valeria tentar?

E se a luz não iluminasse?
Ou se o vidro não deixasse passar
Ou se a imagem que ele nos mostra, fosse aquilo que queremos ver?
E se o reflexo do retorno nos mostrasse diferentes?

E se a curiosidade não resolvesse nada?
E se a resolução não fosse o bastante?
E se percebessemos que temos mais dentro
Do que fora?
E se o que tem dentro não fosse o suficiente?
Ou se o suficiente não fosse o bastante?
E se o sonho não fosse o bastante?

Como se a bondade não fosse o bastante.
O amor não fosse o bastante.

E se a vida simplesmente não fosse?