terça-feira, 14 de outubro de 2014

Do Pior Abismo

E foi num piscar de olhos que tudo passou de ser
E passou a ser de tudo
E foi de tudo passando
Pra passar sendo.

Foi num piscar de olhos
Que nessa hora muita coisa mudou
A cor da casa
As janelas fechadas
As portas trancadas
Seu rosto no travesseiro
Meu rosto no travesseiro
O acalento daquele amigo travesseiro.
O cheiro daquele bendito travesseiro.

E foi também num piscar de olhos
Que mudaram os sons
Cantos tornaram-se lamentações
A música virou ruído
O som da noite virou medo
O som da casa virou silêncio
(De apenas uma porta se abrindo por dia)
E o silêncio virou solidão
E a solidão virá
E virá a morte viva
Do horror do renascimento.

Num piscar de olhos
Mudou o olhar
O olhar pela janela na montanha
O olhar pro horizonte na beira da praia
O olhar para a esperança duplicada
E o olhar para o futuro
Quando se olha
E não se vê nada
E olhar para si
Quando muito vê
Pouco mais que um passo a frente.

Metade que sangra
Metade que pensa que já foi
Alma siamesa separada sem torpor
Puro sofrimento e trauma
Pura dor
O canto de terror que se escuta
É o canto voluntário
Da viuvez ordinária
Dessa angústia
Extraordinária.