quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

De Humano pra Humano

Sou egocêntrico, narcisista, niilista, e recentemente me descobri perplexamente individualista e indiferente. Não consigo sentir todas estas coisas sem aquele misto de culpa e liberdade, aquela sensação fresca na alma de que você não precisa responder a nada, ao mesmo tempo em que você se vê como ser inserido em sociedade e por causa disso responsável por tudo o que o cerca. Bem, essa é a condição de ser humano em um tempo em que estamos quase à beira da extinção de tudo.

Nossa tradição está totalmente corrompida e talvez seja essa a maior de todas as crises que eu e todos os humanos estejamos vivendo, porque não sabemos pra onde seguir. Estávamos errados até pouco tempo atrás e agora estamos em busca de um desesperado motivo pra viver.

Minhas palavras são só um fluxo de pensamento e não precisam estar coerentes ou conectadas, mas eu tenho educação amigo, então eu justifico dessa forma.

Hoje cedo estava conversando com uma amiga sobre uma brincadeira de rede social, em que vocÊ fazia um teste pra saber qual tipo de criminoso nós seríamos. No resultado ela acabou sendo uma assassina se não me lembro, e aí eu comecei a dizer que vejo algum charme no ladrão que usa nada mais que a inteligência pra conseguir o que quer, sem deixar prejuízos às pessoas, afetando só quem sequer se sentiria afetado com uma investida. Mas um pensamento levou ao outro e eu soltei uma conclusão de bate papo: a criminilidade é mais uma das facetas que pode nos mostrar como o nosso sistema de sociedade (desapegue-se de ideologias aqui por favor) é genialmente arquitetado pra nos controlar e nos manter presos a esse rebanho repulsivo em que vivemos. O ponto de partida foi quando eu me perguntei porque as pessoas, mesmo as mais corruptas e mentirosas, sentem tanto ódio da criminalidade, até mesmo quando elas fazem parte disso?

Minhas palavras num Natal de pouco significado soam pesadas e indiferentes, mas eu só tive um ano muito difícil em que eu senti minha alma sendo arrancada de mim à força, e que eu vi meus ideais, que já eram frágeis, sendo atiradas na privada e levadas descarga abaixo pra qualquer esgoto em que resida outras das minhas ideias, esperanças ou fé. Hoje sou um homem que vivo apenas o agora, e não, isso não é um pensamento otimista.

O sistema.

Eu quis dizer exatamente como somos educados desde cedo para sermos obedientes e comportados, como estamos agarrados a uma definição tão frágil do ideal de um cidadão de bem, trabalhador e batalhador. E esse imaginário é tão forte e tão presente nas conversas cotidianas que a gente mal percebe depois, à noite, os motivos que fazem com que a gente se sinta um lixo por sermos o que somos exatamente.

Seguimos obecadamente esse ideal, seja lá quem o tenha imprimido na nossa mente, e morremos por ele, desfazemos amizades por ele. Eu tenho só 29 anos, mas desde sempre eu soube que nunca nessa vida nós teremos alguém olhando para nós com orgulho e satisfação dizendo que fizemos a coisa certa. Desperdiçar uma vida inteira em busca de um momento que duraria o quê? Cinco minutos? E cinco minutos num entreolhar tímido, às vezes vindo da pessoa mais inesperada, e não daquela que você gostaria, e ela vai sequer olhar nos seus olhos, ela vai olhar pro chão, ou para as próprias mãos, ou pra qualquer objeto em que ela possa se concentrar pra não transparecer o constrangimento de ser um pouco mais humano e digno de reconhecer algum esforço que para ela na verdade não faz o menor sentido e não tem o menor significado.

Mas e o sistema? Digo-lhes o sistema.

Você é proibido de ser inescrupuloso, invejoso, de sentir raiva, de sentir ódio por quem te faz mal, de ficar triste e querer se atirar na depressão. Você é proibido de ter pensamentos maldosos e impróprios, você é proibido de descarregar sua raiva momentânea num estereótipo, porque estamos presos também à ilusão de que a sua fala pode influenciar o comportamente coletivo, mas isso é apenas mania de grandeza, porque o que você diz não tem o menor significado na maioria das vezes, e na maioria das vezes as pessoas estão mais centradas em si do que prestando atenção ao que você está dizendo. E você é proibido de buscar o que você quer não importam quais sejam as consequências. Mas você sendo um ser de uma casta tão irrisória da sociedade, um ser que se desespera pra ser notado a todo custo, porque ser obediente afinal?

A subida ao poder, a história nos ensina, ela não é honesta. A busca pelo poder te leva a ser mesquinho, egoísta, sujo, baixo, antiético, imoral, indigno, traiçoeiro, não necessariamente ao mesmo tempo, e não necessariamente constantemente, mas é, e isso é verdade, e você sabe disso.

Sua primeira reação seria negar veemente a imagem de si mesmo agindo de uma forma que você repudia pra transparecer a sua imagem, aquela imagem mentirosa que foi impregnada na sua cabeça desde criança. Mas a verdade você sabe, mas não precisa admitir a ninguém, que em algum momento na vida você fez uma ou duas coisas pra conseguir o que quer, e usou do pior lado que o ser humano pode ter. Você sabe que já fez mal a alguém e que já fez muita gente chorar intencionadamente pra alcançar aquilo que você quer. E você vai ser julgado e derrubado por isso, e vai ser apedrejado e crucificado, e vai ser mal falado, e as pessoas virarão as costas pra você, mesmo as pessoas que também cometeram seus deslizes imorais ao longo da vida, e você vai se sentir um lixo de ser humano de novo.

Mas tem a Igreja. Ah, a Igreja. Não existe artifício melhor pra que você se sinta absolutamente escravizado mentalmente em falsas ideias do que um grupo aspirado por religião. Porque se a lei do sistema não funciona pra te por nos trilhos, funcionará a lei divina, a lei do ser que vai te castigar e te jogar no fogo do inferno quando você não for um bom cidadão, um ser humano digno e comportado.

Afinal de contas qual o meu objetivo com isso?

Diversidade cultural é a mentira do século. Fala-se tanto disso mas é apenas discurso de politcamente correto, de intelectualmente alinhado. Ninguém aceita ou acata a diversidade cultural, o máximo que você faz em si mesmo é um auto policiamento de todas as suas opiniões, é uma opressão individual em si mesmo na hora de expressar o que você realmente pensa sobre as coisas.

Essa sociedade nunca me doeu tanto. Exatemente, eu falo assim mesmo, como se eu estivesse de cima de um pódio, de um pedestal, isento de tudo, acima de tudo, porque eu me calo por tanto tempo, eu fico sem voz, sem ação, sem nada, diante de tanta barbaridade e de tanta crueldade que é exibida como espetáculo diário nas TVs e hoje em dia na Internet. Eu fico tão horrorizado com tanta coisa fútil e tanta coisa superficial e passageira que é mais valorizada que as coisas mais básicas de que nós precisamos, e nunca precisamos com tanta urgência: um pouco mais de amor e menos julgamento.

Porque o seu julgamento está preso a valores falsos, fabricados unicamente pra que você prossiga nessa vida consumista idiota que você leva. O seu julgamento está tão arraigado em mentiras, e te corrompe tão profundamente, que você mataria ou morreria pra que ele fosse dado como verdade, e você sequer percebe, de tão afundado em lixo e merda que está.

Eu vejo pessoas morrendo e matando, físicamente e verbalmente, só pra valer uma opinião vazia e distorcida de uma causa que você sequer luta. Os homens e mulheres de verdade estão acabando cada dia mais.

Eu sinto tanto repúdio dessa vida de rede social onde você sorri pra tirar uma foto que fique bem, que fique estilosa, que fique instantaneamente impressionável, mas você sabe aí dentro, onde ninguém atinge, mas que está por baixo até mesmo do seu mais profundo orgulho, você sabe que existe uma camada em si, que em algum momento do seu dia te diz: a sua vida é um lixo. E você é mesmo isso, um lixo de ser humano, que vive como um parasita consumista sem se importar com nada além de si mesmo, destilando verborragia nauseante pra aparentar a imagem de alguém que se importa com as coisas, mas que no fim das contas não se importa com nada além do seu ideal de mundo melhor.

A minha solução pra conviver com essa nova revelação de mim mesmo foi simplesmente não buscar ideal. Abandonar as expectativas dos outros e seguir o meu próprio caminho. As pessoas não vão entender, elas vão achar que você está se perdendo ou que está à beira de um precipício emocional, o que poderá te levar à autodestruição, ou talvez suicídio. Mas isso é só um desapego violento de tudo e de todos, porque no fim das contas, quando você estiver no seu caixão, seja com 30 ou 60 anos, não importa o que você tenha feito, a imagem final que as pessoas terão de você não será a que você idealizou de si mesmo. A sua última lembrança estará totalmente fora do seu controle e você será lembrado de uma forma que talvez nem concorde. Ou quem sabe até algo mais maravilhoso que isso: você talvez sequer seja lembrado.

Parece inacreditável, mas mesmo após os 30, até mesmo após a adolescência, eu não sei o que houve no nosso tempo, mas eu ainda vejo pessoas que estão desesperadamente tentando se provar, e elas destróem a sua saúde em função disso. Vindo de não sei qual corrente de pensamento eu digo, seja você mesmo. As suas falhas já estão perdoadas por si mesmo e você não tem que provar nada a ninguém.

Liberte-se dessa sujeira mental que imprimiram na sua cabeça de que você precisa alcançar alguma coisa pra se sentir bem consigo mesmo. Tudo o que você precisa é de água, um pouco de comida, um lugar seguro e confortável pra passar a noite e de ar. E é claro, um pouco de amor por si próprio. Todo o resto são coisas que as pessoas te cobram porque elas tem medo demais pra perseguir sozinhas, ou medo demais de admitir sozinhas que também são incapazes e cometem falhas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Alma

Alma
Obscura entidade
Profunda caverna da leviana crueldade
E que tudo dentro de mim habita

Alma infringida
Corruptela da esfinge
Finge que me existe
Quando vale mais simples deitar-se na praia
E ser levado pela onda do vazio.

Alma de obscuridade
Alma torpe e frívola
Saliente na incerteza
O que te sobra além de uma vazia opinião?

Sua beleza no espelho
Sua beleza na rua
Sua insistente beleza em qualquer lugar
Não ultrapassa além do instante
Por que apostar tudo no restante
Momento que te sobra do vaguear incessante?

Na falta de um motivo uma religião
Na falta de objetivo, uma nova intenção
Mas olhe em volta amigo
Você está sozinho
Como só está a presa do Leão.

Meu apartamento
Vazio e triste
Como a vida de um elevador
Sombrio como a falta do que viver
Olho tudo daqui de cima
Mas não estou acima de nada
Elevador
Vazio e triste
Como um abandonado acampamento em riste

Cada alma silenciosa
É uma alma preste à ebulição
Cada olhar silencioso
É um epílogo a uma pronta destruição

Vê aquela mulher em prantos ali no chão
Você que passa e abusa e esquece
Da sua tão podre composição
Veja com seu olho morto aquela situação
Ela é a vítima da sua condição
Ela é a consequência
Da sua causa de exibição.

Ela carrega um filho?
Marcas de traição?
Uma dor sujeitada e merecida?
A memória de incontáveis amantes no meio das pernas?
A suja ideia de redenção?
O orgulho de quem prefere se destruir sozinha?
Ou simplesmente uma mulher sentada
Numa esquina como tantas esquinas
Chorando por algo que não está em suas mãos?

Escuto um grito no número do lado
Pode ser um grito de medo e horror
Pode ser um gemido histérico de tesão
Não importa, nada me tira daqui
Nada me move e me silencia

Só mais um passo, nessas horas a gente pensa
Levanta, força, continua, segue, seca a lágrima, respira fundo, olha pra frente, ergue a cabeça
Por que?
Porque não diminuir todo esse tormento com o último beijo, o último sopro
A última brisa cujo medo é pura dor, e só.
O abraço e o beijo mais seguros
E nesse vale não haverá tristeza, nem doença
Porque a senhora é conosco.
E nem alívio ou alegria
Não haverá nada.
O fim da própria vida é um grito de rebelião
Não pedimos pra estar aqui e ainda assim estamos
Não pedimos pra seguir e ainda assim seguimos

Se hoje afirmo o quanto amo
E amanhã sigo detestando
É o acaso, a eternidade jogada me dados
É a afirmação de momento, a negação do medo.

Liberdade de alma
A mais antiga das fantasias.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Frase XLI

Nenhum lugar é mais belamente representado do que através dos olhos de quem tem paixão pela vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Freya

Eis um corpo semi vivo esparramado na cama
Ou uma cama sustentando um corpo semi vivo

Da preguiça suprema até o desejo sombrio de apagar a luz
Quanto tempo leva não se sabe

E é a dúvida,
a dúvida do que se entra lá ou cá...
Então se deixa embalar nessa brisa fria
Do sono cansado dos convalescidos.

A nuvem é só nuvem
A flor é só flor
O chão é só chão
E o céu é só céu

Todo o resto fica preso no sono

E é a dúvida
Para a decepção dos desesperados
Que se espera.

E é só espera
E só se espera por ela chegar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Glassworks

Se flutuasse uma pedra
Nessa água imensa
Como as coisas se diriam?

Se cortasse a árvore
Com tronco, galho e tudo
Mas ela não caísse
Como explicaria?

Se o vento que ventasse furioso
Não movesse nada
Ou se todas as coisas na verdade
É que movessem o vento?

E se o gosto de tudo
Fosse do gosto do nada?

E se a interrogação
Não fosse interrogação
Mas pura exclamação
De uma simples insatisfação?

E se o simples fosse
Tão simples ou mais pudera
Que fosse tão complicado
Que seria simples de se explicar?

E se o menino que não sabe nada
Soubesse mais do que o necessário
Do que é necessário ser sabido?

E se nada se formasse
Desse nada?

E se todo movimento
Não tivesse direção
Ou toda direção
Não tivesse caminho
Ou se todo caminho
Fosse puro, transparente
E sem movimento?

E se toda alma fosse cética
E todo ceticismo tivesse a fé
De que cada alma é como uma pedra
Que flutua sobre água
E que não se explica
E que não se move
E que não pode
Ou satisfaz
Ou não sabe
E não tem gosto
Ou cheiro
Ou som
Do nada?

A resposta mais certa
Entre o aplauso do circo
E o momento de ir embora.
Entre o aplauso de pânico
E o momento de ir embora
A resposta mais errada

E se houvesse alguém
Que enquanto o mundo se danifica em transformação
Não se importasse em simplesmente
Virar expectador diante de tudo
Quando tudo perdeu o movimento ou a cor?
O que diria do morto que não quer se deitar?
Do pássaro que sabe das asas que tem
Mas não quer voar?
Da flor que se orgulharia de sua beleza
Mas opta por murchar?

Como se dá discernimento do deus que tudo pode
Mas tem preguiça de tentar?

Maravilhoso uivo de tristeza na campina alta
Menino menina de braços abertos
Sorri chora alegretristemente

Quando perde o gosto de tudo
Lembrou-se de si
E lembrou-se de si
E lembrou-se de si
E lembrou-se de si.
E lembrou-se do primeiro choro no mundo.
Mas quando perde o gosto de tudo
Não volta como era antes.

No porto da despedida
Metade que fica vai
Metade que vai fica
E quando volta
Volta mais medade do já que foi
E fica mais dobro do que já foi

Mas e se o barco afundasse
Na água?
Ou a água encobrisse o barco?
E tudo permanecesse igual?

E se a nossa importância
Não fosse nossa importância?

E se Deus não precisasse de nós?
Por que Se importaria?

E se o fogo queimasse mas não doesse?
Valeria tentar?

E se a luz não iluminasse?
Ou se o vidro não deixasse passar
Ou se a imagem que ele nos mostra, fosse aquilo que queremos ver?
E se o reflexo do retorno nos mostrasse diferentes?

E se a curiosidade não resolvesse nada?
E se a resolução não fosse o bastante?
E se percebessemos que temos mais dentro
Do que fora?
E se o que tem dentro não fosse o suficiente?
Ou se o suficiente não fosse o bastante?
E se o sonho não fosse o bastante?

Como se a bondade não fosse o bastante.
O amor não fosse o bastante.

E se a vida simplesmente não fosse?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Do Pior Abismo

E foi num piscar de olhos que tudo passou de ser
E passou a ser de tudo
E foi de tudo passando
Pra passar sendo.

Foi num piscar de olhos
Que nessa hora muita coisa mudou
A cor da casa
As janelas fechadas
As portas trancadas
Seu rosto no travesseiro
Meu rosto no travesseiro
O acalento daquele amigo travesseiro.
O cheiro daquele bendito travesseiro.

E foi também num piscar de olhos
Que mudaram os sons
Cantos tornaram-se lamentações
A música virou ruído
O som da noite virou medo
O som da casa virou silêncio
(De apenas uma porta se abrindo por dia)
E o silêncio virou solidão
E a solidão virá
E virá a morte viva
Do horror do renascimento.

Num piscar de olhos
Mudou o olhar
O olhar pela janela na montanha
O olhar pro horizonte na beira da praia
O olhar para a esperança duplicada
E o olhar para o futuro
Quando se olha
E não se vê nada
E olhar para si
Quando muito vê
Pouco mais que um passo a frente.

Metade que sangra
Metade que pensa que já foi
Alma siamesa separada sem torpor
Puro sofrimento e trauma
Pura dor
O canto de terror que se escuta
É o canto voluntário
Da viuvez ordinária
Dessa angústia
Extraordinária.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Estrelas no Céu Escuro

Eu exijo meu direito de, em paz, poder ser triste
De sentir aquela coisa amarga e rude
Aquela coisa áspera e sem consideração,
Uma dor espinhosa, apimentada no estômago,
Tão inconveniente e segura de si
Uma coisa plenamente certa de que sabe o que quer fazer.

Tão sem necessidade de recorte
Ou compartilhamento
Tão sem filtro ou disfarçamento
A mais pura loucura de humanidade
Exijo.

Exijo que eu possa descer ao fundo do poço
E fique lá recostado
E que faça amizade com os mais pútridos organismos
E que sabote repentinamente até o meu lugar no ciclo da vida
Uma vez que a superioridade em ascender
Não entende a simplicidade no permanecer, por necessidade.
Uns vivem em casas, outros em poços.

E quando virar a esquina, e nada encontrar
Apenas um monte de desconhecidos
Ou apenas um grupo de possíveis semelhantes
Ou de semelhantes distanciados
Ou de distantes amontoados...

E quando virar a esquina,
E esperar o telefone tocar, o email chegar
Ou quando nada vier na tela do celular
Quando tudo isso de fato me abandonar
Quero o meu direito de perceber
Que estou sozinho, ilhado, rodeado de apenas ar.
E quero silêncio
Para ouvir apenas os meus ruídos
A minha ruminação estilística
O meu narcisismo comiserado

Exijo consideravelmente
Esse meu direito de pobre demente
De ser digno de dó
Olhem-me com pena, sintam asco e medo de me ser
Não exijam piedade ou recomendação
Vejam aqui, a experiência que se digna valer no coração
Passem, ou não
Atentem, ou não
Ignorem, estarei preso por mim mesmo
Acorrentando a essa doce maldição
Nessa auto destruição necessária
E perceba, em mim, o reflexo
De qualquer um que poderia ser.

E saiba que por um momento
Enquanto a tristeza flerta com a vontade de vida e de morte
Estarei ali, diante de tudo o que nos compõe
Entenderei o que há de mais nítido e de mais claro
E ressurgirei por esta via

Menos vidro, mais vida
Menos roupa, mais corpo
E no escuro céu não veremos estrelas

Esse meu direito de ser humano
Exijo.

domingo, 10 de agosto de 2014

Anactesia

Atenta a esta embriaguez plástica
Sei que não sou tola meu amor
Sei que esse mundo é pura lástima
Mas porque corrói-me a coragem pela dor?

Se por um momento apenas,
Esta alma endócrina
Pudesse se livrar de tanta perdição
Ser pura, cristalina, leve como a mão
De uma poente virgem que em tudo se acredita
E exintguisse do mundo cada passo vacilante
Cada interrogação.

E por esse epítome de vida, viva inteireza
Que certos seres nada querem senão provar
Um gosto dessa plenitude beleza
Enquanto prófugos vagabundos vão

Daqui desse poço torturante
O mortal caminha, furioso
Ora consternado, ora questionando
Ora vai sem se lembrar
E tem hora que até procura aceitar
Que mal há, oh espírito convalescido?
Que mal faria, se diante dessa tortura errante
Pudesse ter o vislumbre da luz mais cálida
E que varresse da alma por instante
Toda a tristeza, todo o mal
Num aviso nobre e que emociona:

Minha filha que em mim não crê
Crê que aí resido, toma esse corpo
Vive uma porção do que o paraíso te aguarda
Tenha nesse agora um pouco da sua calma.

Mesmo cruel, permitindo que após a vida continue
Que continue menos densa de agonia
Que a conclusão de toda esta bagunça venha
Ela existe, ela está, ela é minha.

sábado, 26 de julho de 2014

Renovação

Distinta forma ou formação
Somos formatos da mesma origem
Substância de uma mesma necessidade

É só uma folha de calendário que se solta
É só um comum dia após dia de toda gente que se move
Um dia mais velho primeiro
Outro dia mais novo depois
Nesse aprendizado oscilante

Energia vai, nada retorna
Angústia de transição
Dessa composição insatisfeita
Transfere pra mim e pra quem.

Esmeralda como uma lagoa
Como quero suas águas tranquilas
Como quero esquecer o que existo
Como quero sarar essa ferida
Nesse templo de magnificências
O seu ir e vir de águas
O esplendor da divindade natural
Nesse lugar em que o tempo para
E o tempo voa
E a vida é bela
E a vida é boa.

Errado é a prisão do pensamento.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Laranja

Metade sou eu metade você.

Espreme laranja e faz o suco sem
metade de mim que sem você me faz
Sensível.

Frase XLVIII

O processo criativo está muito relacionado ao que fazemos no dia-a-dia. A nossa visão de mundo é que dá as direções para aquilo que pretendemos como arte. Se nossa visão de mundo é pobre e infantil, assim será a nossa arte

terça-feira, 15 de julho de 2014

Das Falácias dos Politicamente Informados

Todo mundo ficou impressionado com o carisma e a educação da seleção alemã, especialmente na reta final da Copa do Mundo. E aí de repente eu vi que muita gente se compadeceu por eles darem reconhecimento a coisas que até mesmo os críticos imediatistas da internet sequer pararam pra pensar antes. Mas isso não quer dizer que a nação, em sua totalidade, esteja indiferente à sua cultura, às suas origens e às suas necessidades. Pensar dessa forma só mostra como você está alienado e arrogante diante da sua própria sociedade.

Então eu pensei em outra coisa:

Pra quem acha que a política é a medida de todas as coisas na sociedade, acho que às vezes é bom simplificar:

Não é preciso de lei pra dizer "bom dia".
Não é necessária uma ordem judicial para se dizer "me desculpe" ou "eu estava errado".
É inútil uma cúpula na câmara para dizer "obrigado".
E não é preciso uma nova constituição pra você perceber que nesse mundo você é só mais um, e não é melhor do que ninguém, seja por causa da sua cor de pele, etnia, religião, classe social ou lugar de origem.

Simples assim.

sábado, 12 de julho de 2014

Recado para um Músico Indignado com a Copa

Ou: Por que a crítica cega vira discurso de (in)conveniência.

Pra você aí que é músico e não compreende a paixão de um torcedor de futebol só posso dizer uma coisa: você é um tremendo de um hipócrita!

Os mega eventos como Rock In Rio, Loollapalooza, SWU, Wacken Open Air, até mesmo o Live Aid, equivaleriam a todo o espetáculo que representa a Copa do Mundo, em todas as suas medidas. A Copa do Mundo, assim como os mega eventos musicais, são um misto de investimento privado dos patrocinadores e concessões e investimento público, no que diz respeito a iluminação, abastecimento de água, apropriação legal de terrenos, etc.

Tanto quanto a Copa do Mundo, estes mega eventos cobram preços exorbitantes em seus ingressos, vendem por trás disso uma ideia ilusória de consciência social/ambiental/política, etc, para nos fazer pensar que estamos trazendo um mundo melhor, quando na verdade tudo o que você está pensando é em acariciar o seu narcisismo adolescente ao ver um ídolo, que na sua imaginação, representa a falsa importância que você dá a si mesmo. E isso é tão favorável para a indústria.

Qual fã de música nunca pagou, e às vezes bem caro, por um ingresso pra ver seu artista favorito? E destes artistas favoritos, quantos não exploram a paixão que seus fãs tem para cobrar preços exorbitantes para vermos espetáculos pífios, onde a música é deixa em segundo plano? Isso não se resume à música pop, apenas.

Felizmente, graças à internet a música tem estado mais democrática do que nunca, mas ainda assim, não é qualquer pessoa que tem condições de ir a um lugar como Bourboun Street ou Via Funchal, para assistir um show do Eric Clapton, B.B. King ou Stanley Jordan. Um espetáculo de Stanley Clark está muito além das condições de qualquer cidadão brasileiro, mas ainda assim, vemos casas de show lotadas para apreciar nada mais do que um mito, ou um representante de algo que já não tem mais a relevância que um dia teve.

Você pode até argumentar que a falta de relevância de determinada arte se deve a falta de apreciação de uma população ignorante, mas é justamente esse o discurso que o pseudo-intelectual ranzinza se agarra para não admitir a ideia de que o seu tempo já passou, ou que, ele deixou que seu tempo passasse, parou numa época passada e fica preso lá, se queixando que o mundo muda, e que por não conseguir acompanhar a carruagem, joga pedras. Isso não é um pouco de falta de realismo? Não é negação também da realidade? Tanto quanto torcer por um time de futebol? Ok, continuando.

E o que dizer dos patrocinadores? Num mega evento, até mesmo numa escola de música, não são esfregadas na sua cara, a todo instante, um desfile de marcas (Yamaha, Fender, Gibson, Mesa Boogie, Marshall, Pearl, Tama) para empurrar goela abaixo que o que faz um músico de talento é o instrumento que ele toca? Deixando de lado, mais uma vez, a arte da música em si?

Tanto quanto no futebol, na música também acontece muita corrupção, muita roubalheira, muita injustiça. Metallica vale 500 reais? Eu acho que não. Acho que nem B.B. King, Bob Dylan, Jimi Hendrix (se estivesse vivo) ou os Beatles valeriam esse preço. Ringo Starr apareceu no Brasil e cobrou uma fortuna no show, e teve gente que pagou, apenas pra dizer "eu vi um Beatlemaníaco". Não é exatamente a mesma atitude de um dito torcedor de futebol "alienado" que paga um ingresso para ver o seu amado time jogar?

A real é que grande parte das críticas ao esporte mais brasileiro do mundo está calcada num preconceito a tudo o que é popular. Você gostar de futebol não quer dizer, necessariamente, que você está ignorando todos os problemas do país. Aliás, apareça num subúrbio qualquer, compre uma cerveja fique 15 minutos num boteco e bata um papo com um Seu João ou Seu José da vida, e veja que, por estar ali vivendo aquela realidade, ele tem muito mais consciência social do que muitos desses "críticos de botequim da Vila Madalena" de São Paulo.

Agora, senhor músico, segundo sua postura e seus argumentos, eis a impressão que me fica: desistiremos então do esporte? Desistiremos do futebol unicamente porque a corrupção o cerca? A emoção é parte da vida, e ela pode ser expressada e manifestada de várias formas diferentes, e a música é apenas uma delas.

Futebol também é uma forma de arte, tem rituais, tem fundo histórico, tem relevância no imaginário social, além de que sua prática é excelente para a saúde, especialmente mental. Carlos Drummond de Andrade dedicou totalmente um dos seus últimos livros ao futebol. Mário de Andrade incentivava e estimulava a prática. Nelson Rodrigues, quem nos deu o termo "complexo de vira-lata", era um verdadeiro entusiasta da pelada na verdinha. São alienados estes homens? O futebol, se bem trabalhado, te ajuda a desenvolver auto estima, cooperatividade, senso de estratégia, noção de espaço, noção de distância, noção de limites do seu próprio corpo. É quase como uma dança.

Mas será mesmo que por causa de toda uma indústria podre nós devemos destruir um esporte que é um dos mais democráticos e acessíveis do nosso país? Um esporte em que qualquer pedaço de plástico vira bola e qualquer rua de terra batida vira campo? Ou, afinal, segundo suas críticas, o que você espera do brasileiro? Que seja uma máquina de trabalhar, produzir e consumir? E os outros valores humanos onde ficam?

Se você diz que torcer numa Copa do Mundo é alienação, para mim é tanto e equivalente alienação gastar uma fortuna para ver ícones musicais de imagem falida e que hoje nada representam ou acrescentam para a arte. É tão alienante quanto gastar fortunas em instrumentos musicais caros, apenas para levar adiante o gosto de um patrocinador. É tão corrupto quanto vender a sua própria imagem de artista a qualquer marca que seja. Mas se você acha que isso faz parte do ganha pão de um músico, também o faz de qualquer pessoa que seja ícone ou representante de qualquer outra indústria.

Tenha um pouco mais de coerência nas críticas. Uma crítica exige racionalidade. Crítica com ódio vira apenas um discurso imaturo de insatisfação, e disso a internet já está cheia. O que precisamos é de pessoas mais inteligentes, que saibam diferenciar quando o povo é vítima de uma situação, e não a agente causadora dele.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Tragédia Brasileira

Árvore
Ônibus
Acidente

Falha no sistema de freio
Motorista perdeu o controle
Mulher do passageiro ameaçou deixá-lo
Vias abandonadas

Mas tudo mudou de verdade
Quando disseram no jornal
Que uma baleia caiu do céu
E o povo passou a adorá-la
Como o messias que nos fez promessa no começo do mundo.

O Humano Demasiado

Face eterna face
Virada desafiante, encarando a face do Sol
O que tem para nos dizer nesta hora decisiva?

Segue as pegadas do que projeta-se adiante
Ou fica aqui esperando pelo que te sobra?
Nesta hora oca, o que é que há de restante?

A fé num homem morto
Ou a esperança no mundo louco



sábado, 5 de julho de 2014

Forte é todo aquele
Que no meio do batalhão
No meio daquela tempestade de aflição
E que esquece a cor do céu, a cor da terra
Ainda consegue erguer a voz e dizer:

"Vem pra dentro, a janta tá pronta!"

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Refeição da Madrugada

Menu de restaurante burguês
Tu, eu e a vida,
Num encontro que era pra ser a dois

Tudo diante de nós, aí está:
Nosso erros do passado viram diamantes,
E o venenoso vinho sólido da altivez
A todos os sonhos cicatriza.
Fica o alívio preso em embriaguez.

E o que sobra pra depois?
Para o apetite tardio, às vezes em repúdio?
Para a digestão ácida, refluxa, má condicionada?
Uma confusa saudade?

Vermelha e negra meu bem, vermelha e negra.

Olhe para cá, veja essa vida que escorre
Escorre, mas como? Seca? Tinta? Nauseante?

E o que sobra pra nós?
Além desta garrafa vazia?
Desse prato sujo?
Além dessas palavras duras como pão?
Alem desses olhares crus como a carne?

Vermelha e negra meu bem, vermelha e negra.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Unerreichbar

Alcançaríamos mil luas diferentes
Contaríamos as estrelas
Entenderíamos a vida e a morte
Como se fossem algo normal
E subiríamos na vida
E entenderíamos isso também
E cairíamos, sem nos lamentar.

Mas de repente, na estabilidade
Na ordem de toda situação
Sempre, de repente
Num piscar de olhos
Quando o coração se aflige
E chora, e pede por paz

Num farol de trânsito que seja isso
Na distração de todo o nosso sofrimento
E atravessa, incauto, indeciso.
Meu olhar apenas
E tudo muda
Tudo se transforma
Tudo se constrói, e tudo se destrói.

Nas doces primeiras horas da manhã
A brancura suave é tudo o que domina esta mente.
O dia é bom
O dia é ruim

O dia é uma tortura do não poder.

Quando estamos sempre conscientes que é esse momento
Como somos mortais.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mãe

Caiu uma tempestade em cima da casa
Aquela casa pacífica
Aquela casa branca, de ar leve.

De repente tudo ficou pesado
As portas bateram
As janelas tremeram
Cadeiras e mesas, sem equilíbrio, eram jogadas pelo ar

Houve um estalido violento de vidro se partindo
Como o som violento de uma alma se partindo
Que risca e marca a mais profunda calma
E atormenta a mais profunda mansidão

As pessoas, surpreendidas, chocadas, tremiam
O ar, pesado, ofegante
E uma saudade melancólica dos primeiros dias
Os primeiros passos
E uma dor que só vivendo

Aquele olhar forte, seguro, mais forte que a maior das loucuras

Sai o filho sem fechar a porta e nem olhar pra trás
Carregando dez mil quilos nos calcanhares

O peso tamanho que a parede se enverga, e a porta se estrebucha.

Logo antes, só permanece o calor
Aquele olhar cansado e cheio de ternura
Invisível.
Vigilante.
De mãe.

- Leva um casaco, está frio lá fora.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pedido de Casamento

Posição de príncipe campeão
E postura de donzela intocável
Inspiradora de cantos e cânticos
Cujo perfume que exala
Libera a imaginação
Inspirador de Odes e Entoadas
Cujas pessoas sempre se lembram
E se sentem mal.

Ele está pronto
Nervosamente se ajoelha

E ajoelhado prepara o pedido
Pondera as palavras
Pigarreia o tom de voz

Muuuu, tilim tilim passa a abesana passa
Meneia os chifres pra lá, meneia os chifres pra cá
Pasto, pasto, pasto, ruminando pensamentos
Enquanto um rastro de esterco se segue
Invadindo o castelo encantado das fadas

Horrorizadas pela repulsa as coitadinhas voam
E tapando os narizes de horror, dizendo:

- Que horror! Que horror! Que horror!

Calmamente a vaca pasta, e passa
Com a sabedoria mais pura do gado
O homem, desconcertado se ergue, observa, pondera
Limpa os joelhos e passa a refletir sobre a importância do meio ambiente.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Realidade

Quando a banana que é banana
Não entende quando a borboleta vira flor
É muito triste.