quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Flora

Uma luz límpida atravessou a janela
Tocou-lhe o rosto com delicadeza
Uma garoa que acaricia o jardim tão duramente cultivado

O dia não te amanheceu hoje porém
Como muitos não irão.

Olha lá fora, esses olhos que acabaram de acordar
E veja por si só, como haverá de ser
Sem escolha, sem pedido:

Túmulos e mais túmulos
De histórias que não conhecemos, mas que valeriam um verso!
Observe quantas rosas ali dormem
Tranquilas e conformadas
Como um mar solitário depois da tempestade.

O cenho franze de tristeza, a vida ensina
Mais ou mais do que a luz
Que atravessa-lhe a janela

E é quando tiramos o véu negro
Aceitamos
E saberemos quando olharmos para trás
Nossa rosa também estará ali

Um soluço preso na garganta não nos abandona

Toda luz límpida cruza a janela que se deixa aberta
O dia amanhecerá, porém.

sábado, 7 de setembro de 2013

Alberico

Como é cruel peneira da vida,
A arte.
Do que teu coração vivo e sensível
Faz verdade
Se todo aquele que lê, vê ou ouve
O sino não toca
Já não faz parte.

Fica como as grandes cidades:
Com lugares tantos pra visitar
Mas quando um novo chega, a gente diz:
Por que nunca antes estive neste lugar?
É um ar novo, repouso pouco sedutor
Amanhã vira limbo
Ou reflexo de consciência.

E quando o que lê, vê ou ouve
Em teus lábios se repete
Não sabe a quem atribui
Não sabe se não te pertence
Aquilo que não te compete.

É um espaço vazio
Como um cômodo de poucos móveis
E muito som
Xícara na mesa
E o pouco que se pensa
Tudo é saudade.
A velhice não adiante
Longe da eternidade.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

De passagem

Este mundo soa quase como se não me pertencesse.

Ouvidos atentos:

Se esse cesse
Cesse

Não sou deste mundo - não queremos

Não existe chão debaixo dos pés, sinto.
Flutuo.

A história me cospe
Fato atrás de fato
Sem pronunciar-me o nome
Ou pedir por favor.

O que me deve, ela?
Mas o que devo?
Não deveria

Sem ponto ou vírgula,
ou necessidade
Segue-o, sem visão

O que vale mais que a forma senão o som.
Senão

Vale-o

O som emite só, e só não é meu.

Vele-o

Como se os homens não existissem uns para os outros.
E não existem.

Exista
Insista.