terça-feira, 27 de novembro de 2012

A penúlltima Volta do Parafuso

Diante do espetáculo sombrio
Dessa gente morta de pouco afeto
Pulsa o sangue aberto no pulso frio
Como lágrimas vermelhas em chão repleto
Verte a gota nesta cama amarga e sombria
Como sopram os ventos segundos do dia
Em cada pingo em chão o abraço
Uma fenda esfumaça a pena se revela

E sofre como açoite em velho hábito
O cantar de sofrimentos ocultados
Não senão pior é o castigo
O sofrer sem razão direta, concebida
O morrer de pouco sem saber o que te mata
Seja em corpo ferido e infecto
Seja infeta alma que acorrenta.
Ainda sendo o verbo que te maltrata.

Não cabe em ti o amargor externo
Como se não coubesse nuvem de ressaca
Em cabeça de inverno.

Ventania, carrega o passageiro solitário
Que desloca a poeira dos dias, lentamente

Já não será tamanha a dor
Não sendo sua ferida aberta.

Cede o caminho adiante
Ante o obstáculo terno
O invível de uma imagem que aprisiona

Para liberta a corrente uma palavra basta
Uma palavra vale mais que mil imagens
Para a liberta palavra vale apenas uma imagem
Um liberto vale mais que mil palavras.
Mas quando não se sabe...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

“Não contendas com alguém sem razão, se te não tem feito mal”. (Pv. 3:30)


“Não contendas com alguém sem razão, se te não tem feito mal”. (Pv. 3:30)

Mas para muitos evangélicos que conheci isso era uma desculpa para pairar na alienação e na preguiça de lutar pelo seu próximo. Quando me questionam porque abandonei completamente a religião eu deixo claro que me causa repulsa o individualismo e o consumismo do cristão, e mais me causa repulsa ainda a sua associação de benção com bens materiais. Mas nada disso me deixa mais decepcionado do que o fato de não assumirem tal comportamento.

Se Jesus fosse realmente conhecido de alguns, seria odiado pela Igreja e seus fiéis seguidores (da Igreja, não de Jesus), pois ele lutou pelo que acreditava, até o fim. Não seria ele alguém que participou e causou muitas contendas com um fim?

Existe uma censura silenciosa, agressiva e injusta pairando nas Igrejas cristãs, quando você, por mais jovem que seja, questiona alguma prática, é rotulado de pecador, e tão logo deve ser afastado por ser o "irmão que gera contenda entre irmãos", quando muito este mesmo "irmão" é o que enxerga o lobo no meio das ovelhas. Mas isso não importa, Igreja é uma total bobagem e perda de tempo.

Brasil, um país de um mundo atrasado.


Durante toda a minha vida escurtei a frase: "O Brasil é um país atrasado".

Vinha da boca dos mais velhos, obviamente; bancários, funcionários públicos, motoristas e cobradores de ônibus, dos pais, tios, padrinhos, amigos dos pais, taxistas, pedreiros, religiosos, enfim, este era o meu círculo social na época.

Mas de todos estes, dos que mais ouvi vieram da boca dos meus professores, especialmente de geografia e história. Era um bobardeio diário à imaginação e auto-estima: "O Brasil é um país atrasado", e tão logo vinha a inevitável comparação com os ícones da economia da época: EuA, Japão, e uma parcela ínfima de páises da península ibérica que todos teimam em chamar de Europa.

"O Brasil é um país atrasado" sempre esteve em meu imaginário quando eu posso ver reflexos de avanço representados pelas mais finas e altas classes sociais, que desfrutam de parte disso, geralmente trazidos do exterior, repetindo gole a gole, de seja lá qual for a sua bebida de café internacional: "O Brasil é um país atrasado".

A raíz, diversa, e os motivos, comumente emocionais, eclodem quando evidencia a nossa incapacidade de ser estrangeiro em território geo-político e econômico brasileiro. A impossibilidade de ser, porém não o de ter, estrangeiro.

Entretanto, esta frase foi perdendo a consistência ao longo dos meus anos de ser-humano. Se levar em conta o Brasil, parte de um pedaço de terra inserido num vasto mundo, inserido num vasto universo, o Brasil é um país atrasado. Mas gostaria de entender melhor de qual trilha estamos falando.

É ridículo dizer que um país é formado de pessoas, e as pessoas são o reflexo de seus próprios pensamentos e atitudes. Milhões de psicológicos e sociólogos podem negar a minha impressão humana do ser humano, por mais vivido que eu seja, uma teoria aceita é mais válida do que a minha própria impressão sobre mim mesmo.

Na tentativa de convencer o meu semelhante, a medida não-científica é covarde. Entretanto, para a satisfação do meu ser, ou para o entedimento dos meus próprios caminhos como ser humano, minha própria definição, é disso que precisamos.

Pensar ideologicamente tem sido um hábito de péssimo gosto no nosso meio social. Não se pode formular uma frase sem citar a memória de um morto. A ideologia está em estado terminal: o capitalismo é um velho folgado e arrogante que permanece clamando as vantagens de sua juventude. O socialismo e seu primo, o comunismo, ainda se vêem no luxo de dar esmola. 

O levante de ideias para fazer curativos às antigas ideias impedem o ser humano de dar um passo a frente. O atraso maior está em diariamente tentar, ainda, validar ideias falidas. A novidade, então, é sinônimo de avanço?

Atraso é violência. Se levarmos isso em conta, o Brasil ganha uma legião de companheiros. Atraso é o cerceamento da liberdade, e levando isso em conta, temos um monte de países mais atrasados em relação ao nosso, considerando até mesmo os nossos ícones de avanço. Atraso é alienação. Atraso, de verdade, é tentar ir em busca de um topo imaginário, mesmo que historicamente, temos bem claro que isso é impossível. Atraso é mentir para si mesmo, e viver guiado pela mesma ideia, dia após dia, sem se dar conta de que estávamos errados. Atraso é viver sob uma medida de comparação com um topo, sem nos dar conta da miséria que está ao nosso redor. Atraso é não se dar conta da miséria. Atraso é não se dar conta de nenhuma miséria. Atraso é acreditar que se chegou a algum lugar enquanto ainda nos odiamos sem saber porque. Atraso é se matar por poder, e regozijar-se com isso. E acredito que o auge do atraso é querer rotular qualquer pensamento que está isento de ideia, sendo apenas um pensamento, um direito de ser humano, um sopro de humanidade excluído da obsessão de ser científico, político.

No imaginário comum, o país que está no topo é diferente do antigo, do inimigo anterior. Um país como os Estados Unidos jamais seria comparado à Inglaterra e às suas atrocidades, porque os resquícios de positivismo nos faz crer todos os dias que o hoje sempre será melhor que o ontem, rumo ao portão do paraíso. Isso não existe. E um país como a Inglaterra, não teria sido violenta e injusta como foi a sua potência anterior, a Roma. E é claro,a China, Japão, e Vietnã nunca existiram. O Egito e a Arábia Saudita nunca existiram. E o Brasil, ou a América, jamais existiram. Sempre fomos atrasados, todos nós, o mundo inteiro e comum.

Está tudo errado.

sábado, 17 de novembro de 2012

Só mesmo Trindade


Estação Sto Amaro do Metrô
Escuta, o som dos trilhos
Mas não dá pra entender
O que ele tá querendo dizer

Tem gente com fone
tem gente com fone
tem gente com fone

Sobrevoa nas cabeças dispersas
Serpenteia-se por olhares perdidos
Uma pálpebra caída e um bocejo

Tem gente com fone
tem gente com fone
tem gente com fone

Numa tela de tinta homogênea
Pra que o preto, o branco, o marrom
É tudo muito cinza

Tem gente com fone
tem gente com fone
tem gente com fone

Uma mulher morde uma maçã
Um homem toma o seu pedaço
Mas aqui nunca foi o Edem

Tártaro metálico, homem bateria
Saúde e alegria é uma calunaria
Recolham o corpo esquartejado do Mário

Tem gente com fone
Tem gente com sono
Tem gente sem fome.

Só mesmo trindade
Para azedar esta verdade.

Frase XLI

Sua liberdade de expressão não te dá o direito de inibir a liberdade do outro. Enquanto estivermos tentando converter os outros em nós mesmos, a ideia de liberdade permanecerá como uma vaga ideia.
Quando eu era pequeno não achava justo meus bonecos não falarem.

Eu sabia que eles não falavam, era bobagem eles não falarem. Mas eu tinha um boneco do Buzz Ligthyear, totalmente High Tech para a minha simplicidade. Ele era meu único amigo em casa.

Conversando com ele uma vez me disseram: "Seu idiota, que coisa mais idiota brincando de conversar com os bonecos".

Não era justo Deus, Jesus e todos os santos terem o direito de falarem, mas os meus bonecos não.
Quem será mesmo senhor de si?

- Por que me socou os dentes?
- Porque te detesto - esta é a excusa.
O senhor de si diria: porque meu cérebro ordenou que meu braço se movimente até a tua boca.

- Por que me quer senhor de si?
- Para te comer todos os dias.

O senhor de si vive só em uma caverna desconhecida e nunca é o senhor do presente, é o senhor de um futuro distante e caótico que busca explicação para a própria miséria.

Bata com o pau no chão, fazendo o barulho antropomórfico. Seremos animais mudados em humanos.

Raio-X Número 1: O meu direito de egocentrismo

Não tenho muitos amigos ou simpatizantes, e os poucos que tenho vejo com tão pouca frequência, mediados apenas pela rotina, pela irreparável e inescapável rotina. Sou um antipático nato. To dizendo isso não porque eu gosto de ser assim, mas porque essa condição me incomoda e eu tento contorná-la diariamente, muitas vezes sem sucesso, porque a visão primeira de todo mundo é pior do que religião fundamentalista. Mesmo que você fique nu diante de todos, elas não querem saber, você vai ser antipático. Você vai ser mais você mesmo pelo que os outros estão dizendo de você do que o que você diz de si mesmo. Essa é o meu maior obstáculo na hora de me relacionar.
O humano mais fundamental
O humano mais famoso
O humano que ninguém ouviu falar
O humano que ninguém conheceu
O mar azul Grande como inconsciência Grande como o sonho de todos Mergulhou e quis sumir Só o mar conheceria Só o mar queria conhecer Só dele que saberia falar Que existiu O mar azul Coisas assim ninguém acredita E se de repente sumisse o mar Sumiria o grande espelho do céu E todos nadariam nas nuvens O mar azul como se respirasse os nossos segredos Ninguém sabe
O avô entrou na estante de livros
Adormeceu ali congelou ali estatuou-se ali
E só saiu para ser homem grande
O sangue fluiu quente e duradouro
Deitou-se na nuvem
E sonhou para o todo sempre

E levantou-se para um novo começo
Sem se importar com o final

Borboleteando


Virou uma semente
Quando caminhava na mata
Desde quando não soube como
Cada história que é extraordinária
por não sabermos
quando quem começou
como onde terminará

Perdeu-se na mata de borboletas coloridas
Todas borboleteando
Cada uma mais risonha para o espírito
E mais saborosa para a alma
Tinha a de círculos azuis e vermelhos
Tinha a preta, branca e amarela
A de listras vermelhas e violetas
A borboleta marrom, que se confunde com o seu nascer
A borboleta gigante
E a borboleta inexistente
Que ninguém nunca não viu

Até que brotou no ar
Virou uma árvore flutuante
Copa grande, folhas de pluma e tronco de folhas briófitas
Criou asas e começou a voar
Para sempre
E sem a nossa necessidade de final

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ritual de Libertação


      Vou te dizer sinceramente, até porque aqui não tenho risco de me comprometer, ontem foi um dia difícil pra caramba. Dia de trabalho, todo dia de trabalho é difícil. Ficar repetindo a mesma reclamação todo dia, isso é redundância de espírito. Piora até, a situação, me dizem. Não importa na verdade, se as coisas acontecem assim, e eu chego em casa e fico pensando é porque não to sabendo separar minha vida pessoal da profissional. Todo emprego começa com um sonho, normalmente de consumo. Troquei meu sonho por desejos pequenos, desejos de meia hora. A tentativa de grandeza é calada com a porrada diária, isso é duro pra caramba. Vou te dizer que tem horas, não to aguentando mais. O desrespeito coletivo pra tudo o que era correto, não é mais. Nosso lado correto é pura imaginação, é pura fantasia da nossa cabeça, parece às vezes. É só discurso. A gente acha que está tudo bem, mas quando vai ver, isso aqui está tudo uma merda. Ninguém respeita mais o farol vermelho no trânsito.
                Cheguei em casa, bati os pés no capacho, deus sabe porquê, impecável, começar o meu final de dia diferente, então tratei de jogar a pasta do trabalho em qualquer canto e o paletó em qualquer outro. Entrei de sapatos, estava com raiva de que alguém fosse me dizer alguma coisa, e era só abrir a boca.
                Mal permiti que minha casa me recebesse direito, ignorei a TV, a correspondência, um monte de contas a pagar, me deu preguiça pra organizar as ideias do que eu faria primeiro, ignorei o banheiro, fui direto pra cozinha e fiz um chá. Minha mulher acharia estranho, eu sempre nego chá. A verdade é que nunca tenho paciência de responder quando to pensando em outras coisas. Fui fazer o meu chá de camomila.
                Botei um pouco d’água na caçarola e fiquei olhando, contei cada molécula de segundo, senti o tempo de verdade, pela primeira vez, faz tempo. Até me permiti deixar um ventinho que veio da janela me bagunçar o cabelo. Pro fundo era a nossa piscina. O tempo ia fechar, to sentindo aquela brisa lânguida, melancólica. Tipo de palavra que um homem centrado não usaria. A água começou a ferver enquanto eu depositava cada recordação da minha vida em uma bolhinha que estourava. Casa grande, carro novo, moderno, aquele clichê capitalista do homem bem sucedido, afundado na merda até o pescoço com um monte de dívidas, mas bem sucedido, todo mundo de fora estava vendo. Homem feliz não dá suspiro pesado, respira leve.
                Despejei na caneca e de propósito deixei que o vapor me esquentasse o rosto, não liguei pro calor do dia, pro mormaço que anunciava uma chuva das brabas. Vai ser o caos na cidade hoje, vai ser o caos pra todo mundo chegar em casa, ainda bem que cheguei cedo. Vai ser o caos, isso me fez sentir alívio, uma certa alegria vingativa.
                Peguei o chá e fui tomar no quarto, que é proibido, sentei bem no puff do lado da TV, e não me importei mesmo se o vapor pudesse danificar o aparelho. Dali eu fiquei observando o gabinete do banheiro, tão retilínio e bem projetado, impecável e seguro. Desfoquei o olhar na distância curta de onde eu estava e da entrada do meu banheiro, imaginando o que poderia acontecer da minha vida agora. To infeliz, robótico, teleguiado. O clichê do homem moderno insatisfeito. Quem sabe eu devesse deixar o emprego, procurar algo novo. Mas todo mundo aqui em casa depende de mim, e quando eu digo todo mundo na verdade quero dizer só minha esposa, meus dois pássaros, meu cão e meu gato. Além do mais eu não sei fazer outra coisa, não consigo ver saída. Tenho medo de deixar certas coisas de lado, pra trás. Acho melhor parar de pensar nisso, to voltando a ficar tenso, me recomendaram não pensar em nada. Ouvi dizer, lembrei naquela hora, do budismo, que os monges tentam não pensar em nada pra alcançar a paz espiritual, acho que tinha lido em algum lugar, mas foi aí que a coisa aconteceu.
                Existem coisas que acontecem só nas histórias das outras pessoas, e às vezes nem mesmo testemunhadas por quem conta, fazendo parecer que a vida não é mesmo de verdade, que a gente não tem o prazer de ser espectador de grandes coisas, ainda mais quando entramos na rotina. E por mais boba que a coisa se pareça, sempre tem um problema maior do que ele realmente é, por causa das expressões de super impressionados, além dos excessos que algumas pessoas fazem para que tudo em suas vidas pareça extraordinário e maravilhoso, quando é só uma rotina moderna dessa merda de vida. É a mesma repetição, todas as épocas. Mas aconteceu de verdade quando o meu gabinete do banheiro simplesmente se despregou da parede e caiu no chão. Caiu no chão assim naturalmente, como fruto de um trabalho mau feito. Caiu e fez um tremendo barulho porque tudo o que estava dentro bateu contra a porta, ouvi ruídos de coisas quebrando, e de uma infinitude de embalagens plásticas se chocando umas contra as outras.
                Minha primeira reação foi unicamente de raiva. Gritei tão furioso, trabalho de merda e a gente ainda paga, mas no caminho de ver o estrago me senti diferente, comecei a pensar de verdade. O gabinete do banheiro sempre foi tão indiferente para mim, só me servia para pegar toalhas de 3 em 3 dias, e para pegar sabonetes a cada duas semanas, ou menos, mas hoje não, tomou uma importância simbólica naquela hora. Por que eu dava importância de querer tudo simplesmente no lugar? Por que as coisas não teriam um lugar novo depois de um tempo? Gargalhei frenéticamente e voltei para o meu quarto. Que momento mais surreal. Era como presenciar um terremoto e comover a todos depois com um evento natural. Uma ideia me ocorreu, uma ideia fantástica, um novo ritual dessa religião nojenta sem Deus, sem objetivo, dessa religião escrota e repulsiva do consumo, cheio de rituais diferentes. Eu criei meu próprio ritual de salvação dessa mentira toda.
                Abri a porta do closet e comecei pelas minhas camisas do trabalho. Rasguei-as, uma a uma, apreciando lentamente o som de seu tecido sendo descolado e dividido em dois, três, ou quantas partes fossem necessárias para saciar meu tesão. Depois fui para os mais caros, as de seda, as de linho, e outros tecidos que eu só sei quando minha esposa elogiava, e fiz tudinho em pedaços. Tive uma ideia brilhante então, juntei todos os trapos e joguei na privada, apertei a válvula e mantive segurada, até que a pobre não aguentou e entupiu, em seguida despejando toda a água pelo piso do banheiro. A sensação de prazer foi repleta, senti-me como o homem que descobre o fogo, e segurei até que pudesse sentir um tremendo orgasmo.
                Peguei minha xícara de chá e joguei na TV de 52. Liguei e vi que ainda funcionava. Como um Hércules levantei e fui até à sacada, atirei na piscina. Eu sei que isso não é de se desejar, mas eu desejei assim mesmo, ter visto o Titanic afundar teria me dado bem menos satisfação.
                Voltei para o quarto, com o carpete devidamente ensopado, e derrubei o colchão no chão, subi nos estrados e comecei a pisoteá-los, sem me importar com a dor ou com nada. Meu pé direito se cortou, uma farpa rasgou o lado do meu pé e eu senti aquela dor lancinante, aquela dor maravilhosa e sublime, e aproveitei para manchar todos os lençóis com o sangue. Peguei todos os vestidos mais delicados da minha mulher e levei até a cozinha, não sem antes, no caminho, derrubar todos os vasos de plantas no chão, fazendo questão de quebrá-los e estilhaçá-los. Uma voz distante na consciência me dizia que eu ia me arrepender de tudo isso, que eu iria para o inferno, que aquilo era errado, mas eu queria mais. Como um viciado em coca, que no fundo ele sabe que está se auto-destruindo, mas essa mão demoníaca do vício nos empurra com tanta força, eu não conseguia parar.
                Desci as escadas mijando em todo o tapete, escorreguei em meu próprio mijo que me ardeu a ferida do pé, tropecei e caí de costas no chão, senti uma outra dor lancinante, e esperava sentir, porque lancinante é uma palavra que eu sempre quis usar. Minha cabeça fez um corte, limpei com as mãos e passei nas paredes, criando um rastro disforme. Sequei o sangue com os vestidos e joguei-os todos no chão, arrastando tudo com os pés.
                Peguei um abajur de canto e comecei a arrebentar tudo o que via pela frente, TV, aparelhos de DVD e Blu-Ray, joguei meu estéreo contra a parede que se abriu imediatamente. Quando eu vi o buraco que havia ficado na parede eu caí no chão e rolei feito criança. Mas parei: meus álbuns de fotografia me causaram uma tentação tão grande, imagino que tenha sido assim que os ladrões da Jules Rimet tenham se sentido. Não abri, dei uma pancada na porta com o abajur que despedaçou o vidro. Peguei todos imediatamente e corri para a área de serviços. Lá peguei álcool e uma caixa de fósforos. Joguei metade dos palitos num balde de limpeza junto com as fotografias, banhadas no álcool, e queimei-as, uma a uma. Comecei a cantarolar Fire do Hendrix, ajoelhei no chão enquanto aquele poder divino emanava de minhas mãos, eu era um deus, sei lá, um demônio talvez, eu era o messias libertando os oprimidos desses fariseus malditos, que jogam mentiras diárias de merda na nossa cabeça. Voltei pra pegar os vestidos da minha mulher e atirei tudo no balde, deixei lá queimando, sentindo aquela fumaça me envolver, aquele cheiro me envolver. Queimando as bruxas, as feiticeiras, queimando os hereges da vida natural, simples. Queimem pecadores, queimem, padeçam no verdadeiro inferno!
                Peguei o balde e o atirei em chamas em cima do sofá. O sofá, me custou muito caro, meio ano de trabalho, um semestre inteiro de vida cristã para pagar um maldito sofá. Agora eu me vingava dele, eu ria, ria como um vilão maligno. Eu estava conquistando meu império.
                Corri até a cozinha e não parei enquanto não destruí até o último jogo de xícaras. Afinal, para quem tantas xícaras? Centenas delas para apenas duas pessoas e alguns animais. Assustado com todo o pandemônio que e estava criando, o Rustler começou a correr e latir como um cão de verdade.
                Saí de casa e vi de relance o quanto pegava fogo na minha sala, fiquei na varanda de entrada quando começou a chover. Eu ria prazerosamente, estava louco, tinha perdido a cabeça, e estava maravilhado com a minha loucura. Voltei e me vi escrito nas paredes das cavernas, me vi sentado diante de homens memoráveis que começavam a imaginar o futuro de todas as formas, menos daquela que um dia tinha pensado e em que eu estava merdamente vivendo. Gritei, como um homem que atinge o mais sublime gozo, gritei como um homem que atesta sua animalidade, eu estou vivo, eu estou aqui, vivo meus irmãos do passado, eu estou vivo. Me atirei no chão e comecei a rolar pela grama, me sujando todo de lama e esmagando os pequenos animais. Comecei a cavar no chão de terra, arranquei toda a grama e comecei a mastigá-la, levando à boca fosse galho, farpa ou minhoca, tudo eu mastigava e cuspia. Meu cão me observava debaixo do parapeito da porta, espantado, em transe. Houve uma comunicação e eu o dominava com comandos visuais e corporais. Era mais homem do que nunca!
                Mas foi quando eu vi, meu carro tamanho família, meu Tucson, meu maldito Tucson! Levantei e comecei a gritar, você! Você é o meu senhorio, o que me escraviza! Você é o chefe de toda esta quadrilha! Corri em direção ao quintal e peguei na sala das ferramentas uma picareta. Seus dias de senhor dos homens estão acabados! Tinha escutado esta fala num filme recente em que todos riam por acaso.
                Ergui a picareta e me lembrei dos meus antepassados índios. Alguém ergueu um tacape sobre alguém, que gemia ou tremia de medo diante da morte iminente. Uma tempestade ou algo parecido, uma ventania intensa, um era o deus da vitória, o outro era o símbolo da vergonha, e futuramente um novo deus da vingança. Meu carro e eu. Mas não havia olhar de piedade do miserável, ele me desafiava, me encarava com frieza, como se eu não tivesse coragem.
                Neste momento o portão da garagem se abria. Gritei como um louco e desferi o primeiro golpe fatal sobre o parabrisa. Minha esposa e sua colega de trabalho só tiveram tempo de parar o carro e olharem boquiabertas. Quando a fêmea se atrai pelo macho, no momento em que demonstra sua força. O segundo golpe foi sobre o capô, o desgraçado não aguentou e começou e relinchar de dor ao disparar o alarme. Nos olhos dos faróis, nos pneus, vidros, abri as portas e arruinei com os bancos, arranquei-os fora com uma força descomunal, em seguida arranquei uma das portas e golpeei o painel, uma, duas, dez vezes, dezenas de vezes que não pude contar. Abri o capô destruído e golpeei o motor com tanta fúria que começou a despejar fluídos de todas as suas partes. Estava morto. A vitória era minha.
                Ergui a picareta do chão e soltei um urro de vitória. Em resposta o céu me enviou um trovão. Urrei novamente e mais uma trovoada, até que minha voz se sobressaísse. Meu ritual estava pleno, completo.
                Me atirei exausto quando minha esposa veio até mim gritando em choque, você está louco?
                Estou homem. De novo. Ri sem sentido, chorei de libertação.