segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Frase XXIV

Uma mulher ferida pressupõe que não é valorizada ao invés de entender que não existem seres perfeitos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A Barata

Resistes, ó barata, como o mais superior dos seres
O único que já sabe o que é sentir repulsa de si mesmo
E o único que vive temerosamente perante os seres
Mais superiores dos seres.

Vives, ó barata, como o espectro superior
Da nossa camada da cadeia alimentar
E alimenta-se.

O Porco

Lama, lama, lama o dia inteiro
Rolar na lama
Ou na poça
Ou no banho da lavagem
E cheirar como cheira a um porco
Rosnando como rosna a um porco

Rosna um porco como bicaria uma ave para o abate
Este é o único que acredita que tem asas e viverá para sempre.

O Suricate

Um suricate sóbrio entende que anda com a pança sobre a terra
E só ergue a cabeça para procurar.

A Mula

Caminha aí, mula do peregrino
Nasceu só e morrerá só, comendo sua própria carcaça
Enquanto morre, remoerá sua própria morte

- Comi capim demais na vida
- Fiquei tempo demais de quatro quando deveria ter-me deitado
- Fiquei acorrentado demais

E saberá com ódio que dali a uma semana deixará de ser alguém
E só existirá enquanto outros existirem

- Soube da mula? Bateu as patas.

E quem te lembrará alguém como não foi
Sabendo que teu ser só a ti será?

- Tão boa...
- Tão má!
- Me devias
- Me pagava
- Me fazia.

Uma mula serve apenas para ser mula
E sabe como ser mula
E anda como mula, senta-se como mula, sente-se como
E ali que vemos a mula e sabemos quão mula é
E sem que haja a dúvida ainda perguntamos

- És mesmo uma mula?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Frase XXIII

Toda palavra, por mais breve que seja, tem o seu sentido lato. Vai da mente de quem fala, lê e escuta.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Quem é

Teimas em me ignorar
Fantasma do vão retorno
Nada traz consigo senão adventos de desgraça
Obsessão e sandice das cavernas mais fundas da mente
E do coração
Teimar em sentir o que sentes e adias tua vida
Teimas em ignorar teus passos passados e não sentir dor
Não existe água ou benção que cure esta semana
Não há verdades que não destruam boas intenções

A boa coisa, firmada em sofrimento
É ingênua demais
O mundo é a passagem larga
Estreito é o coração

A casa de doações dilui-se
E no lugar não existirá nada
Acostuma-te com nada para sorver-lhe as enfermidades de alma
E de espírito
Os morcegos apinham-se sem explicação.

Depois

Desde o choro ao sublime riso
Tudo está aqui
Quem nasce pega dessa cidade continuada
Cidade dos adiamentos

A conclusão é estado de fé:
Para quem a fé é alucidez
É fim.

Adie sentimentos
Tristezas fiquem pra depois
Crueza de amor, depois
Incerteza, não é sentimento, é sentido
Depois
Versos pela metade
depois
Coisas sem conclusão

sábado, 3 de dezembro de 2011

Cálice




Esta canção tem suas raízes históricas na repressão da ditadura em relação à liberdade de expressão, como muitos sabem, a proibição de poder manifestar o seu pensamento livremente. Penso que quando observo a sociedade atual, percebo que muitas coisas não mudaram, apenas foram mal disfarçadas. Fazem nosso povo acreditar em uma falsa autonomia de pensamento, e provavelmente a maioria não se sente reprimida porque sabe que pode dizer o que pensa, e por tal razão, muitos acreditam que a liberdade de expressão realmente acontece.

Isso seria válido afirmar se o que a maioria da sociedade pensa e expressa fosse digno de atenção. É claro que o que se vê é unicamente a manifestação da futilidade, de observações pequenas a respeito de um cotidiano limitado e que só faz sentido para quem se manifesta. Além do que, parece completamente proibido alguém se levantar e tentar trazer clareza a algum assunto polêmico, os mesmos assuntos que são tratados com tão pouco caso e respeito nos meios de comunicação de massa. E logo expressar realmente aquilo que se pensa acaba por ser reprimido por uma avalanche de reprovações voluntárias por parte daqueles que insistem em defender quem só prejudica a nossa vida.

Fala-se tanto em progresso e evolução da sociedade, mas a unica coisa que eu vi evoluir ao longo destes anos foi o número de tralhas que temos trazido para dentro de nossas casas, inspiradas por um consumo estúpido e desnecessário. Quando é que vamos falar do progresso e evolução em relação à coexistência da sociedade, e em relação de quem verdadeiramente está fudendo com a nossa vida? O governo? Não está fácil demais? Não está óbvio demais?

O brasileiro é preguiçoso sim, eu concordo, mas a classe média tende a dizer que a preguiça vem do pobre, que não trabalha, por isso é pobre. Entretanto a preguiça real poderia vir da maioria que não gosta e nem quer pensar. A preguiça poderia vir de verdade daqueles que só apontam os problemas, mas não se importam com as soluções, uma vez que falar em soluções é falar na mudança de comportamento e atitudes; quem se predispõe a mudar pelo bem da maioria? Quem se predispõe a abrir mão pelo bem da maioria? Quem se predispõe a apoiar o popular pelo bem da maioria, e largar de vez essa desculpa capitalista de que tudo se faz apenas por dinheiro? E essa preguiça me dá realmente muita preguiça de continuar acreditando em alguma melhora desse país de preguiçosos.