sábado, 5 de novembro de 2011

Frase XXII

Licença poética? O caralho! Eu escrevo o que quero e falo como quero. Os ouvidos são opcionais.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Zeta

Nestes anos intensos
De pura civilização
Sobra-nos palavras para dizer
Mas falta-nos informação.

Nestes anos incríveis
De homens que voam ao céu
Ou que dormem no chão
Falta-nos claramente a visão.

Nestes anos escuros
Cuja externa é claridade
Não sinto que tenho luz
Sinto uma densa obrigação.

Nestes anos tão móveis
Onde a vida que é tão longa
Se passa num breve relampeio
Os homens que andam imóveis estão.

A Alienação Social em Ensaio Sobre a Cegueira

A alienação social

O presente trabalho tratará da questão da alienação social contida no romance Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, e o papel que esta alienação desempenha na sociedade contemporânea. Mas antes de entender o papel a que esta alienação se dá na sociedade, é importante entender sob qual prisma está significada a idéia de alienação. Uma vez que se trata da alienação dentro do meio social, buscaremos a fonte de sua definição numa visão sociológica. A partir daí, com base na definição de alienação utilizada, será investigada a maneira como ela se expressa e o que se pode extrair dela na obra de Saramago.

Sob uma ótica sociológica, a alienação viria a ser uma suposta ignorância individual acerca dos problemas que envolvem a sociedade, ou um isolamento em relação aos demais integrantes do meio social. Estes problemas podem ter origem no próprio agrupamento social afetando aos indivíduos, ou pela via inversa, surgindo de um indivíduo e afetando o grupo social em geral. Utilizando de uma visão de Émile Durkheim, pode-se definir alienação como a inconsciência individual mediante os fatos que envolvem o grupo em que aquele indivíduo está inserido. As conseqüências deste isolamento vão depender do quão influente este indivíduo é no meio social.

Entretanto, extraindo já uma compreensão da obra, se pudermos entender que a sociedade que Saramago tece também pode ser um dos personagens do livro, percebe-se que a alienação não atinge unicamente aos indivíduos, mas pode ser um problema que acomete grupos inteiros quando estão dispersos por uma idéia imaginária que os anestesia da realidade.

A metáfora da cegueira
O caráter simbólico da obra de Saramago constitui uma posição de investigação dos problemas universais das comunidades humanas, e por essa razão, os assuntos que a sua literatura possibilita nos debates críticos podem ser inesgotáveis, uma vez que se espelham também na infinda dificuldade humana de se deparar consigo mesma.

Em Ensaio Sobre a Cegueira, logo de início, enquanto um homem aguarda em seu carro pelo sinal verde do semáforo, repentinamente fica cego, duma cegueira que é descrita como um mar branco. Ao contrário do que se acredita da cegueira comum, que é escura, a cegueira de Saramago é caracterizada pelo excesso de luz. A partir deste evento uma sucessão de personagens vai ficando cego da mesma cegueira branca, um após o outro, seguindo uma lógica a partir do contato que o primeiro cego tem com as demais pessoas, fazendo-nos crer que se trata mesmo de uma epidemia de cegueira. Não fosse a exceção de a mulher do oftalmologista ser imune ao problema, teríamos pouco material para entender que a cegueira não se trata apenas da deficiência visual comum, mas de uma espécie de cegueira social, mental.

Conforme surgem os constantes casos de cegueira, o governo, acreditando tratar-se de uma epidemia, toma a medida preventiva de deixar os cegos sob quarentena no manicômio da cidade, isolando-os dos demais cidadãos, e tão logo, abandonando-os. A simbologia descrita nesse momento do romance trata-se da visão de Saramago sobre as diferenças que a maioria da sociedade determina, para definir onde estão os limites da normalidade versus anormalidade.

Temos a imagem de uma fatalidade que, partindo para um nível profundo de observação, com o desenvolvimento da história torna-se praticamente invisível ao leitor, não fosse a menção constante do autor diante do fator cegueira que acomete a todos os personagens, exceto um. E a partir desta visão quase ingênua da vida social, o esplendor da mensagem está contido no fato de que, com a anulação de um dos cinco sentidos, a condição de vida degrada-se a tal ponto e ao mesmo tempo é tão semelhante à realidade, que nos faz questionar até mesmo os nossos valores mais profundos.

Não se trata de dizer que é por causa da cegueira que as pessoas passam a agir sem o apoio moral do qual antes dependiam, uma vez que elas se vêem em condição de igualdade no tocante ao seu estado físico. Mas que, os resquícios de uma personalidade egoísta naquele modelo de sociedade ao qual foram submetidos, deriva ao caos, novamente, reproduzindo, mesmo diante da igualdade física, as mesmas estruturas da sociedade exterior. Apesar de confinados num manicômio, Saramago nos dá a perspectiva dos isolados sociais, e deixa evidente que, diante de fatores comuns, a anormalidade torna-se normalidade a partir do momento em que nos acomodamos com as novas condições de vida.

A metáfora da cegueira consiste em presumir que tal condição trata-se, na verdade, de uma postura egoísta e indiferente em relação aos semelhantes, e que o caos descrito ao longo do romance não é dedutivo, mas algo que já ocorre quando isolamos os grupos devido as suas diferenças. Não apenas por essa razão, diante deste fato fica implícito na obra que esta visão é parcialmente opcional, pois os cegos sob confinamento ficam no aguardo de uma ajuda externa, acreditando que a sua sobrevivência dependerá tão somente da compaixão de quem está do lado de fora.

Ao mesmo tempo, dentre as incontáveis idéias que podemos extrair da obra, pode-se afirmar que as atitudes inconseqüentes, o estado de degradação, fazendo-os todos retornar ao seu estado primitivo de sobrevivência, deixando de lado os hábitos comuns da vida moderna (ou contemporânea), sejam hábitos de uma polidez social, higiene e pudor, talvez salte tão claramente ao olhar do leitor pelo fato de os cegos, pensando estarem cegos, acreditem também que ninguém os verá fazendo o que estão fazendo, ninguém os verá agindo numa espécie de surdina; ocultos pela sua nova condição física, dando-lhes a ilusão de uma vantagem de obscurecer suas atitudes animais e a despreocupação com alguma vergonha ou justificativa, daí também as ações que nós julgaríamos demasiadas desumanas. E o ponto mais alto é que, Saramago desnuda tão completamente as suas personagens de qualquer defesa, deixando-as tão expostas às suas condições de vida mais naturais, que não importa o obstáculo que eles terão a sua frente, a moral social é arbitrária, e o que está em questão é a sobrevivência.

A questão das hierarquias e do poder

Uma vez confinados, os cegos passam a organizarem-se entre si, e a mulher do médico, sendo a única que é capaz de enxergar, doa-se o máximo que pode para auxiliá-los, sem deixar que se revele o seu segredo, de que é capaz de ver. A cada dia que passa mais pessoas que foram afetadas pela cegueira chegam ao local, e vão se acomodando com podem, à medida que o manicômio vai se tornando incapaz de acomodar tantas pessoas, e de acomodar as necessidades básicas de todos. Os locais que abrigam aos cegos são chamados de alas, e aqui se pode traçar um paralelo entre cada ala com a noção que temos de pátria.

A crítica de Saramago, nesse ponto, volta-se para as relações de poder na sociedade. A começar que ao chegarem ao manicômio, os primeiros cegos tentam se organizar como podem, escolhem um leito que lhe servirá de lar, tal como as sociedades primitivas onde cada membro escolhe um local para morar de acordo com sua conveniência, e ali permanece. Logo então surge a necessidade de um representante para cada ala, que, em nome da maioria, travará relações com os representantes das demais alas, numa espécie de diplomacia.

É questão de tempo para que as alas comecem a disputar entre si pela sobrevivência, e a partir da concepção que cada um tem a respeito da sua condição atual, justificam-se as atitudes arbitrárias, perversas para e contra si próprios, a fim de garantir vantagens individuais em relação àqueles que, por alguma razão, acreditam por si mesmos serem menos poderosos, evidenciados por uma submissão voluntária.

Uma das alas se sobressai às outras, que é a que onde estão os chamados cegos malvados, pelo fato de um deles possuir uma arma de fogo, carregada, e que simboliza e garante a sua dominação sobre as outras alas. A partir daí, os cegos malvados, aproveitando-se das ferramentas próprias de quem está na posição de dominador, permitem-se ao direito de exigir privilégios em troca da, não garantia, mas, autorização da sobrevivência das outras alas, deixando evidente, sem máscaras, que as relações de poder entre as sociedades, se dão através do medo e do autoritarismo, entretanto, ocultados pelos mais diversos mecanismos, dentre eles a moral e o acordo social, para serem citados. Através do seu poder, os cegos malvados começam a exigir tudo o que para eles podem ainda ser julgado de valor material, por mais que não façam uso disso, mas nessa relação de troca em que, aquele que detém o poder sempre exige um tributo pelo benefício que está sendo prestado. Não pode deixar de passar despercebido o fato de que as provisões dadas aos cegos, antes dessa hierarquização, vinha da parte do governo, que também exigia um tributo em troca da alimentação escassa dos cegos, talvez o tributo do isolamento, do esquecimento e abandono, para evitar o constrangimento nacional de ter de lidar com um acontecimento cujas raízes são desconhecidas.

E por mais que Ensaio Sobre a Cegueira faça uma total inversão da atual condição humana, percebe-se tamanha semelhança da ficção com a nossa realidade, diante da possibilidade de degradação total. Ainda assim, mais do que prender-se a uma crítica imatura acerca da individualidade ou do egocentrismo social, Saramago extrapola, a partir desta inversão da condição social, e mostra-nos, a partir de sua dedução, que a sociedade está presa a valores tão ultrapassados e desnecessários, cuja sobrevivência deixa óbvia que são frágeis e descartáveis.

Uma passagem em que está evidente a noção total da degradação humana, por assim dizer, é o momento em que, uma vez acabados os objetos de valor dos cegos, os cegos malvados passam a exigir que as outras alas enviem as mulheres para darem o corpo em troca da alimentação. Todos hesitam no primeiro momento, que após uma decisão final, optam por aceitar em razão da sobrevivência do grupo. Neste momento nada mais parece fazer sentido na sociedade que ali fora construída, os valores relacionados a fidelidade, moral, decência ou indecência, quando a situação torna-se crítica na escolha entre manter os valores e morrer com uma dignidade pouco significativa, condenando também àqueles cuja moral difere, ou simplesmente sobreviver.

O poder está simbolizado pelo mecanismo que, aquele que o detém, submete aquele que se deixa submeter, e numa fala simbólica, como se tivesse consciência da natureza finita do conceito de poder, a mulher do médico entende que uma arma de fogo, mesmo carregada, é inútil uma vez que todas as suas balas são usadas. Ao mesmo tempo, quando entende que a sua condição favorável poderia libertar os demais cegos daquela dominação injusta, acaba por matar o líder dos cegos malvados, dando inspiração para que outra cega ponha aquela ala em chamas, libertando a todos.

Conclusão: A cegueira voluntária e os novos caminhos possíveis

Ao saírem da quarentena, o médico, a mulher do médico, a moça dos óculos escuros, o primeiro cego e sua esposa, o homem com a venda no olho e o garoto estrábico, iniciam uma jornada juntos, e notam que a epidemia acometeu a todos na cidade, talvez no país inteiro e quem saiba até mesmo no mundo inteiro.

Caminham errantes em busca de um novo abrigo, e dali em diante percebem que sua sobrevivência depende da sua relação de troca envolvendo a solidariedade e o bem comum. Os momentos finais do livro revelam pela primeira vez uma postura dos cegos que se permitem conhecer uns aos outros, ainda que inominados, ainda que se denominando pelas suas funções sociais ou suas características exteriores, mas começam a ter uma relação baseada numa nova afetividade, ligados pela compaixão mútua diante de uma condição comum e já não mais sentindo-se diferentes um dos outros.

Abrigaram-se na casa do médico, e foi dali que após terem descoberto mais de si, tornaram a enxergar, um a um, retomando a consciência da normalidade, procurando desvendar os motivos da cegueira. E por mais que procurem investigar o seu significado e as suas causas, seja pelo castigo dos pecados cometidos, ou pela indiferença social, seja pelo excesso de egoísmo ou pela falta de solidariedade, as causas em si ficam a mercê de cada um. Longe de se permitir a um entreguismo total nas relações sociais, Saramago talvez através de um apelo singelo, representado e materializado na mulher do médico, atravessa as obscuridades da razão humana para nos atingir no âmago, e clamar por mais humanidade numa sociedade que está imersa em excessos desnecessários à sobrevivência.

O narrador, como que com uma brincadeira propositada, que manipula uma situação em prol de observar os resultados, fez da cegueira um fator metafórico, e através de suas personagens tão comuns à nossa vida contemporânea, joga ao chão toda a arrogância, petulância e mesquinharia humanas para só então, entender o que se faz de fato com o sentido da visão, de qual olhar ele realmente se refere, como se jogasse na cara do leitor, de maneira violenta, porém na melhor das intenções, aquela máxima de Lacan, a do aprendizado e amadurecimento pelo trauma. Só através deste trauma, passar a perceber o desastre de não enxergar o próximo, e as conseqüências terríveis dessa solidão e isolamentos voluntários.


Referências Bibliográficas

BOCK, Ana Mercês Bahia et al (1988) – Psicologias, Uma Introdução ao Estudo. São Paulo, Editora Saraiva.
COSTA, Horácio (1997). José Saramago – O período formativo. Lisboa, Editorial Caminho.
DURKHEIM, Émile (1973). Coleção Os Pensadores São Paulo, Abril Cultural.
QUINTANEIRO, Tania et al (2003). Um toque de clássicos – Marx, Durkheim, Weber. Belo Horizonte, Editora UFMG.
SARAMAGO, José (1996). Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia das Letras.
SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da (1989). José Saramago – Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa, Publicações Dom Quixote.

Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

Visão Panorâmica do Momento Histórico

O século XX, de acordo com alguns historiadores, é considerado o mais terrível século de toda a história registrada pelo homem.  A razão maior que lhe cabe este título são as inúmeras guerras que cobriram de destroços e sofrimento a passagem do homem por esta parte do tempo Cristão. Num primeiro momento, tal afirmação parece estranha quando colocamos os eventos do século passado em comparação com épocas como a Idade Média, ou a conhecida Antiguidade Clássica, que também foram marcadas por violentas guerras. Entretanto, a medida maior que torna o século XX uma mancha tão insolúvel e uma ferida tão profunda da história humana está no desenvolvimento da tecnológica bélica.

O horror toma conta dos corações daqueles que pasmam diante tantas atrocidades. E a cada época, novas justificativas surgem para condicionar a mentalidade da população, que apesar de ser a maioria, não consegue reagir. O século XX chegou ao ápice da incerteza da vida após a morte, e ao mesmo tempo, a ciência mentiu a devoção que os Iluministas esperavam, e já não mais acolheu os homens como mãe, quando utilizados os potenciais do universo contra o próprio universo. O homem descobriu o caminho cada vez mais eficiente de manter nações inteiras sob controle, utilizando o medo. E foi com medo que muitos atravessaram suas vidas, e não viveram, simplesmente puderam vê-la passando diante dos seus olhos, impassíveis, sem reação.

Neste cenário, a arte perde a cor, porém não perde o brilho. Cinza, vermelho, preto, estas parecem ser as cores predominantes num cenário onde as cidades expandem incontrolavelmente, juntamente com a multiplicação dos habitantes terrestres. Quando se lança um olhar panorâmico, vê-se nitidamente a Primeira Grande Guerra, a Segunda Grande Guerra, as intermináveis guerras civis Africanas contra o neo-colonialismo, os conflitos entre Japão e China, a questão da Índia contra o império britânico, a Guerra Fria entre as potências EUA e URSS, que embora as baixas sejam ínfimas à guerra tradicional, houve o dilaceramento da liberdade do homem, trocada pela estupidificação do homem.

Homens, artistas, surgem como profetas do inevitável, assumem uma posição de denúncia, e até mesmo anúncio de um futuro terrível, um caminho sem volta, como se cantassem o túmulo que nós mesmos cavamos pela excessiva ganância. Homens já desacreditados do homem.
Visão Panorâmica da Obra

Aldous Huxley nos apresenta o seu Admirável Mundo Novo, um arquétipo da Londres que, nos anos 30, ele tentou prever, baseado nas direções científicas e sociais que observados em sua época.

O espaço é em Londres, no ano de “our Ford 632”, algo por volta do ano de 2540 no calendário Gregoriano. A maioria da população é unificada sob os princípios do Estado Mundial (World State); o Estado Mundial é uma sociedade global, que provê recursos em abundância, cujo ideal é alcançar felicidade plena para todos.

A sociedade é dividida em castas, denominadas Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Épsolons (em algumas versões, Ípsolons), e cada categoria social possui as suas atribuições e defeitos próprios. Por exemplo, nos Alfas existem ainda a divisão em Alfa Dois Mais, ou Alfa Menos. Todas estas castas tem as suas funções sociais já condicionadas no início da vida, no Centro de Incubação e Condicionamento de Londres, uma espécie de laboratório, que hoje, poderia ser comparado aos laboratórios de inseminação artificial. Entretanto, há uma ressalva.

O que se faz no espaço onde toda a vida humana de Londres tem início é, interromper o seu curso natural, antes mesmo que a pessoa crie vontade própria. Através de impulsos externos, captados pela inteligência cognitiva dos bebês, são impostos os seus gostos, os seus medos, os seus desejos, e até mesmo as suas capacidades. A partir daí já se tem determinados desde o berço qual a função social de cada pessoa nascida, sem lhes dar a chance de escolher um caminho próprio. Apesar das diversas castas, a narração se foca apenas no convívio social entre os Alfas, que são consideradas as pessoas mais privilegiadas da sociedade, tal como a classe elitista da Londres de Huxley.

Há resenhas afirmando que Admirável Mundo Novo era uma crítica às teorias behavioristas de Skinner, as quais Huxley eleva ao extremo e no desenrolar da narração nos mostra a quão falhas elas seriam. Classificado como um romance anti-utópico, ou, distópico, Huxley descreve uma sociedade completamente indiferente à esta condição de determinismo pelo meio, preocupada apenas com o trivial, o prazer próprio.

Inevitáveis comparações entre esta obra e 1984 de Orwell remetem às suas oposições que pretendem demonstrar um mesmo caminho; uma vez que os cidadãos de 1984 são dominados pelo medo, os de Admirável Mundo Novo se deixam dominar pelos prazeres triviais que Londres produz com tamanha abundância. Desta forma, num estado de plena felicidade individual (resultado do pensamento vitoriano), não haveria motivos para se preocupar com questões como o caos social reinante nas outras sociedades. Além do mais, Huxley usa o gancho da crítica à Skinner para captar a trilha pela qual a sociedade Londrina caminhava. Assustadoramente a obra nos incita a fazer constantes paralelos com a sociedade atual.

As personagens são fúteis, indiferentes aos problemas alheios, e repulsas às culturas diferentes. A religião, o casamento, a concepção por meio naturais (relação sexual) e a família são completamente repudiadas por esta sociedade. São devotos do Fordismo, e seu calendário é divido em Antes de Ford e Depois de Ford.

O sexo é visto de uma forma totalmente banalizada, visando apenas o prazer, independente de sentimentos, pois para esta sociedade, o amor não existe mais. O que Huxley nos mostra é a nuvem da plena indiferença que paira sobre uma sociedade que questiona aquele que questiona. Enquanto Orwell teme a destruição da informação, Huxley teme que o excesso de informação atinja um nível de banalização total, tornando-se irrelevante.
Um Breve Resumo da Obra

O personagem Bernard Marx sente-se insatisfeito com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta. Num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado uma espécie de "reserva histórica" - semelhante às atuais reservas indígenas - onde preservam-se os costumes "selvagens" do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Bernard encontra uma mulher oriunda da civilização, Linda, e o filho dela, John. Bernard vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada.

Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável, ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade. Linda, quando chegada à civilização foi rejeitada pela sociedade.
O livro desenvolve-se a partir do contraponto entre esta hipotética civilização ultra-estruturada (com o fim de obter a felicidade de todos os seus membros, qualquer que seja a sua posição social) e as impressões humanas e sensíveis do "selvagem" John que, visto como algo aberrante, cria um fascínio estranho entre os habitantes do "Admirável Mundo Novo".

Aldous Huxley escreveu, mais tarde, outro livro, chamado Retorno ao Admirável Mundo Novo, sobre o assunto: um ensaio onde demonstrava que muitas das "profecias" do seu romance estavam a ser realizadas graças ao "progresso" científico, no que diz respeito à manipulação da vontade de seres humanos.
Bibliografia

HUXLEY, Aldous, Admirável Mundo Novo. 1ª Edição. Tradução de Lino Vallandro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2009.
CEVASCO, M. L.; VALTER, L. S. Rumos da Literatura Inglesa, 1985. São Paulo: Editora Ática. Série Princípios, Volume 11.
HOBSBAWN, E. J. Da revolução industrial inglesa ao imperialismo. 5ª ed. Tradução de Donaldson Magalhães Garschagen. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2009.

Manuel Bandeira - Correspondência entre Infância e Memória

Manuel Bandeira é considerado pela crítica como um dos maiores poetas da literatura nacional. Seu lirismo inconfundível foi, senão o maior, um dos mais destacados representantes do que era proposto como novos caminhos para a poesia nacional, irradiado a todos os cantos do país a partir do movimento Modernista idealizado na Semana de Arte Moderna de 1922.

O que diferencia Bandeira dos demais poetas seja, talvez, a temática de sua poesia. A complexidade inicial limita-se à estrutura de versos livres, que, mais do que simplesmente soltar versos aleatoriamente no papel, marca a trajetória de seu lirismo e da sua mensagem poética, deixando evidente que até os sinais de pontuação, se levados em consideração, contribuem para uma compreensão mais ampla de sua obra.

Sabemos que para muitos críticos uma obra de arte, quando considerada como tal, ultrapassa o tempo cronológico de seu autor, e trafega livremente por qualquer época entre passado e presente, em qualquer momento ou cultura da história humana. Uma obra de arte veste em todos os homens a idéia universal traduzida pelos olhos do autor que, munido de plena sensibilidade, fala de sentimentos comuns aos homens, mas com tamanha maestria que é como se falasse por todos os homens. Roland Barthes, polêmico crítico de arte francês, era a favor desta concepção de que o verdadeiro artista não detém o controle sobre a sua obra, em outras palavras, desmanchava o mito de “autor-Deus”, pois a obra, quando uma vez exposta ao público, o seu significado transcenderia os limites da sua significância, ou como afirmava que “a morte do autor é o nascimento do leitor”.

Há poetas, e porque não poderia deixar de ser, que fazem de sua obra a história artística de suas próprias vidas, simbolizando com imagens aquilo que não poderiam simbolizar com palavras diretas. O que caracteriza logo a princípio a obra de Manuel Bandeira é uma profunda tristeza e desilusão com a vida, como pode ser lido nos poemas de sua primeira publicação, A Cinza das Horas. Mas longe de ser o comum medo que a juventude tem de enfrentar os longos anos de uma vida inteira, ou quem sabe aquela desilusão pouco justificada dos literatos da elite romântica (diga-se de passagem, Álvarez de Azevedo ou Camilo Castelo Branco), Manuel Bandeira imprime em seus versos uma desilusão que é verdadeira, um desgosto profundo de pender entre a certeza da morte e a dúvida pelo novo dia, resultado de sua doença respiratória. Quando descobriu que tinha tuberculose, partiu para a Suíça para fazer um tratamento, e daí em diante este fato marcaria a sua obra para sempre. E mesmo com o passar dos tempos, vivendo os seus oitenta e dois anos de idade, no amadurecimento, Bandeira não altera a temática de sua poesia, não se deixa seduzir pelos eventos externos à sua personalidade, preservando e sempre prevalecendo a simplicidade do pernambucano que tem como pretensão absoluta simplesmente a vida que lhe foi negada. Massaud Moisés (1995, pg 393) acrescenta que “suas antenas captavam sinais em toda parte, absorviam-nos e transfundiam-nos em mensagens de beleza, mas sem alterar a substância de uma visão do mundo que se manteve fiel a si mesma, no decurso de meio século de elaboração poética” e que a poesia de Manuel Bandeira “constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a Arte era o prato obrigatório”.

No poema a seguir, Desesperança, do livro A Cinza das Horas (1917), temos uma idéia do que era a vida para o autor:

(...)
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
(...)
(Desesperança in A Cinza das Horas)

Mas, mesmo com a sua doença, isso não impediu que Bandeira tentasse viver uma vida normal, sem ter-lhe preso aos pés uma preocupação hedionda com a hora da morte, permitindo-lhe até mesmo fazer de sua própria desgraça uma piada. A seguir um trecho do poema Pneumotórax, do livro Libertinagem (1930):

(...)
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
(Pneumotórax in Libertinagem)

Além desta preocupação na vida de Bandeira, outro aspecto que também muito marca a sua obra é a forte ligação que ele tinha com os seus entes queridos. A sua recordação dos anos de infância remonta as imagens de seus avós, das moças que o criaram quando criança, de seus pais, seus irmãos, e todos aqueles por quem ele pudesse creditar algum afeto. Carinhoso e delicado por natureza, nunca deixava de homenagear em suas poesias aqueles a quem tanto devia por sua formação como ser humano. Antes que uma simples menção egocêntrica de sua própria vida, a angústia da qual Bandeira retratava em suas recordações de infância, era traduzida pela pungente dor da saudade, e anos mais tarde, na solidão. Aqui um famoso poema em que falava de sua irmã, O Anjo da Guarda também do livro Libertinagem:
Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
- brasileiro

Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou pra junto do Senhor.
(O Anjo da Guarda in Libertinagem)

Suas recordações, ora melancólicas, ora nos enganando com uma tentativa de querer ser feliz (o que difere do estado em si) quando no fundo, com o olhar mais atento, nota-se um apelo confessionário para aliviar as dores da vida, usa como tentativa de fuga da sua cruel realidade e condição de vida, as lembranças do tempo da infância. Em muitas obras, esta delicadeza, esta ternura juvenil repleta de uma inocência pura, na verdade implica numa tentativa de depositar todas as suas esperanças de alegria na busca das melhores lembranças da sua época de criança, ainda que em misto a uma dor de ora transitar pelo imaginário da memória e aceitação da realidade. Também de Libertinagem, o poema Evocação do Recife, temos um Bandeira passeando pela imagem da cidade natal, através de suas recordações, e ao mesmo tempo, negando um progresso que destrói as suas memórias pueris:

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás da casa ficava a Rua da Saudade...
... onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
... onde se ia pescar escondido
(Evocação do Recife in Libertinagem)

Conforme o amadurecimento da sua obra, especialmente a partir de Libertinagem, quando assume de vez a estética modernista, e deixa para trás as suas influências do parnasianismo, ficam cada vez mais evidentes a sua transição nestas recordações da infância e nas suas memórias dos lugares que visitou, dos amigos que não tem mais perto de si, e dos entes queridos. Ora aceitando, ora lamentando a condição de sua vida, Bandeira passará a vida toda passeando pelos caminhos de sua memória, e registrando os momentos presentes e passados, temperados com uma liberdade de versificação refinada.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band
(...)
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhordo mundo? ... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!
(Não Sei Dançar in Libertinangem, 1930)
  .........................................................................................................
(...)
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam
[no morro atrás de casa e tinha cara de pau).
(Mulheres in Libertinagem, 1930)

Lançando mão de tudo o que a literatura universal lhe dispõe, os seus diversos caminhos poéticos nos remetem a sua versificação livre, não por acaso, que em muito comungam com a sua fuga da dor, ou ao menos, a tentativa do alívio da dor. Em muitos casos, assemelhando-se ao enfermo preso ao leito (que poderíamos pressupor o seu próprio corpo físico), que de lá tudo colhe com o olhar, não obstante, querendo não estar ali, mas lá, no lugar daqueles a quem lhe compete permitir pensar que estão em melhor lugar do que si próprio.

A mesma temática da solidão e das recordações aparece na sua obra mais amadurecida, como em Lira dos Cinquent’anos. Diferente da outra lira, a dos vinte anos, de Álvarez de Azevedo, temos um poeta romântico sim, idealista, modelando imagens em sua mente de homem que atingiu o cerne da maturidade e sabedoria adultas, não mais pela idade do que pela vivência e experiência de vidas, alguém que com a mesma ternura de toda uma vida ainda, sustentada pela preservação da meninice, da doçura da infância, se queixa dos fantasmas que o perseguem pela vida inteira.

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
(Versos de Natal in Lira dos Cinquent’anos)
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O córrego é o mesmo
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.

Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda li de mim
- Mim daqueles tempos!
(Peregrinação in Lira dos Cinquent’anos)
.........................................................................................................
A casa era por aqui...
Onde?Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.
(Velha Chácara in Lira dos Cinquent’anos)


Poderiam ser escritas obras repletas de páginas, tentando desvendar o os traços autobiográficos da obra de Manuel Bandeira, e a ponte que ele percorria entre a infância e as recordações. Enquanto, em meio aos gritos rebeldes do modernismo, despojando aquela querência de mudança, tínhamos o poeta que singelamente traçava um olhar brando para a vida. Os vestígios da obra nos permitem pensar que as recordações eram uma fuga e ao mesmo tempo um consolo, da fatalidade da doença tuberculosa à, em seguida, inevitável solidão com a morte dos queridos. Tal delineamento da solidão e da desesperança deu-lhe o costume do sofrer, e na espera da morte, aquela por quem tanto aguardou, talvez para o poeta tenha sido exatamente o tema de sua “Consoada”, talvez tenha lhe dito que o menino que o fortaleceu e manteve vivas as suas memórias, abrandaram-lhe os medos, uma vez que a “indesejada das gentes” era-lhe já a sua íntima parceira.


Referências Bibliográficas

BANDEIRA, Manuel, 2008. Manuel Bandeira de Bolso – Uma Antologia Poética. Editora LP&M Pocket, vol. 675. São Paulo.
BANDEIRA, Manuel, 1961. Manuel Bandeira, Antologia Poética, 7ª edição. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro.
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CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo, 1983. Presença da Literatura Brasileira – III Modernismo, 9ª edição. Editora Difel: São Paulo
MOISÉS, Massaud, 1971. A Literatura Brasileira Através dos Textos, 1ª edição. Editora Cultrix: São Paulo.
________________, 1996. História da Literatura Brasileira, Modernismo, 3ª edição, revista e aumentada. Editora Cultrix: São Paulo.