segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Alfabeto ou be a bá

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e o

w, k, y, ...

Bibliografia do Olhar

Caia nas profundezas da poça d'água
No mais fundo do lago
Vire à esquerda
Nade duas braçadas

pare respire pense mais forte

repare pire não há ordem

o mundo lá fora
palavra escrita solta
o som preso
o corpo preso
a alma presa

Ali está o coração

Rock in que?

O Rock in Rio está bem por aí, impossível deixar de notar, por mais que queiramos fugir do parasitismo das novidades, eles nos perseguem sejam em forma de notícias virtuais, sejam em forma de pessoas. Quanto a este problema não há muito o que se possa fazer, o complexo de Aldous Huxley da sociedade inevitável que nos perseguirá até o momento em que nos enforquemos no mais alto toco da nossa toca recôndita nas profundezas da mais densa e inabitável mata como símbolo (e talvez única opção) para libertação, ele existe. Fazer o que?

Bem, fazer o que? Eu passei os últimos dois ou três anos debruçado nessa pergunta. Fazer o que? Pensar, talvez. E às vezes pensando eu me deparo com umas coisas que não consigo deixar passar batido. Detesto incoerência de discurso. Tomar partido é perigoso por causa disso, você será sempre escravo das suas próprias palavras. Eles quem queiram, não?

Li um dia desses umas notícias reclamando que o Rock In Rio estava Pop demais, ou até mesmo, Axé demais por ser um evento tão rock. Bem, até aí faz jus, afinal um evento de Rock que propagandeia o estilo popular Rock só poderia nos oferecer nada mais do que Rock. Enfim.

Mas a lenga lenga toda é porque dentre as notícias que li por satisfação pessoal, uma delas me chamou a atenção e até me incomodou um pouco. Não me lembro quem e pouco tanto faz agora tratando-se de um jornalista (acho que era o Maurício Stycer) se queixava de uma postura anarquista (e concordo com ele, infantil) de Dinho Ouro Preto por dizer que "nenhum político é confiável", e claro, Stycer lamentou por esta declaração do roqueiro. Em seguida contestou a postura do vocalista do Red Hot Chilli Pepers por utilizar uma camiseta com a propaganda da cerveja concorrente da patrocinadora do evento. Sim, e? Bem, no fim ele disse algo do tipo: "isso é rock?"

Levando em conta que Dinho Ouro Preto é um adolescente imaturo perdido no corpo de um homem velho, e que Antony Kiedis está mais preocupado consigo mesmo do que com qualquer evento, eu me pergunto, hoje, após pouco mais de 10 anos que acompanho esse estilo: para que serve, afinal, o rock? Eu até levaria adiante e perguntaria para que serve afinal um estilo, mas aí entraria com os pés pelas mãos nos meus próprios motivos.

Pesquisando um pouco sobre a história do rock n' roll, eu me cansei por ver aquela irritante disputa etno-cultural-ideológica para quem deveríamos dar crédito ao nascimento do rock, se aos negros, aos brancos, aos estadunidenses ou aos britânicos. Mas o que afinal eu posso entender e como portanto poderia definir o rock, eu resumiria em uma única palavra: rebeldia.

A rebeldia é um clown shakesperiano, porque sua faceta depende de um contexto para ser entendido. Toda a cultura popular surge a partir da reação contra cultura dominante, cujos propósitos ambíguos e obviamente manipuladores já não conseguem mais se esconder sob a sua própria máscara. A rebeldia do rock n' roll era uma forma de protesto a uma repressão silenciosa e hipócrita da sociedade, do american way of life, quando os negros encontravam nesta cultura a única forma de expressar suas angústias pela sua repressão étnica, ou as feministas destrinchavam sua insatisfação de viverem submetidas a uma sociedade paternalista, ou quem sabe até mesmo pela hipocrisia da repressão sexual sobre a juventude. A partir deste primeiro fôlego, cabeças mais engajadas tomaram carona neste movimento e falaram da guerra, da Igreja, do Estado, da Burguesia, da Escola, dos sentimentos reprimidos, falaram em prol da juventude, a favor de uma sociedade mais justa, ou ao menos, livre, com direito a expressão e todas estas coisas das quais já estamos cansados de ouvir. Isso tudo começou por volta de 1940. Se considerarmos o rockabilly, 1930, e se considerarmos o blues e o jazz, 1890-1920. Quase 100 anos de uma cultura. A música rock exerce a mesma função que qualquer outro gênero musical criado pela comunidade humana, a de contemplação por um estilo de vida e uma maneira de se pensar.

Mas enfim, as ditaduras ruíram (dizem por aí), as meninas fazem sexo em seus quartos enquanto os pais dormem no quarto ao lado, as cruzes foram derrubadas, a polícia bate no povo mas o povo rebate, as guerras são virtuais e nem doem mais, os professores foram obrigados a mudar sua forma de pensar, a TV virou motivo de piada apesar de insistentemente existir, a informação corre por aí que nem água de esgoto, mas uma coisa que quase ninguém pensou aconteceu: aquela juventude dos anos 40, 50, 60, 70 e 80, que conseguiu sobreviver às próprias bestialidades, cresceu, envelheceu, e hoje já não é mais jovem. Colhemos com graça os frutos de suas lutas e trabalhos, tanto quanto eles colhem os frutos de suas clínicas de reabilitação e antidepressivos de uma vida que foi se tornando vazia e sem sentido.

É incoerente procurar se queixar da postura dos representantes de um estilo que por si só está falido. Não fazemos nada com a liberdade pela qual muitos lutaram, uma vez que o papel do rock está prontamente liquidado. Porque afinal a mentalidade roqueira atual baseia-se na forma neo-liberal de pensar, no prazer e satisfações individuais, e na negação pela negação, cujo objetivo final é unicamente ser diferente dos demais, e ser original em seu mundo limitado da rua de casa até a esquina do bar rock mais próximo. Está calcada numa maneira de comportar-se incoerente e sem um determinado direcionamento, cuja adoração por seus mentores faz jus apenas à uma imagem presa dos anos de glórias. O rock tornou-se insosso e contraditório, porque afinal, já não faz mais sentido enquanto seus protestos não se voltam diretamente contra uma entidade única, como nos primórdios, pois a sociedade está absolutamente fragmentada.

Falemos então do Cristianismo, que foi, por assim dizer, o rock n' roll do período romano. Quando os cristãos não aceitavam a autoridade do César, e que esta postura, juntamente a uma crise interna do império romano, somadas aos contra-ataques dos povos bárbaros, resultaram na decadência do império. Passados os anos, o Cristianismo tomou o poder e virou Catolicismo, e tudo estava voltado unicamente a influenciar o maior número de cabeças possíveis para justificar a existência de um representante do poder.

O discurso dos primeiros barulhentos da música (que roubaram claro, o estilo de música dos barulhentos africanos) era pretensioso, falso e egoísta. O rock predomina no mundo inteiro, mas a partir desse grito de rebeldia como temos contribuído para uma melhoria coletiva, como muitos procuraram gritar em suas letras? Voltemos o olhar para o Brasil; o que tem acontecido? Onde está a mudança? Vemos uma sociedade que entra em choque consigo mesma uma vez que se queixa dos moralismos sem permitir-se ser amoral (o que difere de imoral), de uma sociedade que está sempre a jogar as responsabilidades coletivas nas costas de qualquer instituição que seja, que no passado tanto negaram. A liberdade que queríamos do Estado transformou-se em preguiça, e quando queremos que algo aconteça, afinal de quem cobramos? Do Estado. Ao mesmo tempo a falta de capacidade de enxergar que a fragmentação social desestruturou a família (pilar da perfeita sociedade pensada para o século XX) também em muito justifica a falta de ação para tratar de assuntos urgentes, tais como, um direcionamento melhor para os jovens de amanhã, cujos pais jogam suas responsabilidades de dar afeto e carinho nas costas das demais instituições, fundadas por um Estado que sempre estamos tentando negar ou questionar.

Para que serve afinal o rock quando está visível que estamos todos desgastados e fartos do rock, ou simplesmente do rock como se diz rock, o estilo de viver rock? Não faz sentido querer que o rock ainda permaneça com o mesmo comportamento uma vez que a sua finalidade já está mais do que atingida. A pergunta que deveria ficar no ar é (e olha só que coisa) me veio de uma letra de pagode: o que é que eu vou fazer com essa ta liberdade?

Matheus Vieira, músico e ex-roqueiro. Ex-roqueiro porque eu sou cabeludo, tenho barba estilosa, visto roupa preta, tenho um coturno e ouço Iron Maiden, Black Sabbath e Dream Theater até sangrar os ouvidos, mas eu também gosto de Djavan, Antônio Nóbrega, O Teatro Mágico, Cartola, Tim Maia, Roupa Nova e Michael Jackson, pô!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Conscio Subciente

Borges namorou Isabelle
Foram felizes como puderam
Se amavam toda semana
Depois saíam para jantar

Entre eles havia sempre uma mesa

Depois jantavam toda a semana
E saíam para se amar
Entre eles havia sempre uma mesa

Depois saíam toda a semana
E se juntavam para jantar
Entre eles havia sempre uma mesa

Até que a mesa e nada mais era pequeno o bastante para darem as mãos

Vinte anos depois e de vida feita Borges falou
Você não mudou nada
Isabelle chorou até não poder mais morrer.

Viva diferença

Vindo todo o dia
Pela mesma alameda
Vendo o mesmo chão
O mesmo entulho no mesmo lugar
A mesma comadre contando das mesmas pessoas
E as mesmas pessoas
Diferentemente como umas as outras
E essa mesma parede azul
Chata, calma, tranquila, beirando o inferno imutável do tédio

De bocejo em bocejo eu penso uma faísca de desejo:

Essa parede podia ser laranja, só por um segundo.

O inútil

Casa de Pedra
Livro de Papel
Cadeira de Madeira
Artilharia de Quartel

O livro prescrito da medicina mundial

Caguei-o e mandei-o para os diabos disse o viajante sem pernas

Casa de Papel
Livro de Madeira
Cadeira de Quartel
Quinquilharia de Pedra

Depois disso cansou
E resolveu que sentaria no céu e deitaria no mar.

O viajante não sou eu.

Folha de árvore e de jornal

Sebastian Wissenmann sabia do Brasil por janelas
Através dos livros e das teorias
Pelas revistas e pelas opiniões jornalísticas

Queda econômica
Desastre urbano
Informação endêmica
Insatisfação diária
Poluição acadêmica.

Pro Tião Sabichão o Brasil era a mangueira
Debaixo de que aprendeu a namorar
E por causa sabia bem mais.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sem ponto sem pontuação

Poesia é uma viagem
De um lugar que não começa
Para outro que quando não termina

Entender poesia

O poeta transcreveu sentidos
Quando perguntaram o significado
O poeta mudou de assunto.

Manu de Chaplin

Vagabundo é o herói
Que vence o monstro
Que rouba a liberdade.
O mundo já é o bastante
Para os que nele vivem

Os que emparedam-se no chão
Ele é como é
Para o que carrega o espírito criança na mão
O mundo não há,
Hão.

Geniosidade

O gênio não há

Há mesmo o louco que acredita muito na sua loucura
E tantos outros que enlouqueceram com ele.

Sem gramática

Viver pode ser um verbo transitivo indireto
Cujo mesmo objeto
Vem direto da liberdade.

Viver com liberdade

Mas quem vive deste jeito
Está pouco se lixando.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Frase XVIII

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas tenho constatado que uma palavra vale mais do que mil tentativas.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um pouco amargurado, entende?

É assim, to amargurado um pouco. Hoje à tarde um colega do trabalho que eu poderia chamar de amigo não fosse o pouco tempo que passamos juntos veio me falar de como dava suas aulas, e eu que achei um pouco agressivo quando ele quis ser realista para uma turma que tem preguiça até da própria preguiça. Eu o repreendi mas no fundo eu concordo entende?

Era pra ser engraçado, mas quem vier aqui com espírito de esconder as emoções simulando com comportamentos significativos, então dá o fora. Não to mais pra isso não, entende? Cansa a mente o dissimulacro, onde nem mesmo um aperto de mão passa despercebido de uma significância. É só um aperto de mão, sacou? Só! Não é preciso que se escreva uma tese rebuscada de coisas que todos já sabem há eras da história humana.

De repente minha máscara cai também, e sabem, o que carrego por baixo dela não é bacana, não é legal. Os mais fracassados ficam com medo, rebatem com grosseria, rebatem com defesas prontas, como se fossem todos cheios de culpa pela sua indiferença diária. Mas o que tenho com isso? Chega sabe, chega dessa peça de teatro interminável.

A vida meninos, é dura, e só quem pega no batente de verdade sabe como é. Só quem não se encosta no meio do passo sabe como é. Chega de nhé nhé nhé sabe, porque o mundo não é do seu jeito perfeito. Ninguém vai te aceitar porque ninguém é obrigado a te aceitar. Danem-se as falácias milenares e da tanta gente que creu nisso, é só uma opinião pequena de um círculo de amigos de bar. Se houvesse discordância não seriam amigos, e pouco tanto faz, quando na verdade o núcleo se desprenderia se cada um fosse louvável o bastante para não ser conveniente, entende? Difícil, difícil entender isso? Pois parece quando adormeceu no meio da frase.

Gente pobre, mimada, acostumada a ser carregada nas costas, e chora quando o ventinho bate mais forte, quando tem que sair antes, quando tem que deixar pra lá, sabe? A vida não pára, mas nada é uma formula perfeita, não importa quantas músicas você escute, não importa quantas cervejas beba, não importa para que terra fuja, não existe país das maravilhas senão só pra você aqui dentro.

Mas aí eu tenho que levantar, unicamente porque penso, e devo representar no discurso o papel de quem se sente responsável por tudo e tem de carregar o mundo nas costas? Por favor queridos, não, isso não. Eu não vou carregar o mundo nas costas, eu vou apenas estender a mão. Mas vou logo avisando, o caminho é difícil, o caminho é duro. Quem quer tentar senão ao invés de ficar reclamando? Falam tanto dos antepassados, os nossos morreriam mesmo de vergonha, ou nem teriam vontade de se levantar da cama se soubessem como herdamos os o quês. Fácil, facilidade, luz demais, isso não existe sabe? É só sua ilusão pessoal da vida, e sua vontade de acreditar em tudo o que seu pai ou sua mãe não acreditam mais pra eles.

Agora dá licença, to vestindo a máscara de novo. 

E aí, curtiu o sorriso?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Teatro Mágico

Já era hora que o poeta pena
E esfalece, esmorece...
O compromisso está na palavra
E só.
Sem serviço e sem contrato
Fumo de cigarro
Álcool de bebida
Sem precisão justa ou justiça.

Escravo não é mais quem trabalha
E pede pelo pagamento
É quem paga sem desalento
E quem anda sem movimento
E quem paira sem pensamento.

Os frutos podres pendem da plantação
As idéias velhas se acorrentam ao pescoço
E morrem sem tentação.
O velho livre já livre não é mais não
Pois o livre é ciente de que é livre sem condição.

Idéias velhas pendem na cabeça
E pode passar o bonde
Ou o trem da estação
E poucos perceberão que fecharão-se as lojas
E as portas se abrirão.
Fecharão-se os cercos
E os circos se abrirão.

Quem tem medo de furacão
Ficará em casa.
Quem tem assinatura
Fechará as gavetas.
Acostumados ao lixo que estamos
Evitamos olhar para o chão
Acostumados ao espelho
Evitamos o céu
Acostumados ao céu
Vamos de avião.
E os sem asas voam
Mesmo caçando no chão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Se la vostra mente non è mai aperto a una nuova idea, non potrà mai avere una dimensione originale.

Se a tua mente nunca se abre a uma nova ideia, ela nunca terá um tamanho original.

domingo, 4 de setembro de 2011

Breno o Papagaio

Droga de poeta
Poeta meia boca da seis e meia
O sol nasce quadrado mas não no cárcere
O sol desce quadrado
Tudo é quadrado demais pra essa hora

A cerveja enfervece no copo
Estala na garganta
É seis e meia de um calor seco
Quando os cretinos botam fogo em suas tranqueiras
Tentando queimar o que ficou para trás

Somos todos desgraçados nessa seis e meia
De sexta feira de fim de semana
É o fim quando pretendo esquecer
Que ontem pularam o muro
E anteontem quebraram a vidraça
E desde o mês passado uma aranhainha discreta
       [me faz companhia debaixo da pia

Guti guti faz a gota da minha torneira
Tic tac eu ouço o relógio
Longe aqui do lado os sucessos da rádio popular
O vento mal se move com os transeuntes
Tudo isso tem cara de uma eternidade desgostosa
E tem cheiro de queimado nas minhas roupas no varal.

A batida do funk soa um blues lamentoso, sem gaita nem violão
Quando foi que Jacqueline passou por aqui?
Eram seis e dez
Sempre assim
Segunda feira a sexta oito horas quatro horas seis e dez meia noite
Canta o Breno, o Papagaio
Ela circula o quarteirão por quatorze vezes
E quando gasta a meia de algodão desce para comprar outra
Dorme e sonha com seu castelo de algodão
Pra dar mais quatorze voltas no quarteirão.

O culto oculto

Oculto a mente
Oculta a mente
O culto a mente
Óculos amante
Ó cultos amam
O cultivo avante
Ocultante amém
O culto
A mente
A carto
Amante
O culto oculta a mente oculta