quarta-feira, 8 de junho de 2011

Bullying - Parte 2

Peço licença raros leitores, para ser ao mesmo tempo informal e adentrar neste assunto tão desagradável de novo.

O meu relato não foi um desabafo com a capa de "eu sou a vítima do mundo". Acho que as pessoas não entenderam a minha intenção. Não tive idéia de por nomes numa lista negra esperando uma vingança que jamais aconteceria, por motivos extremamente lúcidos, entre eles: com a mentalidade de um adulto eu entendo que para muitas pessoas que presenciavam estas atitudes, tratava-se de inocentes brincadeiras de criança.

Outro ponto a salientar é que naquela época, no Brasil, o bullying sequer era discutido. Enquanto no exterior este problema foi diagnosticado e muito pesquisado nos 70, no Brasil, só passamos a falar de Bullying em meados dos anos 90, ou seja, na minha época de escola isso ainda sequer era assunto para debates.

E por fim, a questão que quero colocar aqui é: as marcas ficam, as pessoas não. Não me refiro àquele discurso comum do tipo: "não podemos ser amigos de todos" ou "você não vai agradar todo mundo", mas de um tipo de agressão tal que algumas pessoas ficam com a auto estima tão destruída que sequer conseguem se relacionar. Paremos de falar de mim então.

Eu me lembro de uma aluna na sétima série que por alguma razão pessoal, não falava. E eu a observei por todo aquele ano de 1998 e não vi a garota pronunciar uma palavra sequer durante o ano inteiro. Para nós, colegas dela, era algo normal o seu silêncio; para os professores era como uma dádiva, mas algo de realmente grave poderia estar acontecendo com ela, penso hoje. A tentativa de relacioná-la com o resto da turma não era motivada por parte de ninguém, nenhum dos profissionais da escola, e uma vez mais por desconhecimento de um problema que era ainda uma incógnita no nosso país.

Ou os casos que vi, que também era o meu caso, que também entra no diagnóstico, que uma pessoa que sofre bullying reage agredindo a outros colegas. Lembremos da polítca da escola de separar as turmas e desmotivar as amizades para que não atrapalhassem nas aulas. Hoje, depois que aceitamos as idéias de Paulo Freire, percebemos o quão perigoso pode ser um aluno em completo silêncio. Graças aos esforços de alguns cursos de Licenciatura, graças à revisão do sistema escolar e de tudo o que está previsto em lei (Lei de Diretrizes e Bases, por exemplo) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, o cenário vem se modificando e percebe-se uma iniciativa de eliminar o problema até mesmo por parte dos alunos.

Quando comecei a escrever este texto, ainda não tinha acontecido o caso no Rio de Janeiro, o do Wellingon Menezes de Oliveira. Qual não foi o meu espanto pela coincidência. Ao mesmo tempo, o debate sobre o Bullying tomou proporções nunca antes imaginadas, e em meio a tantas declarações inteligentes e infelizes, eu não dou crédito à reação de Wellington, ao mesmo tempo em que não consigo julgá-lo. Fico preso numa incógnita. Nada justifica um assassinato, e o ato por si só já desmerece qualquer passado sofrível. Não sou a favor de que, uma pessoa que passou por provações na vida, competentes a qualquer outro ser vivo, descarregue o seu desequilíbrio nos seus semelhantes. Não sou a favor de fatalidades, pois se dermos margens a todas que temos à disposição, digam adeus à sociedade que conhecemos. Ao mesmo tempo não consigo parar de pensar: se antes de perder a razão de si, ele tivesse a oportunidade de se tratar neste caso, o que teria sido? Será que ele teria realmente aceitado a oportunidade de se restabelecer e deixar para trás o que disse que sofreu? Não cabe a mim dizer, mas a reação final não é a que eu espero de uma pessoa digna, por isso não sou a favor de Wellington Menezes.

No outro texto eu mencionei algumas pessoas que fizeram parte da minha vida. Foram tantas, e me entristece não poder lembrar de todos, mas de alguma forma elas me marcaram. Anos se passaram e eu pude relembrar da maioria, e de todo o mal, quando foi que de repente me dei conta: não foi só isso, houve momentos bons também, lembro de momentos divertidos. O meu problema não era eles, mas eu mesmo, e a dificuldade de lidar com isso. Já faz anos que abandonei a máscara de vítima, e foi assim que aprendi a enfrentar os problemas. Se eu pudesse dar a todos esta fórmula de aliviar os venenos do rancor e olhar para as mesmas pessoas, anos depois, e dizer a elas que tudo bem, não sabíamos direito o que estava se passando, só queríamos que batesse o sinal das onze e meia para irmos pra casa. Só queríamos viver a vida intensamente conforme nos diziam a TV, as revistas Teen, os filmes norte-americanos. Só queríamos ser felizes, no meio de tanta opressão escolar, social, patriarcal, etc.

A criança tem dessas coisas, esse anseio por crescer e se livrar do adulto que esqueceu o que era ser criança. Eu me lembro sim, tenho ótima memória para muitas coisas, péssima para outras, mas bom entendimento para as questões fundamentais da vida: amor, amizade, respeito, honestidade, dignidade. Mesmo na idade adulta, somos todos crianças perdidas e assustadas com a incerteza do futuro, e que caia no chão agora aquele que dizer que não é. O mais seguro de si mesmo é o mais derrotado dos homens, mal sabe que o maior perigo da vida é simplesmente estar vivo. Somos sensíveis e frágeis, ao toque do mais ínfimo mosquito caímos de cama.

E como todos os seres humanos, eu tenho sérios problemas, enfrento e enfrentarei sempre, problemas de múltiplas naturezas. Cada escolha nos abre a infinita possibilidade de problemas a serem resolvidos. Não fossem os dragões a derrotar, não levantaríamos da cama. O homem flerta com os problemas, porque a curiosidade é o nosso estigma eterno, isso não é novidade para ninguém. Não fossem os meus sérios problemas e todos os anos de reflexão acerca deles, eu jamais teria amadurecido e tido coragem de escrever este texto diretamente àqueles que um dia eu pensei serem os culpados por eu mesmo. Estou aqui assumindo que não só eles, eu também, como toda a sociedade negligente.

Mais uma vez, minhas intenções são dizer que, caros ex-colegas e ex-professores, não permitam que isso aconteça. Atentem-se aos seus filhos e alunos. Extraindo grosseiramente uma passagem bíblica: Deus diz que não seremos julgados em nossa ignorância, portanto, independente da crença, vale a metáfora: sabendo do problema e de suas prováveis consequências, saibamos lidar com isso de forma sábia. Liberdade com respeito, porém respeito sem autoritarismo. Não quero tecer fórmulas, não sou uma pessoa pretensiosa, quero apenas, uma vez mais, deixar o alerta, e nesse novo texto, esclarecer o anterior que ficou repleto de mágoas, dizendo que as mágoas que tenho hoje são decorrentes de outros problemas que apenas o homem ensimesmado pode entender.

Obrigado a todos que se propuseram a ler e ao menos repensar a questão. Sinceramente, sem rancores. Só desejo que a vida um dia me dê a chance de poder abraçar a todos aqueles de quem sinto tantas saudades.

Matheus Araújo Vieira, ex-aluno da Escola São Vicente de Paulo, ousando por aí ser músico, filósofo, poeta, ensaísta, crítico literário, e desesperadamente fugindo do cárcere das corporações.

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