sexta-feira, 24 de junho de 2011

Saudade

Meu coração não é meu
Está em toda parte dos caminhos que andei.
Cada um carrega um pouco do que é seu.

E como parte do que foi despedaçado,
aquele com meu zelo está guardado,
Pois tudo o que vivi de cada é preservado.

E há aqueles quem sem aviso me roubaram
Sua parte ditatória vontade,
Pra que causasse a dor que nos separam.

Mas tal dor que se descreve em meu peito,
É o amor que agora tem seu leito,
Nas lembranças do pobre dilacerado.

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Composição de 08/07/2007 - Embora as pessoas que o inspiraram não mais mereçam o que aqui foi descrito...

Princesa de Minas Gerais

Laranja sem metade apodrece mais rápido
Por isso não sou nada sem você
Menina da minha vida que me tira do travesseiro
Para pensar em você.

Metade sou eu metade você.

Espreme laranja e faz o suco sem
metade de mim que sem você me faz
Sensível.

Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

"Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Tenho todos os motivos menos um de ser triste. Mas o cálculo das probalidades é uma pilhéria... Abaixo Amiel! E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff."*

Já dizia o poeta. Qual é então o motivo da minha tuberculose? Qual é então, o às vezes que me persegue, retorcendo o bem estar? A ferida que não cicatriza, as marcas da autoflagelação. O acesso ao voluntário sofrimento e horror. Se fosse um aleijado de pernas, não andaria. Maria Bashkirtseff ficou famosa por sua profunda tristeza e pelo relato fiel de sua miséria tão comovente e semelhante. Seremos todos cadáveres vivos?


Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

Uma estrela
Duas estrelas
Cinco estrelas
Dez estrelas
É de manhã
Ainda teimo em contar estrelas.

Um peixe
Dois peixes
Cinco peixes
Dez peixes
No aquário do restaurante de frutos do mar
Teimo que estou no Oceano.

Uma ave
Duas aves
Cinco aves
Dez aves
Faço uma oração
Aves de cozinha não voam.

Uma pílula
Duas pílulas
Cinco pílulas
Nenhuma vida
No sono que não vem
Na noite que vai e vem
No dia que insiste em não brilhar.
Uma hora
Duas horas
Cinco Horas
Dez Horas
Uma dança tão longe de me arrebatar

E de repente, uma alegria fugaz.
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*Manuel Bandeira, poema Não Sei Dançar do livro Libertinagem

Do câncer da minha alma

Eu navego de foto em foto, de fato em fato, sedento por um espaço naquela brecha, naquele local. Deus do céu, quanto é preciso para que um homem enlouqueça de solidão ou de saudades? Ou como se chama mesmo aquele sentimento obscuro de uma saudade dos lugares que não estivemos.

Fotos antigas dos amigos... não mesmo, elas estão todas presas na minha memória. Estas fotos senhores, elas não existem. Pouca diferença faz aquilo que pensamos, ou o que sentimos. Tanto faz os pensamentos profundos quando na verdade queremos só esquecer de todo esse lixo que é a vida. Voamos como urubus de podridão em podridão, é assim mesmo ciscando, nestes tempos de incertezas, procurando os nossos pedaços.

Ah Deus, há quanto tempo abandonamos os aconchegos de nossos corações e caímos no conto mal falado das ilusões? Inteligência, beleza, carisma, tudo sem provas, para que precisamos delas? Eu só gostaria de saber o quanto alguém precisa de mim sem que eu precisasse provar a minha qualidade ou utilidade. Quem já soube se sentir assim, frágil, rendido aos sentimentos mais desavergonhados, de admitir uma derrota tão frêmita, de braços arreganhados, de pernas arreganhadas, sem vergonha de molhar o travesseiro pra abafar o  choro do tanto que temos vergonha?

A muralha mais pretensa e forte é ao mesmo tempo a muralha mais esquecida. Ah soberba inútil e desnecessária, ah verborragia falida, tudo isso só esconde uma coisa: fraqueza. Por trás dos óculos, das lentes, ou até mesmo da maquiagem exagerada só é possível perceber com sutileza os gritos desarranjados por socorro.

Não uso óculos, nem lentes, pois meus olhos azuis são autênticos, tão pouco uso maquiagem. O que esconde a minha pretensão então? Um discurso fajuto, cheio de palavras redondas, dicionarizadas, perdidas no além, no inconsciente, perdidas no ar? Um arranjo de palavras bem ordenadas mas que pouco sentido faz, um desapego pelo caráter, pela dignidade, um prolixo desabafo, cheio de uma dissonância intensa? Cores fortes, primárias, firmes, vivas, querendo esconder o branco da tela, da moldura? Uma forma esculpida naquilo que foi apenas um pedaço ignorado de pedra, de gesso, ou um gesso que antes foi só cal, pó, água, nada mais de considerável até prender a nossa atenção no inútil desnecessário, no esconderijo, numa busca por definição? Uma falsa arte cheia de perguntas, cheia de teorias, cheia de tentativas de investigação pelo óbvio, pelo pouco suspeitoso?

Sinto saudades dos tempos que nunca tive, que nunca busquei, que nunca percebi, assim como percebo hoje (e como dói oh santo Deus) que poderia ter feito.

Quantas saudades dos meus amigos que estão por aí.

Não sou obrigado a querer água

Sou jovem demais para algumas coisas que andei descobrindo nesta vida. Sou jovem demais, talvez, para viver sob verdades absolutas. Entretanto, a filosofia teimosa, por mais que ela insista, não consegue me convencer plenamente de que ao menos algumas não sejam, absolutas, eu quero dizer.

"A vida é feita de escolhas."

Está aí uma delas. Coloco entre aspas porque é uma frase que mesmo o mais sábio dos mais tolos conheceria. Entretanto o processo estupidificação dos nossos valores mais profundos está tão avançado que é lamentável, mas hoje em dia só podemos dialogar a partir do mais óbvio. O mais óbvio neste caso seria aquilo que eu acredito como o pensamento fundamental.

Não tem nada a ver com valores pessoais, não tem nada a ver com as nossas crenças, mas as escolhas, elas sim fazem o que nós somos realmente. Esta noite saí da casa dos meus pais e prestei bem atenção naquele olhar da minha mãe e da minha irmã. Reparei bem na voz preocupada do meu pai, por causa do horário: "Filho, durma aqui, é perigoso pra você ir embora a esta hora da noite...".

Só entende de verdade o que é o amor quem se sente comovido pelo olhar da mãe que olha o filho indo embora daquela casa que outrora foi também o seu lar. Eu não sei exatamente, mas eu entendo que o amor de mãe é o amor mais verdadeiro. Quer um amor de verdade? Procure aquele amor exatamente como foi o de sua mãe. Eis aí uma outra verdade.

Aos homens práticos, a mãe é a nossa criação. O que seria a mãe, a idealização da mãe, e toda a preocupação que nós sabemos que vem do coração mais puro que conhecemos em nossas vidas, nele está o amor verdadeiro. Mas rodopiamos na nossa própria perdição, e maldizemos estes contos de fadas, às vezes, porque não acreditamos que outra pessoa possa nos amar como nos amou a nossa mãe.

Bem, amor não é regado por orgulho, e se a vida é feita de escolhas, é porque a nossa mãe que nos ama escolheu assim. Amor não é mágica, é escolha de atitudes. O amor existe, o que não existe é o nosso passo atrás pelos nossas mudanças de atitudes, de abrir mão de qualquer que seja desta nossa convicção mesquinha e pouco sabida de vida, para exprimir o sorriso de aconchego e bem estar da pessoa amada.

Se uma coisa eu sempre pude aprender cedo é mais esta verdade. Mas aos seres práticos, esta explicação nunca é a suficiente. A única forma de saber é tirar a prova. Os que negam o amor são aqueles que escolhem por não tê-lo ou recebê-lo, portanto, o amor não depende das atitudes de outra pessoa. Podemos amá-las com a maior pureza das nossas escolhas e atitudes, ainda que nossa mente esteja nos questionando da necessidade disso.

Escolhemos os atos exarcebados de uma inteligência fútil, uma inteligência que está no estande de uma vitrina, reluzida pela falta de filosofia dos que por tão pouco se deixam impressionar, mas isso é ralo, muito ralo. Inteligência de verdade é adotar as escolhas certas. Sofrer por sofrer, ninguém é responsável, pois daqueles que se metem a afirmar uma autonomia, eles escolhem por isso também.

Quem tem a coragem de, num mundo tão cheio de incertezas, entregar-se a essa cortina oculta e decidir abrir mão de si para amar um pouco a alguém? Poderiam negar a necessidade, já certos de que estariam ao mesmo tempo optando por uma vida vazia e solitária. A culpa não é dos sentimentos, mas do nosso próprio orgulho.

Quem se atreve?

Não sou o dono da verdade, sou apenas alguém que não teme compartilhar o que aprendeu.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Bullying - Parte 2

Peço licença raros leitores, para ser ao mesmo tempo informal e adentrar neste assunto tão desagradável de novo.

O meu relato não foi um desabafo com a capa de "eu sou a vítima do mundo". Acho que as pessoas não entenderam a minha intenção. Não tive idéia de por nomes numa lista negra esperando uma vingança que jamais aconteceria, por motivos extremamente lúcidos, entre eles: com a mentalidade de um adulto eu entendo que para muitas pessoas que presenciavam estas atitudes, tratava-se de inocentes brincadeiras de criança.

Outro ponto a salientar é que naquela época, no Brasil, o bullying sequer era discutido. Enquanto no exterior este problema foi diagnosticado e muito pesquisado nos 70, no Brasil, só passamos a falar de Bullying em meados dos anos 90, ou seja, na minha época de escola isso ainda sequer era assunto para debates.

E por fim, a questão que quero colocar aqui é: as marcas ficam, as pessoas não. Não me refiro àquele discurso comum do tipo: "não podemos ser amigos de todos" ou "você não vai agradar todo mundo", mas de um tipo de agressão tal que algumas pessoas ficam com a auto estima tão destruída que sequer conseguem se relacionar. Paremos de falar de mim então.

Eu me lembro de uma aluna na sétima série que por alguma razão pessoal, não falava. E eu a observei por todo aquele ano de 1998 e não vi a garota pronunciar uma palavra sequer durante o ano inteiro. Para nós, colegas dela, era algo normal o seu silêncio; para os professores era como uma dádiva, mas algo de realmente grave poderia estar acontecendo com ela, penso hoje. A tentativa de relacioná-la com o resto da turma não era motivada por parte de ninguém, nenhum dos profissionais da escola, e uma vez mais por desconhecimento de um problema que era ainda uma incógnita no nosso país.

Ou os casos que vi, que também era o meu caso, que também entra no diagnóstico, que uma pessoa que sofre bullying reage agredindo a outros colegas. Lembremos da polítca da escola de separar as turmas e desmotivar as amizades para que não atrapalhassem nas aulas. Hoje, depois que aceitamos as idéias de Paulo Freire, percebemos o quão perigoso pode ser um aluno em completo silêncio. Graças aos esforços de alguns cursos de Licenciatura, graças à revisão do sistema escolar e de tudo o que está previsto em lei (Lei de Diretrizes e Bases, por exemplo) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, o cenário vem se modificando e percebe-se uma iniciativa de eliminar o problema até mesmo por parte dos alunos.

Quando comecei a escrever este texto, ainda não tinha acontecido o caso no Rio de Janeiro, o do Wellingon Menezes de Oliveira. Qual não foi o meu espanto pela coincidência. Ao mesmo tempo, o debate sobre o Bullying tomou proporções nunca antes imaginadas, e em meio a tantas declarações inteligentes e infelizes, eu não dou crédito à reação de Wellington, ao mesmo tempo em que não consigo julgá-lo. Fico preso numa incógnita. Nada justifica um assassinato, e o ato por si só já desmerece qualquer passado sofrível. Não sou a favor de que, uma pessoa que passou por provações na vida, competentes a qualquer outro ser vivo, descarregue o seu desequilíbrio nos seus semelhantes. Não sou a favor de fatalidades, pois se dermos margens a todas que temos à disposição, digam adeus à sociedade que conhecemos. Ao mesmo tempo não consigo parar de pensar: se antes de perder a razão de si, ele tivesse a oportunidade de se tratar neste caso, o que teria sido? Será que ele teria realmente aceitado a oportunidade de se restabelecer e deixar para trás o que disse que sofreu? Não cabe a mim dizer, mas a reação final não é a que eu espero de uma pessoa digna, por isso não sou a favor de Wellington Menezes.

No outro texto eu mencionei algumas pessoas que fizeram parte da minha vida. Foram tantas, e me entristece não poder lembrar de todos, mas de alguma forma elas me marcaram. Anos se passaram e eu pude relembrar da maioria, e de todo o mal, quando foi que de repente me dei conta: não foi só isso, houve momentos bons também, lembro de momentos divertidos. O meu problema não era eles, mas eu mesmo, e a dificuldade de lidar com isso. Já faz anos que abandonei a máscara de vítima, e foi assim que aprendi a enfrentar os problemas. Se eu pudesse dar a todos esta fórmula de aliviar os venenos do rancor e olhar para as mesmas pessoas, anos depois, e dizer a elas que tudo bem, não sabíamos direito o que estava se passando, só queríamos que batesse o sinal das onze e meia para irmos pra casa. Só queríamos viver a vida intensamente conforme nos diziam a TV, as revistas Teen, os filmes norte-americanos. Só queríamos ser felizes, no meio de tanta opressão escolar, social, patriarcal, etc.

A criança tem dessas coisas, esse anseio por crescer e se livrar do adulto que esqueceu o que era ser criança. Eu me lembro sim, tenho ótima memória para muitas coisas, péssima para outras, mas bom entendimento para as questões fundamentais da vida: amor, amizade, respeito, honestidade, dignidade. Mesmo na idade adulta, somos todos crianças perdidas e assustadas com a incerteza do futuro, e que caia no chão agora aquele que dizer que não é. O mais seguro de si mesmo é o mais derrotado dos homens, mal sabe que o maior perigo da vida é simplesmente estar vivo. Somos sensíveis e frágeis, ao toque do mais ínfimo mosquito caímos de cama.

E como todos os seres humanos, eu tenho sérios problemas, enfrento e enfrentarei sempre, problemas de múltiplas naturezas. Cada escolha nos abre a infinita possibilidade de problemas a serem resolvidos. Não fossem os dragões a derrotar, não levantaríamos da cama. O homem flerta com os problemas, porque a curiosidade é o nosso estigma eterno, isso não é novidade para ninguém. Não fossem os meus sérios problemas e todos os anos de reflexão acerca deles, eu jamais teria amadurecido e tido coragem de escrever este texto diretamente àqueles que um dia eu pensei serem os culpados por eu mesmo. Estou aqui assumindo que não só eles, eu também, como toda a sociedade negligente.

Mais uma vez, minhas intenções são dizer que, caros ex-colegas e ex-professores, não permitam que isso aconteça. Atentem-se aos seus filhos e alunos. Extraindo grosseiramente uma passagem bíblica: Deus diz que não seremos julgados em nossa ignorância, portanto, independente da crença, vale a metáfora: sabendo do problema e de suas prováveis consequências, saibamos lidar com isso de forma sábia. Liberdade com respeito, porém respeito sem autoritarismo. Não quero tecer fórmulas, não sou uma pessoa pretensiosa, quero apenas, uma vez mais, deixar o alerta, e nesse novo texto, esclarecer o anterior que ficou repleto de mágoas, dizendo que as mágoas que tenho hoje são decorrentes de outros problemas que apenas o homem ensimesmado pode entender.

Obrigado a todos que se propuseram a ler e ao menos repensar a questão. Sinceramente, sem rancores. Só desejo que a vida um dia me dê a chance de poder abraçar a todos aqueles de quem sinto tantas saudades.

Matheus Araújo Vieira, ex-aluno da Escola São Vicente de Paulo, ousando por aí ser músico, filósofo, poeta, ensaísta, crítico literário, e desesperadamente fugindo do cárcere das corporações.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Esfinge

Calçadas de passear
Calçadas de atravessar daqui para lá
Um prédio
Muitos prédios
Uma placa
Muitas placas
Carros, motos, pernas e bicicletas
Pessoas passam diante das lojas
Pessoas param diante das lojas 
Passeios param diante de pessoas
Paradas diante das calçadas
As vitrines observam 
As câmeras registram
E a penumbra do excesso diz-nos no fundo do consciente:
Decifra-nos, ou devora-te a ti mesmo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Contra a "Bundamolização" da Crítica

Aqueles que acessam a internet, e que acessam notícias jornalísticas, e também que acessam, especificamente, ao portal de notícias Yahoo, e que acessam as colunas de crítica musical, e por fim, acessam (ufa...) a coluna crítica de Régis Tadeu, talvez tivessem sido brindados na semana passada com o seu artigo sobre A Banda Mais Bonita da Cidade.

Bem, antes de começar a escancará-la, gostaria de fazer uma pausa para voltar no tempo da minha própria vida. Graças aos desgraçados amantes da dúvida, que pouco se conformam em aceitar como definitiva a sugestão das teorias ilustres dos mais destacados gênios do país, eu criei este mal hábito de discordar, especialmente quando me deparo com uma avalanche de obscuridades à razão do atual momento da inteligência brasileira. Acabou a pausa, agora de volta ao artigo.

O que me dá a vantagem de poder falar livremente sobre a crítica de Régis Tadeu é que, em primeiro lugar, eu não sei quem é Régis Tadeu. Não sei o que ele fez da vida para ser Régis Tadeu, e pouco sei também o que ou quem criou Régis Tadeu. Segundo ponto, eu não sei quem é A Banda Mais Bonita da Cidade, e não fosse a sugestão do próprio articulista, eu jamais teria conhecimento de que "o coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa" ou algo parecido com isso.

Por que isso me dá uma vantagem? Oras, eu estou imune aos possíveis comentários reacionários e passionais do tipo: "quem é você, um merdinha, para falar do Régis Tadeu, um cara que foi..." blá blá blá. Ou "você defende essa bandinha mais bonitinha da cidade aí, mas se conhecesse a banda tal dos anos tal (...) porque na minha época tal..." blá blá blá. Então que esteja claro que não é uma defesa direta a A Banda Mais Bonita da Cidade, mas sim, à liberdade de expressão cultural, além de uma defesa a outros conceitos a que estão ligados este grupo, juntamente com os seus (segundo Régis Tadeu) pares: Mallu Magalhães, Los Hermanos, etc.

No artigo ele menciona a possível carência afetiva dos ouvintes da banda. Sim, oras, o país está carente, apenas um cego preso num universo pequeno não enxergaria isso. O Brasil passa por um momento de crise de identidade que já dura algum tempo, ao tentar entender as suas raízes e origens numa nação de antepassados diversos. Esta crise de identidade e busca pelo passado revela-se naquilo que esperamos do futuro, e nas nossas escolhas de, negar ou aceitar o país como ele é. Temos dificuldade em adotar um rumo único para o nosso futuro por não sabermos exatamente o que é e do que se compõe o nosso passado. Isso explicaria, talvez, como num país tão rico, cuja cultura natural é repleta de valores que estão fortemente ligados à nossa história de verdade, permita-se adentrar e estacionar por aí, os valores culturais de outros países, especialmente dos Estados Unidos e Inglaterra.

Eu não entendo a crítica de Régis Tadeu, ao falar de uma banda que, obviamente, tem uma proposta artística, e já pressupondo dos integrantes alguma bagagem cultural, mencionar que o Ministério da Educação permitiu livros com erros de português. Essa afirmação já dá-se por perdido o crédito do articulista ao se permitir acreditar no que quer que seja que os jornais tagarelem por aí, uma vez que a polêmica do livro didático envolve intuitos meramente políticos de destruição e chacoteação do universo popular. Lembro-me que em certa entrevista, Mallu Magalhães que acredito hoje ter pelos seus 19 a 20 anos, citou Bertrand Russel. Oras, veja aí a incoerência da crítica a esse tipo de música que vem surgindo: uma menina de 20 e poucos anos citando Bertrand Russel, filósofo inglês, espera-se alguém que tenha no mínimo o hábito da leitura. Se estamos num país carente, e tomando por ícones essa nova juventude que usa a sua rebeldia para consumir cultura, ao invés de drogas, por que, afinal, a crítica e a depredação uma vez que os intuitos de expor a sua inteligência e o seu conhecimento é a finalidade do artista? O que queremos então para a nossa juventude? Por que bundas-moles as pessoas que traduzem toda a complexidade do nosso país para mensagens simples, daquilo que sim, realmente as pessoas estão precisando ouvir. Por que a censura àqueles que gostam da cultura e influenciam para a cultura. Não é a falta de cultura que somos constantemente julgados? O que é a cultura afinal? Parem de falar mal da cultura! Parem de falar da cultura má!

Eu passo pelos bares próximos às faculdades particulares, próximos também à qualquer esquina. Na verdade eu passo em qualquer bar ou qualquer estabelecimento ou em qualquer lugar, e falta amor, falta coração, falta um pouco de humanização numa sociedade que está cega para si própria e indiferente para a carência alheia. Estamos numa geração de mães solteiras que, sob a censura da família para falar do sexo, acabam precipitando-se nas curiosidades. Ou, dos filhos de pais que duramente exigem uma perspectiva do futuro, num país em que temos cada vez mais shoppings centers, e cada vez menos livrarias, vendo estes mesmos filhos que se refugiam na auto destruição de suas vidas. Se esta carência pela família conservadora que não fala, não ouve e não vê, puder ser substituída pela doce mensagem d'A Banda Mais Bonita da Cidade, então que seja, porque sim, estamos carentes, e carentes até mesmo de uma visão mais humana e sentimental, e menos imbecil e pomposa do que ficar simplesmente julgando um ato por não ser aquilo que esperamos que seja. Estamos carentes de ser ouvidos de verdade sem precisar receber a censura mediada por um conservadorismo falido.

O que aparenta nesta crítica deste Régis Tadeu é a tentativa de ocultar a sua verdadeira indignação, a de, quem sabe, envelhecer, e não poder nunca mais desfrutar realmente dos verdes e doces anos da juventude. Juventude que a seu modo, põe para fora (garantido por direitos constitucionais) aquilo que enxergam estar precisando, eles mesmos e seus semelhantes. Régis Tadeu e todos estes críticos de última hora, que deixam extrapoladas a sua insatisfação meramente por uma questão de gosto particular, não esclarecem de uma vez por todas o que exatamente eles esperam da cultura, da educação, da política do país. Eles destroem o vaso porque não o gostam, mas não repõe porque não o sabem.

Aquieles Priester, um exímio baterista, prestou vestibular no Dream Theater e tomou bomba. O Brasil, o pai conservador, parece não aceitar isso. Por que o Dream Theater virou padrão de qualidade da música? Por que o Aquiles Priester de repente deixou de ser um bom baterista apenas por um fracasso? Por que Mallu Magalhães não pode cantar, mesmo com a sua voz doce, mais doce que o doce de batata doce? Por que afinal, Fernando Anitelli não pode se pintar de clown e atuar enquanto canta e poetisa? Quem estamos aguardando então? Caetano e Chico descobrirem a fonte da juventude? Ou talvez o ressucitamento de John Lennon e Jimi Hendrix? O que há de errado com a música de origem minimalista, tal como as belas melodias de um tal de Yann Tiersen, influenciado fortemente por Claude Debussy?

Um brasileiro digno de ser chamado de brasileiro, lúcido, que amava ao seu país embora fosse cético quanto ao seu futuro político, disse: o escritor tem que ser homem do seu tempo e de seu país. Quem era esse brasileiro? Machado de Assis. Emprestando o aforismo e substituindo escritor por artista, Mallu Magalhães, Fernando Anitelli e a Banda Mais Bonita da Cidade perceberam que a população (inclusive aquela que não usa a internet) está carente de mensagens mais simples, cansados da complexidade dos cursos pré-vestibulares e das teses de Mestrado e Doutorado que só nos servem para enfeitar paredes. Não é de títulos que o Brasil precisa, mas sim de mais amor e fé na sua população. Arrisco dizer isso, na minha humildade como alguém que não é pago para escrever, muito menos para pensar. Na verdade, eis a grande diferença entre mim e os demais críticos: eu tenho a liberdade para pensar de graça.

Mas a nossa mentalidade nacional é formada por pessoas velhas, caquéticas, há anos tomando conta dos espaços de mídia, e pouco se lixando para a mentalidade da juventude. Tal crítica vejo eu como absolutamente reacionária, uma vez que se fica aquele sentimento de raiva de não poder submeter ao controle uma juventude que cada vez mais ganha asas. Se os nossos pais não nos ensinam, voaremos então sozinhos, da maneira que melhor nos acomode.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Diafonia

Não à taciturna voz dos poetas em decadência
Não ao discurso com começo, meio e fim
Não ao passado memorial contemplado pelos fiéis da dor
Não aos deuses que como tributo ao sofrimento pedem-nos mais sofrimento

Não à negação dos que não devem ser negados
E que pedem como exemplo

O da pessoa de olhar profundamente triste que todos os dias bebe um café de padaria
[apenas para ter a sensação do riso fácil do funcionário que foi treinado a rir para as pessoas.

O que telefona para o serviço de atendimento e pede socorro.
O que dirige ao trânsito, caçando olhares no congestionamento.
O que vai ao parque de imaginações e joga migalhas aos que por ali passam.
Que adquire sobrecasacas de brechó e sente o aconchego familiar de outrém.
O daquele que parece louco, por conversar com plantas ou animais.
Os que não querem abandonar as camas dos hospitais pelo medo das salas vazias
O que passa horas no escritório para passar as horas de ficar em casa.

Não ao poema repleto de subjetividade.
A roda aqui é uma roda
O fogo aqui é o fogo
E o sexo é sexo
O amor aqui não me pertence
E o rancor subliminar não está nas frases frias e sem contexto
- Não me interessa mais. Não me fale mais. Não me venha mais.

Não (oh Deus!) às amizades por insistência!
Aos pedintes emocionais, cuja esmola não se estende a mão!
Não (oh Deus do céu) àqueles que pouco se deram do tanto que receberam
Não às revoltas juvenis da perda imatura dos momentos celestiais!
Quantas dores sente uma serpente para trocar de pele e se ver nova serpente!

Quantos exércitos, Deus, quantos exércitos?
Todos os exércitos
Nenhum exército
Um único exército
Novos exércitos.

Quantas flechas em nome de Deus Pai todo Poderoso
Contra o Filho do Espírito Santo Amém.

Não ao rancor desfalecido pela não aceitação
Não às lágrimas solitárias e a este pensamento filosófico:
- Uma árvore faz um baque no meio do nada, e se não houver alguém para ouvir fará
[barulho?
- Um homem faz barulho no meio do nada, e se estiver sozinho, ele existe?

Não àquele sentimento que faz parecer tudo tão maior e grandioso!
Não aos pontos de exclamação sem vergonhas que só fazem pontuar algo abstrato!
Não ao...
... falta ar...
... fôlego...
... fal... ar...

Não a eternização do desastre individual
Não à solidão eterna em meio ao vendaval
Homem ao mar e peixes.
No excesso de pensamentos da selvageria moderna
Que caça à sua caça na autoflagelação da razão.

Não às artes da reflexão sombria sobre um futuro que pode não ser.
Não ao estar em sombras no meio do deserto, refletido na majestade solar.
Modernas civilizações na pré-história do julgamento pessoal
Ao amargo sabor da ciência medicinal que me dá mais uns anos de respiração
E aos motivos que fazem descrer da cor
Não a negação de tudo aquilo que sempre rejeitei
E que não aceita a liberdade do ser, cuja prisão permanece nos olhares de quem não nos olham.

Não àquilo que não se conclui
Para o surgimento de um novo ser.