quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Onça do Kayapó

Seu primeiro acróstico amor meu!

Kayapozinho acredita na onça
Acendeu o fogo pra sentir o calor
Raspou nas pernas a tigela do urucum
Inventou umas redes para se deitar
Ninando o sono da Cuiatã
Abrindo o lábio em sonho apaixonado.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ode ao Mundo

I
Ponto
Onde toda história tem começo
Num só ponto.
Uma história
É igual a um
Monte
De pontos
Desordenadamente
Diferentes.

II
Não tenho olhos ou olhar
Ou não tenho ouvidos
Ou não tenho amigos?
Carrego o sobrepeso
Desta incansável dieta
O peso sobressalente
Do peso sobrevalente
Mundo
Saida das minhas costas!
A mim não me pertences
Com toda sua extensão
E todo o seu mundo.

III
Quando Cabral descobriu
Sozinho as terras distantes de além mar
A sua descoberta marcou
Ponto.
A história de Cabral
Não é a minha história.
Mundo vá viver a sua vida
E saia do meu carro de carga
Que comprei
Em liquidação
De carregar o meu sobrepeso.

IV
Entenda, mundo!
Deixa eu sorrir meu sorriso
E chorar o meu choro
Mundo...
Cheirar alecrim
E sem perder a sanidade
Querer que seja o bicarbonato
Mas com nome de sal de praia
E sabor de areia de conetelação.

V
Estrelas, estrelinhas
Contem nossos sonhos
Sem contermos
Novas estrelas
Que não seja o planeta
Necessário de ser mundo
E que ele escolha ter sua própria Alma
Mundo!

VI
Morro para a plena libertação.
Quão invejosos ainda seremos
Dos mortos.
Eles não cumpriram os seus papéis
Nós cumprimos os seus papéis.
Lhes demos um céu
E um inferno
E uma sepultura
Com lápide e cruz
Ou sem nada.
Mas dela não teremos controle
Pois a sua própria sorte faz a morte
Sorteia seus pontos...
E este ponto
Do não ser e do não existir
E cujos verbos após este
Desconhecemos
Não nos dá queixa
Deixemos os mortos morrerem
Mundo!
Não pisamos em beleza
Pisamos em cemitérios
E comerciamos os restos milenares
De nossos mortos
E com mortos financiamos a vida.

VII
Todo medo que temos
É o medo da escuridão
E toda a luz de esperança
É um desejo por iluminação.

VIII
Mundo, cretino
Desavergonhado!
Que seja seu
Apenas aquilo
Que é do homem.
Esta tua geografia turbulenta
Que com um orgasmo
O riso transforma-se em pranto.

IX
Nós só negamos, mundo
O que não queremos entender
E se não faz-se luz diante dos fatos
Não há fato de existir.

X
Meta a física
Fora da poesia
Pulam corações de homens
E de mulheres
Todos estes animais
Que se chamam poesias.
E pouco importa como começou
O nascimento novo é
O novo nascimento
Por isso pare o trem.
Por isso pularei do trem
E serei a minha própria poesia!

XI
Me deixa aqui
Mundo!
Não separe de mim
O que mim não separa.

XII
Quantos olhos podres
Podres de tanto olhar
Olham para o céu
Sem que possam ver um mar?
O peixe no céu?
Peixes podem voar.
Oh anjos do céu,
Como anseio por vossas trombetas.
Sempre que se abrem as nuvens no céu
E o Sol radiante queima-me o deserto
Meu coração se angustia
E devoro pedras
Querendo-as serem pães
Para adoecer e apodrecer
Parecer até o novo nascimento.

XIII
Quantos olhos podres
Podres de tanto olhar
Olham para o mar
E só conseguem ver o mar?

XIV
Quantos lençóis podres
Podres de tanto amar
Embolam-se pelo chão...

XV
Amor não vá
Porquanto o mundo aí está
De braços abertos para te levar
Não vá amor
Não vá!

XVI
Este corpo intenso
Teus braços fortes
Teus seios rijos
Tuas pernas fortes
O mundo aí está
Meu coração está podre
E meus olhos ardem por pedir
Amor,
Não vá amor,
Não vá!

XVII
Quando marquei um ponto em meu coração
Pensei que meu amor fosse voltar
Voltou Cabral
Caminha
Camões
Camorras
Mas meu amor não voltou
Neste mundo novo mundo.

XVIII
E estas palavras todas a quê?
A fim de livrar-me
Destas enxaquecas
Destes gestos cancerígenos
Destes ohs e ahs embalados
Por drinks baratos
E fumaças de cigarros?
Para soltar os arreios
Deste mundo que carrego
Voluntariamente?

XIX
Encontrei um grande pasto
Para descansar
Tem mato verdinho
O vento é fresco, vacilante
Tem árvorezinha
Aqui e ali
Tem boi e tem vaquinha
Aqui e ali
Mas ai!
É fruto da imaginação.

XX
Encontrei um grande fruto
Para alimentar.
Sua casca é vermelha
O perfume é inebriante
Tem pequenas manchinhas
Aqui e ali
Tem polpa macia
Aqui e ali
Mas não tenho mãos
Para alcançar.

XXI
O grande peregrino
Um dia me ensinou
Se está frio
Se está escuro
Procure a luz
Mesmo no obscuro
Lá chegando encontrará um homem bom
Derramando de um cântaro
Água no chão
E lavará teus pés
E lavará tuas feridas
E terás roupas frescas
E um pasto verde
Para descansar
E uma fruta madura
Para comer.
Disso nada sei
Mas se a ciência me dá certeza do mundo melhor
Quero o meu abraço
Provado por cálculos matemáticos
Quero as matrizes
Dos meus amigos desaparecidos
Quero uma ciência
Que me alivie a solidão
Querem matar o peregrino
Mas se não querem me dar um alívio,
Onde está a ciência
Curadora dos males do coração?


XXII
Nada
Se a verdade é dor
A vida é uma mentira.
É a ciência dos cegos
E para estes não há braile.
Baile?
Ah, poeta previsível
Mas que posso eu fazer
Se os cegos dançam
Ao som de qualquer música possível?

XXIII
Pai e Filho, Santo Espírito.
Homem e Mulher, Criança.
Altura e Comprimento, Profundidade.
Futuro e Passado, Presentes.
Céu e Inferno, Etern'idade.
Esquerdo e Direito
E o olho terceiro
Mirando num ponto
De partida para o novo mundo.

XXIV
As palavras saem de mim
Como sai também
O ar da respiração.
Não aprendi a respirar na escola
Não sou de série de fábrica
Não aguardo milagres vindos dos céus.
Uma vida
Deus me deu
Antes de deitar no seu berço divino
E virar de novo
Um ingênuo menino.

XXV
Quando Cabral desceu de seu barco
Seu berço de velas o aguardava voltar
E virou de novo menino
Ainda que já soubesse
Aquela história que já tinham lhe contado.

XXVI
Deus deu as terras
O pai plantou a semente
A mãe colheu o fruto.
Se os ventos quebram o galho do alecrim
Que caia na praia
Que vire outro mato
Mas que nunca poderá ser
É de fazer o alecrim ser gato
Ou ser gato o querubim
Ou o querubim ser prato
De um prato feito de alecrins.
Semente de Alecrim
Feixe de Alecrim
Alecrim no céu
Alecrim na terra
Alecrim no céu.

XXVII
Caminha o peregrino na terra
Não a terra que caminha no peregrino
O menino que faz a guerra
Não a guerra que faz o menino.

XXVIII
Para ser verbo
Viver é preciso
O peixe que nada no mar
A ave que voa no ar
Não o mar que no peixe mareia
Não o ar que na ave areia.
No domínio do entretanto
É coisa que voa
É coisa que coisa
É coisa coisa coisa
Coisa coisa coisa coisa
..... ..... ..... .....
Nossas idéias prevalecem
No mundo que é só nosso
Não das coisas
Não dos peixes
Não das aves
Dos homens
Nosso apenas
Feito de pontos
De coisas.

XXIX
Parei um pouco
E no pasto em que descansava
Botaram ali uma cidade
Temperada a pitadas de homens
Com sabor de homens
Cheiro de homens.
Já estava satisfeito da refeição
Mas o garçom insistia em oferecer
Um prato de alecrins
Um prato de aves
E um prato
De peixes voadores
Num local invisível
Onde mal sabia
Existir um restaurante.

XXX
Nadei certa vez num lago,
Num charco de espelhos.
Paguei os mangos pela engrenagem
E vi meu reflexo do Bonaparte
Jorrando discursos
De um Édipo desesperado.

XXXI
Fui meu próprio Jesus
Mas o mundo
Meu próprio Paulo
De Tarso.

XXXII
Abaporu Tarsila
Abaporu!
Mas não pinte de verdade
Aquilo que em constância sente
Por tal vil Modernidade.
A tinta está em tuas mãos
Não em nosso sangue
Voilá a fórmula
Inconformada
De um plano não cartesiano
Que resulta na operação:
Vi pasto imenso
De folhas queimadas
De fumaça de fogueira
Com entusiasmo da destruição
Cheio de homens e mulherzinhas
Aqui e ali
Ai, era fruto da reação
O real está no toque
O toque está na mão.

XXXIII
Depois de alecrim, peixe e ave
Trouxeram-me o cardápio
Das teses científicas.
- Estou satisfeito, eu disse
- Sobremesa, replicou
Estou farto.

XXXIV
No vale das Astúrias
Uma moça de saia vermelha
Aguarda os ventos do horizonte
Trazer notícias de seu amor.
Uma ave milionária
Deixou cair do céu
O anjo de sua esperança:
Mundo, por que foste, mundo
Deixar tamanha crueldade
Levar para longe para si
O pouco da minha alegria?
A memória se deturpa, se esquece
Mas no jornal impresso o nome
Seu amor não esqueceria.

XXXV
Ingênua criação
Por uma razão óbvia.
Nas profundezas da caverna
Entro só.
A caverna, já está fora
Não dentro.

XXXVI
A luz não acende
Apaga
O fogo não esquenta
Esfria
E do mais essencial que me pertencia
Já não sou mais o guia.

XXXVII

Os peixes voam
As aves nadam
Os homens dormem.

XXXVIII
As terras em suas caravelas
Viajam para homens distantes
As pinturas em suas telas
Contaram ao horizonte
Qua havia casaizinhos ali
Riram aos montes
Que até agora não se percebeu.

XXXIX
Cai uma estrela cadente
Faço um pedido
Cairá um dia um homem
As estrelas nada pedirão.

XL
Posso sentir à distância
O cheiro da mudança dos ventos
Ele monta uma torre
O vento vai pro Ocidente
Ele derruba uma torre
O vento para o Oriente
Ele faz o alarde de si mesmo
O vento torna a Ocidentar
Ele mata o homem
O vento volta a Orientar
Causando um tráfego confuso
De barcos a vela.

XLI
Bem aventurados são aqueles
Que preferem nadar
Aos barcos de vela
Bem aventurados são os desgraçados
Na perdição de sua própria caverna.

XLII
E nas passarelas, senhores:
Homens, mais homens!
Homens de ternos e sobrecasacas
Homens sob seus chapéus
Homens de saias e vestidos
Homens de espartilhos
Homens de bermudas
Todos eles usam suas peles.

XLIII
Há duas trilhas para Jerusalém
Ambos chegam até Jerusalém
Debaixo do mesmo céu
No meio do caminho
Um se alimenta de peixes
Outros de aves
Marcando a diferença essencial
Entre os homens.

XLIV
Preso mesmo em liberdade
Cada passo novo é um passo em direção à tumba
Pois não há nada mais só do que morrer sozinho.
Em minha lápide não marquem mais do que
Esteve aqui, descobriu as terras de além mar
Mas não passou além de ser um ponto.
E com um ponto
Termina-se uma história.
Ponto.

sábado, 14 de maio de 2011

Inexistência

Ser compreensível não
Basta
Ser compulsivo na
Besta
Beleza estranha não
Bala
Ser inteligível com
Bela
Sonha confusa letra.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Caetanagem

O poeta antes deitou em relva
E cantou, como contou
A história que foi cantada.

O poeta hoje deita em ferro
E grita, como gritaram
Que tudo o que foi contado foi cantoria.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Memória

Caiu o panelário ao chão
Fez um barulho estrondoso
Que deixou os deuses com ciúmes.

Mil homens correram para lá
Pisoteando trapos
De outros mil homens
Cuja glória inventada
Resumiu-se a um resto de poeira
Bem decorado na minha memória.

Sozinho não existimos.

Nos jornais
Na tevê
Nas redes
O silêncio.

Lirismo de Caridade

Estou escondido amigos
Digo-lhes
Escondido!

Não vivo de verdade
Aquilo que em verdade
Vos digo!

Os Josés de quem falo por aí?
Não os conheço,
Mal os vejo.
Aprendi efetivamente.
Efetivamente!

A sombra?
Não vejo
A esquina, as vielas, o beco?
Por eles não passei.
Senti medo, amigos, medo!

Quando menino, abri meu livro de ciências
Vi uma figura de bactérias
Invisíveis, dizia o livro.
Senti medo
Lavei as mãos
Lavo as minhas mãos até hoje!
Mas onde estão as bactérias?

Por que sempre um José?
Não posso falar de um Carlos?
Por que o dono das mazelas
Das desgraças
Das boca de fome
Das mãos que pedem
Das mãos que tremem
Dos olhos que choram
Choram?
Imploram!
Nessa poesia aqui
Não pode ser um
Fernando?
Que tal um Manuel?
Tantos Manés existem aí
Para falar de miséria.
Mas para falar de verdade
Nunca um Manuel.
Que tal um Mário?
O mero Mário!
Não,
Sempre o José.

O inimigo?
Um sujeito indefinido

Eles!

Eles isso
Eles aquilo

O artigo definido?
Um substantivo abstrato.

A culpa?
Nós, no mais reluzente plural
Por que falha-nos a coragem
De assumir o singular.

A singularidade?
Enes
A pluralidade?
Egos

José nunca leu este poema
E morreu de fome
O poema não salvará a sua mesa
Nem a sua alma.
Mas podia ser um Fernando
Ou não podia ser ninguém.

O poema
De nada serve.
Estou escondido
Debaixo de minha mesa
Com um lápis firme
E uma mente que fala da desgraça
Sem sair de minha casa.

O que nos mata não é a morte!
É a dor de ver uma árvore frondosa
No meio de tanta seca crueldade!
E o lírico vício de omitir
Com a plena bela subjetividade!

O que vi ao final?
Um balão que passou errante
Por aí
Lembrando-me daquelas vozes,
Daquele tempo
Que nunca voltará.