terça-feira, 12 de abril de 2011

Como Se Fosse o Último Adeus (lá de 2007)

O ano era 2007. O ano de dois mil e sete. O pretenso, extenso, arrastado ano de dois mil e sete. Pareceu para mim aquele ano uma eterna tarde de sol, ou nas minhas próprias definições, um repleto tédio que estava longe de terminar.

A poesia subjetiva está fortemente ligada às dores íntimas de quem escreve, mas entender o que está nas entrelinhas se eleva para uma compreensão de um momento que pode ser comum a todos. É interessante quando eu lanço meu olhar em meu próprio passado, e percebo que muito do que senti naquela época eu já sinto de uma forma diferente hoje, e pensar que evoluí em virtude de certo amadurecimento.

O não saber do que ser, e ao mesmo tempo a vergonha de sentir uma dúvida tão pequena num mundo de problemas tão grandes. Ou o sufocamento que sentia por me envolver em relacionamentos sem futuro, com excesso de cobrança e pouco retorno emocional. Ao mesmo tempo vendo ser esmagada sem piedade a fantasia mais mentirosa que a idade adolescente cultiva: amizade. Melhor dizendo, a "galera". Qual galera? Longe, inexistente, reunida por um ponto tão frágil que o menor sopro de incompreensão cria uma tempestade de incoerências.

Eu lembro até da história deste poema. Estava numa casa da minha mãe, no bairro do Pq. Fernanda, ajudando numa reforma que já estava completando 18 meses e parecia longe de acabar (soube um dia desses que durou dois anos e meio). Enquanto eu descansava no meu intervalo, fiquei refletindo sobre a minha vida, sobre todos os meus problemas de então, e pensei algo do tipo "se eu morresse agora, o que seria que eu gostaria que a minha família soubesse?". Acredito ter atingido uma vez mais o limite da baixa auto-estima quando pensei nisso. Era uma das minhas tantas fases de crises existencialistas, quando passei a imaginar, rodeado por tantas cobranças desnecessárias e que hoje tão pouco sentido fazem (pensar nisso me dá uma sensação leve de raiva e indignação, mas logo passa), sem ao menos procurar entender o meu momento de amadurecimento intrapessoal, a minha falta de motivação para seguir adiante num caminho que nem eu mesmo tinha certeza qual era. Então me levantei e fui comprar um caderno e uma caneta, e passei a escrever alguns versos pensando nisso "Como se fosse o último Adeus" a todos aqueles que estavam presentes (mesmo que ausentes) na minha vida.

O pior de tudo? Pouco se entendeu do que eu quis dizer. Mas logo depois, quando percebi que eu estava virando adulto (para minha surpresa) eu entendi que às vezes o amor dos nossos entes queridos é o suficiente. Vejam bem, o amor. O demais é desnecessário.

Eu tinha só 21 anos, e já sentia como se estivesse numa derrocada. A angústia meus caros, longe de ser uma frescura, é fria e tem um gosto terrivelmente amargo no coração. Sente-se a garganta tingida com nanquim. A angústia é quando enxergamos uma coisa que ninguém enxerga, e vê-se tendo de enfrentar esse monstro sozinho, para ignorar algum novo fato descoberto. A angústia é um sentimento humano, que ocorrem naqueles que não conseguem perder o maldito hábito de pensar.


Como se Fosse o Último Adeus

Tenho a tinta em minhas mãos
É ela o cordão umbilical
Das mágoas decorrentes
Que liga o material inexistente
Ao limite e forma da expressão.
E quando vêem a expressão de desapreço
Não espero que me acolham como um filho
Que se sente neste mundo indefeso.

Pois nem todos tem nas grossas retinas
Os dificílimos dons da telepatia,
Ficam as dores como sinal de apostasia.

A maior de todas injustiças
Foi ter me dado o dom sem luz da triste vida.
Sem saber se eu o convite aceitaria
E agora cá estou vivo jazendo em hipocrisia
Num poço fétido de atrocidades ambíguas.

Pode o amor talvez salvar-me desta sina?
Meu amor nos teus olhos de menina.
Que acalma no teu peito a tempestade
Por causa dos complexos da idade
És a única que o pranto compreende...
Mas quando até tu meus clamores infantis te zangam
Sinto-me ainda mais perto do abismo
Que estive no inverso disso tudo.
Pois és a minha doce curandeira
Destes males de profunda dimensão
Que cada qual tem no próprio coração.
A única coisa verdadeira coisa
É o lápis que carregado com ternura
Que laça a ponte entre o imenso abstrato
E o concreto absoluto contrato.

Não quero o azul do céu ou do mar
Não quero prender o suspiro
Tampouco quero respirar o ar.
Não quero as frutas da árvore
Não quero as árvores do pomar.
Não quero o amarelo fugaz das chamas
Ou o decerto desprezo frio das damas.
Ou quero descer da cama ao meio-dia
E ficar sentindo frio no inverno
Ou esquentar-me nas orlas litorâneas
Sem prestar atenção neste inferno.
Só não pedi que me dessem o início
E este fardo carrego com desgosto.
A escuridão é o ópio da minha mente.
Mas quando a loucura caminha à própria sorte,
E extrapolam as dúvidas que me assolam
Digo que antes de tudo, a morte.
A vida é uma mentira e o tempo é inocente.
Mentimos desde o tempo obstante até que ela nos separe.
Minto para o mundo crer que não sou eu.
Mas eu não sou eu.
Sou o reflexo das pessoas que amei
Eu não posso ser eu.
Ouviram!
Tento mentir para as pessoas que amei!
Porém, meu eu implícito complacente,
Não suporta mais a vida aqui.
Então se guarda no resguardo da mentira
Renegando da essência a própria vida
Virando além o reflexo de quem mente.
O que meus olhos não vêm, o meu coração sente.
O que é isso que se esconde eternamente?
Como um vulto que não surge à espreita?
Sou o lunático que vive na estreita
Entre o reflexo do espelho e a verdade.
Vivendo como um caçador de sonhos.
Queria uma razão sólida para isso tudo
Sem precisar me apoiar em motivos bêbados
Ou sentir vergonha de mim mesmo.

Sou o uísque sem copo,
O remédio sem bula,
A doença sem cura.
Sou o alcoólatra contra a campanha.
Como o sinal contínuo do destilador.
O ruído do copo se enchendo, e nunca termina.
A morte que acompanha o choro desesperado.
A angústia sem paz.

Palavras não são cartazes de aviso.
Palavras não são antibióticos.
Palavras não são milagres.
São só palavras...
O milagre sou eu!

Se a minha vida fosse o mar, eu seria a tempestade.
Não há latitude nem longitude.
Sou como a água boiando sobre a água.
Um fenômeno que não sabe se explicar.
Não há tampa nem tombo nem correspondência!

Não há tumba, nem retumba!
Não há berço!
Não há túmulo!

Julho de 2007

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