sábado, 30 de abril de 2011

Casamento Real vs Casamento Ideal

Por que o casamento da Duquesa Kate fez tanto sucesso em mídia?

Refletindo sobre isso, cheguei a uma conclusão modesta: é um clichê histórico quando a classe da elite lança holofotes sobre si mesma para fazer propaganda do seu modo de vida para as demais classes. A população procura se espelhar nos ícones, na esperança de que, com o seu trabalho justificado pelo acúmulo de bens materiais, um dia poderão usufruir do glamour e dum momento idealizado conforme estipulado pela própria classe elitista. Os orgãos de poder nos vendem o pólem de contos de fadas que provavelmente nunca poderão acontecer. Contos de fadas são feitos de recortes.

Não importa que seja um tema debatido por todos; o necessário, no meu humilde ponto de vista, é não deixar passar despercebido ao olhar todo o mecanismo que está por trás deste excesso de fascínio. É observar com calma, com tranquilidade, sem permitir que as emoções e as emulsões humanas sejam manipuladas por outrém.

Negar a manipulação é admitir que ela não existe, e que a nossa mente está sob o nosso controle, mas acredite, ela não está, pois alguém sempre se sente no direito de dizer e mostrar aquilo que pensa que é o melhor para nós. Detectar esta manipulação para pensar por si próprio é um trabalho difícil.

Qual a necessidade de se perceber a manipulação? Entender que a nossa sobrevivência depende muito mais de nós mesmos do que de outrém, e que não é aceitável permitir que outra pessoa julgue o que é melhor para nós. Desta forma, poderíamos escolher o que queremos ver e viver, sem a obrigatoriedade de estar a par de um evento que pouco modifica na nossa condição, e que mais ainda nos faz sentir mal pela nossa situação no meio social.

O melhor de nós mesmos deve estar dentro, e não fora.

domingo, 24 de abril de 2011

Para pepper dizem peperone, para saccos, dizem Sacconi

Sob influência do horror causado pelas redações dos candidatos, o analisador, preso num tempo psicológico de um passado distante, passou a refletir com uma angústia individual. Não eram de ameaças em caráter pessoal que sentia o horror, ainda porque, até segunda ordem, o analisador, por meios de manter a sua integridade física, intelectual, moral e (por que não?) política, era mantido no anonimato pela instituição empregadora do seu renomado cargo temporário de quem diz o certo e o errado das transcrições dos pensamentos.

Repletas de idéias atravancadas, recheadas de bobagens e estapafúrdias construções gramaticais, incoerentes, como se fosse adentrar na mente insólita dessa geração perdida, era horror subsequente a horror, a saber, que o primeiro principal entrave para a compreensão estava na insistência do erro. A gramaticalidade estava condenada, pensou, temia pelo futuro do país, pensava nas crianças, nos seus filhos. Temeu ter filhos. Temeu até mesmo desposar uma merecida mulher, perfumada, cheia de ais e uis. Sua vida, seus sonhos, suas expectativas, todas sendo desmanchadas, desaguadas por assim dizer. O espesso negro do nanquim ia perdendo o brilho, analogamente, quando atirada no copo daquela água sem propósito. Ah redações, desviaram o rumo e a saúde de uma mente cheia de vontades! Sem propósito, sem padrão. Repulsivos fluxos de consciência.

“As abelhas africanas que estavam cheias de mel, mal saboriavam a vida, quando tinham qui saudar a sua rainha no acazalamento”.

Horror, mais puro horror! Sentia maior ameaça à sua saúde intelectual ao debruçar-se na mesa das discussões acadêmicas e ter de se deparar com aqueles discursos da sociolingüística. Para os infernos com Labov e toda a sua gentalha! Queimava os artigos de um Bagno como a um adorador de Satã, que atira ao fogo, sem temor, a palavra de Deus que os cristãos tanto temem e respeitam, no livre-arbítrio de entregar sua alma à salvação do seu Messias. Maldizia, com babas nas barbas e com as ancas contraídas, todas as bobagens sem mérito de Possenti. Eméritos inúteis, todos uns comunistas, dizia, comunistas! Querem fazer daqui da nossa língua como fez o Fidel da sua Cuba. Mas aqui não é uma Cuba, aqui nós somos livres! Viva a língua democrática do Brasil!

“O tomate, quando retirado da pura hortaliça, é o alimento mais correto para preparar o molho de espaguete.”

Correto, diz ele, correto. Pois está bem, seu crime contra o bom português lusitano lhe merece um incorrecto. Logo mais o que vão fazer? Para intacto dirão intato? Farão um cato do cacto? Espaguete? Spaggetti? Canetou vermelhamente o texto, estava reprovado. Não, jamais poderia aprovar uma coisa assim. Nada de variantes, chega. As variantes não condizem, não respeitam, nada de variantes! Num futuro distante farão o que? O que seria do méthodo? Da colecção? O que seria da physica, psychologia? Somos homens modernos ou homens das cavernas, desorganizados em nós mesmos, presos a uma decadência de condições de sobrevivência? Ah meus filhos, temo pelos meus filhos!

“Convenciona-se que um homem está sóbrio quando consegue fazer um quatro com as pernas.”

Convenccionou que esta nova construção não tardaria em ir para o limbo dos reprovados. Centenas de textos inutilmente produzidos fizeram-no querer a desistência. Para desabafar, para salvar a saúde de sua sandice, pensou em, ao fim das correções, enviar as redações anonimamente ao horário nobre da TV, com o cuidado ético de guardar o nome de seus autores. Para o regozijo da platéia inteligente, que consegue obviamente fazer a correcta (ah!) distinção entre um porque junto e um por quê separado, e que junto riem, para a auto-afirmação de suas inteligências, despreocupando-se da oração subordinada ou coordenada, sob a coordenação de uma equipe muito bem preparada para não conter o humor do discurso livre, causando-nos uma repulsa pela nossa situação educacional, e justificando assim a incompetência no democrático teste que, com punhos de ferro, decide o que estaria certo e errado.

Estes maldosos candidatos, corajosos pelo menos (vale-se o reconhecimento), mostram o que tem de pior, expõem a sua fraqueza, e beneficiam na científica separação das inteligências às burrices. Aos burros, os paus da rua. Para a vida toda se tem um propósito, mas mérito algum chega sem o devido esforço. Separemos o trigo do joio, e deixemos a descrédito aquele que peca contra o verbo, tendo como castigo o não merecimento para adentrar as portas do paraíso da nossa língua tão bem portuguesa.

A minha língua banalizada, exclamava na sua revolta silenciosa, jogada ao deus dará de como bem se diz o que se quer, como se quer. Esses redatores de línguas de ônibus, esses redatores de mesas de bar. Esses redatores cheios de libertinagem na língua, dos problemas sociais. A língua é dos homens, mas a palavra é da sociedade. Eu posso discutir o problema do córrego falando córgo? Esse homem social aí, eu entendo o seu pobrema, mas ele não pode entender o meu problema? Sua vida está nos meus livros, mas quanto dos meus problemas está num livro seu? Ele sequer lê livros! Ele sequer lê! Anarquia na língua! Acudam-nos aqui policiais e cães da boa sintaxe, acudam aqui, a esses manifestantes involuntários que sequer cuidam de si, dessas barrigas cheias de fome. Falta-lhe o sabor da palavra certa. Córgo, córrego. Hunf! Os problemas sociais não podem trazer mais problemas gramaticais! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Pois os problemas sociais estão todos bem escritos nos bons livros, ali para a solução de todos. Mas quem desses todos soluciona os problemas da boa língua? Batia com a cabeça repetidamente na mesa, bagunçando as pilhas de redações.

Já basta, já não agüento tantas provações e privações! E pediu demissão do cargo, enfurnando-se na saudosa lembrança dos seus casamentos com suas obras monumentais. Para pepper, dizia pepperoni, para saccos dizia Sacconi.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Diálogo Nativo

Por que fica difícil entender o pensamento indígena? Como estudantes de letras, nós do Coletivo Okara Poética percebemos que o mundo se constrói através da linguagem. É um pouco mais complexo do que isso, mas algum pensador aí disse que o nosso universo é a tradução mal feita do nosso pensamento. Podemos puxar isso daquela velha e já gasta idéia do mundo das idéias de Platão, que seria a representação daquilo que é perfeito.

Contestável ou não, o que eu quero dizer é que o comportamento indígena com relação ao seu mundo, ou ao nosso, não se subtrai através do excesso de comunicação falada. A linguagem indígena está muito mais ligada com o sentir a natureza e abstrair dela o que lhe confere de bom ou ruim. Em diversos contos indígenas podemos ver claramente essa relação homem-natureza, onde o índio se sente parte da terra, e logo, sente a necessidade de saber como se comunicar com ela, e como ela, a terra, se comunica com ele.

Outra característica importante e ao mesmo tempo interessante, e que explica também porque os nativos deste continente não sentem ou sentiram a necessidade de registrar a sua história, é que para o indígena não existe passado e nem futuro, e isso é uma das marcas de seus idiomas. Pode-se afirmar que em muitas culturas indígenas, na sua linguagem não se faz distinção entre passado e futuro da mesma forma que nós, porque para eles, o mundo é um constante e eterno "presente". Os seus ensinamentos se dão através da tradição oral, contando histórias de antepassados, e deixando nelas a marca de suas crenças. Pensando nisso, e depois de ter uma conversa com a minha companheira de projeto, eu me inspirei em escrever o poema a seguir, que leva o nome de Diálogo Nativo. Espero que apreciem:


Diálogo Nativo

Hum - fez o menino índio.
Nhã - fez o homem índio.
Hum nhã - replicou o indiozinho.

E saíram pela floresta.
Deram as mãos e admiraram o seu reflexo na natureza.

Que graça de som!
Que cor vermelha!
Que grande beleza!
Que vento fresco!
Que água pura!
Que fruta dura!
Que terra fofa!
Que sons amenos!
Levam os pensamentos para além!

Ouviram isso de um homem bem vestido
Ajoelharam e disseram Amén.

Como Se Fosse o Último Adeus (lá de 2007)

O ano era 2007. O ano de dois mil e sete. O pretenso, extenso, arrastado ano de dois mil e sete. Pareceu para mim aquele ano uma eterna tarde de sol, ou nas minhas próprias definições, um repleto tédio que estava longe de terminar.

A poesia subjetiva está fortemente ligada às dores íntimas de quem escreve, mas entender o que está nas entrelinhas se eleva para uma compreensão de um momento que pode ser comum a todos. É interessante quando eu lanço meu olhar em meu próprio passado, e percebo que muito do que senti naquela época eu já sinto de uma forma diferente hoje, e pensar que evoluí em virtude de certo amadurecimento.

O não saber do que ser, e ao mesmo tempo a vergonha de sentir uma dúvida tão pequena num mundo de problemas tão grandes. Ou o sufocamento que sentia por me envolver em relacionamentos sem futuro, com excesso de cobrança e pouco retorno emocional. Ao mesmo tempo vendo ser esmagada sem piedade a fantasia mais mentirosa que a idade adolescente cultiva: amizade. Melhor dizendo, a "galera". Qual galera? Longe, inexistente, reunida por um ponto tão frágil que o menor sopro de incompreensão cria uma tempestade de incoerências.

Eu lembro até da história deste poema. Estava numa casa da minha mãe, no bairro do Pq. Fernanda, ajudando numa reforma que já estava completando 18 meses e parecia longe de acabar (soube um dia desses que durou dois anos e meio). Enquanto eu descansava no meu intervalo, fiquei refletindo sobre a minha vida, sobre todos os meus problemas de então, e pensei algo do tipo "se eu morresse agora, o que seria que eu gostaria que a minha família soubesse?". Acredito ter atingido uma vez mais o limite da baixa auto-estima quando pensei nisso. Era uma das minhas tantas fases de crises existencialistas, quando passei a imaginar, rodeado por tantas cobranças desnecessárias e que hoje tão pouco sentido fazem (pensar nisso me dá uma sensação leve de raiva e indignação, mas logo passa), sem ao menos procurar entender o meu momento de amadurecimento intrapessoal, a minha falta de motivação para seguir adiante num caminho que nem eu mesmo tinha certeza qual era. Então me levantei e fui comprar um caderno e uma caneta, e passei a escrever alguns versos pensando nisso "Como se fosse o último Adeus" a todos aqueles que estavam presentes (mesmo que ausentes) na minha vida.

O pior de tudo? Pouco se entendeu do que eu quis dizer. Mas logo depois, quando percebi que eu estava virando adulto (para minha surpresa) eu entendi que às vezes o amor dos nossos entes queridos é o suficiente. Vejam bem, o amor. O demais é desnecessário.

Eu tinha só 21 anos, e já sentia como se estivesse numa derrocada. A angústia meus caros, longe de ser uma frescura, é fria e tem um gosto terrivelmente amargo no coração. Sente-se a garganta tingida com nanquim. A angústia é quando enxergamos uma coisa que ninguém enxerga, e vê-se tendo de enfrentar esse monstro sozinho, para ignorar algum novo fato descoberto. A angústia é um sentimento humano, que ocorrem naqueles que não conseguem perder o maldito hábito de pensar.


Como se Fosse o Último Adeus

Tenho a tinta em minhas mãos
É ela o cordão umbilical
Das mágoas decorrentes
Que liga o material inexistente
Ao limite e forma da expressão.
E quando vêem a expressão de desapreço
Não espero que me acolham como um filho
Que se sente neste mundo indefeso.

Pois nem todos tem nas grossas retinas
Os dificílimos dons da telepatia,
Ficam as dores como sinal de apostasia.

A maior de todas injustiças
Foi ter me dado o dom sem luz da triste vida.
Sem saber se eu o convite aceitaria
E agora cá estou vivo jazendo em hipocrisia
Num poço fétido de atrocidades ambíguas.

Pode o amor talvez salvar-me desta sina?
Meu amor nos teus olhos de menina.
Que acalma no teu peito a tempestade
Por causa dos complexos da idade
És a única que o pranto compreende...
Mas quando até tu meus clamores infantis te zangam
Sinto-me ainda mais perto do abismo
Que estive no inverso disso tudo.
Pois és a minha doce curandeira
Destes males de profunda dimensão
Que cada qual tem no próprio coração.
A única coisa verdadeira coisa
É o lápis que carregado com ternura
Que laça a ponte entre o imenso abstrato
E o concreto absoluto contrato.

Não quero o azul do céu ou do mar
Não quero prender o suspiro
Tampouco quero respirar o ar.
Não quero as frutas da árvore
Não quero as árvores do pomar.
Não quero o amarelo fugaz das chamas
Ou o decerto desprezo frio das damas.
Ou quero descer da cama ao meio-dia
E ficar sentindo frio no inverno
Ou esquentar-me nas orlas litorâneas
Sem prestar atenção neste inferno.
Só não pedi que me dessem o início
E este fardo carrego com desgosto.
A escuridão é o ópio da minha mente.
Mas quando a loucura caminha à própria sorte,
E extrapolam as dúvidas que me assolam
Digo que antes de tudo, a morte.
A vida é uma mentira e o tempo é inocente.
Mentimos desde o tempo obstante até que ela nos separe.
Minto para o mundo crer que não sou eu.
Mas eu não sou eu.
Sou o reflexo das pessoas que amei
Eu não posso ser eu.
Ouviram!
Tento mentir para as pessoas que amei!
Porém, meu eu implícito complacente,
Não suporta mais a vida aqui.
Então se guarda no resguardo da mentira
Renegando da essência a própria vida
Virando além o reflexo de quem mente.
O que meus olhos não vêm, o meu coração sente.
O que é isso que se esconde eternamente?
Como um vulto que não surge à espreita?
Sou o lunático que vive na estreita
Entre o reflexo do espelho e a verdade.
Vivendo como um caçador de sonhos.
Queria uma razão sólida para isso tudo
Sem precisar me apoiar em motivos bêbados
Ou sentir vergonha de mim mesmo.

Sou o uísque sem copo,
O remédio sem bula,
A doença sem cura.
Sou o alcoólatra contra a campanha.
Como o sinal contínuo do destilador.
O ruído do copo se enchendo, e nunca termina.
A morte que acompanha o choro desesperado.
A angústia sem paz.

Palavras não são cartazes de aviso.
Palavras não são antibióticos.
Palavras não são milagres.
São só palavras...
O milagre sou eu!

Se a minha vida fosse o mar, eu seria a tempestade.
Não há latitude nem longitude.
Sou como a água boiando sobre a água.
Um fenômeno que não sabe se explicar.
Não há tampa nem tombo nem correspondência!

Não há tumba, nem retumba!
Não há berço!
Não há túmulo!

Julho de 2007