sexta-feira, 4 de março de 2011

Meus Bonecos Ainda Falam

Bullying, as marcas ficam. Lembro que uma vez li esta frase e foi como me balançar da ponte, porque perdi um pouco a respiração e fiquei atônito. Puxa vida, era pra tanto? Pois é, todos os nossos erros do passado já tem seus devidos nomes hoje. Imagino quais nomes darão para aqueles que ainda estão por vir.

Parece até um pouco de egoísmo e orgulho guardar por tanto tempo um monte de feridas e rancores, guardar nomes, rostos, imagens de momentos dolorosos do passado. Pois é, nós guardamos. Hoje sou professor, eu percebo no olhar aqueles que sofrem com este crime social. Crime, pois é o único nome que eu posso dar a esta hedionda atitude que passa despercebido pelos olhos de tantos adultos tolos. Desprezível.

Compartilho com vocês, meus raros leitores, uma experiência pessoal, das várias que vivenciei e presenciei, relacionadas ao que hoje chamam de Bullying:

Era o ano de 1999, eu estava na oitava série de uma escola chamada Escola São Vicente de Paulo, na região do Capão Redondo em São Paulo. Uma escola católica que tentava, naquele ano, ainda preservar os frangalhos de uma tradição que há 20 anos, daquela época, era digna de respeito. Nada estava funcionando, a palavra de Deus e da Nossa Senhora Ave Maria, empurrada a nós goela abaixo, não estava tocando os corações de uma juventude que estava à porta de um dos séculos mais transformadores do comportamento humano. Mesmo diante de um evento tão extraordinário, nada mudou. Para aquela juventude era como dar pérolas aos porcos. A história nos mostra que os homens não merecem o seu século. Viveremos sempre na era em que ratos brigam por ossos roídos.

O que acontecia comigo? Eu tentava de alguma forma recompor a má conduta social do ano anterior, 1998, a sétima série, que fora repleta de rejeições e exclusões por parte dos colegas. Tentava restaurar o meu espírito, observar, com minha limitada mentalidade de adolescente de 13 anos, o espelho da minha personalidade. Dizia a mim mesmo: "No ano passado eles não gostaram de mim porque eu fui muito irritante e meus assuntos não foram interessantes. Neste ano vou tentar me aproximar com cuidado e fazer amizade com alguém". Era a minha estratégia de tentar agradar um bando de crianças que teimavam em fazer pose de adultos. Mas não deu certo.

Possivelmente era comum em toda escola uma brincadeira que, no São Vicente, chamavam de 'geral'. Consistia em escolher aleatoriamente (ou não) uma pessoa, todos os meninos faziam uma roda em volta desse pessoa e contavam regressivamente de 10 até 0, e no 0 eles davam tapinhas nas nossas cabeças. Claro, na tentativa de inventar uma expressão, a gente sempre dá carinho àqueles que são da casa, e mostra aos de fora onde é o seu devido lugar. Eu era de fora, então a brincadeira foi repleta de maldade. Eu não fui o único a passar por isso, vários colegas com quem mantenho contato compartilham comigo de experiências semelhantes. A idéia era agredir mesmo, humilhar, zombar. Sim, coisa de criança, nós sabemos, alguns deles sequer percebem o teor e o impacto que isso pode causar na auto-estima.

Nesta ocasião em que eu tomei uma 'geral', fiquei me debatendo e acabei acertando um rapazinho mais velho, um dos caras mais populares da turma. Bem, por ser mais velho, ele ficou furioso e veio acertar as contas. No intervalo eu estava jogando RPG com alguns colegas, quando chegou o rapaz com a sua turma, querendo acertas contas, menos pela dor do soco do que pelo seu orgulho. Por causa do soco que tomou na minha defesa aleatória, ele me deu um pisão violento no ombro. Nisso eu comecei a chorar. Doeu o chute? De forma alguma. Eu sempre saía na porrada com meu irmão, que era o dobro do tamanho de qualquer um de nós. O chute do rapaz da minha sala não me fez sentir dor física. Lágrimas por que? Bem, a alma que sofre abre uma porta que, no futuro, torna-se um privilégio perante os comuns, entretanto, será também a sua condenação caso a razão não tenha controle sobre ela. Eu chorei sim naquela hora, mas era um choro de decepção comigo mesmo. Toda a minha meta estipulada no começo do ano tinha ido por água abaixo. Eu sabia que dali em diante, por mais que eu tentasse, jamais poderia ser um deles. Mas porque então querer ser um deles? Não imagino, solidão é algo ruim. Passar os anos da escola sem ter o que recordar era algo muito difícil de superar. Na formatura do mesmo ano, quando anunciaram o fim da colação de grau, ninguém veio me cumprimentar. Mas ali naquele momento uma luz se abriu em meus olhos. 

Eu cheguei em casa bem decepcionado comigo mesmo, e comecei a fazer uma coisa que até então não me era comum. Comecei a pensar. Refleti muito. Cheguei a uma conclusão, naquela época: O mundo era tão maior, e tantas pessoas tinham tão pouco para partilhar. Eu não preciso deles, não preciso ser parte deles e não preciso que eles sejam parte de mim. Conheci pouquíssimas pessoas que sofreram a mesma coisa e se propuseram na mesma empreitada que eu, a de filosofar. De todas as formas eu tentei curar as feridas que essa repressão me causou: religião, bebida, cigarro, auto-flagelação, dois períodos de sessões psiquiátricas. Foi culpa deles? Eis o problema maior: no Bullying não há necessariamente um culpado, mas a falta de orientação adequada, seja para o agressor, seja para o agredido, que muitas vezes torna-se também um agressor, a fim de descontar a sua frustração primária.


As marcas do Bullying me perseguiram por anos. No ambiente de trabalho eu era extremamente defensivo, o que era péssimo. Os verdes anos na doce escola São Vicente me custaram anos de tentativas de socialização frustradas, 3 tentativas de suicídio, períodos extensos de abulia e depressão profunda. Enfim.

Afinal, qual o intuito deste texto? Bem meus raros leitores, eu não sou um fraco. Se fosse um fraco estaria prostrado a essa contingente medíocre até hoje. Eu sou forte, estou forte, maior que qualquer um que tentou me fazer sentir o avesso disso. O que me dá força? Minha filosofia, minha poesia, minha arte, as minhas qualidades como ser humano, o amor daqueles que me ajudaram e ajudam a chegar até aqui. Quanto mais eu fui humilhado, mais eu queria tratar as pessoas com carinho e com amor. Quanto mais eu fui excluído mais eu fiz questão de estender uma mão àqueles que precisam. Quanto maior a mesquinharia e medíocridade de um ser mais eu queria ter o coração e o espírito puros. Eu aprendi as palavras do homem: não junto riquezas na terra porque prata e ouro se enferrujam. Eu colho tesouros para minha alma.

Meus pais trabalhavam o dia todo na época, por essa razão, meu irmão (que também sofreu de Bullying, mas reagiu diferente de mim) e eu fomos prejudicados por não ter um acompanhamento mais próximo por parte deles. É compreensível, graças aos esforços honestos de meus amados pais nós tivemos uma casa confortável, pudemos estudar em uma escola que ao menos se dignava a nos ensinar, embora eu discorde de 90% de sua prática, e também tivemos uma vida que muitos dos nossos vizinhos jamais sonhariam ter. Superamos estas dores, somos homens hoje, homens dignos, que tentam seguir os passos do homem mais extraordinário de quem eu já ouvi falar: meu pai.

Não procuro por culpados e não responsabilizo ninguém pela miséria psicológica da minha vida. Seria dar-lhes extenso luxo, uma posição em minha vida que vocês não merecem, afinal seria fácil demais, seria ser suscetível demais.

O que eu digo a vocês que conseguiram ler até aqui é o seguinte: vocês hoje, ao que parece, são adultos. Muitos pensam em se casar, outros já tem os seus filhos, ou sobrinhos. Reflitam sobre o que passou, informem-se sobre o bullying e não tratem da questão de forma leviana. Ajudem também a identificar e combater esta prática. O conceito de bullying é recente, porque até certa época, acreditava-se que estas ocasiões não passavam de brincadeiras de criança. Conheço pessoas que até hoje não superaram as suas estruturas psicológicas por conta do que passaram na escola. 


E aos moralistas, faço uma extensão do alerta: o bullying é uma prática que não tem classe social ou econômica para ocorrer. Trata-se simplesmente da submissão do mais fraco diante de uma ou mais crianças mais fortes. Toda essa submissão se dá através da violência, seja física ou verbal.

Não digo façam por mim ou sequer por vocês, ou por quem quer que vocês se sintam culpados, mas pelas futuras crianças; pensem sobre este erro e não permitam que a nossa inocência da infância e o nosso micro universo extrapole os limites da boa convivência. Relatos como esse sempre existirão, mas buscar pela orientação, a conversa, o acompanhamento destes casos é fundamental para que o trauma seja, ao menos, amortecido, afinal, a vida não existe se não existirem os traumas, isso faz parte da vivência e do nosso processo de crescimento pessoal.

Para mais informações, eu indico o livro Bullying - Mentes Perigosas nas Escolas, da autora Ana Beatriz Barbosa Silva.

Eu direciono este texto em especial aos ex-colegas: Rafael Placoná, Bruno Mangiavachi, Alcides Castro, Vanessa Valadão, Natália Milagres, Cláudia Fernandes, Rafael Cornetti, Diego Vieira, Camila Muniz, Rogério Pontes, Murilo Ito, Cosmo Lima, Marcus Vinícius Ferreira, Lucas Martinelli, Rodolfo Pereira, Carla Costa, Danielle, Leandro Kunze, Rodolfo Lopes e Camila Cortez, as marcas ficam.

Aos mestres, com carinho: Professora Miriam, Professora Ana Maria, Professora Deisy, Professor Carlos Nascimento, Professor Gilmar, Professora Ívian Destro, Professora Eva, Professor Gesu, Professora Márcia Molina, Professora Jacy, Professor Dimar (descanse em paz), Professor Luís Gustavo, Professora Olga, Professor Pedro Marques, Professora Diana Zwi, Professor André, Professor Valfrides, Professora Márcia (descanse em paz), Professor Zaqueu, Professora Thaíse, Professora Nery Reiner, as marcas ficam.

Aos eternos amigos: Ismael Lino, Rafael Lino, Michel Lino, Israel Lino, Misael Lino. Jonas e Monica Harder. Antonio Bessa, Josefa Gonçalves, Hugo Garcia, Patrick Anjos, Thiago Maerki, João Massuia, Sara de Almeida, Bruno Costa Lima, Fábio Araújo, André Jerônimo, Thiago Hiromi, Santiago, Wagner Campos, Juliana Caserta, Lúcio Nunes, Renata Prudêncio, Roger Ubiali, Hélio Corona, Adan Rosler, Guilherme Vieira, Rodrigo Gaiotto, Júnior Santos, Cristiano Véder, Fábio Marrone, João Rosalvo, Camilla Ragazzi, Leandro Souza, Vital Soares, Diogo Silva, Virgílio Paragano, Daiane Durães, Angélica Martins, Lilian Caumo, Jéssica Paviotti, Márcio Garcia, Anderson Correia, Wagner Mota, Sílvia Mota, as marcas ficam.

E à minha família: Karina Guedes (meu amor), Sr. José Souza Vieira, Sra. Josefa de Araújo Vieira, Thiago Vieira, Sabrina Vieira, Adams Fehlauer, Daniel Macena, Deborah Macena, Francisco Macena, Eliana Macena, Bruno Costa, Allex Pimentel, Sr. Orlando Souza, Kika Santana, Roberto Santana, Alonso Souza, Sr. Severo Dias, Sra. Fátima Dias, Sra. Rosa Lima, Sra. Diva, as marcas ficam para sempre.

Meus Bonecos Ainda Falam


Em hipotético estado
O desenlace de nossas vidas:


Eterna descoberta em olhos brilhantes
Milagrosas curiosidades
Corações arfantes
Doces na estante
Alegrias Ininterruptas
Das brincadeiras na rua às catástrofes abruptas.
Cinza inocência, misterioso céu.


Hoje são copos com gelo
Garrafas com selos
Motores, marcas, desvelos.
Cabeças acocoradas nas mesas
Faces entre os joelhos
Suspiros ao léu
Mulheres sem véu,
Homens no céu...


E eu ainda na estante.

09/03/2007, Paulínia, SP

Obs: de cima da estante eu vejo um horizonte que está por cima de todas as cabeças que, como escravos voluntários, desceram.

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