quarta-feira, 30 de março de 2011

Pai... Filho

O filho do bom Pai à casa volta...

Mesmo na mais escura confusão, uma tímida luz iluminava a minha esperança. Tímida por excesso da minha própria arrogância.

Eu sou um dos filhos de Deus, e a Deus sempre pertenceu o meu coração.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Conjugação da Mudança de Uma Mesma Coisa que Não Muda

Foi assim apagar a vida dos dezesseis aos vinte um para mudar para nada e permanecer na mesma coisa de não ter mudado o medo de me moldar modificando para uma mudança que nada mudará no que menos modificara para me dar medo modificado da não mudança:

Mudo
Muda
Medo
Medá
Nada

Mudou
Mudão
Me dou
Medão

Mudoram
Mudaram
Medoram
Medáram
Mudorem
Mudarem
Medorem
Medárem
Moderam
Meduram
Modarum

Nada mudou
Nada me dou
Nada me dão
Nada mo deu
Na damo dai
Nada mudou
Nada moda

Nada muda
Nada mudou
Não melhor
Não melhorou
Para pios
Melhor
Para poucos
Piorou
Poucas oras
Para muitos muda
Para si emudecida
Paramudas melhoras
Pelas bermudas pioras
Do medo do interior.

Revolução

Ah! Veneno dos bem quistos
De velha mania em dizer não.

Espíritos fortes, rebuliços
Ah Homens e Mulheres!
E crianças também
Crianças também!
A pessoas que existem
Desintegrando-se ao chão.

Ah venenosa revolução!
Dos olhos de mal querer
De mal dizer
E do mal digerir das notícias de todo dia
Ao bom dia que mal quer
Num nascer de Sol sombrio
Cujo dia que não se vive
Doa-se a outrém
Para muitos que não teremos
E tantos outros que nunca vêm.

Ah esta mania de não querer!
E de lutar e de viver!
Sobreviver!

Ah meus caros da história
Os Heróis ou a escória
(Depende de que lado da mesa estou
Se de pé ou se sentado
Farto com requinte
Faminto comportado)
Por que o mal hábitado do tanto querer
Daqueles que mal sabem o que querem?

Os olhos dos que não vêem
A fé dos que não crêem
Os pais dos que de mãe criaram
Como ovelhas velhas
E que sozinhos aprenderam a caminhar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Mito dos Cavernas

sou mito da caverna
saí caverna
sou homem caverna.

Aueee ubah obah

como nichos
comum em pedra
ovo bom
dinossauro bom
água bom
carne bom
planta bom

somum mito
minto lógicas
minha palavra precisa não
como homem sol no chão
água molha vento sopra poupa sobra
homem cem pontuação
sem sobra precisão

ebaa obaaa abu abu abah
beo beo be be a ba
ai podiu iiiiii ai podiu iiiiii
pê cê pê cê o quê emê bê raaaaam

canibal come outro
sem outro perder mão
palavra sempre precisa não
so artico lados artico la
gelo vai vem
sobe agua
homem desvive
deita chão
sobe mais não.

canibal
animal
mito lógico
caverna
cave
no.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Meus Bonecos Ainda Falam

Bullying, as marcas ficam. Lembro que uma vez li esta frase e foi como me balançar da ponte, porque perdi um pouco a respiração e fiquei atônito. Puxa vida, era pra tanto? Pois é, todos os nossos erros do passado já tem seus devidos nomes hoje. Imagino quais nomes darão para aqueles que ainda estão por vir.

Parece até um pouco de egoísmo e orgulho guardar por tanto tempo um monte de feridas e rancores, guardar nomes, rostos, imagens de momentos dolorosos do passado. Pois é, nós guardamos. Hoje sou professor, eu percebo no olhar aqueles que sofrem com este crime social. Crime, pois é o único nome que eu posso dar a esta hedionda atitude que passa despercebido pelos olhos de tantos adultos tolos. Desprezível.

Compartilho com vocês, meus raros leitores, uma experiência pessoal, das várias que vivenciei e presenciei, relacionadas ao que hoje chamam de Bullying:

Era o ano de 1999, eu estava na oitava série de uma escola chamada Escola São Vicente de Paulo, na região do Capão Redondo em São Paulo. Uma escola católica que tentava, naquele ano, ainda preservar os frangalhos de uma tradição que há 20 anos, daquela época, era digna de respeito. Nada estava funcionando, a palavra de Deus e da Nossa Senhora Ave Maria, empurrada a nós goela abaixo, não estava tocando os corações de uma juventude que estava à porta de um dos séculos mais transformadores do comportamento humano. Mesmo diante de um evento tão extraordinário, nada mudou. Para aquela juventude era como dar pérolas aos porcos. A história nos mostra que os homens não merecem o seu século. Viveremos sempre na era em que ratos brigam por ossos roídos.

O que acontecia comigo? Eu tentava de alguma forma recompor a má conduta social do ano anterior, 1998, a sétima série, que fora repleta de rejeições e exclusões por parte dos colegas. Tentava restaurar o meu espírito, observar, com minha limitada mentalidade de adolescente de 13 anos, o espelho da minha personalidade. Dizia a mim mesmo: "No ano passado eles não gostaram de mim porque eu fui muito irritante e meus assuntos não foram interessantes. Neste ano vou tentar me aproximar com cuidado e fazer amizade com alguém". Era a minha estratégia de tentar agradar um bando de crianças que teimavam em fazer pose de adultos. Mas não deu certo.

Possivelmente era comum em toda escola uma brincadeira que, no São Vicente, chamavam de 'geral'. Consistia em escolher aleatoriamente (ou não) uma pessoa, todos os meninos faziam uma roda em volta desse pessoa e contavam regressivamente de 10 até 0, e no 0 eles davam tapinhas nas nossas cabeças. Claro, na tentativa de inventar uma expressão, a gente sempre dá carinho àqueles que são da casa, e mostra aos de fora onde é o seu devido lugar. Eu era de fora, então a brincadeira foi repleta de maldade. Eu não fui o único a passar por isso, vários colegas com quem mantenho contato compartilham comigo de experiências semelhantes. A idéia era agredir mesmo, humilhar, zombar. Sim, coisa de criança, nós sabemos, alguns deles sequer percebem o teor e o impacto que isso pode causar na auto-estima.

Nesta ocasião em que eu tomei uma 'geral', fiquei me debatendo e acabei acertando um rapazinho mais velho, um dos caras mais populares da turma. Bem, por ser mais velho, ele ficou furioso e veio acertar as contas. No intervalo eu estava jogando RPG com alguns colegas, quando chegou o rapaz com a sua turma, querendo acertas contas, menos pela dor do soco do que pelo seu orgulho. Por causa do soco que tomou na minha defesa aleatória, ele me deu um pisão violento no ombro. Nisso eu comecei a chorar. Doeu o chute? De forma alguma. Eu sempre saía na porrada com meu irmão, que era o dobro do tamanho de qualquer um de nós. O chute do rapaz da minha sala não me fez sentir dor física. Lágrimas por que? Bem, a alma que sofre abre uma porta que, no futuro, torna-se um privilégio perante os comuns, entretanto, será também a sua condenação caso a razão não tenha controle sobre ela. Eu chorei sim naquela hora, mas era um choro de decepção comigo mesmo. Toda a minha meta estipulada no começo do ano tinha ido por água abaixo. Eu sabia que dali em diante, por mais que eu tentasse, jamais poderia ser um deles. Mas porque então querer ser um deles? Não imagino, solidão é algo ruim. Passar os anos da escola sem ter o que recordar era algo muito difícil de superar. Na formatura do mesmo ano, quando anunciaram o fim da colação de grau, ninguém veio me cumprimentar. Mas ali naquele momento uma luz se abriu em meus olhos. 

Eu cheguei em casa bem decepcionado comigo mesmo, e comecei a fazer uma coisa que até então não me era comum. Comecei a pensar. Refleti muito. Cheguei a uma conclusão, naquela época: O mundo era tão maior, e tantas pessoas tinham tão pouco para partilhar. Eu não preciso deles, não preciso ser parte deles e não preciso que eles sejam parte de mim. Conheci pouquíssimas pessoas que sofreram a mesma coisa e se propuseram na mesma empreitada que eu, a de filosofar. De todas as formas eu tentei curar as feridas que essa repressão me causou: religião, bebida, cigarro, auto-flagelação, dois períodos de sessões psiquiátricas. Foi culpa deles? Eis o problema maior: no Bullying não há necessariamente um culpado, mas a falta de orientação adequada, seja para o agressor, seja para o agredido, que muitas vezes torna-se também um agressor, a fim de descontar a sua frustração primária.


As marcas do Bullying me perseguiram por anos. No ambiente de trabalho eu era extremamente defensivo, o que era péssimo. Os verdes anos na doce escola São Vicente me custaram anos de tentativas de socialização frustradas, 3 tentativas de suicídio, períodos extensos de abulia e depressão profunda. Enfim.

Afinal, qual o intuito deste texto? Bem meus raros leitores, eu não sou um fraco. Se fosse um fraco estaria prostrado a essa contingente medíocre até hoje. Eu sou forte, estou forte, maior que qualquer um que tentou me fazer sentir o avesso disso. O que me dá força? Minha filosofia, minha poesia, minha arte, as minhas qualidades como ser humano, o amor daqueles que me ajudaram e ajudam a chegar até aqui. Quanto mais eu fui humilhado, mais eu queria tratar as pessoas com carinho e com amor. Quanto mais eu fui excluído mais eu fiz questão de estender uma mão àqueles que precisam. Quanto maior a mesquinharia e medíocridade de um ser mais eu queria ter o coração e o espírito puros. Eu aprendi as palavras do homem: não junto riquezas na terra porque prata e ouro se enferrujam. Eu colho tesouros para minha alma.

Meus pais trabalhavam o dia todo na época, por essa razão, meu irmão (que também sofreu de Bullying, mas reagiu diferente de mim) e eu fomos prejudicados por não ter um acompanhamento mais próximo por parte deles. É compreensível, graças aos esforços honestos de meus amados pais nós tivemos uma casa confortável, pudemos estudar em uma escola que ao menos se dignava a nos ensinar, embora eu discorde de 90% de sua prática, e também tivemos uma vida que muitos dos nossos vizinhos jamais sonhariam ter. Superamos estas dores, somos homens hoje, homens dignos, que tentam seguir os passos do homem mais extraordinário de quem eu já ouvi falar: meu pai.

Não procuro por culpados e não responsabilizo ninguém pela miséria psicológica da minha vida. Seria dar-lhes extenso luxo, uma posição em minha vida que vocês não merecem, afinal seria fácil demais, seria ser suscetível demais.

O que eu digo a vocês que conseguiram ler até aqui é o seguinte: vocês hoje, ao que parece, são adultos. Muitos pensam em se casar, outros já tem os seus filhos, ou sobrinhos. Reflitam sobre o que passou, informem-se sobre o bullying e não tratem da questão de forma leviana. Ajudem também a identificar e combater esta prática. O conceito de bullying é recente, porque até certa época, acreditava-se que estas ocasiões não passavam de brincadeiras de criança. Conheço pessoas que até hoje não superaram as suas estruturas psicológicas por conta do que passaram na escola. 


E aos moralistas, faço uma extensão do alerta: o bullying é uma prática que não tem classe social ou econômica para ocorrer. Trata-se simplesmente da submissão do mais fraco diante de uma ou mais crianças mais fortes. Toda essa submissão se dá através da violência, seja física ou verbal.

Não digo façam por mim ou sequer por vocês, ou por quem quer que vocês se sintam culpados, mas pelas futuras crianças; pensem sobre este erro e não permitam que a nossa inocência da infância e o nosso micro universo extrapole os limites da boa convivência. Relatos como esse sempre existirão, mas buscar pela orientação, a conversa, o acompanhamento destes casos é fundamental para que o trauma seja, ao menos, amortecido, afinal, a vida não existe se não existirem os traumas, isso faz parte da vivência e do nosso processo de crescimento pessoal.

Para mais informações, eu indico o livro Bullying - Mentes Perigosas nas Escolas, da autora Ana Beatriz Barbosa Silva.

Eu direciono este texto em especial aos ex-colegas: Rafael Placoná, Bruno Mangiavachi, Alcides Castro, Vanessa Valadão, Natália Milagres, Cláudia Fernandes, Rafael Cornetti, Diego Vieira, Camila Muniz, Rogério Pontes, Murilo Ito, Cosmo Lima, Marcus Vinícius Ferreira, Lucas Martinelli, Rodolfo Pereira, Carla Costa, Danielle, Leandro Kunze, Rodolfo Lopes e Camila Cortez, as marcas ficam.

Aos mestres, com carinho: Professora Miriam, Professora Ana Maria, Professora Deisy, Professor Carlos Nascimento, Professor Gilmar, Professora Ívian Destro, Professora Eva, Professor Gesu, Professora Márcia Molina, Professora Jacy, Professor Dimar (descanse em paz), Professor Luís Gustavo, Professora Olga, Professor Pedro Marques, Professora Diana Zwi, Professor André, Professor Valfrides, Professora Márcia (descanse em paz), Professor Zaqueu, Professora Thaíse, Professora Nery Reiner, as marcas ficam.

Aos eternos amigos: Ismael Lino, Rafael Lino, Michel Lino, Israel Lino, Misael Lino. Jonas e Monica Harder. Antonio Bessa, Josefa Gonçalves, Hugo Garcia, Patrick Anjos, Thiago Maerki, João Massuia, Sara de Almeida, Bruno Costa Lima, Fábio Araújo, André Jerônimo, Thiago Hiromi, Santiago, Wagner Campos, Juliana Caserta, Lúcio Nunes, Renata Prudêncio, Roger Ubiali, Hélio Corona, Adan Rosler, Guilherme Vieira, Rodrigo Gaiotto, Júnior Santos, Cristiano Véder, Fábio Marrone, João Rosalvo, Camilla Ragazzi, Leandro Souza, Vital Soares, Diogo Silva, Virgílio Paragano, Daiane Durães, Angélica Martins, Lilian Caumo, Jéssica Paviotti, Márcio Garcia, Anderson Correia, Wagner Mota, Sílvia Mota, as marcas ficam.

E à minha família: Karina Guedes (meu amor), Sr. José Souza Vieira, Sra. Josefa de Araújo Vieira, Thiago Vieira, Sabrina Vieira, Adams Fehlauer, Daniel Macena, Deborah Macena, Francisco Macena, Eliana Macena, Bruno Costa, Allex Pimentel, Sr. Orlando Souza, Kika Santana, Roberto Santana, Alonso Souza, Sr. Severo Dias, Sra. Fátima Dias, Sra. Rosa Lima, Sra. Diva, as marcas ficam para sempre.

Meus Bonecos Ainda Falam


Em hipotético estado
O desenlace de nossas vidas:


Eterna descoberta em olhos brilhantes
Milagrosas curiosidades
Corações arfantes
Doces na estante
Alegrias Ininterruptas
Das brincadeiras na rua às catástrofes abruptas.
Cinza inocência, misterioso céu.


Hoje são copos com gelo
Garrafas com selos
Motores, marcas, desvelos.
Cabeças acocoradas nas mesas
Faces entre os joelhos
Suspiros ao léu
Mulheres sem véu,
Homens no céu...


E eu ainda na estante.

09/03/2007, Paulínia, SP

Obs: de cima da estante eu vejo um horizonte que está por cima de todas as cabeças que, como escravos voluntários, desceram.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Meus Bonecos Ainda Falam


Bullying, as marcas ficam. Lembro que uma vez li esta frase e foi como me balançar da ponte, porque perdi um pouco a respiração e fiquei atônito. Puxa vida, era pra tanto? Pois é, todos os nossos erros do passado já tem seus devidos nomes hoje. Imagino quais nomes darão para aqueles que ainda estão por vir.

Parece até um pouco de egoísmo e orgulho guardar por tanto tempo um monte de feridas e rancores, guardar nomes, rostos, imagens de momentos dolorosos do passado. Pois é, nós guardamos. Hoje sou professor, eu percebo no olhar aqueles que sofrem com este crime social. Crime, pois é o único nome que eu posso dar a esta hedionda atitude que passa despercebido pelos olhos de tantos adultos tolos. Desprezível.

Compartilho com vocês, meus raros leitores, uma experiência pessoal:

Era o ano de 1999, eu estava na oitava série de uma escola chamada Escola São Vicente de Paulo, na região do Capão Redondo em São Paulo. Uma escola católica que tentava, naquele ano, ainda preservar os frangalhos de uma tradição que há 20 anos, daquela época, era digna de respeito. Nada estava funcionando, a palavra de Deus e da Nossa Senhora Ave Maria, empurrada a nós goela abaixo, não estava tocando os corações de uma juventude que estava à porta de um dos séculos mais transformadores do comportamento humano. Mesmo diante de um evento tão extraordinário, nada mudou. Para aquela juventude era como dar pérolas aos porcos. A história nos mostra que os homens não merecem o seu século. Viveremos sempre na era em que ratos brigam por ossos roídos.

O que acontecia comigo? Eu tentava de alguma forma recompor a má conduta social do ano anterior, 1998, a sétima série, que fora repleta de rejeições e exclusões por parte dos colegas. Tentava restaurar o meu espírito, observar, com minha limitada mentalidade de adolescente de 13 anos, o espelho da minha personalidade. Dizia a mim mesmo: "No ano passado eles não gostaram de mim porque eu fui muito irritante e meus assuntos não foram interessantes. Neste ano vou tentar me aproximar com cuidado e fazer amizade com alguém". Era a minha estratégia de tentar agradar um bando de crianças que teimavam em fazer pose de adultos. Mas não deu certo.

Possivelmente era comum em toda escola uma brincadeira que, no São Vicente, chamavam de 'geral'. Consistia em escolher aleatoriamente (ou não) uma pessoa, todos os meninos faziam uma roda em volta desse pessoa e contavam regressivamente de 10 até 0, e no 0 eles davam tapinhas nas nossas cabeças. Claro, na tentativa de inventar uma expressão, a gente sempre dá carinho àqueles que são da casa, e mostra aos de fora onde é o seu devido lugar. Eu era de fora, então a brincadeira foi repleta de maldade. Eu não fui o único a passar por isso, vários colegas com quem mantenho contato compartilham comigo de experiências semelhantes. A idéia era agredir mesmo, humilhar, zombar. Sim, coisa de criança, nós sabemos, alguns deles sequer percebem o teor e o impacto que isso pode causar na auto-estima.

Nesta ocasião em que eu tomei uma 'geral', fiquei me debatendo e acabei acertando um rapazinho mais velho, um dos caras mais populares da turma. Bem, por ser mais velho, ele ficou furioso e veio acertar as contas. No intervalo eu estava jogando RPG com alguns colegas, quando chegou o rapaz com a sua turma, querendo acertas contas, menos pela dor do soco do que pelo seu orgulho. Por causa do soco que tomou na minha defesa aleatória, ele me deu um pisão violento no ombro. Nisso eu comecei a chorar. Doeu o chute? De forma alguma. Eu sempre saía na porrada com meu irmão, que era o dobro do tamanho de qualquer um de nós. O chute do rapaz da minha sala não me fez sentir dor física. Lágrimas por que? Bem, a alma que sofre abre uma porta que, no futuro, torna-se um privilégio perante os comuns, entretanto, será também a sua condenação caso a razão não tenha controle sobre ela. Eu chorei sim naquela hora, mas era um choro de decepção comigo mesmo. Toda a minha meta estipulada no começo do ano tinha ido por água abaixo. Eu sabia que dali em diante, por mais que eu tentasse, jamais poderia ser um deles. Mas porque então querer ser um deles? Não imagino, solidão é algo ruim. Passar os anos da escola sem ter o que recordar era algo muito difícil de superar. Na formatura do mesmo ano, quando anunciaram o fim da colação de grau, ninguém veio me cumprimentar. Mas ali naquele momento uma luz se abriu em meus olhos. O mundo era tão maior, e tantas pessoas tinham tão pouco para partilhar.

Numa outra ocasião, neste mesmo ano, o professor de Física me usou como exemplo em suas aulas, enquanto explicava sobre inércia e gravidade: "pois é, a gente sabe que nessa sala tem vários João-Bobo" enquanto me olhava com deboche. As marcas ficam. Eu desejei ser professor naquele dia, o oposto dele, que estava longe de ser um. Eu tinha apenas 13 anos, claro que eu seria bobo, eu era uma criança. Para um homem de mais de 30 anos não enxergar isso era algo muito grave. Preocupa-me hoje imaginar quantas crianças este imbecil da educação não poderia ter prejudicado na tentativa de agradar a turma da maioria. Lamentável.

Eu cheguei em casa bem decepcionado comigo mesmo, e comecei a fazer uma coisa que até então não me era comum. Comecei a pensar. Refleti muito. Cheguei a uma conclusão, naquela época: eu não preciso deles, não preciso ser parte deles e não preciso que eles sejam parte de mim. Conheci pouquíssimas pessoas que sofreram a mesma coisa e se propuseram na mesma empreitada que eu, a de filosofar. De todas as formas eu tentei curar as feridas que essa repressão me causou: religião, bebida, cigarro, auto-flagelação, dois períodos de sessões psiquiátricas. Foi culpa deles? Eis o problema maior: no Bullying não há necessariamente um culpado, mas a falta de orientação adequada, seja para o agressor, seja para o agredido, que muitas vezes torna-se também um agressor, a fim de descontar a sua frustração primária.

As marcas do Bullying me perseguiram por anos. No ambiente de trabalho eu era extremamente defensivo, o que era péssimo. Os verdes anos na doce escola São Vicente me custaram anos de tentativas de socialização frustradas, 3 tentativas de suicídio, períodos extensos de abulia e depressão profunda. Enfim.

Afinal, qual o intuito deste texto? Bem meus raros leitores, eu não sou um fraco. Se fosse um fraco estaria prostrado a essa contingente medíocre até hoje. Eu sou forte, estou forte, maior que qualquer um que tentou me fazer sentir o avesso disso. O que me dá força? Minha filosofia, minha poesia, minha arte, as minhas qualidades como ser humano, o amor daqueles que me ajudaram e ajudam a chegar até aqui. Quanto mais eu fui humilhado, mais eu queria tratar as pessoas com carinho e com amor. Quanto mais eu fui excluído mais eu fiz questão de estender uma mão àqueles que precisam. Quanto maior a mesquinharia e medíocridade de um ser mais eu queria ter o coração e o espírito puros. Eu aprendi as palavras do homem: não junto riquezas na terra porque prata e ouro se enferrujam. Eu colho tesouros para minha alma.

Meus pais trabalhavam o dia todo na época, por essa razão, meu irmão (que também sofreu de Bullying, mas reagiu diferente de mim) e eu fomos prejudicados por não ter um acompanhamento mais próximo por parte deles. É compreensível, graças aos esforços honestos de meus amados pais nós tivemos uma casa confortável, pudemos estudar em uma escola que ao menos se dignava a nos ensinar, embora eu discorde de 90% de sua prática, e também tivemos uma vida que muitos dos nossos vizinhos jamais sonhariam ter. Superamos estas dores, somos homens hoje, homens dignos, que tentam seguir os passos do homem mais extraordinário de quem eu já ouvi falar: meu pai.

Não procuro por culpados e não responsabilizo ninguém pela miséria psicológica da minha vida. Seria dar-lhes extenso luxo, uma posição em minha vida que vocês não merecem, afinal seria fácil demais, seria ser suscetível demais.

O que eu digo a vocês que conseguiram ler até aqui é o seguinte: vocês hoje, ao que parece, são adultos. Muitos pensam em se casar, outros já tem os seus filhos, ou sobrinhos. Olhem para o passado, previnam esta prática. O conceito de bullying é recente, porque até certa época, acreditava-se que estas ocasiões não passavam de brincadeiras de criança. Conheço pessoas que até hoje não superaram as suas estruturas psicológicas por conta do que passaram na escola. E aos moralistas, faço uma extensão do alerta: o bullying é uma prática que não tem classe social ou econômica para ocorrer. Trata-se simplesmente da submissão do mais fraco diante de um ou mais crianças mais fortes. Toda essa submissão se dá através da violência, seja física ou verbal.

Errar é humano, repetir o erro, como dizem, é burrice. Não por mim ou sequer por vocês, mas pelas futuras crianças, pensem sobre este erro e não permitam que a nossa inocência da infância e o nosso micro universo extrapole os limites da boa convivência. Relatos como esse sempre existirão, mas buscar pela orientação, a conversa, o acompanhamento destes casos é fundamental para que o trauma seja, ao menos, amortecido.

Para mais informações, eu indico o livro Bullying - Mentes Perigosas nas Escolas, da autora Ana Beatriz Barbosa Silva.

Eu direciono este texto em especial aos ex-colegas: Rafael Placoná, Bruno Mangiavachi, Alcides Castro, Vanessa Valadão, Natália Milagres, Cláudia Fernandes, Rafael Cornetti, Diego Vieira, Camila Muniz, Rogério Pontes, Murilo Ito, Cosmo Lima, Marcus Vinícius Ferreira, Lucas Martinelli, Rodolfo Pereira, Carla Costa, Danielle, Leandro Kunze, Rodolfo Lopes e Camila Cortez, as marcas ficam.

Aos mestres, com carinho: Professora Miriam, Professora Ana Maria, Professora Deisy, Professor Carlos Nascimento, Professor Gilmar, Professora Ívian Destro, Professora Eva, Professor Gesu, Professora Márcia Molina, Professora Jacy, Professor Dimar (descanse em paz), Professor Luís Gustavo, Professora Olga, Professor Pedro Marques, Professora Diana Zwi, Professor André, Professor Valfrides, Professora Márcia (descanse em paz), Professor Zaqueu, Professora Thaíse, Professora Nery Reiner, as marcas ficam.

Aos eternos amigos: Ismael Lino, Rafael Lino, Michel Lino, Israel Lino, Misael Lino. Jonas e Monica Harder. Antonio Bessa, Josefa Gonçalves, Hugo Garcia, Patrick Anjos, Thiago Maerki, João Massuia, Sara de Almeida, Bruno Costa Lima, Fábio Araújo, André Jerônimo, Thiago Hiromi, Santiago, Wagner Campos, Juliana Caserta, Lúcio Nunes, Renata Prudêncio, Roger Ubiali, Hélio Corona, Adan Rosler, Guilherme Vieira, Rodrigo Gaiotto, Júnior Santos, Cristiano Véder, Fábio Marrone, João Rosalvo, Camilla Ragazzi, Leandro Souza, Vital Soares, Diogo Silva, Virgílio Paragano, Daiane Durães, Angélica Martins, Lilian Caumo, Jéssica Paviotti, Márcio Garcia, Anderson Correia, Wagner Mota, Sílvia Mota, as marcas ficam.

E à minha família: Karina Guedes (meu amor), Sr. José Souza Vieira, Sra. Josefa de Araújo Vieira, Thiago Vieira, Sabrina Vieira, Adams Fehlauer, Daniel Macena, Deborah Macena, Francisco Macena, Eliana Macena, Bruno Costa, Allex Pimentel, Sr. Orlando Souza, Kika Santana, Roberto Santana, Alonso Souza, Sr. Severo Dias, Sra. Fátima Dias, Sra. Rosa Lima, Sra. Diva, as marcas ficam para sempre.


Meus Bonecos Ainda Falam


Em hipotético estado
O desenlace de nossas vidas:


Eterna descoberta em olhos brilhantes
Milagrosas curiosidades
Corações arfantes
Doces na estante
Alegrias Ininterruptas
Das brincadeiras na rua às catástrofes abruptas.
Cinza inocência, misterioso céu.

Hoje são copos com gelo
Garrafas com selos
Motores, marcas, desvelos.
Cabeças acocoradas nas mesas
Faces entre os joelhos
Suspiros ao léu
Mulheres sem véu,
Homens no céu...

E eu ainda na estante.

09/03/2007, Paulínia, SP

Obs: de cima da estante eu vejo um horizonte que está por cima de todas as cabeças que, como escravos voluntários, desceram.

Crepúsculo

Ai, as minhas dores íntimas
Que enlouquecidas berram aqui dentro
Pois lá longe já anuncia o Astro
Que seu posto por hoje já está feito!

E de tantas coisas perturbantes
Não há nada que seja tão constante
Que o anúncio do crepúsculo
Para o martírio dos malditos solitários!

E este céu vermelho roxo e azulado
Cuja cor duvida as minhas seguranças
E prossegue nessa rubra e fria perdição
Como o ar seco que nos sobre na garganta.

E vindo junto com a triste escuridão sombria
Um coral, um cântico, um murmúrio
De vozes ressonâncias do silêncio
De sofrer por um só o que ninguém sofria!

Substância: continuando sobre comunicação...

Desde que me coloquei a pensar sobre esta questão, lembro um pouco da proposta dos Concretistas. Aqueles poetas que escrevem (ou desenham) poesias. Afinal o que querem eles? Fazer-se entender de qual forma? Pois esta é a chave, a forma da forma. Num texto escrito é difícil captar a idéia. O poema concreto, pelo que pouco pude pensar, extrapola os limites da leitura gradual. A leitura de um poema concreto faz-se do todo, pois a imagem também diz muitas coisas.

O que querem eles afinal? Bem, refletindo sobre esta questão eu pude perceber uma ponta de crítica ao texto tradicionalista, que é este mesmo que escrevo agora. O escritor diz mesmo tudo o que quer dizer? Não quereria ele, manipular a nossa visão e nossa opinião sobre determinado assunto em favor de uma causa que vai além de sua causa individual? Sociedade não é nada sem grupos. Idéias não são nada sem força.

Uma idéia sozinha vira mentira, ou divagação. Uma idéia em dupla vira complô, ou vaidade. Uma idéia em conjunto torna-se verdade, torna-se uma espécie de força motora que vai conduzir a sociedade para determinado rumo, e escreverá a história de determinada maneira. Pois então um novo arquiteto das idéias surge, acrescenta algo àquela nova idéia, enquanto que outro tenta desconstruir, dizendo que o assoalho está demasiado roto, furado, está trespassando gotejos de uma garoa insuportável e torturante, e há de querer derrubá-la, tapando os buracos com uma nova idéia. O castelo do legado humano é interminável, e já ultrapassamos as nuvens. A idéia nos levou à Lua, e agora queremos Marte. Mas nossa ambição, embora seres pequenos, é surpreendente. Queremos conquistar o universo. Nós queremos o posto de Deus.


Substância:

Ainda direi completamente
de tudo o que é preciso
as idéias que respiram
outra vida insatisfeita
pela existência que nunca termina

quarta-feira, 2 de março de 2011

Denúncia

Comunicar através das palavras é uma tarefa impossível. Não há neste mundo entendimento, mas acordo. Entender é uma palavra que não se faz completamente fiel quando pensamos que na verdade apenas absorvemos o que não degenera o nosso espírito. Espíritos frágeis absorvem pouco, tão logo, sabem muito pouco da vida. Apenas sua parcela que lhe é favorável se convém. Mas quando há o espírito forte, que abraça a vida de peito aberto, e sabe do seu sabor amargo e do seu cheiro azedo, este a vive quase completamente.

O livre não se preocupa em se prender e nem em prender a ninguém. O livre quer apenas descobrir mistérios, desvendar perguntas, admirar-se bobo da até pequena arte que a natureza tenta nos mostrar. O escravo do mundo e de si mesmo, este tende a pensar que pode se comunicar com alguém. Relacionamento social é acordo, não é comunicação, porque a comunicação no mundo humano sempre é defeituosa, afinal, existe a vontade.


Denúncia

Comunicar
Por que?

Quando ouvir
é só um verbo

Verbalizar
é apostar
que a verba empasta
vidas inteiras

Divididas
entre
si

Numa vontade fúnebre

Fúnebre!

De importar
A impostora vontade:

Eu sobretudo
Ele entretanto.