domingo, 30 de janeiro de 2011

Olhar-te

No dia 26 de Janeiro os paulistanos que se prezam puderam presenciar um acontecimento muito importante. Não, não falo do primeiro dia após os 457 anos da cidade suja de São Paulo onde eu moro, embora eu a ame sem explicação. Falo do aniversário de dez anos da Cooperifa, o Sarau da periferia que acontece no bar do Zé Batidão, na região da Piraporinha. E, talvez, como comemoração, houve também o lançamento da revista Cooperifa, que registra um pouco da trajetória e dá uma pontinha sobre o que seria a Cooperifa, que em tanto é muito diferente do que quando presenciamos o Sarau.

Na Cooperifa podemos ver um exemplo vivo de uma síntese da história que acontece de dentro pra fora. Por anos das nossas vidas empurraram goela abaixo que Dom Pedro I, Pedro Álvares Cabral, os Bandeirantes, e toda essa elite preguiçosa, são os verdadeiros heróis do Brasil, pois foram muito importantes para... bem, nada! Na época a história era uma coisa muito chata. Sempre contaram mal as nossas histórias, porque mal falavam de um certo Zumbi, de um certo Tiradentes. Mal falavam de um certo Besouro. Ensinam-nos que os indígenas eram preguiçosos, ao invés de falarem que eles se recusavam a submeter-se à condição de serviçais. Nos contaram uma história de mangas invertidas, mal fadada, cheia de pouca vergonha e injustiça, onde eu tinha que aceitar que um bando de portugueses gordos e fedorentos eram os seres importantes da nossa história. O que tem a pena e o contrato na mão é o que está propenso a fazer o maior estrago.

Todas as quartas feiras acontece o Sarau da Cooperifa. Todas as quintas o sarau da Vila Fundão e o Barzinho Cultural do Monte Azul. Todas as segundas temos o Sarau do Binho, que agora é itinerante. Todas as últimas sextas do mês somos agraciados com a música contagiante do Panelafro, na casa de cultura do M'Boi Mirim. E os nomes não param: Sarau do Ademar, Sarau do Monte Azul, Casa de Cultura de Sto. Amaro, Sarau Palmarino, etc, etc, etc.

Afinal, pra que tanto Sarau Juvenal?

Isso é uma mostra de que a população está acordando. Enquanto pomposos que tem suas teses engavetadas para a satisfação do ego aguardam como viúvas saudosas o surgimento de um novo Chico Buarque da música, perdem de saber que novos poetas, sob novos ritmos, já dão e deram a sua contribuição à poesia: Cordel do Fogo Encantado, O Teatro Mágico, GOG, Rapadura, etc. A palavra 'intelectual' perde completamente a sua posição, e obtém um novo significado no dicionário popular (que querendo ou não, é a maioria!): deixa de ser alguém que tem inteligência para ser alguém que detém o conteúdo amontoado num grande montão de arrogância. Os que não tremem ao escutarem um poeta como GOG recitar é porque não tem sinceramente ouvidos para a poesia. Não vejo distinção na poesia de GOG para a de Chico Buarque.

Vejo professores de universidades, nos cursos de letras, exaltando uma poesia que já está mais do que consagrada para nós, mas nega, talvez por medo, por covardia, que existam novos poetas na cidade, que a periferia está criando seus próprios espaços culturais para falar poéticamente de suas dores, que não são poesiasinhas, mas poesias de verdadeira qualidade artística! Param a linha do tempo da poesia no Concretismo, e daí em diante, para estes, a arte não tem mais uma organização. Erro! Puro erro!

Nós que fomos obrigados a acreditar que os grandes são realmente grandes, agora estamos subindo ao palanque. Somos os donos da voz, dos microfones. Apenas os covardes nos ignoram por comodismo. Não acreditam no valor da poesia e não acreditam naquilo que ela pode oferecer às pessoas como um todo. São poetas de mesa de jantar, poetas de cama e horas moles após o desamor.

A arte está vindo de fora para dentro!


Olhar-te

O olhar
Te prende
Te mente
Des mente
Demente.
O olhar
A prende
Desolhar
Demente.
O olhar não mente
Só mente
A mente.
O olhar-te
Desmente
Mete
Desmete
Desmede
A mente.
O olhar-te sempre
De sempre
Gorfa
Desemgarfa
Desenforca.
O olhar
O de sempre
Gorfa
Farsa.
A farsa de sempre
Go ia bar
Gabar
A mente
demente
Que mente
O olhar.
O olhar-te
Não mente
À mente.
O olhar-te
não mede
nem mente.
O olhar-te
Prende
Solta
Liberta
Farsa
Libera
Facas
Maltrata
Ratos
De olhar
Demente.
O olhar-te sempre
Libertamor
Liberador
E mete a mente
A dita dor.
A ditaflor
De florar
Deliberar
Deliberanteamor.
O olhar-te sempre
Não é da gente
É damormente
Damentamor.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Nação

Houve um dia que eu me cansei um pouco da burocracia que envolve o curso de licenciatura. Esse dia foi, de certa forma histórico, só que meus pés não são o limite do mundo, então tanto faz. Acontece que a burocracia do ensino superior para aqueles que buscam a licenciatura é, tão desnecessária, e tão medíocre, que acaba cansando as energias únicas que sobram ao estudante que paga pela sua faculdade, e que deveria se preocupar apenas com o conteúdo do curso.

Quem cursa alguma área de licenciatura sabe do que se trata, a extensa lista de disciplinas que despreparam o ânimo do professor para enfrentar um monstro ainda maior e mais feio: a secretaria da educação e o Ministério da Educação. Parece final de Super Sentai!

Professores e políticos, em geral, parecem farinha do mesmo saco. Submissos uns aos outros, dependendo de quem tem o interesse mais poderoso do que quem, todos sob a ordem de uma mão mais forte, que é a do Corporativismo. Quero dizer, nos despreparam para desconfiar do serviço público, no caso, o da educação, e darmos créditos ao privado, que funciona apenas para quem detém algum poder capital, pois para os demais, pagar por um serviço privado é pagar pela própria corrente que vai jogar o seu nome na lama e vai te sufocar por alguns anos de vida.

O que funciona sob a ordem do sistema, a meu ver extremamente injusto, apenas serve para alimentar o sistema. Meu pensamento já foi medido como pequeno, imaturo, de rebelde sem causa, e por um tempo eu o mantive calado. Mas pensando bem, a praga capitalista (obrigado GOG) dá aos pobres (de mente e de dinheiro) o sonho de ser um alguém que não quer partilhar o seu pedaço asqueroso de poder. O seu pedaço com sangue e suor alheios, repulsivo e descarado, vulgar e imoral.

Pensando sobre o mundo como ele é hoje, tudo o que o capitalismo está nos ofecerendo de novidades trabalha para fomentar a imbecilização do homem. E parece que esta praga está cada vez mais eficiente, pois o consumo impensado e irremediável tem crescido a cada brinquedo inútil que a indústria nos lança aos olhos.

Um momento apenas precisamos fechar os olhos e prestar atenção ao nosso ser, que está por baixo de toda essa caca meteórica de novidades que nos impede de pensar.
A licenciatura não nos prepara para refletir estas questões tão urgentes sobre o mundo. É mais uma indústria, quem sabe para nos tirar a esperança de transmitir os nossos conhecimentos aquém. Vamos sobrevivendo como animais enquanto outros parasitam o escremento que vai se acumulando nas esquinas deste mundo sujo e mal projetado. Mesmo assim, o universo é tão maior, e o nosso mundo é apenas a nossa história. Se ele acabar, ele não acabará.


A Nação

Se algum dia obtivesse o poder da criação
Criaria uma nação de seres incompletos.

Trezentos homens destros e manetas.
Quatrocentas mulheres correndo pela esteira.

Um milhão de freiras com rosários de cabeceira.
Duzentos cientistas para dois tratados científicos
(Um de princípio paternalista e outro de cunho dinheirista)

Vinte senadores, cinqüenta deputados, dois juízes de direito
[e meios promotores.
Duas corjas de ladrões e uma de caluniadores.

Sete executivos com coroas de espinhos
(Contanto que à mesa, um saboroso vinho)
E em seus aposentos sobre as cômodas
Bibelôs de presidentes e professores
Todos comprados por seus credores
Ornado pelos papas com água benta e cores.