segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Frase XXIV

Uma mulher ferida pressupõe que não é valorizada ao invés de entender que não existem seres perfeitos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A Barata

Resistes, ó barata, como o mais superior dos seres
O único que já sabe o que é sentir repulsa de si mesmo
E o único que vive temerosamente perante os seres
Mais superiores dos seres.

Vives, ó barata, como o espectro superior
Da nossa camada da cadeia alimentar
E alimenta-se.

O Porco

Lama, lama, lama o dia inteiro
Rolar na lama
Ou na poça
Ou no banho da lavagem
E cheirar como cheira a um porco
Rosnando como rosna a um porco

Rosna um porco como bicaria uma ave para o abate
Este é o único que acredita que tem asas e viverá para sempre.

O Suricate

Um suricate sóbrio entende que anda com a pança sobre a terra
E só ergue a cabeça para procurar.

A Mula

Caminha aí, mula do peregrino
Nasceu só e morrerá só, comendo sua própria carcaça
Enquanto morre, remoerá sua própria morte

- Comi capim demais na vida
- Fiquei tempo demais de quatro quando deveria ter-me deitado
- Fiquei acorrentado demais

E saberá com ódio que dali a uma semana deixará de ser alguém
E só existirá enquanto outros existirem

- Soube da mula? Bateu as patas.

E quem te lembrará alguém como não foi
Sabendo que teu ser só a ti será?

- Tão boa...
- Tão má!
- Me devias
- Me pagava
- Me fazia.

Uma mula serve apenas para ser mula
E sabe como ser mula
E anda como mula, senta-se como mula, sente-se como
E ali que vemos a mula e sabemos quão mula é
E sem que haja a dúvida ainda perguntamos

- És mesmo uma mula?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Frase XXIII

Toda palavra, por mais breve que seja, tem o seu sentido lato. Vai da mente de quem fala, lê e escuta.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Quem é

Teimas em me ignorar
Fantasma do vão retorno
Nada traz consigo senão adventos de desgraça
Obsessão e sandice das cavernas mais fundas da mente
E do coração
Teimar em sentir o que sentes e adias tua vida
Teimas em ignorar teus passos passados e não sentir dor
Não existe água ou benção que cure esta semana
Não há verdades que não destruam boas intenções

A boa coisa, firmada em sofrimento
É ingênua demais
O mundo é a passagem larga
Estreito é o coração

A casa de doações dilui-se
E no lugar não existirá nada
Acostuma-te com nada para sorver-lhe as enfermidades de alma
E de espírito
Os morcegos apinham-se sem explicação.

Depois

Desde o choro ao sublime riso
Tudo está aqui
Quem nasce pega dessa cidade continuada
Cidade dos adiamentos

A conclusão é estado de fé:
Para quem a fé é alucidez
É fim.

Adie sentimentos
Tristezas fiquem pra depois
Crueza de amor, depois
Incerteza, não é sentimento, é sentido
Depois
Versos pela metade
depois
Coisas sem conclusão

sábado, 3 de dezembro de 2011

Cálice




Esta canção tem suas raízes históricas na repressão da ditadura em relação à liberdade de expressão, como muitos sabem, a proibição de poder manifestar o seu pensamento livremente. Penso que quando observo a sociedade atual, percebo que muitas coisas não mudaram, apenas foram mal disfarçadas. Fazem nosso povo acreditar em uma falsa autonomia de pensamento, e provavelmente a maioria não se sente reprimida porque sabe que pode dizer o que pensa, e por tal razão, muitos acreditam que a liberdade de expressão realmente acontece.

Isso seria válido afirmar se o que a maioria da sociedade pensa e expressa fosse digno de atenção. É claro que o que se vê é unicamente a manifestação da futilidade, de observações pequenas a respeito de um cotidiano limitado e que só faz sentido para quem se manifesta. Além do que, parece completamente proibido alguém se levantar e tentar trazer clareza a algum assunto polêmico, os mesmos assuntos que são tratados com tão pouco caso e respeito nos meios de comunicação de massa. E logo expressar realmente aquilo que se pensa acaba por ser reprimido por uma avalanche de reprovações voluntárias por parte daqueles que insistem em defender quem só prejudica a nossa vida.

Fala-se tanto em progresso e evolução da sociedade, mas a unica coisa que eu vi evoluir ao longo destes anos foi o número de tralhas que temos trazido para dentro de nossas casas, inspiradas por um consumo estúpido e desnecessário. Quando é que vamos falar do progresso e evolução em relação à coexistência da sociedade, e em relação de quem verdadeiramente está fudendo com a nossa vida? O governo? Não está fácil demais? Não está óbvio demais?

O brasileiro é preguiçoso sim, eu concordo, mas a classe média tende a dizer que a preguiça vem do pobre, que não trabalha, por isso é pobre. Entretanto a preguiça real poderia vir da maioria que não gosta e nem quer pensar. A preguiça poderia vir de verdade daqueles que só apontam os problemas, mas não se importam com as soluções, uma vez que falar em soluções é falar na mudança de comportamento e atitudes; quem se predispõe a mudar pelo bem da maioria? Quem se predispõe a abrir mão pelo bem da maioria? Quem se predispõe a apoiar o popular pelo bem da maioria, e largar de vez essa desculpa capitalista de que tudo se faz apenas por dinheiro? E essa preguiça me dá realmente muita preguiça de continuar acreditando em alguma melhora desse país de preguiçosos.

sábado, 5 de novembro de 2011

Frase XXII

Licença poética? O caralho! Eu escrevo o que quero e falo como quero. Os ouvidos são opcionais.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Zeta

Nestes anos intensos
De pura civilização
Sobra-nos palavras para dizer
Mas falta-nos informação.

Nestes anos incríveis
De homens que voam ao céu
Ou que dormem no chão
Falta-nos claramente a visão.

Nestes anos escuros
Cuja externa é claridade
Não sinto que tenho luz
Sinto uma densa obrigação.

Nestes anos tão móveis
Onde a vida que é tão longa
Se passa num breve relampeio
Os homens que andam imóveis estão.

A Alienação Social em Ensaio Sobre a Cegueira

A alienação social

O presente trabalho tratará da questão da alienação social contida no romance Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, e o papel que esta alienação desempenha na sociedade contemporânea. Mas antes de entender o papel a que esta alienação se dá na sociedade, é importante entender sob qual prisma está significada a idéia de alienação. Uma vez que se trata da alienação dentro do meio social, buscaremos a fonte de sua definição numa visão sociológica. A partir daí, com base na definição de alienação utilizada, será investigada a maneira como ela se expressa e o que se pode extrair dela na obra de Saramago.

Sob uma ótica sociológica, a alienação viria a ser uma suposta ignorância individual acerca dos problemas que envolvem a sociedade, ou um isolamento em relação aos demais integrantes do meio social. Estes problemas podem ter origem no próprio agrupamento social afetando aos indivíduos, ou pela via inversa, surgindo de um indivíduo e afetando o grupo social em geral. Utilizando de uma visão de Émile Durkheim, pode-se definir alienação como a inconsciência individual mediante os fatos que envolvem o grupo em que aquele indivíduo está inserido. As conseqüências deste isolamento vão depender do quão influente este indivíduo é no meio social.

Entretanto, extraindo já uma compreensão da obra, se pudermos entender que a sociedade que Saramago tece também pode ser um dos personagens do livro, percebe-se que a alienação não atinge unicamente aos indivíduos, mas pode ser um problema que acomete grupos inteiros quando estão dispersos por uma idéia imaginária que os anestesia da realidade.

A metáfora da cegueira
O caráter simbólico da obra de Saramago constitui uma posição de investigação dos problemas universais das comunidades humanas, e por essa razão, os assuntos que a sua literatura possibilita nos debates críticos podem ser inesgotáveis, uma vez que se espelham também na infinda dificuldade humana de se deparar consigo mesma.

Em Ensaio Sobre a Cegueira, logo de início, enquanto um homem aguarda em seu carro pelo sinal verde do semáforo, repentinamente fica cego, duma cegueira que é descrita como um mar branco. Ao contrário do que se acredita da cegueira comum, que é escura, a cegueira de Saramago é caracterizada pelo excesso de luz. A partir deste evento uma sucessão de personagens vai ficando cego da mesma cegueira branca, um após o outro, seguindo uma lógica a partir do contato que o primeiro cego tem com as demais pessoas, fazendo-nos crer que se trata mesmo de uma epidemia de cegueira. Não fosse a exceção de a mulher do oftalmologista ser imune ao problema, teríamos pouco material para entender que a cegueira não se trata apenas da deficiência visual comum, mas de uma espécie de cegueira social, mental.

Conforme surgem os constantes casos de cegueira, o governo, acreditando tratar-se de uma epidemia, toma a medida preventiva de deixar os cegos sob quarentena no manicômio da cidade, isolando-os dos demais cidadãos, e tão logo, abandonando-os. A simbologia descrita nesse momento do romance trata-se da visão de Saramago sobre as diferenças que a maioria da sociedade determina, para definir onde estão os limites da normalidade versus anormalidade.

Temos a imagem de uma fatalidade que, partindo para um nível profundo de observação, com o desenvolvimento da história torna-se praticamente invisível ao leitor, não fosse a menção constante do autor diante do fator cegueira que acomete a todos os personagens, exceto um. E a partir desta visão quase ingênua da vida social, o esplendor da mensagem está contido no fato de que, com a anulação de um dos cinco sentidos, a condição de vida degrada-se a tal ponto e ao mesmo tempo é tão semelhante à realidade, que nos faz questionar até mesmo os nossos valores mais profundos.

Não se trata de dizer que é por causa da cegueira que as pessoas passam a agir sem o apoio moral do qual antes dependiam, uma vez que elas se vêem em condição de igualdade no tocante ao seu estado físico. Mas que, os resquícios de uma personalidade egoísta naquele modelo de sociedade ao qual foram submetidos, deriva ao caos, novamente, reproduzindo, mesmo diante da igualdade física, as mesmas estruturas da sociedade exterior. Apesar de confinados num manicômio, Saramago nos dá a perspectiva dos isolados sociais, e deixa evidente que, diante de fatores comuns, a anormalidade torna-se normalidade a partir do momento em que nos acomodamos com as novas condições de vida.

A metáfora da cegueira consiste em presumir que tal condição trata-se, na verdade, de uma postura egoísta e indiferente em relação aos semelhantes, e que o caos descrito ao longo do romance não é dedutivo, mas algo que já ocorre quando isolamos os grupos devido as suas diferenças. Não apenas por essa razão, diante deste fato fica implícito na obra que esta visão é parcialmente opcional, pois os cegos sob confinamento ficam no aguardo de uma ajuda externa, acreditando que a sua sobrevivência dependerá tão somente da compaixão de quem está do lado de fora.

Ao mesmo tempo, dentre as incontáveis idéias que podemos extrair da obra, pode-se afirmar que as atitudes inconseqüentes, o estado de degradação, fazendo-os todos retornar ao seu estado primitivo de sobrevivência, deixando de lado os hábitos comuns da vida moderna (ou contemporânea), sejam hábitos de uma polidez social, higiene e pudor, talvez salte tão claramente ao olhar do leitor pelo fato de os cegos, pensando estarem cegos, acreditem também que ninguém os verá fazendo o que estão fazendo, ninguém os verá agindo numa espécie de surdina; ocultos pela sua nova condição física, dando-lhes a ilusão de uma vantagem de obscurecer suas atitudes animais e a despreocupação com alguma vergonha ou justificativa, daí também as ações que nós julgaríamos demasiadas desumanas. E o ponto mais alto é que, Saramago desnuda tão completamente as suas personagens de qualquer defesa, deixando-as tão expostas às suas condições de vida mais naturais, que não importa o obstáculo que eles terão a sua frente, a moral social é arbitrária, e o que está em questão é a sobrevivência.

A questão das hierarquias e do poder

Uma vez confinados, os cegos passam a organizarem-se entre si, e a mulher do médico, sendo a única que é capaz de enxergar, doa-se o máximo que pode para auxiliá-los, sem deixar que se revele o seu segredo, de que é capaz de ver. A cada dia que passa mais pessoas que foram afetadas pela cegueira chegam ao local, e vão se acomodando com podem, à medida que o manicômio vai se tornando incapaz de acomodar tantas pessoas, e de acomodar as necessidades básicas de todos. Os locais que abrigam aos cegos são chamados de alas, e aqui se pode traçar um paralelo entre cada ala com a noção que temos de pátria.

A crítica de Saramago, nesse ponto, volta-se para as relações de poder na sociedade. A começar que ao chegarem ao manicômio, os primeiros cegos tentam se organizar como podem, escolhem um leito que lhe servirá de lar, tal como as sociedades primitivas onde cada membro escolhe um local para morar de acordo com sua conveniência, e ali permanece. Logo então surge a necessidade de um representante para cada ala, que, em nome da maioria, travará relações com os representantes das demais alas, numa espécie de diplomacia.

É questão de tempo para que as alas comecem a disputar entre si pela sobrevivência, e a partir da concepção que cada um tem a respeito da sua condição atual, justificam-se as atitudes arbitrárias, perversas para e contra si próprios, a fim de garantir vantagens individuais em relação àqueles que, por alguma razão, acreditam por si mesmos serem menos poderosos, evidenciados por uma submissão voluntária.

Uma das alas se sobressai às outras, que é a que onde estão os chamados cegos malvados, pelo fato de um deles possuir uma arma de fogo, carregada, e que simboliza e garante a sua dominação sobre as outras alas. A partir daí, os cegos malvados, aproveitando-se das ferramentas próprias de quem está na posição de dominador, permitem-se ao direito de exigir privilégios em troca da, não garantia, mas, autorização da sobrevivência das outras alas, deixando evidente, sem máscaras, que as relações de poder entre as sociedades, se dão através do medo e do autoritarismo, entretanto, ocultados pelos mais diversos mecanismos, dentre eles a moral e o acordo social, para serem citados. Através do seu poder, os cegos malvados começam a exigir tudo o que para eles podem ainda ser julgado de valor material, por mais que não façam uso disso, mas nessa relação de troca em que, aquele que detém o poder sempre exige um tributo pelo benefício que está sendo prestado. Não pode deixar de passar despercebido o fato de que as provisões dadas aos cegos, antes dessa hierarquização, vinha da parte do governo, que também exigia um tributo em troca da alimentação escassa dos cegos, talvez o tributo do isolamento, do esquecimento e abandono, para evitar o constrangimento nacional de ter de lidar com um acontecimento cujas raízes são desconhecidas.

E por mais que Ensaio Sobre a Cegueira faça uma total inversão da atual condição humana, percebe-se tamanha semelhança da ficção com a nossa realidade, diante da possibilidade de degradação total. Ainda assim, mais do que prender-se a uma crítica imatura acerca da individualidade ou do egocentrismo social, Saramago extrapola, a partir desta inversão da condição social, e mostra-nos, a partir de sua dedução, que a sociedade está presa a valores tão ultrapassados e desnecessários, cuja sobrevivência deixa óbvia que são frágeis e descartáveis.

Uma passagem em que está evidente a noção total da degradação humana, por assim dizer, é o momento em que, uma vez acabados os objetos de valor dos cegos, os cegos malvados passam a exigir que as outras alas enviem as mulheres para darem o corpo em troca da alimentação. Todos hesitam no primeiro momento, que após uma decisão final, optam por aceitar em razão da sobrevivência do grupo. Neste momento nada mais parece fazer sentido na sociedade que ali fora construída, os valores relacionados a fidelidade, moral, decência ou indecência, quando a situação torna-se crítica na escolha entre manter os valores e morrer com uma dignidade pouco significativa, condenando também àqueles cuja moral difere, ou simplesmente sobreviver.

O poder está simbolizado pelo mecanismo que, aquele que o detém, submete aquele que se deixa submeter, e numa fala simbólica, como se tivesse consciência da natureza finita do conceito de poder, a mulher do médico entende que uma arma de fogo, mesmo carregada, é inútil uma vez que todas as suas balas são usadas. Ao mesmo tempo, quando entende que a sua condição favorável poderia libertar os demais cegos daquela dominação injusta, acaba por matar o líder dos cegos malvados, dando inspiração para que outra cega ponha aquela ala em chamas, libertando a todos.

Conclusão: A cegueira voluntária e os novos caminhos possíveis

Ao saírem da quarentena, o médico, a mulher do médico, a moça dos óculos escuros, o primeiro cego e sua esposa, o homem com a venda no olho e o garoto estrábico, iniciam uma jornada juntos, e notam que a epidemia acometeu a todos na cidade, talvez no país inteiro e quem saiba até mesmo no mundo inteiro.

Caminham errantes em busca de um novo abrigo, e dali em diante percebem que sua sobrevivência depende da sua relação de troca envolvendo a solidariedade e o bem comum. Os momentos finais do livro revelam pela primeira vez uma postura dos cegos que se permitem conhecer uns aos outros, ainda que inominados, ainda que se denominando pelas suas funções sociais ou suas características exteriores, mas começam a ter uma relação baseada numa nova afetividade, ligados pela compaixão mútua diante de uma condição comum e já não mais sentindo-se diferentes um dos outros.

Abrigaram-se na casa do médico, e foi dali que após terem descoberto mais de si, tornaram a enxergar, um a um, retomando a consciência da normalidade, procurando desvendar os motivos da cegueira. E por mais que procurem investigar o seu significado e as suas causas, seja pelo castigo dos pecados cometidos, ou pela indiferença social, seja pelo excesso de egoísmo ou pela falta de solidariedade, as causas em si ficam a mercê de cada um. Longe de se permitir a um entreguismo total nas relações sociais, Saramago talvez através de um apelo singelo, representado e materializado na mulher do médico, atravessa as obscuridades da razão humana para nos atingir no âmago, e clamar por mais humanidade numa sociedade que está imersa em excessos desnecessários à sobrevivência.

O narrador, como que com uma brincadeira propositada, que manipula uma situação em prol de observar os resultados, fez da cegueira um fator metafórico, e através de suas personagens tão comuns à nossa vida contemporânea, joga ao chão toda a arrogância, petulância e mesquinharia humanas para só então, entender o que se faz de fato com o sentido da visão, de qual olhar ele realmente se refere, como se jogasse na cara do leitor, de maneira violenta, porém na melhor das intenções, aquela máxima de Lacan, a do aprendizado e amadurecimento pelo trauma. Só através deste trauma, passar a perceber o desastre de não enxergar o próximo, e as conseqüências terríveis dessa solidão e isolamentos voluntários.


Referências Bibliográficas

BOCK, Ana Mercês Bahia et al (1988) – Psicologias, Uma Introdução ao Estudo. São Paulo, Editora Saraiva.
COSTA, Horácio (1997). José Saramago – O período formativo. Lisboa, Editorial Caminho.
DURKHEIM, Émile (1973). Coleção Os Pensadores São Paulo, Abril Cultural.
QUINTANEIRO, Tania et al (2003). Um toque de clássicos – Marx, Durkheim, Weber. Belo Horizonte, Editora UFMG.
SARAMAGO, José (1996). Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia das Letras.
SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da (1989). José Saramago – Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa, Publicações Dom Quixote.

Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

Visão Panorâmica do Momento Histórico

O século XX, de acordo com alguns historiadores, é considerado o mais terrível século de toda a história registrada pelo homem.  A razão maior que lhe cabe este título são as inúmeras guerras que cobriram de destroços e sofrimento a passagem do homem por esta parte do tempo Cristão. Num primeiro momento, tal afirmação parece estranha quando colocamos os eventos do século passado em comparação com épocas como a Idade Média, ou a conhecida Antiguidade Clássica, que também foram marcadas por violentas guerras. Entretanto, a medida maior que torna o século XX uma mancha tão insolúvel e uma ferida tão profunda da história humana está no desenvolvimento da tecnológica bélica.

O horror toma conta dos corações daqueles que pasmam diante tantas atrocidades. E a cada época, novas justificativas surgem para condicionar a mentalidade da população, que apesar de ser a maioria, não consegue reagir. O século XX chegou ao ápice da incerteza da vida após a morte, e ao mesmo tempo, a ciência mentiu a devoção que os Iluministas esperavam, e já não mais acolheu os homens como mãe, quando utilizados os potenciais do universo contra o próprio universo. O homem descobriu o caminho cada vez mais eficiente de manter nações inteiras sob controle, utilizando o medo. E foi com medo que muitos atravessaram suas vidas, e não viveram, simplesmente puderam vê-la passando diante dos seus olhos, impassíveis, sem reação.

Neste cenário, a arte perde a cor, porém não perde o brilho. Cinza, vermelho, preto, estas parecem ser as cores predominantes num cenário onde as cidades expandem incontrolavelmente, juntamente com a multiplicação dos habitantes terrestres. Quando se lança um olhar panorâmico, vê-se nitidamente a Primeira Grande Guerra, a Segunda Grande Guerra, as intermináveis guerras civis Africanas contra o neo-colonialismo, os conflitos entre Japão e China, a questão da Índia contra o império britânico, a Guerra Fria entre as potências EUA e URSS, que embora as baixas sejam ínfimas à guerra tradicional, houve o dilaceramento da liberdade do homem, trocada pela estupidificação do homem.

Homens, artistas, surgem como profetas do inevitável, assumem uma posição de denúncia, e até mesmo anúncio de um futuro terrível, um caminho sem volta, como se cantassem o túmulo que nós mesmos cavamos pela excessiva ganância. Homens já desacreditados do homem.
Visão Panorâmica da Obra

Aldous Huxley nos apresenta o seu Admirável Mundo Novo, um arquétipo da Londres que, nos anos 30, ele tentou prever, baseado nas direções científicas e sociais que observados em sua época.

O espaço é em Londres, no ano de “our Ford 632”, algo por volta do ano de 2540 no calendário Gregoriano. A maioria da população é unificada sob os princípios do Estado Mundial (World State); o Estado Mundial é uma sociedade global, que provê recursos em abundância, cujo ideal é alcançar felicidade plena para todos.

A sociedade é dividida em castas, denominadas Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Épsolons (em algumas versões, Ípsolons), e cada categoria social possui as suas atribuições e defeitos próprios. Por exemplo, nos Alfas existem ainda a divisão em Alfa Dois Mais, ou Alfa Menos. Todas estas castas tem as suas funções sociais já condicionadas no início da vida, no Centro de Incubação e Condicionamento de Londres, uma espécie de laboratório, que hoje, poderia ser comparado aos laboratórios de inseminação artificial. Entretanto, há uma ressalva.

O que se faz no espaço onde toda a vida humana de Londres tem início é, interromper o seu curso natural, antes mesmo que a pessoa crie vontade própria. Através de impulsos externos, captados pela inteligência cognitiva dos bebês, são impostos os seus gostos, os seus medos, os seus desejos, e até mesmo as suas capacidades. A partir daí já se tem determinados desde o berço qual a função social de cada pessoa nascida, sem lhes dar a chance de escolher um caminho próprio. Apesar das diversas castas, a narração se foca apenas no convívio social entre os Alfas, que são consideradas as pessoas mais privilegiadas da sociedade, tal como a classe elitista da Londres de Huxley.

Há resenhas afirmando que Admirável Mundo Novo era uma crítica às teorias behavioristas de Skinner, as quais Huxley eleva ao extremo e no desenrolar da narração nos mostra a quão falhas elas seriam. Classificado como um romance anti-utópico, ou, distópico, Huxley descreve uma sociedade completamente indiferente à esta condição de determinismo pelo meio, preocupada apenas com o trivial, o prazer próprio.

Inevitáveis comparações entre esta obra e 1984 de Orwell remetem às suas oposições que pretendem demonstrar um mesmo caminho; uma vez que os cidadãos de 1984 são dominados pelo medo, os de Admirável Mundo Novo se deixam dominar pelos prazeres triviais que Londres produz com tamanha abundância. Desta forma, num estado de plena felicidade individual (resultado do pensamento vitoriano), não haveria motivos para se preocupar com questões como o caos social reinante nas outras sociedades. Além do mais, Huxley usa o gancho da crítica à Skinner para captar a trilha pela qual a sociedade Londrina caminhava. Assustadoramente a obra nos incita a fazer constantes paralelos com a sociedade atual.

As personagens são fúteis, indiferentes aos problemas alheios, e repulsas às culturas diferentes. A religião, o casamento, a concepção por meio naturais (relação sexual) e a família são completamente repudiadas por esta sociedade. São devotos do Fordismo, e seu calendário é divido em Antes de Ford e Depois de Ford.

O sexo é visto de uma forma totalmente banalizada, visando apenas o prazer, independente de sentimentos, pois para esta sociedade, o amor não existe mais. O que Huxley nos mostra é a nuvem da plena indiferença que paira sobre uma sociedade que questiona aquele que questiona. Enquanto Orwell teme a destruição da informação, Huxley teme que o excesso de informação atinja um nível de banalização total, tornando-se irrelevante.
Um Breve Resumo da Obra

O personagem Bernard Marx sente-se insatisfeito com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta. Num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado uma espécie de "reserva histórica" - semelhante às atuais reservas indígenas - onde preservam-se os costumes "selvagens" do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Bernard encontra uma mulher oriunda da civilização, Linda, e o filho dela, John. Bernard vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada.

Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável, ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade. Linda, quando chegada à civilização foi rejeitada pela sociedade.
O livro desenvolve-se a partir do contraponto entre esta hipotética civilização ultra-estruturada (com o fim de obter a felicidade de todos os seus membros, qualquer que seja a sua posição social) e as impressões humanas e sensíveis do "selvagem" John que, visto como algo aberrante, cria um fascínio estranho entre os habitantes do "Admirável Mundo Novo".

Aldous Huxley escreveu, mais tarde, outro livro, chamado Retorno ao Admirável Mundo Novo, sobre o assunto: um ensaio onde demonstrava que muitas das "profecias" do seu romance estavam a ser realizadas graças ao "progresso" científico, no que diz respeito à manipulação da vontade de seres humanos.
Bibliografia

HUXLEY, Aldous, Admirável Mundo Novo. 1ª Edição. Tradução de Lino Vallandro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2009.
CEVASCO, M. L.; VALTER, L. S. Rumos da Literatura Inglesa, 1985. São Paulo: Editora Ática. Série Princípios, Volume 11.
HOBSBAWN, E. J. Da revolução industrial inglesa ao imperialismo. 5ª ed. Tradução de Donaldson Magalhães Garschagen. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2009.

Manuel Bandeira - Correspondência entre Infância e Memória

Manuel Bandeira é considerado pela crítica como um dos maiores poetas da literatura nacional. Seu lirismo inconfundível foi, senão o maior, um dos mais destacados representantes do que era proposto como novos caminhos para a poesia nacional, irradiado a todos os cantos do país a partir do movimento Modernista idealizado na Semana de Arte Moderna de 1922.

O que diferencia Bandeira dos demais poetas seja, talvez, a temática de sua poesia. A complexidade inicial limita-se à estrutura de versos livres, que, mais do que simplesmente soltar versos aleatoriamente no papel, marca a trajetória de seu lirismo e da sua mensagem poética, deixando evidente que até os sinais de pontuação, se levados em consideração, contribuem para uma compreensão mais ampla de sua obra.

Sabemos que para muitos críticos uma obra de arte, quando considerada como tal, ultrapassa o tempo cronológico de seu autor, e trafega livremente por qualquer época entre passado e presente, em qualquer momento ou cultura da história humana. Uma obra de arte veste em todos os homens a idéia universal traduzida pelos olhos do autor que, munido de plena sensibilidade, fala de sentimentos comuns aos homens, mas com tamanha maestria que é como se falasse por todos os homens. Roland Barthes, polêmico crítico de arte francês, era a favor desta concepção de que o verdadeiro artista não detém o controle sobre a sua obra, em outras palavras, desmanchava o mito de “autor-Deus”, pois a obra, quando uma vez exposta ao público, o seu significado transcenderia os limites da sua significância, ou como afirmava que “a morte do autor é o nascimento do leitor”.

Há poetas, e porque não poderia deixar de ser, que fazem de sua obra a história artística de suas próprias vidas, simbolizando com imagens aquilo que não poderiam simbolizar com palavras diretas. O que caracteriza logo a princípio a obra de Manuel Bandeira é uma profunda tristeza e desilusão com a vida, como pode ser lido nos poemas de sua primeira publicação, A Cinza das Horas. Mas longe de ser o comum medo que a juventude tem de enfrentar os longos anos de uma vida inteira, ou quem sabe aquela desilusão pouco justificada dos literatos da elite romântica (diga-se de passagem, Álvarez de Azevedo ou Camilo Castelo Branco), Manuel Bandeira imprime em seus versos uma desilusão que é verdadeira, um desgosto profundo de pender entre a certeza da morte e a dúvida pelo novo dia, resultado de sua doença respiratória. Quando descobriu que tinha tuberculose, partiu para a Suíça para fazer um tratamento, e daí em diante este fato marcaria a sua obra para sempre. E mesmo com o passar dos tempos, vivendo os seus oitenta e dois anos de idade, no amadurecimento, Bandeira não altera a temática de sua poesia, não se deixa seduzir pelos eventos externos à sua personalidade, preservando e sempre prevalecendo a simplicidade do pernambucano que tem como pretensão absoluta simplesmente a vida que lhe foi negada. Massaud Moisés (1995, pg 393) acrescenta que “suas antenas captavam sinais em toda parte, absorviam-nos e transfundiam-nos em mensagens de beleza, mas sem alterar a substância de uma visão do mundo que se manteve fiel a si mesma, no decurso de meio século de elaboração poética” e que a poesia de Manuel Bandeira “constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a Arte era o prato obrigatório”.

No poema a seguir, Desesperança, do livro A Cinza das Horas (1917), temos uma idéia do que era a vida para o autor:

(...)
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
(...)
(Desesperança in A Cinza das Horas)

Mas, mesmo com a sua doença, isso não impediu que Bandeira tentasse viver uma vida normal, sem ter-lhe preso aos pés uma preocupação hedionda com a hora da morte, permitindo-lhe até mesmo fazer de sua própria desgraça uma piada. A seguir um trecho do poema Pneumotórax, do livro Libertinagem (1930):

(...)
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
(Pneumotórax in Libertinagem)

Além desta preocupação na vida de Bandeira, outro aspecto que também muito marca a sua obra é a forte ligação que ele tinha com os seus entes queridos. A sua recordação dos anos de infância remonta as imagens de seus avós, das moças que o criaram quando criança, de seus pais, seus irmãos, e todos aqueles por quem ele pudesse creditar algum afeto. Carinhoso e delicado por natureza, nunca deixava de homenagear em suas poesias aqueles a quem tanto devia por sua formação como ser humano. Antes que uma simples menção egocêntrica de sua própria vida, a angústia da qual Bandeira retratava em suas recordações de infância, era traduzida pela pungente dor da saudade, e anos mais tarde, na solidão. Aqui um famoso poema em que falava de sua irmã, O Anjo da Guarda também do livro Libertinagem:
Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
- brasileiro

Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou pra junto do Senhor.
(O Anjo da Guarda in Libertinagem)

Suas recordações, ora melancólicas, ora nos enganando com uma tentativa de querer ser feliz (o que difere do estado em si) quando no fundo, com o olhar mais atento, nota-se um apelo confessionário para aliviar as dores da vida, usa como tentativa de fuga da sua cruel realidade e condição de vida, as lembranças do tempo da infância. Em muitas obras, esta delicadeza, esta ternura juvenil repleta de uma inocência pura, na verdade implica numa tentativa de depositar todas as suas esperanças de alegria na busca das melhores lembranças da sua época de criança, ainda que em misto a uma dor de ora transitar pelo imaginário da memória e aceitação da realidade. Também de Libertinagem, o poema Evocação do Recife, temos um Bandeira passeando pela imagem da cidade natal, através de suas recordações, e ao mesmo tempo, negando um progresso que destrói as suas memórias pueris:

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás da casa ficava a Rua da Saudade...
... onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
... onde se ia pescar escondido
(Evocação do Recife in Libertinagem)

Conforme o amadurecimento da sua obra, especialmente a partir de Libertinagem, quando assume de vez a estética modernista, e deixa para trás as suas influências do parnasianismo, ficam cada vez mais evidentes a sua transição nestas recordações da infância e nas suas memórias dos lugares que visitou, dos amigos que não tem mais perto de si, e dos entes queridos. Ora aceitando, ora lamentando a condição de sua vida, Bandeira passará a vida toda passeando pelos caminhos de sua memória, e registrando os momentos presentes e passados, temperados com uma liberdade de versificação refinada.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band
(...)
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhordo mundo? ... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!
(Não Sei Dançar in Libertinangem, 1930)
  .........................................................................................................
(...)
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam
[no morro atrás de casa e tinha cara de pau).
(Mulheres in Libertinagem, 1930)

Lançando mão de tudo o que a literatura universal lhe dispõe, os seus diversos caminhos poéticos nos remetem a sua versificação livre, não por acaso, que em muito comungam com a sua fuga da dor, ou ao menos, a tentativa do alívio da dor. Em muitos casos, assemelhando-se ao enfermo preso ao leito (que poderíamos pressupor o seu próprio corpo físico), que de lá tudo colhe com o olhar, não obstante, querendo não estar ali, mas lá, no lugar daqueles a quem lhe compete permitir pensar que estão em melhor lugar do que si próprio.

A mesma temática da solidão e das recordações aparece na sua obra mais amadurecida, como em Lira dos Cinquent’anos. Diferente da outra lira, a dos vinte anos, de Álvarez de Azevedo, temos um poeta romântico sim, idealista, modelando imagens em sua mente de homem que atingiu o cerne da maturidade e sabedoria adultas, não mais pela idade do que pela vivência e experiência de vidas, alguém que com a mesma ternura de toda uma vida ainda, sustentada pela preservação da meninice, da doçura da infância, se queixa dos fantasmas que o perseguem pela vida inteira.

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
(Versos de Natal in Lira dos Cinquent’anos)
.........................................................................................................

O córrego é o mesmo
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.

Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda li de mim
- Mim daqueles tempos!
(Peregrinação in Lira dos Cinquent’anos)
.........................................................................................................
A casa era por aqui...
Onde?Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.
(Velha Chácara in Lira dos Cinquent’anos)


Poderiam ser escritas obras repletas de páginas, tentando desvendar o os traços autobiográficos da obra de Manuel Bandeira, e a ponte que ele percorria entre a infância e as recordações. Enquanto, em meio aos gritos rebeldes do modernismo, despojando aquela querência de mudança, tínhamos o poeta que singelamente traçava um olhar brando para a vida. Os vestígios da obra nos permitem pensar que as recordações eram uma fuga e ao mesmo tempo um consolo, da fatalidade da doença tuberculosa à, em seguida, inevitável solidão com a morte dos queridos. Tal delineamento da solidão e da desesperança deu-lhe o costume do sofrer, e na espera da morte, aquela por quem tanto aguardou, talvez para o poeta tenha sido exatamente o tema de sua “Consoada”, talvez tenha lhe dito que o menino que o fortaleceu e manteve vivas as suas memórias, abrandaram-lhe os medos, uma vez que a “indesejada das gentes” era-lhe já a sua íntima parceira.


Referências Bibliográficas

BANDEIRA, Manuel, 2008. Manuel Bandeira de Bolso – Uma Antologia Poética. Editora LP&M Pocket, vol. 675. São Paulo.
BANDEIRA, Manuel, 1961. Manuel Bandeira, Antologia Poética, 7ª edição. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro.
BARTHES, Roland, 1966. Crítica e Verdade. Série Debates, 2007. Editora Perspectiva: São Paulo.
BOSI, Alfredo, 1997. História Concisa da Literatura Brasileira, 37ª edição. Editora Cultrix: São Paulo.
CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo, 1983. Presença da Literatura Brasileira – III Modernismo, 9ª edição. Editora Difel: São Paulo
MOISÉS, Massaud, 1971. A Literatura Brasileira Através dos Textos, 1ª edição. Editora Cultrix: São Paulo.
________________, 1996. História da Literatura Brasileira, Modernismo, 3ª edição, revista e aumentada. Editora Cultrix: São Paulo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Frase XXI

O homem sábio parte do pressuposto de que todos pensam e tem inteligência, e que burrice é um mito criado para não assumirmos quando fracassamos com os outros.

Frase XX

Antigamente eu jogava bola na rua, hoje em dia eu usufruo das tecnologias disponíveis e a vida ainda é maravilhosa para mim. Saudosismo só serve pra quem não é honesto com o coração.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Frase XIX

Assumir as próprias falhas evita o sofrimento, diria até que uma guerra inteira.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

... ... ...

Para o poeta
A palavra basta

Das desgraças do silêncio

Isabelle, que amava, permitiu todos os sinais

Preparou o café da manhã e foi trabalhar
No horário do almoço comprou-lhe roupas
À janta, levou flores e pôs num vaso ornamentado.

Borges comeu porque sentiu fome
Vestiu-se porque sentiu frio
E achou que a casa ganhou um aspecto campestre.

Dela ouviu-se um estampido e um choro
E foi para o túmulo sem saber e sem ouvir.

domingo, 2 de outubro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Alfabeto ou be a bá

A
B
C

D
E
F

G
H
I

J
L
M

N
O
P

Q
R
S
T

U
V
X
Z

e o

w, k, y, ...

Bibliografia do Olhar

Caia nas profundezas da poça d'água
No mais fundo do lago
Vire à esquerda
Nade duas braçadas

pare respire pense mais forte

repare pire não há ordem

o mundo lá fora
palavra escrita solta
o som preso
o corpo preso
a alma presa

Ali está o coração

Rock in que?

O Rock in Rio está bem por aí, impossível deixar de notar, por mais que queiramos fugir do parasitismo das novidades, eles nos perseguem sejam em forma de notícias virtuais, sejam em forma de pessoas. Quanto a este problema não há muito o que se possa fazer, o complexo de Aldous Huxley da sociedade inevitável que nos perseguirá até o momento em que nos enforquemos no mais alto toco da nossa toca recôndita nas profundezas da mais densa e inabitável mata como símbolo (e talvez única opção) para libertação, ele existe. Fazer o que?

Bem, fazer o que? Eu passei os últimos dois ou três anos debruçado nessa pergunta. Fazer o que? Pensar, talvez. E às vezes pensando eu me deparo com umas coisas que não consigo deixar passar batido. Detesto incoerência de discurso. Tomar partido é perigoso por causa disso, você será sempre escravo das suas próprias palavras. Eles quem queiram, não?

Li um dia desses umas notícias reclamando que o Rock In Rio estava Pop demais, ou até mesmo, Axé demais por ser um evento tão rock. Bem, até aí faz jus, afinal um evento de Rock que propagandeia o estilo popular Rock só poderia nos oferecer nada mais do que Rock. Enfim.

Mas a lenga lenga toda é porque dentre as notícias que li por satisfação pessoal, uma delas me chamou a atenção e até me incomodou um pouco. Não me lembro quem e pouco tanto faz agora tratando-se de um jornalista (acho que era o Maurício Stycer) se queixava de uma postura anarquista (e concordo com ele, infantil) de Dinho Ouro Preto por dizer que "nenhum político é confiável", e claro, Stycer lamentou por esta declaração do roqueiro. Em seguida contestou a postura do vocalista do Red Hot Chilli Pepers por utilizar uma camiseta com a propaganda da cerveja concorrente da patrocinadora do evento. Sim, e? Bem, no fim ele disse algo do tipo: "isso é rock?"

Levando em conta que Dinho Ouro Preto é um adolescente imaturo perdido no corpo de um homem velho, e que Antony Kiedis está mais preocupado consigo mesmo do que com qualquer evento, eu me pergunto, hoje, após pouco mais de 10 anos que acompanho esse estilo: para que serve, afinal, o rock? Eu até levaria adiante e perguntaria para que serve afinal um estilo, mas aí entraria com os pés pelas mãos nos meus próprios motivos.

Pesquisando um pouco sobre a história do rock n' roll, eu me cansei por ver aquela irritante disputa etno-cultural-ideológica para quem deveríamos dar crédito ao nascimento do rock, se aos negros, aos brancos, aos estadunidenses ou aos britânicos. Mas o que afinal eu posso entender e como portanto poderia definir o rock, eu resumiria em uma única palavra: rebeldia.

A rebeldia é um clown shakesperiano, porque sua faceta depende de um contexto para ser entendido. Toda a cultura popular surge a partir da reação contra cultura dominante, cujos propósitos ambíguos e obviamente manipuladores já não conseguem mais se esconder sob a sua própria máscara. A rebeldia do rock n' roll era uma forma de protesto a uma repressão silenciosa e hipócrita da sociedade, do american way of life, quando os negros encontravam nesta cultura a única forma de expressar suas angústias pela sua repressão étnica, ou as feministas destrinchavam sua insatisfação de viverem submetidas a uma sociedade paternalista, ou quem sabe até mesmo pela hipocrisia da repressão sexual sobre a juventude. A partir deste primeiro fôlego, cabeças mais engajadas tomaram carona neste movimento e falaram da guerra, da Igreja, do Estado, da Burguesia, da Escola, dos sentimentos reprimidos, falaram em prol da juventude, a favor de uma sociedade mais justa, ou ao menos, livre, com direito a expressão e todas estas coisas das quais já estamos cansados de ouvir. Isso tudo começou por volta de 1940. Se considerarmos o rockabilly, 1930, e se considerarmos o blues e o jazz, 1890-1920. Quase 100 anos de uma cultura. A música rock exerce a mesma função que qualquer outro gênero musical criado pela comunidade humana, a de contemplação por um estilo de vida e uma maneira de se pensar.

Mas enfim, as ditaduras ruíram (dizem por aí), as meninas fazem sexo em seus quartos enquanto os pais dormem no quarto ao lado, as cruzes foram derrubadas, a polícia bate no povo mas o povo rebate, as guerras são virtuais e nem doem mais, os professores foram obrigados a mudar sua forma de pensar, a TV virou motivo de piada apesar de insistentemente existir, a informação corre por aí que nem água de esgoto, mas uma coisa que quase ninguém pensou aconteceu: aquela juventude dos anos 40, 50, 60, 70 e 80, que conseguiu sobreviver às próprias bestialidades, cresceu, envelheceu, e hoje já não é mais jovem. Colhemos com graça os frutos de suas lutas e trabalhos, tanto quanto eles colhem os frutos de suas clínicas de reabilitação e antidepressivos de uma vida que foi se tornando vazia e sem sentido.

É incoerente procurar se queixar da postura dos representantes de um estilo que por si só está falido. Não fazemos nada com a liberdade pela qual muitos lutaram, uma vez que o papel do rock está prontamente liquidado. Porque afinal a mentalidade roqueira atual baseia-se na forma neo-liberal de pensar, no prazer e satisfações individuais, e na negação pela negação, cujo objetivo final é unicamente ser diferente dos demais, e ser original em seu mundo limitado da rua de casa até a esquina do bar rock mais próximo. Está calcada numa maneira de comportar-se incoerente e sem um determinado direcionamento, cuja adoração por seus mentores faz jus apenas à uma imagem presa dos anos de glórias. O rock tornou-se insosso e contraditório, porque afinal, já não faz mais sentido enquanto seus protestos não se voltam diretamente contra uma entidade única, como nos primórdios, pois a sociedade está absolutamente fragmentada.

Falemos então do Cristianismo, que foi, por assim dizer, o rock n' roll do período romano. Quando os cristãos não aceitavam a autoridade do César, e que esta postura, juntamente a uma crise interna do império romano, somadas aos contra-ataques dos povos bárbaros, resultaram na decadência do império. Passados os anos, o Cristianismo tomou o poder e virou Catolicismo, e tudo estava voltado unicamente a influenciar o maior número de cabeças possíveis para justificar a existência de um representante do poder.

O discurso dos primeiros barulhentos da música (que roubaram claro, o estilo de música dos barulhentos africanos) era pretensioso, falso e egoísta. O rock predomina no mundo inteiro, mas a partir desse grito de rebeldia como temos contribuído para uma melhoria coletiva, como muitos procuraram gritar em suas letras? Voltemos o olhar para o Brasil; o que tem acontecido? Onde está a mudança? Vemos uma sociedade que entra em choque consigo mesma uma vez que se queixa dos moralismos sem permitir-se ser amoral (o que difere de imoral), de uma sociedade que está sempre a jogar as responsabilidades coletivas nas costas de qualquer instituição que seja, que no passado tanto negaram. A liberdade que queríamos do Estado transformou-se em preguiça, e quando queremos que algo aconteça, afinal de quem cobramos? Do Estado. Ao mesmo tempo a falta de capacidade de enxergar que a fragmentação social desestruturou a família (pilar da perfeita sociedade pensada para o século XX) também em muito justifica a falta de ação para tratar de assuntos urgentes, tais como, um direcionamento melhor para os jovens de amanhã, cujos pais jogam suas responsabilidades de dar afeto e carinho nas costas das demais instituições, fundadas por um Estado que sempre estamos tentando negar ou questionar.

Para que serve afinal o rock quando está visível que estamos todos desgastados e fartos do rock, ou simplesmente do rock como se diz rock, o estilo de viver rock? Não faz sentido querer que o rock ainda permaneça com o mesmo comportamento uma vez que a sua finalidade já está mais do que atingida. A pergunta que deveria ficar no ar é (e olha só que coisa) me veio de uma letra de pagode: o que é que eu vou fazer com essa ta liberdade?

Matheus Vieira, músico e ex-roqueiro. Ex-roqueiro porque eu sou cabeludo, tenho barba estilosa, visto roupa preta, tenho um coturno e ouço Iron Maiden, Black Sabbath e Dream Theater até sangrar os ouvidos, mas eu também gosto de Djavan, Antônio Nóbrega, O Teatro Mágico, Cartola, Tim Maia, Roupa Nova e Michael Jackson, pô!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Conscio Subciente

Borges namorou Isabelle
Foram felizes como puderam
Se amavam toda semana
Depois saíam para jantar

Entre eles havia sempre uma mesa

Depois jantavam toda a semana
E saíam para se amar
Entre eles havia sempre uma mesa

Depois saíam toda a semana
E se juntavam para jantar
Entre eles havia sempre uma mesa

Até que a mesa e nada mais era pequeno o bastante para darem as mãos

Vinte anos depois e de vida feita Borges falou
Você não mudou nada
Isabelle chorou até não poder mais morrer.

Viva diferença

Vindo todo o dia
Pela mesma alameda
Vendo o mesmo chão
O mesmo entulho no mesmo lugar
A mesma comadre contando das mesmas pessoas
E as mesmas pessoas
Diferentemente como umas as outras
E essa mesma parede azul
Chata, calma, tranquila, beirando o inferno imutável do tédio

De bocejo em bocejo eu penso uma faísca de desejo:

Essa parede podia ser laranja, só por um segundo.

O inútil

Casa de Pedra
Livro de Papel
Cadeira de Madeira
Artilharia de Quartel

O livro prescrito da medicina mundial

Caguei-o e mandei-o para os diabos disse o viajante sem pernas

Casa de Papel
Livro de Madeira
Cadeira de Quartel
Quinquilharia de Pedra

Depois disso cansou
E resolveu que sentaria no céu e deitaria no mar.

O viajante não sou eu.

Folha de árvore e de jornal

Sebastian Wissenmann sabia do Brasil por janelas
Através dos livros e das teorias
Pelas revistas e pelas opiniões jornalísticas

Queda econômica
Desastre urbano
Informação endêmica
Insatisfação diária
Poluição acadêmica.

Pro Tião Sabichão o Brasil era a mangueira
Debaixo de que aprendeu a namorar
E por causa sabia bem mais.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sem ponto sem pontuação

Poesia é uma viagem
De um lugar que não começa
Para outro que quando não termina

Entender poesia

O poeta transcreveu sentidos
Quando perguntaram o significado
O poeta mudou de assunto.

Manu de Chaplin

Vagabundo é o herói
Que vence o monstro
Que rouba a liberdade.
O mundo já é o bastante
Para os que nele vivem

Os que emparedam-se no chão
Ele é como é
Para o que carrega o espírito criança na mão
O mundo não há,
Hão.

Geniosidade

O gênio não há

Há mesmo o louco que acredita muito na sua loucura
E tantos outros que enlouqueceram com ele.

Sem gramática

Viver pode ser um verbo transitivo indireto
Cujo mesmo objeto
Vem direto da liberdade.

Viver com liberdade

Mas quem vive deste jeito
Está pouco se lixando.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Frase XVIII

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas tenho constatado que uma palavra vale mais do que mil tentativas.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um pouco amargurado, entende?

É assim, to amargurado um pouco. Hoje à tarde um colega do trabalho que eu poderia chamar de amigo não fosse o pouco tempo que passamos juntos veio me falar de como dava suas aulas, e eu que achei um pouco agressivo quando ele quis ser realista para uma turma que tem preguiça até da própria preguiça. Eu o repreendi mas no fundo eu concordo entende?

Era pra ser engraçado, mas quem vier aqui com espírito de esconder as emoções simulando com comportamentos significativos, então dá o fora. Não to mais pra isso não, entende? Cansa a mente o dissimulacro, onde nem mesmo um aperto de mão passa despercebido de uma significância. É só um aperto de mão, sacou? Só! Não é preciso que se escreva uma tese rebuscada de coisas que todos já sabem há eras da história humana.

De repente minha máscara cai também, e sabem, o que carrego por baixo dela não é bacana, não é legal. Os mais fracassados ficam com medo, rebatem com grosseria, rebatem com defesas prontas, como se fossem todos cheios de culpa pela sua indiferença diária. Mas o que tenho com isso? Chega sabe, chega dessa peça de teatro interminável.

A vida meninos, é dura, e só quem pega no batente de verdade sabe como é. Só quem não se encosta no meio do passo sabe como é. Chega de nhé nhé nhé sabe, porque o mundo não é do seu jeito perfeito. Ninguém vai te aceitar porque ninguém é obrigado a te aceitar. Danem-se as falácias milenares e da tanta gente que creu nisso, é só uma opinião pequena de um círculo de amigos de bar. Se houvesse discordância não seriam amigos, e pouco tanto faz, quando na verdade o núcleo se desprenderia se cada um fosse louvável o bastante para não ser conveniente, entende? Difícil, difícil entender isso? Pois parece quando adormeceu no meio da frase.

Gente pobre, mimada, acostumada a ser carregada nas costas, e chora quando o ventinho bate mais forte, quando tem que sair antes, quando tem que deixar pra lá, sabe? A vida não pára, mas nada é uma formula perfeita, não importa quantas músicas você escute, não importa quantas cervejas beba, não importa para que terra fuja, não existe país das maravilhas senão só pra você aqui dentro.

Mas aí eu tenho que levantar, unicamente porque penso, e devo representar no discurso o papel de quem se sente responsável por tudo e tem de carregar o mundo nas costas? Por favor queridos, não, isso não. Eu não vou carregar o mundo nas costas, eu vou apenas estender a mão. Mas vou logo avisando, o caminho é difícil, o caminho é duro. Quem quer tentar senão ao invés de ficar reclamando? Falam tanto dos antepassados, os nossos morreriam mesmo de vergonha, ou nem teriam vontade de se levantar da cama se soubessem como herdamos os o quês. Fácil, facilidade, luz demais, isso não existe sabe? É só sua ilusão pessoal da vida, e sua vontade de acreditar em tudo o que seu pai ou sua mãe não acreditam mais pra eles.

Agora dá licença, to vestindo a máscara de novo. 

E aí, curtiu o sorriso?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Teatro Mágico

Já era hora que o poeta pena
E esfalece, esmorece...
O compromisso está na palavra
E só.
Sem serviço e sem contrato
Fumo de cigarro
Álcool de bebida
Sem precisão justa ou justiça.

Escravo não é mais quem trabalha
E pede pelo pagamento
É quem paga sem desalento
E quem anda sem movimento
E quem paira sem pensamento.

Os frutos podres pendem da plantação
As idéias velhas se acorrentam ao pescoço
E morrem sem tentação.
O velho livre já livre não é mais não
Pois o livre é ciente de que é livre sem condição.

Idéias velhas pendem na cabeça
E pode passar o bonde
Ou o trem da estação
E poucos perceberão que fecharão-se as lojas
E as portas se abrirão.
Fecharão-se os cercos
E os circos se abrirão.

Quem tem medo de furacão
Ficará em casa.
Quem tem assinatura
Fechará as gavetas.
Acostumados ao lixo que estamos
Evitamos olhar para o chão
Acostumados ao espelho
Evitamos o céu
Acostumados ao céu
Vamos de avião.
E os sem asas voam
Mesmo caçando no chão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Se la vostra mente non è mai aperto a una nuova idea, non potrà mai avere una dimensione originale.

Se a tua mente nunca se abre a uma nova ideia, ela nunca terá um tamanho original.

domingo, 4 de setembro de 2011

Breno o Papagaio

Droga de poeta
Poeta meia boca da seis e meia
O sol nasce quadrado mas não no cárcere
O sol desce quadrado
Tudo é quadrado demais pra essa hora

A cerveja enfervece no copo
Estala na garganta
É seis e meia de um calor seco
Quando os cretinos botam fogo em suas tranqueiras
Tentando queimar o que ficou para trás

Somos todos desgraçados nessa seis e meia
De sexta feira de fim de semana
É o fim quando pretendo esquecer
Que ontem pularam o muro
E anteontem quebraram a vidraça
E desde o mês passado uma aranhainha discreta
       [me faz companhia debaixo da pia

Guti guti faz a gota da minha torneira
Tic tac eu ouço o relógio
Longe aqui do lado os sucessos da rádio popular
O vento mal se move com os transeuntes
Tudo isso tem cara de uma eternidade desgostosa
E tem cheiro de queimado nas minhas roupas no varal.

A batida do funk soa um blues lamentoso, sem gaita nem violão
Quando foi que Jacqueline passou por aqui?
Eram seis e dez
Sempre assim
Segunda feira a sexta oito horas quatro horas seis e dez meia noite
Canta o Breno, o Papagaio
Ela circula o quarteirão por quatorze vezes
E quando gasta a meia de algodão desce para comprar outra
Dorme e sonha com seu castelo de algodão
Pra dar mais quatorze voltas no quarteirão.

O culto oculto

Oculto a mente
Oculta a mente
O culto a mente
Óculos amante
Ó cultos amam
O cultivo avante
Ocultante amém
O culto
A mente
A carto
Amante
O culto oculta a mente oculta

domingo, 28 de agosto de 2011

Respiratoris Honoris Douto Causa

Tive de constatar do alto dos vales da vida
Daqueles que se ouvem nos contos de ninar
Escrever em dez mil papéis
E ter a certeza irresoluta de outros tantos doutores acadêmicos
Para poder afirmar certamente o que poderia ser
A sensação leve de uma pura brisa.

Meu pai não é puro pai por criação divina
Antes não fosse saído de uma clínica.
Aversidade a verdade
Me tiras da vera verde cidade
Quando o céu não pode ser azul
Sem assinatura de um milhão de certos conhecedores.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Reflexões num Casulo Moderno

Vontade enervada conforme os ventos sopram para lá
Cachos de cabelos e músculos ruidosos
Para que serviriam eles?

Uma vez eu soube, como sabem os que pouco conhecem
O espelho vira vidraça conforme se viram para nós
Então por que a fonte demasiada de esperança?

Criaturinhas brilhantes, como vaga-lumes sinceros voam em meu contorno
Não tenho asas coloridas como as borboletas
Ou uma direção precisa como os gaviões
Minhas asas contornam as costas da minha segurança.
Porque quanto mais sei sobre o que não sabemos
Mais me torno em fruta ressequida
E mais ao longe, mais distante ouço
Risadinhas e gritarias do fogo de artifício em um parque de diversões.

De nada me servem as impressões indistintas numa noite cintilante qualquer de uma festa confusa.
Nada que me serve senão mesmo para minha recordação
E minha impressão.
Pois o que há de honestamente necessário
Nessa imensa vitrine de coquetéis?
Seja na porta de entrada da boate
Ou na recepção do hospital
A doença permanece a mesma:
A dementalidade pouco reconhecida da mentalidade.

Serei e sou o único são quando perceber que sou o único demente.

Feliz Meu Aniversário!

Hoje é meu aniversário de 26 anos! Por isso vou dizer a mim mesmo algumas palavras, para que eu não esqueça.

Todos nós cometemos falhas, mas não é a maioria que tem a cara e coragem de assumir a isso. Ao mesmo tempo, todos tem medo de ouvir um pedido de perdão, porque querem um motivo orgulhoso para justificar a sua raiva. Esqueça isso, ok? A vida continua, o mundo é muito grande e você está vendo que é cheio de pessoas boas, que pensam diferente sim, que gostam de coisas diferentes, mas que são boas, porque é isso o que realmente importa.

Não adianta arrumar mil e uma explicações para justificar meus desagrados em relação à vida, no fim, não passa de uma opinião pessoal. O que deve prevalecer sempre é o respeito e amor ao próximo.

Acredite em si mesmo, goste de si mesmo, não deixe que ninguém jamais diga que você é menos do que você sabe que é. As pessoas ao seu redor são a prova de que você é tem um coração bom. Quem não compreende gentileza, honestidade, lealdade e coragem de assumir as fraquezas jamais vai compreender o que você é, e por essa razão, lhe virará as costas com medo do que você tem a dizer, seja em sua defesa, seja em defesa do outro. 

Poucas pessoas foram capazes de lhe dizer palavras como estas, e na falta delas, porque não dizer de si para si mesmo?

Feliz aniversário e nunca deixe de compartilhar o que você tem compartilhado desde sempre.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Epitáfio

Carlos de Ossanha era Cristão
Mas Ossanha não era nome de Cristão.
Antes de Carlos morrer
Veio o Padre da Sacristia de São José
Fez-lhe uma oração na presença do nosso Senhor
E Carlos morreu sob a extrema unção.
Mas Ossanha não era nome de Cristão.

Quando lia em seu epitáfio
"Carlos de Ossanha, ardoroso Cristão..."
O seu Ossanha chamava atenção
Então Carlos foi condenado após a morte
A arder no inferno da especulação.

Tudo o que era carne:
O cérebro de idéias apassarinhadas
Os braços que carregavam o que queria
As pernas que lhe levavam segundo seu desejo
E o seu coração sincero consigo mesmo
Já entravam em decomposição.
Por isso Carlos de Ossanha
Servo de Jesus Cristinho Cristão
Virou mártir do que o povo achou que fosse
E caiu no esquecimento da condenação.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Lago Interior

Minha quietude
Orvalhada num vale de assombrações
Por onde até
O mais imponente dos seres
O alvo homem sentado ao chão
Franzindo o semblante destilador dos destinos
Enquanto deixa que as folhas caiam sobre si
Não impressionam tão ou mais
Que a mais exposta arquitetura.

Meu mistério
Mais fundo, oculto.
Um caminho só.
Na trilha tortuosa do
Além do Bem e do Mal
Descobre-se um ser de mim
Colhendo pedras pelo chão
Enquanto possuo o dom de saber
Que não se transformam em pão.

Numa feira livre tudo se vende
O homem das alfaces
Ao homem da Pera
Numa feira livre.
O mistério, mais fundo, oculto
Está comigo
Meu reflexo no lago interior
Distorcido, mal visto, mal mal inacabado,
Está vendido.

Um torpor imaculado
Uma nesga de boa aceitação...
Quando mais, o que de verdade está
Nos olhos das gentes da feira livre
É o que está nos meus olhos.

Enquanto me importa se sou mais ou menos
Alfaces e peras são vendidas.
Enquanto colho pedras para mim
Alfaces e peras são colhidas.
Enquanto nego a cortesia
O velho sábio serve-se das frutas.

Enquanto morro vivendo
Vivem, mesmo morrendo.

sábado, 16 de julho de 2011

Pretensões Futuras

Estou cansado de tentar desvendar o universo, os problemas sociais ou a psiqué. A partir de agora quero apenas desvendar os mistérios da imaginação.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Poema Perfeito

Assim seria a fórmula de um poema perfeito:

Sem meias palavras
Sem frases inteiras
Reduto de uma simples conclusão
Envolto apenas de si mesmo
E exclusivo para uma única emoção:

Karina meu amor nunca fui mais feliz na vida do que tenho sido desde quando te vi pela segunda vez.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Flor posta sem saudade
Plena de todos os valores
Solta por aí por entre outras flores.
Repleta de todas vaidades.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Saudade

Meu coração não é meu
Está em toda parte dos caminhos que andei.
Cada um carrega um pouco do que é seu.

E como parte do que foi despedaçado,
aquele com meu zelo está guardado,
Pois tudo o que vivi de cada é preservado.

E há aqueles quem sem aviso me roubaram
Sua parte ditatória vontade,
Pra que causasse a dor que nos separam.

Mas tal dor que se descreve em meu peito,
É o amor que agora tem seu leito,
Nas lembranças do pobre dilacerado.

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Composição de 08/07/2007 - Embora as pessoas que o inspiraram não mais mereçam o que aqui foi descrito...

Princesa de Minas Gerais

Laranja sem metade apodrece mais rápido
Por isso não sou nada sem você
Menina da minha vida que me tira do travesseiro
Para pensar em você.

Metade sou eu metade você.

Espreme laranja e faz o suco sem
metade de mim que sem você me faz
Sensível.

Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

"Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Tenho todos os motivos menos um de ser triste. Mas o cálculo das probalidades é uma pilhéria... Abaixo Amiel! E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff."*

Já dizia o poeta. Qual é então o motivo da minha tuberculose? Qual é então, o às vezes que me persegue, retorcendo o bem estar? A ferida que não cicatriza, as marcas da autoflagelação. O acesso ao voluntário sofrimento e horror. Se fosse um aleijado de pernas, não andaria. Maria Bashkirtseff ficou famosa por sua profunda tristeza e pelo relato fiel de sua miséria tão comovente e semelhante. Seremos todos cadáveres vivos?


Éter meu para Bandeira e Bashkirtseff

Uma estrela
Duas estrelas
Cinco estrelas
Dez estrelas
É de manhã
Ainda teimo em contar estrelas.

Um peixe
Dois peixes
Cinco peixes
Dez peixes
No aquário do restaurante de frutos do mar
Teimo que estou no Oceano.

Uma ave
Duas aves
Cinco aves
Dez aves
Faço uma oração
Aves de cozinha não voam.

Uma pílula
Duas pílulas
Cinco pílulas
Nenhuma vida
No sono que não vem
Na noite que vai e vem
No dia que insiste em não brilhar.
Uma hora
Duas horas
Cinco Horas
Dez Horas
Uma dança tão longe de me arrebatar

E de repente, uma alegria fugaz.
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*Manuel Bandeira, poema Não Sei Dançar do livro Libertinagem

Do câncer da minha alma

Eu navego de foto em foto, de fato em fato, sedento por um espaço naquela brecha, naquele local. Deus do céu, quanto é preciso para que um homem enlouqueça de solidão ou de saudades? Ou como se chama mesmo aquele sentimento obscuro de uma saudade dos lugares que não estivemos.

Fotos antigas dos amigos... não mesmo, elas estão todas presas na minha memória. Estas fotos senhores, elas não existem. Pouca diferença faz aquilo que pensamos, ou o que sentimos. Tanto faz os pensamentos profundos quando na verdade queremos só esquecer de todo esse lixo que é a vida. Voamos como urubus de podridão em podridão, é assim mesmo ciscando, nestes tempos de incertezas, procurando os nossos pedaços.

Ah Deus, há quanto tempo abandonamos os aconchegos de nossos corações e caímos no conto mal falado das ilusões? Inteligência, beleza, carisma, tudo sem provas, para que precisamos delas? Eu só gostaria de saber o quanto alguém precisa de mim sem que eu precisasse provar a minha qualidade ou utilidade. Quem já soube se sentir assim, frágil, rendido aos sentimentos mais desavergonhados, de admitir uma derrota tão frêmita, de braços arreganhados, de pernas arreganhadas, sem vergonha de molhar o travesseiro pra abafar o  choro do tanto que temos vergonha?

A muralha mais pretensa e forte é ao mesmo tempo a muralha mais esquecida. Ah soberba inútil e desnecessária, ah verborragia falida, tudo isso só esconde uma coisa: fraqueza. Por trás dos óculos, das lentes, ou até mesmo da maquiagem exagerada só é possível perceber com sutileza os gritos desarranjados por socorro.

Não uso óculos, nem lentes, pois meus olhos azuis são autênticos, tão pouco uso maquiagem. O que esconde a minha pretensão então? Um discurso fajuto, cheio de palavras redondas, dicionarizadas, perdidas no além, no inconsciente, perdidas no ar? Um arranjo de palavras bem ordenadas mas que pouco sentido faz, um desapego pelo caráter, pela dignidade, um prolixo desabafo, cheio de uma dissonância intensa? Cores fortes, primárias, firmes, vivas, querendo esconder o branco da tela, da moldura? Uma forma esculpida naquilo que foi apenas um pedaço ignorado de pedra, de gesso, ou um gesso que antes foi só cal, pó, água, nada mais de considerável até prender a nossa atenção no inútil desnecessário, no esconderijo, numa busca por definição? Uma falsa arte cheia de perguntas, cheia de teorias, cheia de tentativas de investigação pelo óbvio, pelo pouco suspeitoso?

Sinto saudades dos tempos que nunca tive, que nunca busquei, que nunca percebi, assim como percebo hoje (e como dói oh santo Deus) que poderia ter feito.

Quantas saudades dos meus amigos que estão por aí.

Não sou obrigado a querer água

Sou jovem demais para algumas coisas que andei descobrindo nesta vida. Sou jovem demais, talvez, para viver sob verdades absolutas. Entretanto, a filosofia teimosa, por mais que ela insista, não consegue me convencer plenamente de que ao menos algumas não sejam, absolutas, eu quero dizer.

"A vida é feita de escolhas."

Está aí uma delas. Coloco entre aspas porque é uma frase que mesmo o mais sábio dos mais tolos conheceria. Entretanto o processo estupidificação dos nossos valores mais profundos está tão avançado que é lamentável, mas hoje em dia só podemos dialogar a partir do mais óbvio. O mais óbvio neste caso seria aquilo que eu acredito como o pensamento fundamental.

Não tem nada a ver com valores pessoais, não tem nada a ver com as nossas crenças, mas as escolhas, elas sim fazem o que nós somos realmente. Esta noite saí da casa dos meus pais e prestei bem atenção naquele olhar da minha mãe e da minha irmã. Reparei bem na voz preocupada do meu pai, por causa do horário: "Filho, durma aqui, é perigoso pra você ir embora a esta hora da noite...".

Só entende de verdade o que é o amor quem se sente comovido pelo olhar da mãe que olha o filho indo embora daquela casa que outrora foi também o seu lar. Eu não sei exatamente, mas eu entendo que o amor de mãe é o amor mais verdadeiro. Quer um amor de verdade? Procure aquele amor exatamente como foi o de sua mãe. Eis aí uma outra verdade.

Aos homens práticos, a mãe é a nossa criação. O que seria a mãe, a idealização da mãe, e toda a preocupação que nós sabemos que vem do coração mais puro que conhecemos em nossas vidas, nele está o amor verdadeiro. Mas rodopiamos na nossa própria perdição, e maldizemos estes contos de fadas, às vezes, porque não acreditamos que outra pessoa possa nos amar como nos amou a nossa mãe.

Bem, amor não é regado por orgulho, e se a vida é feita de escolhas, é porque a nossa mãe que nos ama escolheu assim. Amor não é mágica, é escolha de atitudes. O amor existe, o que não existe é o nosso passo atrás pelos nossas mudanças de atitudes, de abrir mão de qualquer que seja desta nossa convicção mesquinha e pouco sabida de vida, para exprimir o sorriso de aconchego e bem estar da pessoa amada.

Se uma coisa eu sempre pude aprender cedo é mais esta verdade. Mas aos seres práticos, esta explicação nunca é a suficiente. A única forma de saber é tirar a prova. Os que negam o amor são aqueles que escolhem por não tê-lo ou recebê-lo, portanto, o amor não depende das atitudes de outra pessoa. Podemos amá-las com a maior pureza das nossas escolhas e atitudes, ainda que nossa mente esteja nos questionando da necessidade disso.

Escolhemos os atos exarcebados de uma inteligência fútil, uma inteligência que está no estande de uma vitrina, reluzida pela falta de filosofia dos que por tão pouco se deixam impressionar, mas isso é ralo, muito ralo. Inteligência de verdade é adotar as escolhas certas. Sofrer por sofrer, ninguém é responsável, pois daqueles que se metem a afirmar uma autonomia, eles escolhem por isso também.

Quem tem a coragem de, num mundo tão cheio de incertezas, entregar-se a essa cortina oculta e decidir abrir mão de si para amar um pouco a alguém? Poderiam negar a necessidade, já certos de que estariam ao mesmo tempo optando por uma vida vazia e solitária. A culpa não é dos sentimentos, mas do nosso próprio orgulho.

Quem se atreve?

Não sou o dono da verdade, sou apenas alguém que não teme compartilhar o que aprendeu.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Bullying - Parte 2

Peço licença raros leitores, para ser ao mesmo tempo informal e adentrar neste assunto tão desagradável de novo.

O meu relato não foi um desabafo com a capa de "eu sou a vítima do mundo". Acho que as pessoas não entenderam a minha intenção. Não tive idéia de por nomes numa lista negra esperando uma vingança que jamais aconteceria, por motivos extremamente lúcidos, entre eles: com a mentalidade de um adulto eu entendo que para muitas pessoas que presenciavam estas atitudes, tratava-se de inocentes brincadeiras de criança.

Outro ponto a salientar é que naquela época, no Brasil, o bullying sequer era discutido. Enquanto no exterior este problema foi diagnosticado e muito pesquisado nos 70, no Brasil, só passamos a falar de Bullying em meados dos anos 90, ou seja, na minha época de escola isso ainda sequer era assunto para debates.

E por fim, a questão que quero colocar aqui é: as marcas ficam, as pessoas não. Não me refiro àquele discurso comum do tipo: "não podemos ser amigos de todos" ou "você não vai agradar todo mundo", mas de um tipo de agressão tal que algumas pessoas ficam com a auto estima tão destruída que sequer conseguem se relacionar. Paremos de falar de mim então.

Eu me lembro de uma aluna na sétima série que por alguma razão pessoal, não falava. E eu a observei por todo aquele ano de 1998 e não vi a garota pronunciar uma palavra sequer durante o ano inteiro. Para nós, colegas dela, era algo normal o seu silêncio; para os professores era como uma dádiva, mas algo de realmente grave poderia estar acontecendo com ela, penso hoje. A tentativa de relacioná-la com o resto da turma não era motivada por parte de ninguém, nenhum dos profissionais da escola, e uma vez mais por desconhecimento de um problema que era ainda uma incógnita no nosso país.

Ou os casos que vi, que também era o meu caso, que também entra no diagnóstico, que uma pessoa que sofre bullying reage agredindo a outros colegas. Lembremos da polítca da escola de separar as turmas e desmotivar as amizades para que não atrapalhassem nas aulas. Hoje, depois que aceitamos as idéias de Paulo Freire, percebemos o quão perigoso pode ser um aluno em completo silêncio. Graças aos esforços de alguns cursos de Licenciatura, graças à revisão do sistema escolar e de tudo o que está previsto em lei (Lei de Diretrizes e Bases, por exemplo) e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, o cenário vem se modificando e percebe-se uma iniciativa de eliminar o problema até mesmo por parte dos alunos.

Quando comecei a escrever este texto, ainda não tinha acontecido o caso no Rio de Janeiro, o do Wellingon Menezes de Oliveira. Qual não foi o meu espanto pela coincidência. Ao mesmo tempo, o debate sobre o Bullying tomou proporções nunca antes imaginadas, e em meio a tantas declarações inteligentes e infelizes, eu não dou crédito à reação de Wellington, ao mesmo tempo em que não consigo julgá-lo. Fico preso numa incógnita. Nada justifica um assassinato, e o ato por si só já desmerece qualquer passado sofrível. Não sou a favor de que, uma pessoa que passou por provações na vida, competentes a qualquer outro ser vivo, descarregue o seu desequilíbrio nos seus semelhantes. Não sou a favor de fatalidades, pois se dermos margens a todas que temos à disposição, digam adeus à sociedade que conhecemos. Ao mesmo tempo não consigo parar de pensar: se antes de perder a razão de si, ele tivesse a oportunidade de se tratar neste caso, o que teria sido? Será que ele teria realmente aceitado a oportunidade de se restabelecer e deixar para trás o que disse que sofreu? Não cabe a mim dizer, mas a reação final não é a que eu espero de uma pessoa digna, por isso não sou a favor de Wellington Menezes.

No outro texto eu mencionei algumas pessoas que fizeram parte da minha vida. Foram tantas, e me entristece não poder lembrar de todos, mas de alguma forma elas me marcaram. Anos se passaram e eu pude relembrar da maioria, e de todo o mal, quando foi que de repente me dei conta: não foi só isso, houve momentos bons também, lembro de momentos divertidos. O meu problema não era eles, mas eu mesmo, e a dificuldade de lidar com isso. Já faz anos que abandonei a máscara de vítima, e foi assim que aprendi a enfrentar os problemas. Se eu pudesse dar a todos esta fórmula de aliviar os venenos do rancor e olhar para as mesmas pessoas, anos depois, e dizer a elas que tudo bem, não sabíamos direito o que estava se passando, só queríamos que batesse o sinal das onze e meia para irmos pra casa. Só queríamos viver a vida intensamente conforme nos diziam a TV, as revistas Teen, os filmes norte-americanos. Só queríamos ser felizes, no meio de tanta opressão escolar, social, patriarcal, etc.

A criança tem dessas coisas, esse anseio por crescer e se livrar do adulto que esqueceu o que era ser criança. Eu me lembro sim, tenho ótima memória para muitas coisas, péssima para outras, mas bom entendimento para as questões fundamentais da vida: amor, amizade, respeito, honestidade, dignidade. Mesmo na idade adulta, somos todos crianças perdidas e assustadas com a incerteza do futuro, e que caia no chão agora aquele que dizer que não é. O mais seguro de si mesmo é o mais derrotado dos homens, mal sabe que o maior perigo da vida é simplesmente estar vivo. Somos sensíveis e frágeis, ao toque do mais ínfimo mosquito caímos de cama.

E como todos os seres humanos, eu tenho sérios problemas, enfrento e enfrentarei sempre, problemas de múltiplas naturezas. Cada escolha nos abre a infinita possibilidade de problemas a serem resolvidos. Não fossem os dragões a derrotar, não levantaríamos da cama. O homem flerta com os problemas, porque a curiosidade é o nosso estigma eterno, isso não é novidade para ninguém. Não fossem os meus sérios problemas e todos os anos de reflexão acerca deles, eu jamais teria amadurecido e tido coragem de escrever este texto diretamente àqueles que um dia eu pensei serem os culpados por eu mesmo. Estou aqui assumindo que não só eles, eu também, como toda a sociedade negligente.

Mais uma vez, minhas intenções são dizer que, caros ex-colegas e ex-professores, não permitam que isso aconteça. Atentem-se aos seus filhos e alunos. Extraindo grosseiramente uma passagem bíblica: Deus diz que não seremos julgados em nossa ignorância, portanto, independente da crença, vale a metáfora: sabendo do problema e de suas prováveis consequências, saibamos lidar com isso de forma sábia. Liberdade com respeito, porém respeito sem autoritarismo. Não quero tecer fórmulas, não sou uma pessoa pretensiosa, quero apenas, uma vez mais, deixar o alerta, e nesse novo texto, esclarecer o anterior que ficou repleto de mágoas, dizendo que as mágoas que tenho hoje são decorrentes de outros problemas que apenas o homem ensimesmado pode entender.

Obrigado a todos que se propuseram a ler e ao menos repensar a questão. Sinceramente, sem rancores. Só desejo que a vida um dia me dê a chance de poder abraçar a todos aqueles de quem sinto tantas saudades.

Matheus Araújo Vieira, ex-aluno da Escola São Vicente de Paulo, ousando por aí ser músico, filósofo, poeta, ensaísta, crítico literário, e desesperadamente fugindo do cárcere das corporações.