sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Porque eu tenho repulsa de Jornalistas de Tablóide

Tá legal, eu compro a briga.

De gramáticos a historiadores, não consigo imaginar, hoje, categoria profissional mais baixa e sem propósito do que a de jornalistas. Os bons jornalistas me desculpem, mas o que se tem por jornalista hoje em dia não passa, para mim, de fofoqueiros de alta classe.

Andy Warhol, um pintor e cineasta norte-americano, em meados do século XX conseguiu definir bem o que se distingue nos tempos de hoje: In the future everyone will be famous for fifteen minutes (No futuro todos serão famosos por quinze minutos). Não sei o que se passava no contexto de vida deste cidadão para ter essa predição, e nem se era uma predição com bons ou maus olhos, mas a profecia se cumpriu.

E a celebridade da vez (ao menos para os internautas) é a estudante de direito Mayara Petruso, que sugeriu, logo após o resultado que confirmou a candidata Dilma Roussef como nova presidente do país, uma atitude violenta com a seguinte frase: "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado". As reações foram instantâneas, que resultaram num manifesto virtual, no site twitter, o tal do "orgulho de ser nordestino". Bem, nada mais comum de um povo reacionário como o do nosso país. Uma presidenta é eleita, uma patricinha paulista fica inconformada e libera as suas emoções na internet, e um grande grupo de pessoas que tem apego às suas regionalidades respondem à isso. Não contente, uma re-reação apareceu.

Existe um protótipo de revista que é muito difundida na capital, e não sei como aconteceu esta façanha, mas virou referência de jornalismo e informação entre as pessoas que tem dinheiro e tempo para parar numa banca de jornal: a revista VEJA. A minha aversão às idéias da revista já é de longa data, mas isso é outra coisa.

Protótipo gera prototipozinhos, e a cria que me refiro é o blogueiro Reinaldo Azevedo. Eu até chamaria de jornalista, mas assim como eu, que descarrego as minhas emoções neste portal que tem como intuito primário ser um diário aberto, ele também faz o bom uso da ferramenta para a sua frustração. Também não quero demonstrar que tenho desrespeito pela profissão de jornalista, mas, pela profissão que Reinaldo Azevedo exerce. É notável que a revista VEJA torceu o nariz para a eleição de Dilma, assim como as suas crias, que sem assumir nenhuma intencionalidade política, desfrutando de uma falsa e cretina imparcialidade, desabafam as suas dores oposicionistas de todas as formas.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Bem, o blogueiro, insatisfeito com o manifesto "orgulho de ser nordestino" e o típico amor à terra que a própria mídia prega, numa intenção de justificar a sugestão de Mayara Petruso para assassinar um nordestino por afogamento, respondeu com uma postagem no blog da presidenta, onde de próprias palavras ela afirma: "Zé pedágio pensa que nordestinos são 'bestas' como os paulista". Não resisti, ele desencadeou na minha re-re-reação.

Há dois pontos que eu gostaria de ilustrar aqui:

Primeiro, existe uma grande diferença entre chamar alguém de besta e ameaçar alguém de assassinato, coisa que o Reinaldo Azevedo não pontua na postagem de seu blog.

Segundo, em nenhum momento ele faz referência à frase, ou sequer cita o nome de Mayara Petruso, resumindo apenas em chamá-la de paulista:

"Uma canalhice está em curso: associar afirmações infelizes, estúpidas, de uma moça no Twitter ao fato de ela ser paulista e ter declarado voto na oposição. A rede suja na Internet faz a festa. Como se pode notar, os carniceiros não se contentam com a vitória. É preciso depois fazer uma variante da limpeza étnica. Entre no Google, leitor, para ver quantas são as ofensas aos paulistas — não caracterizariam, também elas, uma variante de “racismo”, a exemplo, então, do ataque ao Nordeste?" - Reinaldo Azevedo em seu blog, post do dia 04/11/2010 às 17:42

Maior falta com a verdade não há, pois houve uma omissão de informação, que vai contra o juramento que o jornalista faz ao receber o seu canudo de formado: "Juro, no exercício das funções de meu grau, assumir meu compromisso com a verdade e com a informação" enfim. O que ele fez foi simplesmente criticar a reação das pessoas que se sentiram ofendidas, chamando-as de canalhas, estúpidas e carniceiras, por associarem a informação infeliz (veja, uma amenização) ao fato de ela ser paulista. A associação não veio dos reacionários, veio da própria Mayara, quando ela disse que um nordestino afogado seria um favor a São Paulo. Então a reação é propriamente justificável. Isso é de se esperar, pois é o que diz no perfil do seu twitter: "Reinaldo Azevedo, jornalista, escreve o que quer ainda que não queiram."


O que está em questão é a coisa ética. Como um cidadão desses pode ser tão baixo a ponto de usar qualquer resquício de recurso para criticar a eleição da presidenta que ele tanto detesta? Muitos ficaram infelizes com a eleição de Dilma, e para mim já estaria claro a insatisfação de Azevedo no grau da sua sabedoria: estou de mal, não brinco mais, Dilma foi eleita.

O que a presidenta Dilma se refere em sua postagem é ao fato de que os Nordestinos jamais cairiam na conversa do seu principal opositor nas eleições. José Serra não cumpriu com suas promessas quando candidato a governador de São Paulo, dizendo que não aumentaria o valor dos pedágios nas estradas. Sem falar ainda na falta de compromisso em assumir a prefeitura, largar após dois anos, assumir o governo, largar após dois anos e concorrer às eleições, demonstrando sem o menor escrúpulo o que se faz dos cargos públicos uma oportunidade de subir, afinal, a mentalidade da direita é que o país é uma empresa, e que nós somos os meros funcionários. Ou então na mentira de se gabar que o PSDB expandiu o metrô na capital. Em 16 anos de PSDB, foram construídas apenas 2,8 km de ferrovias do Metrô e CPTM. Quem sabe faltou dinheiro na hora de fazer propaganda das duas únicas das estações que Serra e Kassab (uma filha viúva do PSDB) entregaram a São Paulo, na linha amarela. Para provar a quem estes caras governam, as linhas se resumiram apenas a Estação Paulista e Estação Faria Lima, funcionando apenas das 09:00 às 15:00, completamente fora do horário de pico. Parece até que é um trenzinho para levar os executivos a seus restaurantes favoritos na hora do almoço.Típico da política nacional. Sempre se esquecem de que é o Estado quem serve ao povo, porém persiste a sensação de que somos eternos empregados, enquanto eles nos vêm com esse papo absurdo de democracia.

Em comparação a Mayara Petruso, o comentário de Dilma soa bem inofensivo, e até mesmo reflexivo. Dilma Roussef nos leva a pensar as atitudes de um governador que acabou com dois dos principais setores de base de uma sociedade: a educação e a segurança. Os policiais e os professores recebem os piores salários da folha de pagamento estadual.

O que estou alertando aqui é para o perigo que estes jornalistas de tablóide oferecem ao dispararem seus artigos repletos de uma emoção burguesa, levando-nos a esquecer até mesmo dos valores fundamentais como humanos. Enquanto Mayra sugere um assassinato, Dilma sugere uma ironia, e até mesmo um respeito pela autenticidade de um povo que é constantemente alvo de preconceitos dos paulistas e paulistanos. Sim, os nordestinos não caem nessa conversa burguesa porque o padrão de vida que eles tem é outro. Os nordestinos não vivem nessa doença que se auto-proclama o motor do país. São Paulo é um vício, e dos piores. Mayara Petruso, na sua redoma de classe média, com seu curso de advocacia, de barriga cheia, reclama uma coisa que lhe é distante, meramente por opinião particular. A reação de Reinaldo se assemelha, enquanto que os nordestinos apenas manifestaram o seu horror diante de uma atitude que é vista como criminosa, e prevista até mesmo na constituição federal.

O que seria Reinaldo e Mayara para se posicionarem maiores até mesmo que a lei máxima do país? Se Reinaldo Azevedo quer defender o seu ponto de vista, que não seja ele o canalha.

Ainda assim, coloco a minha estranheza com as atitudes de ambos: ao invés de tanto questionarem o que acontece em outros estados do país, porque os paulistas não se empenham em reclamar o que há de errado aqui? Será que Mayara e Azevedo estão desesperadamente correndo para fazer valer a célebre frase de Warhol, em busca de seus 15 minutos de fama?


Matheus Araújo Vieira é paulista, paulistano, namorado da paulista filha de nordestino Karina Guedes, orgulhosamente filho dos nordestinos José Sousa Vieira (Bahiano) e Josefa Araújo Vieira (Sergipana), que, diferente do que esses paulistas da gema pensam, vieram a São Paulo em busca de melhores condições de vida, trabalharam pra cacete e criaram três filhos maravilhosos, inteligentes, que sabem que uma vida digna se faz com trabalho duro e respeitoso. Um deles (eu) está com crise de identidade querendo deixar de ser paulistano para defender a causa do orgulho de ser nordestino.
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Seguem abaixo as fontes:


Twitter de Reinaldo Azevedo: http://twitter.com/reinaldoazevedo

Reportagem falando de Mayara Petruso, que após ser surrada virtualmente, apagou os seus twitters: http://www.ligacaoteen.com.br/noticias/mayara-petruso-preconceito-nordestino/

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