segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sob Poder

"As palavras têm poder."

Que coisa, depois de muito pensar que isso era uma grande besteira, passei a concordar com a expressão popular. As palavras realmente têm poder.

Na última aula de Literatura Brasileira, o professor Valfrides falava entusiasmado sobre a obra de João Cabral de Melo Neto, e foi que ele soltou a máxima dita por Lygia Fagundes Telles, definindo a diferença da palavra em prosa e da palavra em poesia: "na poesia, a palavra é gorda." Excelente! Palavra gorda, adorei a expressão! Quer dizer que com o mínimo de palavras, deve-se traduzir o máximo de imagens. Palavras representam imagens. Com pouco se diz muito, na poesia. Talvez por isso o verborrágico e o diletante soem tão insossos. É como se fartar de arroz branco sem sal. Eca!

Mas muito além disso, a palavra tem poder sim! Já vi muitos por aí concordarem e rasgarem a seda para poetas prosadores do nosso jornalismo diário, onde com uma simples coluna conseguem nos dar um completo vislumbre de suas arrogâncias, com a sua a arrojada diletância e verborragia. Que nem sangue que desce sem parar.

Isso é sublime! Eis a via sem volta que adentra o uso bom e mal da palavra. Vargas que o diga, tanto quanto nosso presidente Lula o parafraseia, ainda mantemos o nosso extasiado e fantasioso encanto por aqueles que detém a palavra, e o poder. Os poetas dos tempos modernos bem conseguem nos deixar claras as suas maneiras. Fernando Henrique tentando ser Rui Barbosa. José Serra tentando ser Fernando Henrique. O pequeno da classe média tentando ser José Serra. A dona da boutique na Oscar Freire tentando ser a Senhora Ruth Cardoso, e a sua criada de quarto tentando ser aquela moça bonita da novela das oito.

Os inconformados com a sua falta de palavra sentem saudades do poder massivo das palavras Stalinistas ou Hitlerianas. A palavra tem poder, a palavra tem poder, o poder tem a palavra... ou o inverso. Mas isso já nem faz mais tanta diferença, porque o que estou dizendo já vai além da capacidade da aceitação de quem lê ou não. A palavra se impõe, e só se combate palavra com palavra. Usa-se uma palavra, e no nosso entender, buscamos no léxico (a gavetinha dos oportunistas) uma palavra de poder maior. Assim como no joguinho de cartas Magic, ou às vezes como no RPG Dungeons & Dragons.

Só não me falem dos modestos. Estes que justificam sua incapacidade numa desculpa antecipada. Como o poeta que antes de falar a poesia, ri sem graça dizendo: "ah, eu não me considero assim um poeta, mas lá vai" e manda. Aí todos nós nos compadecemos com a sua humildade de reconhecer o erro antes de declamar, e já temos uma justificativa do horror. Eu sou poeta, eu uso a palavra, e tenho plena certeza do seu poder, e do seu não poder também. Quem não tem palavras se submete animalescamente.

Pelo poder da palavra, a palavra implica poder palavrear. E é nesse palavrear que temos o seu poder implícito, desapercebido, assim como uma doença que nos atinge sem aviso, as palavras poderosas nos controlam, dão-nos o nosso rumo e direção, sem pedir licença, e sem se desculpar por isso no final.

Espero que apreciem o poema.

Sob Poder

Por trás da palavra
Mil palavras.
Por trás das mil
Uma noite.
Por trás da noite
Um murmúrio
QUe por trás
Traz mil outras palavras.

25/10/2010

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