domingo, 31 de outubro de 2010

Fanfarra (ou matraca) da Derrota

Olá de novo!

Eis que venho falar de um dos meus poemas que mais causou polêmica entre os meus amigos, familiares, conhecidos e poucos leitores. Primeiro gostaria de falar das origens do título. Afinal, por que Fanfarra (ou matraca) da Derrota?

Fanfarra é, usualmente, um toque de trombeta, que tem por intuito anunciar alguma coisa. No período onde as monarquias imperavam, ou melhor, posso dizer a grosso modo, no período medieval, a Fanfarra era tocada todas as vezes que um tipo nobre ou real estava chegando em algum lugar público (palácio, castelo, igreja, praça - muito duvidosa para esta última, mas voilá). Então venho com uma fanfarra anunciar a derrota. E de onde raios vem matraca? A utilidade é um pouco mais abrasileirada. Matraca é um termo que eu conheci lendo o conto O Alienista de Machado de Assis, onde em um momento, um homem chega com uma matraca (aquela mesma do programa Chaves) para anunciar uma notícia de interesse público. Geralmente ele aparece em uma praça, gira a matraca, que é um objeto bem barulhento e peculiar, e anuncia. Por fanfarra ser demasiado europeu, e por eu ter um gene assim um tanto quanto xenófobo à primeira vista, pensei que o anúncio da derrota também era de direito dos meus compatriotas. Ainda mais porque o poema é um grito de desgosto por tudo o que eu em certa época desacreditei, e isso pelo fato de um dia ter acreditado em excesso em certas coisas que envolvem o meu próprio país.

E naquele tempo, que nem faz tanto tempo hoje, em 2006, eu estava numa angústia solitária de não conseguir entender um monte de coisas, e num desprazer de tentar empreender tarefas que já nem faziam mais sentido. Estava desgostoso com a família, com os relacionamentos, com os sonhos. Muito além disso, eu já nem acreditava mais em militância política, em reforma da educação, não acreditava mais nos meus heróis que tinham vencido as eleições de 2002, não acreditava nos meus amigos próximos e distantes, e não tinha mais ânimo para fazê-los crer em mim. Já tinha perdido a ânsia pelas relações superficiais, e aos 21 anos de idade, eu sentia como se a vida já tivesse sido completamente vivida em pensamentos e reflexões, ainda que não tivesse vivido realmente como ela é. Para muitas pessoas isso é difícil de entender, mas às vezes uma experiência é tomada por conhecida ainda que não experimentada, e este fato dá uma sensação horrível de dissabor. É algo que vai além do toque físico, e que não me perguntem, eu não saberia como explicar. Muito para mim, naquela época, já nem era mais novidade, e eu via falsidade e dualidade nos olhares de todos e qualquer um. Foi quando olhei para o espelho e perdi a crença até mesmo em mim, e vi que eu era só mais um no meio de tudo aquilo, e que em nada eu era diferente. Mas o estopim foi o difícil relacionamento que eu tinha com meu pai naquela época. Quando a isso, tudo bem, hoje eu entendo que duas cabeças de idades e épocas diferentes hão de conflitar se se prenderem às questões fundamentais. Não quero nutrir relacionamentos superficiais com os que me amam, mas para os que me amam e eu não tenho a humildade de compreender, eu quero me limitar apenas em amá-los. O restante só causaria contendas e dores evitáveis.

Já achei que depois de algum tempo de recuperação pessoal, depois que já tinha reestabelecido o meu gosto pela vida, cheguei a pensar que este poema tinha perdido o sentido. Mas vejo que não, vejo que muito dele se sustenta, vejo que ainda existem pessoas presas em conceitos alheios por não saberem pensar por si mesmas. Ou vejo pessoas orgulhosas que sustentam uma inabalável incapacidade de descer um pouco de si mesmas, e perceber, compreender e respeitar as escolhas do outro. Vejo pessoas que perdem suas vidas com ideologias distantes, e não entendem as diferenças constantes. Vejo que ainda estou rodeado de estúpidos arrogantes que usam das suas próprias deficiências as suas defesas contra aqueles que tem autenticidade e querem diferenciar ao menos o seu arredor, tentando agir da maneira mais simples possível. Vejo pessoas que ficam presas na ilusão do macro, acomodadas, enquanto deslancham suas implacáveis imbecibilidades pelos amáveis que se movem pelo micro. Até mesmo duros de direção religiosa, e que se esquecem que o próprio Deus construiu o universo de dentro para fora. Enfim, a estes eu anuncio a derrota estúpida da sua inflexibilidade.

Boa leitura!


Fanfarra (ou matraca) da derrota

Eu venho aqui anunciar a derrota do homem vivo.
O homem que salta, olha pra cima, alcançando o céu
Estende a mão, estica os músculos, atiça o coração
Sorri pra si mesmo, e cai, com a cara estatelada no chão.

Eu venho anunciar a derrota do homem morto
O homem espelho, que olha para os outros como a si mesmo
O homem envelope de carga tributária, que sorri com dente dourado
Mas é amarelo
É dourado?
É muito amarelo.

Eu venho anunciar, com desgosto, a derrota do homem bobo
Que ri para a borboleta pousando no prato de acelga
Que suspira de tristeza diante dos banheiros públicos
Do homem bobo que sobe na vida sem querer
E quando vemos,
Está sempre no mesmo lugar.
O que faz aí parado, debaixo da chuva?
- Estou tentando decifrar o código de mensagens da Lua Nova.

Anuncio a derrota do homem ventríloquo
Com todos os seus bonecos armados
E dissimulando com a boca
Os discursos que queremos ouvir.

O homem lápide, que enterra a si mesmo.
O homainframe que se auto denomina
E não age sem ler o diário de notícias.

Eu anuncio a derrota dos casos de amor
Que não duram além da vida de uma rosa
E esta morre antes que seja atingida
Pelas doces palavras do homem apaixonado.

Anuncio a derrota do homem revolucionário
Que olha cegamente para o futuro
Esperançoso naquele que o fortalece
E com medo de perder-se de si mesmo.

A derrota dos já derrotados antes de lutar
Anuncio a proliferação e materialização dos ideais
De todos os ideais
Os ideais de Ésquilo
Sófocles
Eurípides
Aristófanes.

Anuncio a morte da nuvem
Anuncio o nascimento do espírito
Anuncio a guerra contra as ondas de som
As ondas dos balburdias
Das palavras balbuciadas
Dos choros, e dos prantos desesperados!
Dos gritos de horror, tapados com a música de Chopin
As belas valsas de Chopin...
Anuncio a imagem do ranger dos dentes
Do rosnar a garganta, e forçar as cócoras.
Anuncio a dor de estômago
A dor cardíaca
A dor neurocerebral
A dor física
Espírita
e A Dor
Em nome do Pai
Filho
E Espírito Santo, Amén.

Anuncio a derrota da Dor
Anuncio a derrota da cura.
Anuncio a derrota das palavras.
A derrota das vozes.
A derrota dos olhares
A derrota das direções
A derrota dos sentidos.

Grito, em silêncio
Com o som extremo das canetas
O som das teclas de computador
Dos alaúdes amiúdes
Dos amiúdes sons das guitarras
Anuncio em desânimo a derrota da poesia
Para a técnica.

Anuncio a derrota do silêncio
Que não existe
Anuncio a derrota da paz
A derrota da procura incessante
Da incessante e desesperada procura de procurar
Anuncio a derrota da causa
E do efeito
E da terceira dimensão
E da quarta
E quinta
E quantas outras estiverem por vir...

Anuncio a derrota do futuro,
Pois ali adiante está a grande muralha
Que não pode ser derrotada
Pois já derrotamos a nós mesmos
Com nossas próprias mãos.

Anuncio a derrota da desesperança
E do fato consumado em verdade
Derrotadas pela emoção de sentir o hoje
Anuncio a derrota do hoje,
Que não se pega
A derrota de tentar entender
O que não se entende
E a derrota do egoísmo de não aceitar essa derrota.

Anuncio a minha derrota, antes de anunciarem a mim.
Anuncio aqui, a derrota final
De todos os que se viram vitoriosos
Pois enfim ninguém venceu, e nunca vencerá.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Uma Bolsa

Duas jovens universitárias caminhavam pela alameda quando uma delas avistou um morador de rua que andava cambaleante, praguejando para o nada.

- Depressa, deixa eu esconder minha carteira – disse a primeira.

- Para que? – enviesou a segunda.

- Oras, não está vendo ali o bêbado? Ele pode querer nos roubar.

- Pode querer nos roubar? – fez a segunda jovem, em um tom de pergunta retórica.

- É claro oras, eu não confio nesses bêbados de rua.

- Eu não confio nesses sóbrios de rua mas isso não é motivo pra eu andar com medo.

- É porque você nunca foi roubada por um deles.

- Aquele ali já te roubou alguma vez?

- Claro que não né! Mas nunca se sabe, é bom não dar confiança demais.

- Mas ele sequer parou aqui perto. O homem está lá longe, nem dando bola pra gente.

- Que seja, vamos só passar rápido.

- Já estamos passando, mas não vejo razão pra pressa, estamos adiantadas.

- É que eu quero passar rápido por aquele homem.

- Ele está andando à nossa frente, nem está ligando pra nós, mas você está com medo dele e mesmo assim ainda quer passar por ele?

- Ai, você me entendeu!

- Fica calma, não vai acontecer nada. Não precisa ter medo.

- Não dá pra não ter medo, nessa cidade... – e terminou a frase. O restante não era necessário preencher. Isso ficava a cargo dos tablóides jornalísticos que se ocupavam diariamente de retratar a tragédia da vida moderna.

- Estou com a sensação de que ele está indo pro mesmo lugar que nós.

- Interessante... – sorriu a segunda jovem.

- Interessante? Um bêbado de rua indo pro cinema? Com quem ele se encontraria lá. – debochou a primeira.

- Oras, o cinema é público.

- Duvido que ele tenha dinheiro pra pagar.

- Quem sabe arranjou uns trocados pedindo esmola.

A primeira jovem bufou com desdém, e continuou: - Mesmo que ele tenha dinheiro pra entrada, ninguém vai deixar ele entrar assim.

- Bêbado?

- É, que horror.

- Eu já assisti um filme bêbada, não entendi nada. Você também já ficou bêbada.

- É, mas é diferente!

- Não vejo diferença de coisa com coisa.

- Eu não fico bêbada na rua.

A segunda jovem gargalhou com ironia, como se recordando de uma cena recente: - Olha, se a gente voltar lá no MASP ainda pode ver a poça de vômito que você deixou lá.

- Eca, que nojo! Não precisa ser nojenta assim.

- Mas a poça de vomito era sua, e eu não estou sentindo nojo disso, pelo contrário, estou é achando graça.

- Mesmo assim, ele é um bêbado sujo e eu sou uma menina limpa.

- E com um lugar pra morar.

- Ah, lá vem você com moralismo. Isso é coisa de velho.

- Eu não acho. Mas e aí, já perdeu o medo? – disse a segunda jovem ironizando ainda mais, vendo que a amiga não largava a bolsa e apertava o bolso interno do casaco com apreensão.

- Não até a gente se livrar daquele homem.

- Mas ele não está nos seguindo. Nós é que estamos.

- Vamos dar a volta?

A segunda jovem deu um suspiro demonstrando impaciência pela intolerância absurda da primeira, e concordou dar a volta para cessar de uma vez com aquele solóquio aburguesado. Deram a volta e seguiram pela rua paralela àquela, sem mencionar novamente o homem bêbado, que naquele momento estaria anuviado na mente da primeira jovem, distraída com as lojas de perfume. O pequeno silêncio de diálogo foi quebrado pela segunda jovem, ainda que houvesse as buzinas da cidade:

- Deixa eu perguntar uma coisa. O que você tem aí que tanto tem medo de perder?

- Ah, meus trocados, meu celular, hmm, meu estojo de maquiagem, minha carteirinha da facu, meus documentos, que mais... ah, tem esse anel que o Rô me deu. Mais do que tudo, eu não me perdoaria se perdesse isso. Foi tá lindo.

- Se você não quer perder o anel, por que não coloca no dedo?

- Porque eu ainda não tenho certeza...

- Hum. – fez a segunda jovem enfatizando ainda mais a sua ironia que era sempre despercebida pela primeira. E por que você carrega tantas coisas na bolsa?

- Porque eu sou mulher oras!

- Eu também sou mulher e só estou carregando meu dinheiro e meus documentos.

- Mas tem que se prevenir. Ei, peraí, você não tem celular?

- Tenho, mas deixei em casa hoje. Não quero que interrompam nosso passeio. Quando sair do cinema eu vou embora. E minha mãe já sabe que eu to com você, qualquer coisa ela te liga. Já ficam me ligando do trabalho a semana inteira e...

- Ai, peraí, tem gente me ligando. – e a primeira jovem tirou o celular da bolsa olhando desconfiadamente ao redor, num impulso de quem faz algo proibido ou indevido, o que na verdade era apenas um mpeto automático de se certificar que ninguém o tomaria da sua mão.

A segunda jovem continuou caminhando com um resquício de insulto por ter sido interrompida pela súbita ligação, mas procurou compreender ser um viés do acaso, e não havia necessidade para se incomodar tanto. Continuou caminhando prestando atenção nas pupilas dilatadas e no riso sem cor da sua amiga, imaginando quem poderia ser. Parou pra prestar atenção no tempo nublado, que tanto nos faz sentir solitários, mesmo caminhando ao lado de uma amiga, num passeio de entretenimento tão trivial quanto o cinema.

- Quem era?

- Ai, o Rô. Ele me ligou perguntando se eu gostei do anel. Ele deixou na janela do meu quarto enquanto eu dormia. Não é romântico? Eu não sei ainda se vou namorar com ele. Até que é bonito, mas ainda não sei sabe...

- Então, como eu ia dizendo, eu não gosto quando ficam me ligando no meu momento de lazer. Já me ligam a semana inteira por causa do trabalho. Hoje to a fim de relaxar.

- Ai credo, você nem tá me escutando sua grossa!

- Claro que estou, o Rodrigo te ligou, perguntou se você gostou do anel, e agora você não sabe se namora com ele ou não. Espero que isso tenha acalmado o seu medo.

- Ah, o moço já foi embora, não tem porque ter medo. – respondeu com tom de insultada por ter seus sentimentos censurados.

- Eu acho que você tem motivos pra ter medo. Sua bolsa ainda está aí.

- Mas o bêbado não. E eu estava falando do Rô. Nem to mais me lembrando do bêbado. Ai, você às vezes é tão... – e por sua sorte, sua amiga interrompeu o discurso. A sorte surge por não ter um adjetivo conveniente para complementar o seu insulto. O discurso falha, mas as atitudes sobram e pouco se explicam do comportamento universitário moderno.

- Bem, olha ali, desviamos um pouco o caminho, mas chegamos.

- Nossa, nem percebi.

Então a primeira moça teve uma surpresa confusa, pois na porta do cinema a esperava Rodrigo e seu amigo, Hebbert. Ficou com um entusiasmo um tanto apavorado, ruborizada pela surpresa, afinal não tinha combinado com nenhum deles. Ainda assim, apressou o passo se aproximando dos dois, abraçou Rodrigo com uma sensação de frio na barriga, deixando a bolsa cair, e se esquecendo de todo o seu trajeto anterior.

Sua amiga meneou a cabeça com uma graça conveniente, cumprimentou a Hebbert, entrando no cinema e puxando conversa sobre o agradável clima nublado paulistano.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sob Poder

"As palavras têm poder."

Que coisa, depois de muito pensar que isso era uma grande besteira, passei a concordar com a expressão popular. As palavras realmente têm poder.

Na última aula de Literatura Brasileira, o professor Valfrides falava entusiasmado sobre a obra de João Cabral de Melo Neto, e foi que ele soltou a máxima dita por Lygia Fagundes Telles, definindo a diferença da palavra em prosa e da palavra em poesia: "na poesia, a palavra é gorda." Excelente! Palavra gorda, adorei a expressão! Quer dizer que com o mínimo de palavras, deve-se traduzir o máximo de imagens. Palavras representam imagens. Com pouco se diz muito, na poesia. Talvez por isso o verborrágico e o diletante soem tão insossos. É como se fartar de arroz branco sem sal. Eca!

Mas muito além disso, a palavra tem poder sim! Já vi muitos por aí concordarem e rasgarem a seda para poetas prosadores do nosso jornalismo diário, onde com uma simples coluna conseguem nos dar um completo vislumbre de suas arrogâncias, com a sua a arrojada diletância e verborragia. Que nem sangue que desce sem parar.

Isso é sublime! Eis a via sem volta que adentra o uso bom e mal da palavra. Vargas que o diga, tanto quanto nosso presidente Lula o parafraseia, ainda mantemos o nosso extasiado e fantasioso encanto por aqueles que detém a palavra, e o poder. Os poetas dos tempos modernos bem conseguem nos deixar claras as suas maneiras. Fernando Henrique tentando ser Rui Barbosa. José Serra tentando ser Fernando Henrique. O pequeno da classe média tentando ser José Serra. A dona da boutique na Oscar Freire tentando ser a Senhora Ruth Cardoso, e a sua criada de quarto tentando ser aquela moça bonita da novela das oito.

Os inconformados com a sua falta de palavra sentem saudades do poder massivo das palavras Stalinistas ou Hitlerianas. A palavra tem poder, a palavra tem poder, o poder tem a palavra... ou o inverso. Mas isso já nem faz mais tanta diferença, porque o que estou dizendo já vai além da capacidade da aceitação de quem lê ou não. A palavra se impõe, e só se combate palavra com palavra. Usa-se uma palavra, e no nosso entender, buscamos no léxico (a gavetinha dos oportunistas) uma palavra de poder maior. Assim como no joguinho de cartas Magic, ou às vezes como no RPG Dungeons & Dragons.

Só não me falem dos modestos. Estes que justificam sua incapacidade numa desculpa antecipada. Como o poeta que antes de falar a poesia, ri sem graça dizendo: "ah, eu não me considero assim um poeta, mas lá vai" e manda. Aí todos nós nos compadecemos com a sua humildade de reconhecer o erro antes de declamar, e já temos uma justificativa do horror. Eu sou poeta, eu uso a palavra, e tenho plena certeza do seu poder, e do seu não poder também. Quem não tem palavras se submete animalescamente.

Pelo poder da palavra, a palavra implica poder palavrear. E é nesse palavrear que temos o seu poder implícito, desapercebido, assim como uma doença que nos atinge sem aviso, as palavras poderosas nos controlam, dão-nos o nosso rumo e direção, sem pedir licença, e sem se desculpar por isso no final.

Espero que apreciem o poema.

Sob Poder

Por trás da palavra
Mil palavras.
Por trás das mil
Uma noite.
Por trás da noite
Um murmúrio
QUe por trás
Traz mil outras palavras.

25/10/2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Diazepam

A sociedade brasileira se equivoca. Não quero delimitar um grupo, pois hoje, todos se equivocam. O caos social impera, e isso é favorável a poucos, terrível para a maioria, pois não temos uma unidade. O que antes poderia ser motivo de poesia e admiração, hoje é um grave fator para o impasse que vivemos. Nossa diversidade cultural e étnica já não me encanta mais, ao contrário, me assusta.

Psicólogos admitem que a crise é favorável à mudança. Se as relações sociais se dão através do contato de uma pessoa com outra pessoa, então passemos a tratar o Estado como um corpo vivo, e não mais como uma idéia. Tratemos de enxergar que o Estado, que serve à sociedade (e não o contrário, como ocorre em nosso fascismo mental disfarçado de democracia) está sofrendo com uma doença horrível. Nossas células estão desordenadas, entrando em choque constante. Uma vez divididos, há o impasse, e havendo o impasse, perde-se a perspectiva. Caímos no mal estar da depressão coletiva. Falta esperança, e faltando esperança, falta-nos a força de vontade. Para quem já teve a auto-estima em estado decrépito, sabe o quão difícil é se levantar da cama. Precisamos de estímulos para viver, precisamos acreditar em algo. Mas esta crença nos é roubada diariamente. Quando a dor é em excesso recorremos à alternativas de alívio: drogas medicinais, drogas alucinógenas, bebidas alcoólicas, auto-mutilação, suicídio, mental ou físico. Já nada mais importa, já nada mais faz a diferença. Qualquer discurso amigo vira referência. Qualquer sonho, por mais inútil que seja, vira referência. Eis então que me sobra apenas uma pergunta: para que serve um país? Para que serve a minha necessidade de auto-estima? Afinal, para que continuar vivendo? Para quem continuar vivendo?


José sonha com croissant.
Pedro sonha com colchão de molas.
João sonha com seus mata cavalos.
Paulo sonha com peteca e bolas.

Havia ruído e agitação na multidão
Quantas caras
Quantos sonhos
No cárcere das mentalidades
A corrente mais dura
Se constrói nas imagens das cidades.

José pegou os lixos das calçadas no Morro dos Ingleses.
Pedro altera o ar no condicionado auto italiano.
João escolhe entre papel e papelão
Paulo troca os calçados franceses por meias de algodão.

Nas estações de rádio
Durante o REM do despertar
Todos atentamente ouviam
O Presidente da República discursar.

sábado, 16 de outubro de 2010

O Meu Eterno Amanhecer

Paixão paixão... resistiu ao tempo. Possivelmente. É difícil falar desse tema tão delicado entende? Você entende. Foram tantas reviravoltas, tantas idas e vindas, tantas! Pois sabemos. Procuramos o que? Procuramos pelo que? Procuramos por quem? Pensar em você era quase regra, quase porque eu também pensava na minha vida, nas minhas coisas, pensava na minha dor. Como era doloroso, como doía meu Deus! Doía pra cacete!

Tentava não me perder entre as páginas de um livro e de outro livro, e entre as pernas de uma e outra imaginação pendente. Pois é, era difícil imaginar. Eternamente amanhecendo com uma lembrança, com um desejo, com uma esperança das coisas acontecendo, duas vidas tão distantes, paralelas, para elas, vivenciando as coisas como se fossem ondas nos levando, sem pensar, sem oferecer resistência, sem esperar que algo nos parasse, mas sabendo no fundo que não era bem assim. Não era bem assim. Eu prefiro não pensar, não é pra pensar, é complicado, é estranho, é difícil, não era pra pensar. Sentir. Nestas horas a filosofia enlouquece, não faz sentido. Sento na poltrona pra ver o sol sumir da minha vista, e a noite me abraça como um menino perdido e só, mas você estava ali, sempre, na lembrança, no desejo, na esperança. E foi, o que não era pra ser, foi, está sendo. O menino sorriu, o coração está feliz.



Meu eterno amanhecer


Mãos hábeis que preparam a janta
Manejam as especiarias artesanalmente
Enquanto lembro que em tempos brancos
Mal manejavam as mãos do adolescente.


A lembrança é eterno fruto
E se um dia a alma apodrecer
No coração jamais haverá luto
A vontade viva amadurece
O perfume de alecrim,
Ninguém esquece.