quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Perene Melancolia

Você já percebeu como às vezes a nossa vida ocidental nos cobra demais para vivermos? Já percebeu que tentamos chegar a um consenso, embora muito mais nos deixemos arrastar pelas companhias, acontecimentos, momentos, sem pensar muito sobre tudo o que está acontecendo? Como se a vida não estivesse sendo vivida, mas, situações sendo despejadas, uma após outra, no nosso colo, descontroladamente, semelhante a um caminhão que descarrega a sua carga sobre nós, que, em nossa miúda fraqueza, resta-nos sufocar?

Não importa o que façam para melhorá-lo, o mundo é cruel e implacável. Ele não espera. Estamos todos indo, eternamente até que a morte nos separe desta obrigação inconsciente. Vamos caminhando, como loucos ao encontro de nada. Quem é que nos joga nesse penhasco onde não conseguimos enxergar o chão? Quem é que nos atira do céu, sem pára-quedas, para quando quedamos, sentimos com tanta intensidade no nosso espírito que nos faz menores, pequeninos e indefesos diante de tamanhas tantas coisas para serem feitas.

Carpe Diem disseram-me certa vez. Como um relógio tiquetaqueando: Carpe... Diem... Carpe... Diem... A cada passo um Carpe... Diem... em cada respiração Carpe... Diem... Carpe... Diem...

E quando de repente percebo, vejo que não estou fazendo nada demais, nada de extraordinário. A fantasia do maravilhoso é uma ilusão para o meu espelho. Nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter ido. Ficam imagens, fotografias dos outros, sorrisos dos quais não fiz parte, festas, danças, beijos e abraços, amores perdidos, amores que nunca poderiam ter sido, amores demais, demais amores vivendo amores de menos. Mas nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter sido. O que eu fiz então? Parei, refleti por um minuto, e trouxe de volta a minha calma, mas não a minha alegria de ter vivido. Carpe Diem.



Perene Melancolia


Não me carregue para o lado
Quando o que muito quero
É no máximo, ficar parado.

Não se incomode com minha tristeza
Se a vida que se prejudica
Não depende de tanta torpeza
Que se confunde com compaixão.

Não, não carregue a minha mão
Para o lado que não quero ir
O que quero é não seguir
E não dividir o meu espaço.

A vida que se perde
A cada segundo não existente
É uma vida latente
Que ainda mais parada que possa estar
Vive plena, e ainda sente.

Quero poder sentir com abundância
Toda a tristeza que do meu peito mina
E que depois se exploda em alegrias.
Mas por enquanto,
Deixai-me em minhas próprias sinas.

Ao fim do dia eu me recolho
Encolhido em minha cama
Ficarei de molho.
Retornarei ao feto, meu aconchego
Para o clarão de uma pressão contínua:
No princípio, era nascer.

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