quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Fluxo Contíuo

O que para mim sempre foi típico foi o questionamento. Vazio ou consistente, o questionamento sempre tem um sabor incômodo. Nos primeiros poemas isso era um hábito, tanto mais quanto uma necessidade, até o dia em que parei de tentar ser poeta e passei a ser poeta. Até este dia chegar, muitas coisas aconteceram. Dentre as maiores bobagens de imaginar que um poeta precisa de algum tipo de formação acadêmica, até pensar que a poesia era algo sagrado e intocável, acessível apenas às pessoas mais célebres. Enfim, isso é uma outra história.

O poema a seguir tem um tom de crítica adolescente. É uma crítica de quando nós sabemos que algo está errado, mas ainda não sabemos dizer o que é. E a meu ver, o que estava errado era esta coisa de todo mundo querer seguir o mesmo caminho, como se cada vez mais as sociedades estivessem se afunilando numa única maneira de viver a vida, e a rejeição, proibição, exclusão, e porque não dizer, prisão e exclusão daqueles que optam, ou tentam, querer viver uma vida diversa. Até então eu não sabia que não vivia uma vida diferente, mas na minha cabeça narcisista e egocêntrica, esta idéia era bem clara: eu era diferente de todo mundo. Foi terrível perceber o quão errado eu estava. Pouco depois, foi mais horrível ainda perceber que o meu maior erro era pensar que eu estava errado. De lá para cá, como um pêndulo, ainda não sei onde estou, mas não estou em lugar algum. Fruto de uma explosão de pensamentos que eclodiram nos meus dezessete anos, somados à influência violenta da professora de literatura do cursinho, Ívian Lara Destro, que o tempo inteiro me bombardeava a mente com coisas que eu sequer tinha pensando em pensar antes. Bom para mim a princípio, entretanto, ficar preso no mar do questionamento nos leva à solidão, e pouco depois, à loucura.

Vejo as coisas como quem vê tudo de fora, porque não estou incluído em nada. Isso não é uma postura blasé, trata-se apenas de dificuldade de socializar. Em mim, isto é um grave problema.

Para não esvaziar completamente o assunto, tratarei disso em um poema adiante.

Espero que gostem da leitura!


Fluxo Contínuo

Como é belo o fluxo contínuo de uma marcha
Se move com graça,
Em um ordenado eterno.
- Eliminem aquela pedra! Está desviando o fluxo!

Veja como marcha:
-Pelotão marche! Um, dois, um, dois!
-Pelotão descansar! Eu disse descansar! Prendam-no!

E assim prossegue esse pelotão, o fluxo contínuo.
Passam os feixes e as fachadas fechadas.
As caras amassadas pisam nas poças lamacentas...
Devia malhar um pouco, estou ficando para trás.

O indivíduo que dobra a esquina
Que marcha de costas,
Ou que nasceu de costas
Este sim desobedece às leis da física, que não servem para
[nada
-Eliminem aqueles homens, para a solitária!
Em alto e claro som.

Agora sim! Está completa.
A marcha não para e nem chega
Ninguém sabe pra onde, mas acompanha
Por que é belo?
É belo o fluxo contínuo de uma marcha.

Maio de 2003, Lapa, São Paulo

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Música

Este final de semana o projeto que criei e onde eu toco participou do Festival de Música do Jardim Ângela, ou Jardim Ângela Music Festival, como preferirem. Foi empolgante de certa forma participar do festival, ver o nome de um projeto meu sendo mencionado por outras pessoas, tendo repercussão na internet (embora que ínfima, mas teve), e saber que ao menos algumas pessoas gostaram.

Estivemos de certa forma desfalcados, o nosso baterista teve um grave problema familiar e não pode comparecer, então encaremos apenas o Júnior e eu. Tivemos coragem em tocar o Samba da Inês e o mantra Kali Kali sem acompanhamento de percussão, o que deixou a música de certa forma insôssa. Depois de um tempo tocando com o Fábio, eu não consigo imaginar as músicas com outras pessoas. Podem conferir algumas no meu outro blog: www.calangotrio.blogspot.com

Não passamos na segunda eliminatória, ainda não sabemos os pontos das nossas falhas. E eu fiquei desapontado a princípio. Mas depois de pensar muito, e principalmente depois do apoio e das palavras de conforto das pessoas que me amam, da mulher que me ama, eu pude seguir em frente de uma forma mais madura. Na arte não existe esta coisa de derrota ou vitória. A derrota artística é de certa forma vender a arte por um propósito pequeno, sei lá, mesquinho. A grande vitória é tocar as pessoas.

Eu me lembro que no início da cerimônia, quando foi dito que o festival era de caráter competitivo, eu de certa forma embrulhei o estômago, respirei fundo, com desagrado. Não gosto desta palavra competição. Isso me remete a este sistema cruel em que vivemos, do qual eu também não gosto e tento lutar por algo diferente.

A música não deveria ter caráter competitivo, mas ao contrário, deveria estreitar os laços, fazer a somatória das inconsciências através da consciência. A mensagem viria no mar da criatividade, dentro de uma garrafa que flutuou por mares e marés inteiras, repousando no berço da curiosidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Perene Melancolia

Você já percebeu como às vezes a nossa vida ocidental nos cobra demais para vivermos? Já percebeu que tentamos chegar a um consenso, embora muito mais nos deixemos arrastar pelas companhias, acontecimentos, momentos, sem pensar muito sobre tudo o que está acontecendo? Como se a vida não estivesse sendo vivida, mas, situações sendo despejadas, uma após outra, no nosso colo, descontroladamente, semelhante a um caminhão que descarrega a sua carga sobre nós, que, em nossa miúda fraqueza, resta-nos sufocar?

Não importa o que façam para melhorá-lo, o mundo é cruel e implacável. Ele não espera. Estamos todos indo, eternamente até que a morte nos separe desta obrigação inconsciente. Vamos caminhando, como loucos ao encontro de nada. Quem é que nos joga nesse penhasco onde não conseguimos enxergar o chão? Quem é que nos atira do céu, sem pára-quedas, para quando quedamos, sentimos com tanta intensidade no nosso espírito que nos faz menores, pequeninos e indefesos diante de tamanhas tantas coisas para serem feitas.

Carpe Diem disseram-me certa vez. Como um relógio tiquetaqueando: Carpe... Diem... Carpe... Diem... A cada passo um Carpe... Diem... em cada respiração Carpe... Diem... Carpe... Diem...

E quando de repente percebo, vejo que não estou fazendo nada demais, nada de extraordinário. A fantasia do maravilhoso é uma ilusão para o meu espelho. Nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter ido. Ficam imagens, fotografias dos outros, sorrisos dos quais não fiz parte, festas, danças, beijos e abraços, amores perdidos, amores que nunca poderiam ter sido, amores demais, demais amores vivendo amores de menos. Mas nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter sido. O que eu fiz então? Parei, refleti por um minuto, e trouxe de volta a minha calma, mas não a minha alegria de ter vivido. Carpe Diem.



Perene Melancolia


Não me carregue para o lado
Quando o que muito quero
É no máximo, ficar parado.

Não se incomode com minha tristeza
Se a vida que se prejudica
Não depende de tanta torpeza
Que se confunde com compaixão.

Não, não carregue a minha mão
Para o lado que não quero ir
O que quero é não seguir
E não dividir o meu espaço.

A vida que se perde
A cada segundo não existente
É uma vida latente
Que ainda mais parada que possa estar
Vive plena, e ainda sente.

Quero poder sentir com abundância
Toda a tristeza que do meu peito mina
E que depois se exploda em alegrias.
Mas por enquanto,
Deixai-me em minhas próprias sinas.

Ao fim do dia eu me recolho
Encolhido em minha cama
Ficarei de molho.
Retornarei ao feto, meu aconchego
Para o clarão de uma pressão contínua:
No princípio, era nascer.

domingo, 5 de setembro de 2010

Através do Espelho e o que vi Lá

Poemas perdem o sentido com o passar dos tempos. Perdem o sentido para quem escreveu, pouco depois para quem leu, e pouco depois perdem o sentido no seu contexto. Nada mais natural. Eis uma prova não empírica de que as coisas realmente se transformam... e ao mesmo tempo não! Um poema escrito há cinco séculos pode conversar diretamente com os meus sentimentos atuais. As pessoas são todas iguais em essência, o que muda é a personalidade. Somos iguais, mas é perigoso encontrar vasta semelhança entre nossos semelhantes, porque todos nós sentimos a necessidade de ter identidade. Em um papo com minha irmã esta noite, ela se queixou de que esse mundo está muito igual. Estamos perdendo o assunto, perdendo a direção. Aliás, parece não existir mais direção. Seria como se já houvéssemos alcançado algum certo limite, despejamos tudo isso no chão tal como um vasto mar, e agora estamos nadando desorientados sobre ele, tentando continuar, seguir adiante. Mas e se não houver mais para onde seguir? Já preenchemos todas as lacunas desse mundo, e nada mais parece ser novidade.

As respostas? Ainda não as tenho, mas o pouco que posso dizer é que isso é uma coisa muito individual. Eu apenas joguei a questão. A resposta se dá quando se olha no espelho.


Através do Espelho E o Que Vi Lá

Hoje escrevo assim, sem compromisso.
Sem querer saber muito do nada.
Obrigado
De nada
Escrevo um pouco sem querer muito, e não querer ser mais ou menos.
Apenas ser menos.
Mostrar que sou menos.
Palavras desconexas como aprendi
Com alguém que não posso crer.
Abrir a porta do tribunal e descobrir que ali está um belo jardim.
Cavar um buraco e plantar uma árvore,
E que ao invés de semente,
Devo usar do conteúdo científico químico muito perigoso para a saúde.
Escrever e reler o escrito,
Tentar entender o que escrevi.
Assim é melhor que me ver no espelho.
Escrevo hoje, tentando empurrar goela abaixo de quem lê
Uma parte de meu narcisismo de escritor.
Mostrar um pouco que a roda roda e empaca.
Mas pacas!
O que fazer?

Quero não ler notícias, só hoje.
Não quero pensar no futuro.
Quero não planejar o dia,
Nem a noite.
Nem o amanhã.
Só hoje não quero nada.
Quero sair de casa sem carteira, sem roupa, sem cara, sem nada.
Quero que o sentido seja íntegro e único.
Não quero nada.
Deixa eu ir.
Solta a minha mão e deixa eu ir
Deixa eu caminhar em direção alguma.
Não me diga pra onde ir.
Não me diga por favor.
Não me diga para fazer, não me diga para querer.
Não me diga que não posso escrever:
- Me deixa caminhar em direção alguma.
Através de seus olhos eu vejo o que eu deveria ser.
E através dos meus eu vejo o que eu quero ser.
Deixa eu beber.
Me deixa caminhar, cair, chorar e me machucar.
Deixa-me
Me deixa
Deixa em
eixadem.
Deixa eu me aceitar como sou.
Me deixa.

Hoje queria escrever por escrever.
Mas eu não me permiti não querer.

Hoje queria escrever pra você.
Queria escrever por você.
Hoje eu queria ser você
Hoje eu queria você
Hoje eu você
Hoje você
Amanhã eu
Mas não é, não vai ser e não será.
Porque hoje
Hoje eu queria você ser eu.
E ser o que todos queriam ser
O eu em você.
E viver em paz.

Mas eu sou apenas eu.
E os outros.

Hoje escrevo assim, sem compromisso
Sem querer nada além disso
Sem desejar algo bonito
Sem rimar isso com aquilo.
Pois se algum dia houve momento
Que a rima de encantamento
Combinasse com vida sem sofrimento
Esse dia não viu ainda o tempo.
Por isso hoje
Hoje escrevo assim, sem compromisso
Sem rimar aquilo com isso
Sem rimar nada com compromisso.
Sem querer nada com compromisso.

Eu queria hoje
Estar presente na melhor das lembranças
De quem hoje não posso ser.
De quem hoje não querer.
Crer.

Hoje queria saber
O quão forte eu sou
Ou fraco deixei de ser
Se medir com esses dois
Quantidade do quanto
Sou.

Hoje queria saber que sou humano.
Hoje queria saber que humano sou.
Hoje queria saber pra onde vou.
Hoje vou saber pra onde queria.
Hoje queria ir pra onde sei
Saberia querer pra onde hoje irei?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Relógio Errado

Este é, seguramente, um dos meus primeiros poemas. Fala de relógios mesmo, do passar do tempo descompassado e desmedido. Ou que não se mede, não se aplica à nossa ciência, mas à nossa consciência, ou semiconsciência, ou seja lá como queiramos chamar as coisas. Para tudo o quisermos dar nome, ainda existem coisas que fogem ao nosso controle. O tempo é uma delas. O que nos mantém sob controle está no mais profundo do nosso ser.

Este é um dos meus primeiros poemas, e já não importa em qual época ele foi escrito, mas se ele ainda faz sentido.


O Relógio Errado


Tic, Tac, Tic, Tac
Assim vai o relógio
Assim vai o tempo
Atropelando tudo:

O homem,
A mulher,
A criança.
O cachorro, gato, rato
O homem e a mulher.

Tudo se vai
a Lua se vai, o Sol se vai, o Dia...
E eu estou aqui!
Ou será que estou lá?
Às vezes estou aqui, às vezes estou lá
Às vezes nem estou!

E às vezes não estou sozinho!