sábado, 23 de janeiro de 2010

Tua Gramática


Teu advérbio
Sinceramente
Livremente

Teu substantivo
Sincero
Livre

Teu verbo
Ser
Libertar
Ser sinceramente
Sonhar libertamente

Tua preposição
Com
Com sinceridade
Com certeza
De ser
A liberdade.

A Destruição das Horas


O que são as horas quando eu tenho os teus beijos?
Pois não me fale de horas
E nem de obrigações
Fale-me dos teus beijos.

O que são beijos sem os teus lábios?
E quando os olhos poupam os lábios
O olhar furtivo e sutil
Cálido como a brisa fresca da aurora
Cala-te por agora
Fala-me pela hora
Os olhos sem os lábios
Eles voam e sons silêncios
Sutis e gloriosos, sábios.

Os minutos são gotas de suor.

O que são as horas sem o ensejo
Volátil e livre do teu caminhar?
Caminhas como danças
Danças em estâncias
De contrabaleio de balanças.
Calaboças andanças
Lábios de sonhar esperanças.

Em teus braços livres
Eu me esqueço de mim
Eu me esqueço dos relógios.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Frase X

Reformulando Hobbes:

"O homem é o concreto do homem."

A Primeira Morte


Sentado na areia da praia
Estava escuro
Mas uma fogueira tímida tentava me aquecer.
Mal conseguia ver as estrelas.

O ar me esfriava
A areia me coçava
A maresia me ardia os olhos
Mas nada disso me importava.

Pensei nos amigos
Em todos que foram
E em todos que estão.

A chama da fogueira foi se apagando
E se apagou.
Não havia ninguém para vê-la se apagar comigo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Poema de Repetição

Poema de Repetição.
Poema de Repetição.
Poema, de Repetição.

Repete são
Repete som
Repete dor
Repeterror
Repede amor
Recolhe dor.

Enche o copo
Esvazia o copo.
Enche o peito
Esvazia o peito.
Abre os olhos
Fecha os olhos.
Marca a hora
Levanto
Deito.

Cara cora
Repetição
Enche a taça
Bebe a taça
Solta traça
Perde a graça
Embaça
FFFFF...
Fumaça.

Poema de Repetição.
Poema de Repetição.
Poema de Repetição.

Reticências
Retalhências
Retunbâncias
Reticências
Da repetição.
Retenção
Petição
Reterão
Retenção.

A estrada sobe
A estrada desce
A estrada curva
A estrada turva
O monte urva.

O peito enche
Esvazia
Escoria
Escurece

A noite anoitece
O dia amanhece
Ninguém esquece.
Levanto
Deito
Dói o peito
Cai no leito.

Poema de repetição.

Mato no chão
Estrada vazia
Vento no chão
Copo no chão
Vazio, vazio, vazio...

Poema de repetição.

Esperando o Trem


Esperei para nascer
Espero para morrer
Espero para tudo acontecer
Minha vida me bota a esperar
E esperando espero não esperar.

Espero o ônibus
O trem
E a minha incansável carona.

Espero a nuvem de chuva
E o sol escaldante
Espero aquela brisa fresca
Espero a barca.

Espero a noite chegar
E o dia terminar de nascer
Espero a lua brilhar
Enquanto as estrelas tocam
Uma sinfonia do iluminar.
Espero o sol parar de brilhar
E o mar parar de subir
A colina parar de ser alta.
Espero não sentir sua falta.

Espero para crescer
E ver que tudo o que aprendi
Era só questão de esperar.

Não espero para amar
Espero para receber
Recebo votos de esperança
Espero que a alegria não salte
Pela janela da desilusão
E depois de tanta espera
Espero a tristeza passar
Espero o choro passar
Espero tudo passar.

Espero pela lágrima que não cai
Espero pelo sorriso que não sai
Tudo é questão de esperar.

Espero um dia esperar
Que tudo o que um dia esperei
Não espere que eu possa voltar.
Espero voltar para trás
E ver do quanto fiz mais
O menos que tanto esperei

O dia me faz esperar
E a sombra espera sombrar
A luz ilumina o esperar
Espero luzir o luar.
Soletro a esperança no ar
Espero o sol se acalmar.

Espero a natureza acabar
Acabo o quanto tanto esperar.
Espero de vez em dormir
E durmo enquanto espero acordar.

A vida o quanto te espero
E vivo o quanto te quero
Espero não precisar errar
Espero não precisar chorar
Choro para não esperar
O quanto te quis pra voltar.

Feliz espero esperar
Espero o quanto durar
Duro o ser e o estar
Estou em um duro esperar
Eu sou a esperar do ar.

Areja minha espera de olhar
Eu olho a esperar de olhar
Eu espero a aspereza do olhar
Eu aspero o olhar de esperar.

Espero no horizonte
E busco a sua face perdida
Busco aquele sorriso sublime
Busco aquela voz estranha
E o sorriso que espera
Que a esparança jamais acabar.

Em verdade sempre esperei
Espero por todo esse amor
Espero por toda essa dor
Espero com sublime e sincero calor
Que a frieza pobre desapareça
E não me faça esperar na torpeza.

Em verdade sempre esperei
E espero como quem morre
De dia sim e dia não
Pois a cada dia de espera
É um dia que me faz falta
E cada falta que faz
É uma esperar de quem mata.

Espero pelo sim
E pelo não
Espero pelo sol
E pelo som
Espero pela noite
E o silêncio
Espero para nascer
Espero tanto
Para morrer.

Quando a Luz se Apaga

Rastros de uma vida infeliz. Às vezes a lembrança vem implacável, e de todas as vezes em que estive triste de verdade (tristeza de verdade é um sentimento muito intenso) a imagem mais clara a qual aludia minha alma era a de uma luz se apagando. Todo mundo tem medo do escuro, certa professora disse. Por que será?

Quando não há imagens presentes no nosso campo de visão, automaticamente começamos a nos defrontar com as imagens do nosso cérebro, da nossa imaginação, daquilo que evitamos enquanto 'conscientes'. Temos medo do que está dentro, do que escondemos, daquilo que constantemente reprimimos.

Nas sessões com a psiquiatra ela me disse: "Se você sentiu, se você pensou, é porque ele está lá, dentro de você. Não ignore, enfrente". Pois é, enfrentar o medo do escuro, o medo de aceitar as limitações, de descer um pouco do pedestal do orgulho e assumir os erros, assumir as falhas, pedir desculpas, mesmo que não aceitas. Danem-se todas aquelas sujeitações maiores de uma idéia menor, o importante é seguir aquilo o que o nosso coração mais puro diz. A aceitação da interferência do amedrontado é a inerência à estupidez a longo prazo. Apague a luz, aceite este encontro consigo mesmo.


Quando a luz se apaga
Eu não vou
Eu paro
Estático como um cacto
Sedento por maciez
Quando a luz apaga.

Quando a luz se apaga
O café amarga
A comida azeda
Eu berro eu cego
Tateio e não encontro
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
O vento frio me afaga
Eu realizo
Eu moralizo
Eu desejo não ter visto
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
A vida vai
Eu fico
O tempo corre solto e lento
Perdendo o dia e a noite
Não nascem mais rosas
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
Acalma-se a chama
Levanta os olhos e clama
Mas não escuta a tua dama
Cada passo longe
Uma lágrima derrama
E eu perco os meus lenços
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
A juventude se perde
Perde-se o vigor
Perde-se o sabor
Perde-se a cor
Perde-se tudo
Sobra o rancor
De vir tudo de novo
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
A benção vai embora
Estaciona-me a praga
Inundam-me as perguntas
Faltam-me as respostas
Seca-me a garganta
Seca-me o coração
Morre o espírito
Morre o menino
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
Tudo o que é luz diminui
Os dias são sombrios
A noite é confortável
A noite é estável
A marcha é louvável
O urubu fala
E eu entendo
Os corvos em voos circulares
Ululam lá no céu
Quando a luz se apaga.

Quando a luz se apaga
Acaba

Quando a luz se apaga.

Acaba!
Quando a luz se apaga.

A marcha para
A para marca
Araca para
A luz que apaga.
Quando a luz se apaga
Quando mancha marca
Apara a marcha
Quando a luz acalma
Quando a luz se apaga
Não há ninguém
Quando a luz se apaga
O homem não a acende mais.

Quando a luz se apaga
Vai o menino
Fica o velho
Leigo ancião ou sábio vespertino
Sobra-se o acre excessivo
Quando a luz se apaga
Uma estrela cai e toca o sino.

Quando a luz se apaga
Uma voz sussurra
Quando a luz se apaga...

Quando a luz se apaga...

Quando a luz se apaga...

Quando a luz se apaga...

Apaga...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Amor de Profanação

Vozes ecoam por todo o meu templo
Veja as marcas do assoalho e do tapete
Borbulham o sangue e o vinho
Como quem borbulha dos lábios
O líquido mais repreendido.

Repreende-se a vergonha
E não sente-se o que mais se é humano.

Humanamente desagarrada contemplo a tua a adaga sagrada,
Perfura-me, estou morta, entregue, estou dada
Badalam os sinos, uma vez para cada gemido
Os vitrais exibem imagens de arguido.

Os anjos cantam, nós dançamos
A música mais bela está tocando

Com ardor e com paixão, vamos ignorando
Duas sombras que se mexem por trás dos lençóis
Duas fontes, dois montes, uma ponte, dois faróis.

Uma estrela explode em ebulição febril
As galáxias se unem num calor doentio
A ponte ante erguida se abaixa
A paixão se soma e continua
Eu sorrio, meus lábios se molham
O coração ardoroso
O coração pedregoso
Se entreolham.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Interminável Adeus


Amo a obra-prima com ardor
Ela deitada, débil
Desfalecendo em seu próprio despudor
Musa facetada flébil.
Obra-prima que se criou
Criou-se mulher
Criou-se menina.

Cai em tentação doentia
Sábia rosa, carinhosa, calorosa.

Coração afanado, espera espinhosa
É o espinho doce de seu caule
Que punge o macio coração
Fere, sangra, deita em lágrimas.
Lágrimas de Dor
Lágrimas de Emoção.

Esperava que o adeus tivesse fim
Mas do adeus nunca fui amigo
Então levei o 'até logo' comigo
Que bom se todo adeus terminasse assim.

Coração afanado, espera espinhosa
É o espinho doce de seu caule
Que punge o macio coração
Febre, cansa, ri em convulsão.
Risos de ardor
Risos de tesão.

Esperava que o adeus tivesse fim
Ah que bom seria
Se todo adeus que tu me destes
Fosse como és,
Tu, gentil e inocente, com teus braços em mim.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Animo


No raro momento, belo caminho
Onde céu e terra se abraçam
Eu lanço um modesto olhar

O perfume verde afaga-me o ser
Mistura-se com a pedra dura
Árvore seca, água pura.

Sou branca cinza
Sou preta escura

E na morte suave
No vento, brisa tranquila
Meu coração, perdura

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ixé Aûsub Iandê


Ensina-me o que é o amor
Sem me aprisionar na escravidão.
A partir daí,
Todas as músicas fazem sentido.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Da Eterna das Flores

Ainda que existissem mil amores
E ainda que os prantos ressoassem
No toque uníssono de sofrimento
Ainda que só houvesse desalento
E que o mundo fosse apenas dores,
Jamais estaria fadada
Ao pleno ardor do esquecimento
Ela sutil, afã e acamada
A bela, da eterna das flores.

E da eterna das flores
Sempre sob a escuridão
Naquela esperança que ressurge
Criança pura, delicada
A recolheria em sua mão.

O que a deusa impõe
Mãos pequenas e tolas
Jamais saberão porque manchar.
Ouçam as reconditas harmonias
Ouçam os vocalizes de alegrias
Começam com sussuros pianíssimos
E concluem-se em gritos fortes
Fortíssimos!

Daquilo que veio do céu
O que herdamos de mais belo
A música da lira cálida
O sinfonia do amor de violoncelo.

Morrem homens e mulhere vis
Mas a história de amor
À história sobrevive
E a flor eterna que acha que morre
Sempre na esperança revive.

Pois tudo que há de vida neste mundo
Começa com um ato de amor.
Concluí-se num suspiro de saudade
Termina num excesso de dor
Mas ressurge
Da vontade do nosso sabor.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Quando a mais Bela Canção Toca

Teu suave toque
Faz o meu amor descer
Eu sinto o choque
Eu deito, eu paro
Meus lábios te envolvem
Fazem teu amor crescer.

Eu subo e busco o meu véu
Eu caio, desço, estou no céu
Eu desfaleço, deslizo, desleixe
Tuas mãos firmes escalando a montanha
Teu toque débil larga-me nas curvas
A respiração falha, a vista turva
Separa, eu paro, e faço manha.

Eu vejo cores que não conheço
Eu desconheço o meu lugar
Tua unha, teu sangue, meu rosnar
Eu te tenho eu me esqueço
Eu te explodo eu me explodo
Cai
Deita
Desfaz
Desfalece
É sono, quero descansar.