segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Carrossel

Enquanto o mundo inteiro não pára por um segundo, enquanto as coisas acontecem porque as pessoas vivem, e não porque algo já esteve escrito, vamos por aí de mãos separadas lutando por uma causa só, mas com a minha percepção do que é correto, ignorando o todo, e juntando diante de mim apenas aquilo que me for conveniente. Pois até mesmo a luta revolucionária, esta que parece já ter manual de instruções de uma causa, junta cabeças que pensam por uma coisa única e jamais por si próprias. Enquanto isso, o altruísmo distante nos faz esquecer da nossa miséria constante. Por mais do quanto tivermos, seremos sempre miseráveis, conformados com nós mesmos e inconformados com os mesmos de nós.

O Carrossel

Um não pela pessoa
Acima de um reflexo perfeito
Roda no carrossel perfeito
E vaza solidões no centro de si mesmo
De um céu estrelado e perfeito.

O velho que desce para o mar
Encontra um céu azul
Cheio de estrelas
Longe daqui
Cheio de estrelas.
Mas no mar das solidões sombrias
Existem estrelas em todo céu
Todos os dias.
E existem velhos cheios de esteiras
Longe daqui.

Um pedaço de impessoa
Um não pela que perdoa
E como se não houvesse mais eu mesmo
Infelicito a decrépita condição
De ser feliz pela pessoa.

Rumino esperanças de longe daqui
Numa estaca de zero ao luar dos esquecidos
Resplandecendo pratas luminares
Nas minhas próprias idéias esquecidas.
Longe daqui.

Num carrossel colorido
Centrípetas forças oriundas
Rodam o sentimento para uma coisa só
Enquanto todas as coras viram o branco
Do mais branco que me acomoda
Até pegar no sono e virar pó.

domingo, 7 de novembro de 2010

A Valsa

Eu só não entendo quando acontece de duas pessoas que se amam tanto não conseguirem se entender de verdade. Eu danço para não racionalizar o sentimento que tanto sinto, e ofereço uma dança a quem sinta que não possa entender as confusões tão óbvias dos nossos corações. Valsa, foi-se o tempo em que era exclusividade. Até os mais pobres de espírito têm o direito de amar.


A Valsa

Dois para lá
Dois para cá
Dois que se cruzam
E jamais se apagam da memória.

Um de paixões meteóricas
Um de dolorosas retóricas
Dois para lá
Dois para cá
E no três quartos
Sobra um quarto vazio
E de compasso errado

Dois para cá em harmonia
Dois para lá que vão embora
Duas idéias conjuntas
Duas almas perdidas
Duas longas conversas
Duas para sempre feridas.

Dois beijos de desculpas
Duas paixões duas nucas
Duas mãos que se apertam
Dois corações que se expremem
Uma banda toca enquanto acertam
Se bramirem, alvoraçarem enquanto tremem.

Duas conversas inexistentes
Dois corações que dóem, latentes
Duas invisíveis conclusões
Sob soluços de terríveis confusões.
Duas vontades indivisíveis
Duas declarações impossíveis
Dois sonhos que acontecem
Que apenas nas fronhas permanecem.
Dois desejos adiante e como além
Duas dúvidas de quem, com quem.
Duas nuvens brancas e límpidas
Duas nuvens negras e pesadas
Dois sopros de brisa
Em dois suspiros de alívio
Numa nuvem que se vai sem sentido
De um compasso que sobra com uma pausa
De três quatros
De dois para lá, dois para cá.

Nas valsas dos momentos sozinhos
O casal de dançantes se separa
Dois para lá
O casal de dançantes se apara
Dois para cá

Caminhando na valsa frêmita
De sussuros nunca antes ensinados
Mas já aprendidos, já adotados
Dançando enquanto podem
Na juventude dos últimos amores
Da esperança de tentar pela última vez
Mais uma última valsa
Como se fosse a primeira.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Porque eu tenho repulsa de Jornalistas de Tablóide

Tá legal, eu compro a briga.

De gramáticos a historiadores, não consigo imaginar, hoje, categoria profissional mais baixa e sem propósito do que a de jornalistas. Os bons jornalistas me desculpem, mas o que se tem por jornalista hoje em dia não passa, para mim, de fofoqueiros de alta classe.

Andy Warhol, um pintor e cineasta norte-americano, em meados do século XX conseguiu definir bem o que se distingue nos tempos de hoje: In the future everyone will be famous for fifteen minutes (No futuro todos serão famosos por quinze minutos). Não sei o que se passava no contexto de vida deste cidadão para ter essa predição, e nem se era uma predição com bons ou maus olhos, mas a profecia se cumpriu.

E a celebridade da vez (ao menos para os internautas) é a estudante de direito Mayara Petruso, que sugeriu, logo após o resultado que confirmou a candidata Dilma Roussef como nova presidente do país, uma atitude violenta com a seguinte frase: "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado". As reações foram instantâneas, que resultaram num manifesto virtual, no site twitter, o tal do "orgulho de ser nordestino". Bem, nada mais comum de um povo reacionário como o do nosso país. Uma presidenta é eleita, uma patricinha paulista fica inconformada e libera as suas emoções na internet, e um grande grupo de pessoas que tem apego às suas regionalidades respondem à isso. Não contente, uma re-reação apareceu.

Existe um protótipo de revista que é muito difundida na capital, e não sei como aconteceu esta façanha, mas virou referência de jornalismo e informação entre as pessoas que tem dinheiro e tempo para parar numa banca de jornal: a revista VEJA. A minha aversão às idéias da revista já é de longa data, mas isso é outra coisa.

Protótipo gera prototipozinhos, e a cria que me refiro é o blogueiro Reinaldo Azevedo. Eu até chamaria de jornalista, mas assim como eu, que descarrego as minhas emoções neste portal que tem como intuito primário ser um diário aberto, ele também faz o bom uso da ferramenta para a sua frustração. Também não quero demonstrar que tenho desrespeito pela profissão de jornalista, mas, pela profissão que Reinaldo Azevedo exerce. É notável que a revista VEJA torceu o nariz para a eleição de Dilma, assim como as suas crias, que sem assumir nenhuma intencionalidade política, desfrutando de uma falsa e cretina imparcialidade, desabafam as suas dores oposicionistas de todas as formas.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Bem, o blogueiro, insatisfeito com o manifesto "orgulho de ser nordestino" e o típico amor à terra que a própria mídia prega, numa intenção de justificar a sugestão de Mayara Petruso para assassinar um nordestino por afogamento, respondeu com uma postagem no blog da presidenta, onde de próprias palavras ela afirma: "Zé pedágio pensa que nordestinos são 'bestas' como os paulista". Não resisti, ele desencadeou na minha re-re-reação.

Há dois pontos que eu gostaria de ilustrar aqui:

Primeiro, existe uma grande diferença entre chamar alguém de besta e ameaçar alguém de assassinato, coisa que o Reinaldo Azevedo não pontua na postagem de seu blog.

Segundo, em nenhum momento ele faz referência à frase, ou sequer cita o nome de Mayara Petruso, resumindo apenas em chamá-la de paulista:

"Uma canalhice está em curso: associar afirmações infelizes, estúpidas, de uma moça no Twitter ao fato de ela ser paulista e ter declarado voto na oposição. A rede suja na Internet faz a festa. Como se pode notar, os carniceiros não se contentam com a vitória. É preciso depois fazer uma variante da limpeza étnica. Entre no Google, leitor, para ver quantas são as ofensas aos paulistas — não caracterizariam, também elas, uma variante de “racismo”, a exemplo, então, do ataque ao Nordeste?" - Reinaldo Azevedo em seu blog, post do dia 04/11/2010 às 17:42

Maior falta com a verdade não há, pois houve uma omissão de informação, que vai contra o juramento que o jornalista faz ao receber o seu canudo de formado: "Juro, no exercício das funções de meu grau, assumir meu compromisso com a verdade e com a informação" enfim. O que ele fez foi simplesmente criticar a reação das pessoas que se sentiram ofendidas, chamando-as de canalhas, estúpidas e carniceiras, por associarem a informação infeliz (veja, uma amenização) ao fato de ela ser paulista. A associação não veio dos reacionários, veio da própria Mayara, quando ela disse que um nordestino afogado seria um favor a São Paulo. Então a reação é propriamente justificável. Isso é de se esperar, pois é o que diz no perfil do seu twitter: "Reinaldo Azevedo, jornalista, escreve o que quer ainda que não queiram."


O que está em questão é a coisa ética. Como um cidadão desses pode ser tão baixo a ponto de usar qualquer resquício de recurso para criticar a eleição da presidenta que ele tanto detesta? Muitos ficaram infelizes com a eleição de Dilma, e para mim já estaria claro a insatisfação de Azevedo no grau da sua sabedoria: estou de mal, não brinco mais, Dilma foi eleita.

O que a presidenta Dilma se refere em sua postagem é ao fato de que os Nordestinos jamais cairiam na conversa do seu principal opositor nas eleições. José Serra não cumpriu com suas promessas quando candidato a governador de São Paulo, dizendo que não aumentaria o valor dos pedágios nas estradas. Sem falar ainda na falta de compromisso em assumir a prefeitura, largar após dois anos, assumir o governo, largar após dois anos e concorrer às eleições, demonstrando sem o menor escrúpulo o que se faz dos cargos públicos uma oportunidade de subir, afinal, a mentalidade da direita é que o país é uma empresa, e que nós somos os meros funcionários. Ou então na mentira de se gabar que o PSDB expandiu o metrô na capital. Em 16 anos de PSDB, foram construídas apenas 2,8 km de ferrovias do Metrô e CPTM. Quem sabe faltou dinheiro na hora de fazer propaganda das duas únicas das estações que Serra e Kassab (uma filha viúva do PSDB) entregaram a São Paulo, na linha amarela. Para provar a quem estes caras governam, as linhas se resumiram apenas a Estação Paulista e Estação Faria Lima, funcionando apenas das 09:00 às 15:00, completamente fora do horário de pico. Parece até que é um trenzinho para levar os executivos a seus restaurantes favoritos na hora do almoço.Típico da política nacional. Sempre se esquecem de que é o Estado quem serve ao povo, porém persiste a sensação de que somos eternos empregados, enquanto eles nos vêm com esse papo absurdo de democracia.

Em comparação a Mayara Petruso, o comentário de Dilma soa bem inofensivo, e até mesmo reflexivo. Dilma Roussef nos leva a pensar as atitudes de um governador que acabou com dois dos principais setores de base de uma sociedade: a educação e a segurança. Os policiais e os professores recebem os piores salários da folha de pagamento estadual.

O que estou alertando aqui é para o perigo que estes jornalistas de tablóide oferecem ao dispararem seus artigos repletos de uma emoção burguesa, levando-nos a esquecer até mesmo dos valores fundamentais como humanos. Enquanto Mayra sugere um assassinato, Dilma sugere uma ironia, e até mesmo um respeito pela autenticidade de um povo que é constantemente alvo de preconceitos dos paulistas e paulistanos. Sim, os nordestinos não caem nessa conversa burguesa porque o padrão de vida que eles tem é outro. Os nordestinos não vivem nessa doença que se auto-proclama o motor do país. São Paulo é um vício, e dos piores. Mayara Petruso, na sua redoma de classe média, com seu curso de advocacia, de barriga cheia, reclama uma coisa que lhe é distante, meramente por opinião particular. A reação de Reinaldo se assemelha, enquanto que os nordestinos apenas manifestaram o seu horror diante de uma atitude que é vista como criminosa, e prevista até mesmo na constituição federal.

O que seria Reinaldo e Mayara para se posicionarem maiores até mesmo que a lei máxima do país? Se Reinaldo Azevedo quer defender o seu ponto de vista, que não seja ele o canalha.

Ainda assim, coloco a minha estranheza com as atitudes de ambos: ao invés de tanto questionarem o que acontece em outros estados do país, porque os paulistas não se empenham em reclamar o que há de errado aqui? Será que Mayara e Azevedo estão desesperadamente correndo para fazer valer a célebre frase de Warhol, em busca de seus 15 minutos de fama?


Matheus Araújo Vieira é paulista, paulistano, namorado da paulista filha de nordestino Karina Guedes, orgulhosamente filho dos nordestinos José Sousa Vieira (Bahiano) e Josefa Araújo Vieira (Sergipana), que, diferente do que esses paulistas da gema pensam, vieram a São Paulo em busca de melhores condições de vida, trabalharam pra cacete e criaram três filhos maravilhosos, inteligentes, que sabem que uma vida digna se faz com trabalho duro e respeitoso. Um deles (eu) está com crise de identidade querendo deixar de ser paulistano para defender a causa do orgulho de ser nordestino.
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Seguem abaixo as fontes:


Twitter de Reinaldo Azevedo: http://twitter.com/reinaldoazevedo

Reportagem falando de Mayara Petruso, que após ser surrada virtualmente, apagou os seus twitters: http://www.ligacaoteen.com.br/noticias/mayara-petruso-preconceito-nordestino/

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Carta Aberta Ao Conservador

Não consigo entender de onde vem o ranço que a classe média sente por saber que há pessoas que recebem um benefício do governo, e que é por direito delas, algo que está, ainda que mal difundido, previsto na Constituição. Por vias de buscar este entendimento, escrevo-lhe uma carta aberta, querido conservador.

Aqueles que são beneficiados pelas bolsas assistencialistas não são os ditos excessivamente pintados nas anti-propagandas da oposição, tipos que se beneficiam do dinheiro dos impostos, e que abusam por achar que não tem que trabalhar. Sim, há a realidade de pessoas que optam por viver apenas da bolsa do que de oportunidades de trabalho, mas para muita gente isso é uma coisa difícil de compreender. Para você, cidadão, que está privilegiado em um ambiente de trabalho confortável e recebe um salário que pode ao menos ostentar a sua futilidade, esta compreensão só será atingida quando a sua perspectiva se ampliar para além do refeitório da sua empresa e de seu restrito círculo de amigos que pensam da mesma forma (que por experiência própria, enxergo como ceder à pressão social). Você não entende o que é o sofrimento e miséria de milhões de famílias que vivem na incerteza do amanhã por estar muito ancorado no seu raio de visão limitado. É simples criticar de barriga cheia, e dizer que existe a preguiça, a vagabundagem de ir a busca de condições melhores de sobrevivência.

Mas surge outra máxima da sua classe média conservadora: “eu me esforcei para chegar onde cheguei, por isso acho injusto.” Certo, esforçar-se em uma região metropolitana como São Paulo ou Campinas, com acesso à escolas, bibliotecas, livrarias (cara$ e de público re$trito, mas com ace$$o), é completamente diferente do esforço que uma pessoa teria que fazer em lugares como Lagarto, Vitória da Conquista, Ribeira do Pombal, Feira de Santana, etc. Permita-se fazer uma reflexão: com duzentos reais, tendo um livro custando em média 50 reais, opta pelo leite ou pelo livro? Hum, você me diz das bibliotecas públicas. Então eis um novo e espantoso dado (ao menos para mim que gosto de ler): pesquisas do Ibope (sim, Ibope) confirmam que existem mais bibliotecas públicas na cidade de Buenos Aires do que bibliotecas e livrarias juntas em todo o Brasil! Em outras palavras, existem cidades que num raio de 300 km não há rastro de livraria ou biblioteca. Você consegue imaginar este panorama? Ah sim, e para quem não sabe, Buenos Aires é a capital da Argentina. Não posso me esquecer de que escrevo um texto diretamente a pessoas moradoras de um estado que está sob o governo que está governando atualmente (só não quero ser direto demais, por isso a redundância).

Aos filhos dos imigrantes que vieram às grandes capitais durante a época da massiva industrialização do sudeste (o famoso Êxodo Rural), estes que hoje batem orgulhosamente no peito e dizem que venceram à própria miséria de sobrevivência, aos filhos, é vergonhoso não entender que as capitais onde moram não estão em pé de igualdade e benefícios com os lugares de onde vieram seus pais (pasmem, militantes do conservadorismo) alguns lugares onde ainda sequer sabem o que é ter acesso livre à internet, sem saneamento básico, sem coleta regular de lixo, sem acesso à água canalizada, a mesma que cai facilmente da torneira de sua casa quando você a abre (porque estes lugares são assim? Bem, a resposta lhe seria fácil se não se ocupasse tanto do seu próprio umbigo). Estes mesmos que se esquecem das origens de seus progenitores, ou não fazem questão de conhecer, prostituindo sua própria identidade étnica. Ou aos excessivos e pseudo-neo-fasci-nazistas identificados por crachás, repletos de preconceitos disfarçados com uma civilidade repulsiva.

Trabalhar por salários miseráveis, sem os benefícios que uma IBM ou uma BT (as empresas em que já trabalhei) ofereceriam, debaixo do Sol, exposto a todos os tipos de insalubridades, e como se não bastasse, a todo tipo de preconceitos, sem transporte público (o que no caso de São Paulo é um caos) sem transporte fretado (aqui a coisa fica mais pomposa), se algum conservador se submeter a isso, provando sim todo este esforço alienígena que eu não consigo ver na maioria, eu retifico todo o meu discurso. Se houver a mesma sustentação de discurso paulistano, mas num ambiente social e econômico como os das cidades mais esquecidas das regiões Norte e Nordeste do país, com a limitação de que estes lugares oferecem (sem escolas, sem hospitais, sem universidades, sem shopping centers, sem nada), eu retifico todo o meu discurso. Criticar e repudiar o assistencialismo do governo debaixo de um ar condicionado é estupidamente conveniente e egoísta.

Pois, senhores, saibam que não é São Paulo quem sustenta o país, mas acontece totalmente o inverso. Todo o país sofre para sustentar a pompa da classe média reclamadora e convervadora. Saibam senhores, que trabalhar por mais de 8 horas por dia, no ritmo que as corporações exigem, não é algo louvável, é suicídio em longo prazo. Saiba que ser workaholic não é um mérito, mas a conseqüência de um trabalho alienado, que eu compararia a um alcoholic. Se você pensa que o assistencialismo é o culpado pela sua não promoção, perceba que você não é promovido porque você não é promovido, simples assim, com uma definição semanticamente nula. Na corporação o Senhor Feudal é o Diretor/CEO/ Dono da Maior Parte das Ações /Presidente da empresa, o seu chefe é o nobre vassalo sob os serviços do Senhor Feudal, enquanto que você, caro conservador, não passa de um plebeu, e a sua promoção tiraria uma parte ridícula da fatia que o Senhor Feudal recebe à custa do seu orgulhoso trabalho sofrido, e isso não é culpa do assistencialismo, é culpa da sua própria postura alienada com o seu ofício. Mas eu lhe compreendo, todo mundo precisa sobreviver, até mesmo você e a sua família.

Até onde alcança os domínios da hipocrisia conservadora, os turistas das regiões miseráveis (ou quem nunca sonhou com Porto de Galinhas ou Porto Seguro?)? Como turistas, a miséria lhes é algo indiferente. Se não consegue entender o que digo, vou lhe dar um guia para a compreensão. Faça um turismo em seu próprio cérebro, e perceba o quão miserável está aquela parte em que lhe falta uma visão de mundo mais ampla. Esqueça o carro do ano que você quer desesperadamente trocar pelo que comprou ano passado, alimentando uma indústria porca e contribuindo para o não investimento em transporte público e para com os predadores ambientais. Esqueça por um instante o iPhone, produto que a cada vez comprado, justifica a escravidão corporativa de crianças chinesas sob condições alarmantes. Esqueça por um minuto o seu tênis Nike, que foi costurado por algum indianozinho ou angolanozinho com Tétano, ou correndo o risco de contrair a doença. Esqueça as oportunidades de emprego, pois você já tem um bom emprego (você consegue comer e pagar suas contas, isso, na situação do Brasil, é um bom emprego). Se lhe causar estranheza, é porque está favoravelmente comparável à sua estranheza com a miséria dos territórios do seu próprio país. A partir desta justificativa, já podem ao menos conseguir a minha compreensão, pois o que lhe sobra de miséria de pensamento, é o que falta de esperança de sobrevivência nas famílias mais pobres da nossa nação.

Bóia Fria e Canto Só

Eu conheço o caminho que escolhi. Tenho consciência de onde estou pisando. Eu já sei do cheiro e da dureza desta terra. Serei constantemente solitário no meu pensamento. A busca pela verdade não é amiga de todas. E sei que o amigo de todo mundo não é amigo da verdade, mas, amigo de uma verdade disfarçada, ou um sedutor da verossimilhança.


Tomar partido é não mediar, não estar em cima do muro, sei disso. É que não consigo me calar diante do que está errado, ainda que eu não tenha clareza do que estou dizendo. Sou cuidadoso nas palavras, mas jamais nas críticas que estão ao meu alcance. Jamais falarei das terras que desconheço, porque o rebote seria fatal para mim. Já sei que a dor do ego é grande demais para quem defende um pensamento, e que é certo, porém doloroso, que voltarei atrás se algum dia perceber que estou errado. Ainda assim, estou certo em dizer que enquanto pensar, pensarei solitariamente.




Bóia-Fria e Canto Só


Não sei o que é arar uma terra

E não sei o que é cavar um buraco

E derrubar uma semente

Mas sei que sou eu somente

Que admira a planta crescente

E que se deixa libertar.


E vejo tantos irmãos

De tantas vistas cansadas

E fortes frontes suadas

Plantando nas terras de aquém

Plantando para ninguém

Sem saber respirar.


E sei que alguém 'inda existe

E que de outro ponto resiste

Que também de nada entende

Desta plantação doente

Que às vezes indiferente,

Mas anseia por ajudar.


Pode ser n’outra duna

Pode ser d’outra terra

Pode ser d’outras guerras

Mas pode ser indução

E sei que jamais será

De havermos nos encontrar.

domingo, 31 de outubro de 2010

Fanfarra (ou matraca) da Derrota

Olá de novo!

Eis que venho falar de um dos meus poemas que mais causou polêmica entre os meus amigos, familiares, conhecidos e poucos leitores. Primeiro gostaria de falar das origens do título. Afinal, por que Fanfarra (ou matraca) da Derrota?

Fanfarra é, usualmente, um toque de trombeta, que tem por intuito anunciar alguma coisa. No período onde as monarquias imperavam, ou melhor, posso dizer a grosso modo, no período medieval, a Fanfarra era tocada todas as vezes que um tipo nobre ou real estava chegando em algum lugar público (palácio, castelo, igreja, praça - muito duvidosa para esta última, mas voilá). Então venho com uma fanfarra anunciar a derrota. E de onde raios vem matraca? A utilidade é um pouco mais abrasileirada. Matraca é um termo que eu conheci lendo o conto O Alienista de Machado de Assis, onde em um momento, um homem chega com uma matraca (aquela mesma do programa Chaves) para anunciar uma notícia de interesse público. Geralmente ele aparece em uma praça, gira a matraca, que é um objeto bem barulhento e peculiar, e anuncia. Por fanfarra ser demasiado europeu, e por eu ter um gene assim um tanto quanto xenófobo à primeira vista, pensei que o anúncio da derrota também era de direito dos meus compatriotas. Ainda mais porque o poema é um grito de desgosto por tudo o que eu em certa época desacreditei, e isso pelo fato de um dia ter acreditado em excesso em certas coisas que envolvem o meu próprio país.

E naquele tempo, que nem faz tanto tempo hoje, em 2006, eu estava numa angústia solitária de não conseguir entender um monte de coisas, e num desprazer de tentar empreender tarefas que já nem faziam mais sentido. Estava desgostoso com a família, com os relacionamentos, com os sonhos. Muito além disso, eu já nem acreditava mais em militância política, em reforma da educação, não acreditava mais nos meus heróis que tinham vencido as eleições de 2002, não acreditava nos meus amigos próximos e distantes, e não tinha mais ânimo para fazê-los crer em mim. Já tinha perdido a ânsia pelas relações superficiais, e aos 21 anos de idade, eu sentia como se a vida já tivesse sido completamente vivida em pensamentos e reflexões, ainda que não tivesse vivido realmente como ela é. Para muitas pessoas isso é difícil de entender, mas às vezes uma experiência é tomada por conhecida ainda que não experimentada, e este fato dá uma sensação horrível de dissabor. É algo que vai além do toque físico, e que não me perguntem, eu não saberia como explicar. Muito para mim, naquela época, já nem era mais novidade, e eu via falsidade e dualidade nos olhares de todos e qualquer um. Foi quando olhei para o espelho e perdi a crença até mesmo em mim, e vi que eu era só mais um no meio de tudo aquilo, e que em nada eu era diferente. Mas o estopim foi o difícil relacionamento que eu tinha com meu pai naquela época. Quando a isso, tudo bem, hoje eu entendo que duas cabeças de idades e épocas diferentes hão de conflitar se se prenderem às questões fundamentais. Não quero nutrir relacionamentos superficiais com os que me amam, mas para os que me amam e eu não tenho a humildade de compreender, eu quero me limitar apenas em amá-los. O restante só causaria contendas e dores evitáveis.

Já achei que depois de algum tempo de recuperação pessoal, depois que já tinha reestabelecido o meu gosto pela vida, cheguei a pensar que este poema tinha perdido o sentido. Mas vejo que não, vejo que muito dele se sustenta, vejo que ainda existem pessoas presas em conceitos alheios por não saberem pensar por si mesmas. Ou vejo pessoas orgulhosas que sustentam uma inabalável incapacidade de descer um pouco de si mesmas, e perceber, compreender e respeitar as escolhas do outro. Vejo pessoas que perdem suas vidas com ideologias distantes, e não entendem as diferenças constantes. Vejo que ainda estou rodeado de estúpidos arrogantes que usam das suas próprias deficiências as suas defesas contra aqueles que tem autenticidade e querem diferenciar ao menos o seu arredor, tentando agir da maneira mais simples possível. Vejo pessoas que ficam presas na ilusão do macro, acomodadas, enquanto deslancham suas implacáveis imbecibilidades pelos amáveis que se movem pelo micro. Até mesmo duros de direção religiosa, e que se esquecem que o próprio Deus construiu o universo de dentro para fora. Enfim, a estes eu anuncio a derrota estúpida da sua inflexibilidade.

Boa leitura!


Fanfarra (ou matraca) da derrota

Eu venho aqui anunciar a derrota do homem vivo.
O homem que salta, olha pra cima, alcançando o céu
Estende a mão, estica os músculos, atiça o coração
Sorri pra si mesmo, e cai, com a cara estatelada no chão.

Eu venho anunciar a derrota do homem morto
O homem espelho, que olha para os outros como a si mesmo
O homem envelope de carga tributária, que sorri com dente dourado
Mas é amarelo
É dourado?
É muito amarelo.

Eu venho anunciar, com desgosto, a derrota do homem bobo
Que ri para a borboleta pousando no prato de acelga
Que suspira de tristeza diante dos banheiros públicos
Do homem bobo que sobe na vida sem querer
E quando vemos,
Está sempre no mesmo lugar.
O que faz aí parado, debaixo da chuva?
- Estou tentando decifrar o código de mensagens da Lua Nova.

Anuncio a derrota do homem ventríloquo
Com todos os seus bonecos armados
E dissimulando com a boca
Os discursos que queremos ouvir.

O homem lápide, que enterra a si mesmo.
O homainframe que se auto denomina
E não age sem ler o diário de notícias.

Eu anuncio a derrota dos casos de amor
Que não duram além da vida de uma rosa
E esta morre antes que seja atingida
Pelas doces palavras do homem apaixonado.

Anuncio a derrota do homem revolucionário
Que olha cegamente para o futuro
Esperançoso naquele que o fortalece
E com medo de perder-se de si mesmo.

A derrota dos já derrotados antes de lutar
Anuncio a proliferação e materialização dos ideais
De todos os ideais
Os ideais de Ésquilo
Sófocles
Eurípides
Aristófanes.

Anuncio a morte da nuvem
Anuncio o nascimento do espírito
Anuncio a guerra contra as ondas de som
As ondas dos balburdias
Das palavras balbuciadas
Dos choros, e dos prantos desesperados!
Dos gritos de horror, tapados com a música de Chopin
As belas valsas de Chopin...
Anuncio a imagem do ranger dos dentes
Do rosnar a garganta, e forçar as cócoras.
Anuncio a dor de estômago
A dor cardíaca
A dor neurocerebral
A dor física
Espírita
e A Dor
Em nome do Pai
Filho
E Espírito Santo, Amén.

Anuncio a derrota da Dor
Anuncio a derrota da cura.
Anuncio a derrota das palavras.
A derrota das vozes.
A derrota dos olhares
A derrota das direções
A derrota dos sentidos.

Grito, em silêncio
Com o som extremo das canetas
O som das teclas de computador
Dos alaúdes amiúdes
Dos amiúdes sons das guitarras
Anuncio em desânimo a derrota da poesia
Para a técnica.

Anuncio a derrota do silêncio
Que não existe
Anuncio a derrota da paz
A derrota da procura incessante
Da incessante e desesperada procura de procurar
Anuncio a derrota da causa
E do efeito
E da terceira dimensão
E da quarta
E quinta
E quantas outras estiverem por vir...

Anuncio a derrota do futuro,
Pois ali adiante está a grande muralha
Que não pode ser derrotada
Pois já derrotamos a nós mesmos
Com nossas próprias mãos.

Anuncio a derrota da desesperança
E do fato consumado em verdade
Derrotadas pela emoção de sentir o hoje
Anuncio a derrota do hoje,
Que não se pega
A derrota de tentar entender
O que não se entende
E a derrota do egoísmo de não aceitar essa derrota.

Anuncio a minha derrota, antes de anunciarem a mim.
Anuncio aqui, a derrota final
De todos os que se viram vitoriosos
Pois enfim ninguém venceu, e nunca vencerá.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Uma Bolsa

Duas jovens universitárias caminhavam pela alameda quando uma delas avistou um morador de rua que andava cambaleante, praguejando para o nada.

- Depressa, deixa eu esconder minha carteira – disse a primeira.

- Para que? – enviesou a segunda.

- Oras, não está vendo ali o bêbado? Ele pode querer nos roubar.

- Pode querer nos roubar? – fez a segunda jovem, em um tom de pergunta retórica.

- É claro oras, eu não confio nesses bêbados de rua.

- Eu não confio nesses sóbrios de rua mas isso não é motivo pra eu andar com medo.

- É porque você nunca foi roubada por um deles.

- Aquele ali já te roubou alguma vez?

- Claro que não né! Mas nunca se sabe, é bom não dar confiança demais.

- Mas ele sequer parou aqui perto. O homem está lá longe, nem dando bola pra gente.

- Que seja, vamos só passar rápido.

- Já estamos passando, mas não vejo razão pra pressa, estamos adiantadas.

- É que eu quero passar rápido por aquele homem.

- Ele está andando à nossa frente, nem está ligando pra nós, mas você está com medo dele e mesmo assim ainda quer passar por ele?

- Ai, você me entendeu!

- Fica calma, não vai acontecer nada. Não precisa ter medo.

- Não dá pra não ter medo, nessa cidade... – e terminou a frase. O restante não era necessário preencher. Isso ficava a cargo dos tablóides jornalísticos que se ocupavam diariamente de retratar a tragédia da vida moderna.

- Estou com a sensação de que ele está indo pro mesmo lugar que nós.

- Interessante... – sorriu a segunda jovem.

- Interessante? Um bêbado de rua indo pro cinema? Com quem ele se encontraria lá. – debochou a primeira.

- Oras, o cinema é público.

- Duvido que ele tenha dinheiro pra pagar.

- Quem sabe arranjou uns trocados pedindo esmola.

A primeira jovem bufou com desdém, e continuou: - Mesmo que ele tenha dinheiro pra entrada, ninguém vai deixar ele entrar assim.

- Bêbado?

- É, que horror.

- Eu já assisti um filme bêbada, não entendi nada. Você também já ficou bêbada.

- É, mas é diferente!

- Não vejo diferença de coisa com coisa.

- Eu não fico bêbada na rua.

A segunda jovem gargalhou com ironia, como se recordando de uma cena recente: - Olha, se a gente voltar lá no MASP ainda pode ver a poça de vômito que você deixou lá.

- Eca, que nojo! Não precisa ser nojenta assim.

- Mas a poça de vomito era sua, e eu não estou sentindo nojo disso, pelo contrário, estou é achando graça.

- Mesmo assim, ele é um bêbado sujo e eu sou uma menina limpa.

- E com um lugar pra morar.

- Ah, lá vem você com moralismo. Isso é coisa de velho.

- Eu não acho. Mas e aí, já perdeu o medo? – disse a segunda jovem ironizando ainda mais, vendo que a amiga não largava a bolsa e apertava o bolso interno do casaco com apreensão.

- Não até a gente se livrar daquele homem.

- Mas ele não está nos seguindo. Nós é que estamos.

- Vamos dar a volta?

A segunda jovem deu um suspiro demonstrando impaciência pela intolerância absurda da primeira, e concordou dar a volta para cessar de uma vez com aquele solóquio aburguesado. Deram a volta e seguiram pela rua paralela àquela, sem mencionar novamente o homem bêbado, que naquele momento estaria anuviado na mente da primeira jovem, distraída com as lojas de perfume. O pequeno silêncio de diálogo foi quebrado pela segunda jovem, ainda que houvesse as buzinas da cidade:

- Deixa eu perguntar uma coisa. O que você tem aí que tanto tem medo de perder?

- Ah, meus trocados, meu celular, hmm, meu estojo de maquiagem, minha carteirinha da facu, meus documentos, que mais... ah, tem esse anel que o Rô me deu. Mais do que tudo, eu não me perdoaria se perdesse isso. Foi tá lindo.

- Se você não quer perder o anel, por que não coloca no dedo?

- Porque eu ainda não tenho certeza...

- Hum. – fez a segunda jovem enfatizando ainda mais a sua ironia que era sempre despercebida pela primeira. E por que você carrega tantas coisas na bolsa?

- Porque eu sou mulher oras!

- Eu também sou mulher e só estou carregando meu dinheiro e meus documentos.

- Mas tem que se prevenir. Ei, peraí, você não tem celular?

- Tenho, mas deixei em casa hoje. Não quero que interrompam nosso passeio. Quando sair do cinema eu vou embora. E minha mãe já sabe que eu to com você, qualquer coisa ela te liga. Já ficam me ligando do trabalho a semana inteira e...

- Ai, peraí, tem gente me ligando. – e a primeira jovem tirou o celular da bolsa olhando desconfiadamente ao redor, num impulso de quem faz algo proibido ou indevido, o que na verdade era apenas um mpeto automático de se certificar que ninguém o tomaria da sua mão.

A segunda jovem continuou caminhando com um resquício de insulto por ter sido interrompida pela súbita ligação, mas procurou compreender ser um viés do acaso, e não havia necessidade para se incomodar tanto. Continuou caminhando prestando atenção nas pupilas dilatadas e no riso sem cor da sua amiga, imaginando quem poderia ser. Parou pra prestar atenção no tempo nublado, que tanto nos faz sentir solitários, mesmo caminhando ao lado de uma amiga, num passeio de entretenimento tão trivial quanto o cinema.

- Quem era?

- Ai, o Rô. Ele me ligou perguntando se eu gostei do anel. Ele deixou na janela do meu quarto enquanto eu dormia. Não é romântico? Eu não sei ainda se vou namorar com ele. Até que é bonito, mas ainda não sei sabe...

- Então, como eu ia dizendo, eu não gosto quando ficam me ligando no meu momento de lazer. Já me ligam a semana inteira por causa do trabalho. Hoje to a fim de relaxar.

- Ai credo, você nem tá me escutando sua grossa!

- Claro que estou, o Rodrigo te ligou, perguntou se você gostou do anel, e agora você não sabe se namora com ele ou não. Espero que isso tenha acalmado o seu medo.

- Ah, o moço já foi embora, não tem porque ter medo. – respondeu com tom de insultada por ter seus sentimentos censurados.

- Eu acho que você tem motivos pra ter medo. Sua bolsa ainda está aí.

- Mas o bêbado não. E eu estava falando do Rô. Nem to mais me lembrando do bêbado. Ai, você às vezes é tão... – e por sua sorte, sua amiga interrompeu o discurso. A sorte surge por não ter um adjetivo conveniente para complementar o seu insulto. O discurso falha, mas as atitudes sobram e pouco se explicam do comportamento universitário moderno.

- Bem, olha ali, desviamos um pouco o caminho, mas chegamos.

- Nossa, nem percebi.

Então a primeira moça teve uma surpresa confusa, pois na porta do cinema a esperava Rodrigo e seu amigo, Hebbert. Ficou com um entusiasmo um tanto apavorado, ruborizada pela surpresa, afinal não tinha combinado com nenhum deles. Ainda assim, apressou o passo se aproximando dos dois, abraçou Rodrigo com uma sensação de frio na barriga, deixando a bolsa cair, e se esquecendo de todo o seu trajeto anterior.

Sua amiga meneou a cabeça com uma graça conveniente, cumprimentou a Hebbert, entrando no cinema e puxando conversa sobre o agradável clima nublado paulistano.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sob Poder

"As palavras têm poder."

Que coisa, depois de muito pensar que isso era uma grande besteira, passei a concordar com a expressão popular. As palavras realmente têm poder.

Na última aula de Literatura Brasileira, o professor Valfrides falava entusiasmado sobre a obra de João Cabral de Melo Neto, e foi que ele soltou a máxima dita por Lygia Fagundes Telles, definindo a diferença da palavra em prosa e da palavra em poesia: "na poesia, a palavra é gorda." Excelente! Palavra gorda, adorei a expressão! Quer dizer que com o mínimo de palavras, deve-se traduzir o máximo de imagens. Palavras representam imagens. Com pouco se diz muito, na poesia. Talvez por isso o verborrágico e o diletante soem tão insossos. É como se fartar de arroz branco sem sal. Eca!

Mas muito além disso, a palavra tem poder sim! Já vi muitos por aí concordarem e rasgarem a seda para poetas prosadores do nosso jornalismo diário, onde com uma simples coluna conseguem nos dar um completo vislumbre de suas arrogâncias, com a sua a arrojada diletância e verborragia. Que nem sangue que desce sem parar.

Isso é sublime! Eis a via sem volta que adentra o uso bom e mal da palavra. Vargas que o diga, tanto quanto nosso presidente Lula o parafraseia, ainda mantemos o nosso extasiado e fantasioso encanto por aqueles que detém a palavra, e o poder. Os poetas dos tempos modernos bem conseguem nos deixar claras as suas maneiras. Fernando Henrique tentando ser Rui Barbosa. José Serra tentando ser Fernando Henrique. O pequeno da classe média tentando ser José Serra. A dona da boutique na Oscar Freire tentando ser a Senhora Ruth Cardoso, e a sua criada de quarto tentando ser aquela moça bonita da novela das oito.

Os inconformados com a sua falta de palavra sentem saudades do poder massivo das palavras Stalinistas ou Hitlerianas. A palavra tem poder, a palavra tem poder, o poder tem a palavra... ou o inverso. Mas isso já nem faz mais tanta diferença, porque o que estou dizendo já vai além da capacidade da aceitação de quem lê ou não. A palavra se impõe, e só se combate palavra com palavra. Usa-se uma palavra, e no nosso entender, buscamos no léxico (a gavetinha dos oportunistas) uma palavra de poder maior. Assim como no joguinho de cartas Magic, ou às vezes como no RPG Dungeons & Dragons.

Só não me falem dos modestos. Estes que justificam sua incapacidade numa desculpa antecipada. Como o poeta que antes de falar a poesia, ri sem graça dizendo: "ah, eu não me considero assim um poeta, mas lá vai" e manda. Aí todos nós nos compadecemos com a sua humildade de reconhecer o erro antes de declamar, e já temos uma justificativa do horror. Eu sou poeta, eu uso a palavra, e tenho plena certeza do seu poder, e do seu não poder também. Quem não tem palavras se submete animalescamente.

Pelo poder da palavra, a palavra implica poder palavrear. E é nesse palavrear que temos o seu poder implícito, desapercebido, assim como uma doença que nos atinge sem aviso, as palavras poderosas nos controlam, dão-nos o nosso rumo e direção, sem pedir licença, e sem se desculpar por isso no final.

Espero que apreciem o poema.

Sob Poder

Por trás da palavra
Mil palavras.
Por trás das mil
Uma noite.
Por trás da noite
Um murmúrio
QUe por trás
Traz mil outras palavras.

25/10/2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Diazepam

A sociedade brasileira se equivoca. Não quero delimitar um grupo, pois hoje, todos se equivocam. O caos social impera, e isso é favorável a poucos, terrível para a maioria, pois não temos uma unidade. O que antes poderia ser motivo de poesia e admiração, hoje é um grave fator para o impasse que vivemos. Nossa diversidade cultural e étnica já não me encanta mais, ao contrário, me assusta.

Psicólogos admitem que a crise é favorável à mudança. Se as relações sociais se dão através do contato de uma pessoa com outra pessoa, então passemos a tratar o Estado como um corpo vivo, e não mais como uma idéia. Tratemos de enxergar que o Estado, que serve à sociedade (e não o contrário, como ocorre em nosso fascismo mental disfarçado de democracia) está sofrendo com uma doença horrível. Nossas células estão desordenadas, entrando em choque constante. Uma vez divididos, há o impasse, e havendo o impasse, perde-se a perspectiva. Caímos no mal estar da depressão coletiva. Falta esperança, e faltando esperança, falta-nos a força de vontade. Para quem já teve a auto-estima em estado decrépito, sabe o quão difícil é se levantar da cama. Precisamos de estímulos para viver, precisamos acreditar em algo. Mas esta crença nos é roubada diariamente. Quando a dor é em excesso recorremos à alternativas de alívio: drogas medicinais, drogas alucinógenas, bebidas alcoólicas, auto-mutilação, suicídio, mental ou físico. Já nada mais importa, já nada mais faz a diferença. Qualquer discurso amigo vira referência. Qualquer sonho, por mais inútil que seja, vira referência. Eis então que me sobra apenas uma pergunta: para que serve um país? Para que serve a minha necessidade de auto-estima? Afinal, para que continuar vivendo? Para quem continuar vivendo?


José sonha com croissant.
Pedro sonha com colchão de molas.
João sonha com seus mata cavalos.
Paulo sonha com peteca e bolas.

Havia ruído e agitação na multidão
Quantas caras
Quantos sonhos
No cárcere das mentalidades
A corrente mais dura
Se constrói nas imagens das cidades.

José pegou os lixos das calçadas no Morro dos Ingleses.
Pedro altera o ar no condicionado auto italiano.
João escolhe entre papel e papelão
Paulo troca os calçados franceses por meias de algodão.

Nas estações de rádio
Durante o REM do despertar
Todos atentamente ouviam
O Presidente da República discursar.

sábado, 16 de outubro de 2010

O Meu Eterno Amanhecer

Paixão paixão... resistiu ao tempo. Possivelmente. É difícil falar desse tema tão delicado entende? Você entende. Foram tantas reviravoltas, tantas idas e vindas, tantas! Pois sabemos. Procuramos o que? Procuramos pelo que? Procuramos por quem? Pensar em você era quase regra, quase porque eu também pensava na minha vida, nas minhas coisas, pensava na minha dor. Como era doloroso, como doía meu Deus! Doía pra cacete!

Tentava não me perder entre as páginas de um livro e de outro livro, e entre as pernas de uma e outra imaginação pendente. Pois é, era difícil imaginar. Eternamente amanhecendo com uma lembrança, com um desejo, com uma esperança das coisas acontecendo, duas vidas tão distantes, paralelas, para elas, vivenciando as coisas como se fossem ondas nos levando, sem pensar, sem oferecer resistência, sem esperar que algo nos parasse, mas sabendo no fundo que não era bem assim. Não era bem assim. Eu prefiro não pensar, não é pra pensar, é complicado, é estranho, é difícil, não era pra pensar. Sentir. Nestas horas a filosofia enlouquece, não faz sentido. Sento na poltrona pra ver o sol sumir da minha vista, e a noite me abraça como um menino perdido e só, mas você estava ali, sempre, na lembrança, no desejo, na esperança. E foi, o que não era pra ser, foi, está sendo. O menino sorriu, o coração está feliz.



Meu eterno amanhecer


Mãos hábeis que preparam a janta
Manejam as especiarias artesanalmente
Enquanto lembro que em tempos brancos
Mal manejavam as mãos do adolescente.


A lembrança é eterno fruto
E se um dia a alma apodrecer
No coração jamais haverá luto
A vontade viva amadurece
O perfume de alecrim,
Ninguém esquece.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Fluxo Contíuo

O que para mim sempre foi típico foi o questionamento. Vazio ou consistente, o questionamento sempre tem um sabor incômodo. Nos primeiros poemas isso era um hábito, tanto mais quanto uma necessidade, até o dia em que parei de tentar ser poeta e passei a ser poeta. Até este dia chegar, muitas coisas aconteceram. Dentre as maiores bobagens de imaginar que um poeta precisa de algum tipo de formação acadêmica, até pensar que a poesia era algo sagrado e intocável, acessível apenas às pessoas mais célebres. Enfim, isso é uma outra história.

O poema a seguir tem um tom de crítica adolescente. É uma crítica de quando nós sabemos que algo está errado, mas ainda não sabemos dizer o que é. E a meu ver, o que estava errado era esta coisa de todo mundo querer seguir o mesmo caminho, como se cada vez mais as sociedades estivessem se afunilando numa única maneira de viver a vida, e a rejeição, proibição, exclusão, e porque não dizer, prisão e exclusão daqueles que optam, ou tentam, querer viver uma vida diversa. Até então eu não sabia que não vivia uma vida diferente, mas na minha cabeça narcisista e egocêntrica, esta idéia era bem clara: eu era diferente de todo mundo. Foi terrível perceber o quão errado eu estava. Pouco depois, foi mais horrível ainda perceber que o meu maior erro era pensar que eu estava errado. De lá para cá, como um pêndulo, ainda não sei onde estou, mas não estou em lugar algum. Fruto de uma explosão de pensamentos que eclodiram nos meus dezessete anos, somados à influência violenta da professora de literatura do cursinho, Ívian Lara Destro, que o tempo inteiro me bombardeava a mente com coisas que eu sequer tinha pensando em pensar antes. Bom para mim a princípio, entretanto, ficar preso no mar do questionamento nos leva à solidão, e pouco depois, à loucura.

Vejo as coisas como quem vê tudo de fora, porque não estou incluído em nada. Isso não é uma postura blasé, trata-se apenas de dificuldade de socializar. Em mim, isto é um grave problema.

Para não esvaziar completamente o assunto, tratarei disso em um poema adiante.

Espero que gostem da leitura!


Fluxo Contínuo

Como é belo o fluxo contínuo de uma marcha
Se move com graça,
Em um ordenado eterno.
- Eliminem aquela pedra! Está desviando o fluxo!

Veja como marcha:
-Pelotão marche! Um, dois, um, dois!
-Pelotão descansar! Eu disse descansar! Prendam-no!

E assim prossegue esse pelotão, o fluxo contínuo.
Passam os feixes e as fachadas fechadas.
As caras amassadas pisam nas poças lamacentas...
Devia malhar um pouco, estou ficando para trás.

O indivíduo que dobra a esquina
Que marcha de costas,
Ou que nasceu de costas
Este sim desobedece às leis da física, que não servem para
[nada
-Eliminem aqueles homens, para a solitária!
Em alto e claro som.

Agora sim! Está completa.
A marcha não para e nem chega
Ninguém sabe pra onde, mas acompanha
Por que é belo?
É belo o fluxo contínuo de uma marcha.

Maio de 2003, Lapa, São Paulo

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Música

Este final de semana o projeto que criei e onde eu toco participou do Festival de Música do Jardim Ângela, ou Jardim Ângela Music Festival, como preferirem. Foi empolgante de certa forma participar do festival, ver o nome de um projeto meu sendo mencionado por outras pessoas, tendo repercussão na internet (embora que ínfima, mas teve), e saber que ao menos algumas pessoas gostaram.

Estivemos de certa forma desfalcados, o nosso baterista teve um grave problema familiar e não pode comparecer, então encaremos apenas o Júnior e eu. Tivemos coragem em tocar o Samba da Inês e o mantra Kali Kali sem acompanhamento de percussão, o que deixou a música de certa forma insôssa. Depois de um tempo tocando com o Fábio, eu não consigo imaginar as músicas com outras pessoas. Podem conferir algumas no meu outro blog: www.calangotrio.blogspot.com

Não passamos na segunda eliminatória, ainda não sabemos os pontos das nossas falhas. E eu fiquei desapontado a princípio. Mas depois de pensar muito, e principalmente depois do apoio e das palavras de conforto das pessoas que me amam, da mulher que me ama, eu pude seguir em frente de uma forma mais madura. Na arte não existe esta coisa de derrota ou vitória. A derrota artística é de certa forma vender a arte por um propósito pequeno, sei lá, mesquinho. A grande vitória é tocar as pessoas.

Eu me lembro que no início da cerimônia, quando foi dito que o festival era de caráter competitivo, eu de certa forma embrulhei o estômago, respirei fundo, com desagrado. Não gosto desta palavra competição. Isso me remete a este sistema cruel em que vivemos, do qual eu também não gosto e tento lutar por algo diferente.

A música não deveria ter caráter competitivo, mas ao contrário, deveria estreitar os laços, fazer a somatória das inconsciências através da consciência. A mensagem viria no mar da criatividade, dentro de uma garrafa que flutuou por mares e marés inteiras, repousando no berço da curiosidade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Perene Melancolia

Você já percebeu como às vezes a nossa vida ocidental nos cobra demais para vivermos? Já percebeu que tentamos chegar a um consenso, embora muito mais nos deixemos arrastar pelas companhias, acontecimentos, momentos, sem pensar muito sobre tudo o que está acontecendo? Como se a vida não estivesse sendo vivida, mas, situações sendo despejadas, uma após outra, no nosso colo, descontroladamente, semelhante a um caminhão que descarrega a sua carga sobre nós, que, em nossa miúda fraqueza, resta-nos sufocar?

Não importa o que façam para melhorá-lo, o mundo é cruel e implacável. Ele não espera. Estamos todos indo, eternamente até que a morte nos separe desta obrigação inconsciente. Vamos caminhando, como loucos ao encontro de nada. Quem é que nos joga nesse penhasco onde não conseguimos enxergar o chão? Quem é que nos atira do céu, sem pára-quedas, para quando quedamos, sentimos com tanta intensidade no nosso espírito que nos faz menores, pequeninos e indefesos diante de tamanhas tantas coisas para serem feitas.

Carpe Diem disseram-me certa vez. Como um relógio tiquetaqueando: Carpe... Diem... Carpe... Diem... A cada passo um Carpe... Diem... em cada respiração Carpe... Diem... Carpe... Diem...

E quando de repente percebo, vejo que não estou fazendo nada demais, nada de extraordinário. A fantasia do maravilhoso é uma ilusão para o meu espelho. Nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter ido. Ficam imagens, fotografias dos outros, sorrisos dos quais não fiz parte, festas, danças, beijos e abraços, amores perdidos, amores que nunca poderiam ter sido, amores demais, demais amores vivendo amores de menos. Mas nada vai além do que eu imaginaria que poderia ter sido. O que eu fiz então? Parei, refleti por um minuto, e trouxe de volta a minha calma, mas não a minha alegria de ter vivido. Carpe Diem.



Perene Melancolia


Não me carregue para o lado
Quando o que muito quero
É no máximo, ficar parado.

Não se incomode com minha tristeza
Se a vida que se prejudica
Não depende de tanta torpeza
Que se confunde com compaixão.

Não, não carregue a minha mão
Para o lado que não quero ir
O que quero é não seguir
E não dividir o meu espaço.

A vida que se perde
A cada segundo não existente
É uma vida latente
Que ainda mais parada que possa estar
Vive plena, e ainda sente.

Quero poder sentir com abundância
Toda a tristeza que do meu peito mina
E que depois se exploda em alegrias.
Mas por enquanto,
Deixai-me em minhas próprias sinas.

Ao fim do dia eu me recolho
Encolhido em minha cama
Ficarei de molho.
Retornarei ao feto, meu aconchego
Para o clarão de uma pressão contínua:
No princípio, era nascer.

domingo, 5 de setembro de 2010

Através do Espelho e o que vi Lá

Poemas perdem o sentido com o passar dos tempos. Perdem o sentido para quem escreveu, pouco depois para quem leu, e pouco depois perdem o sentido no seu contexto. Nada mais natural. Eis uma prova não empírica de que as coisas realmente se transformam... e ao mesmo tempo não! Um poema escrito há cinco séculos pode conversar diretamente com os meus sentimentos atuais. As pessoas são todas iguais em essência, o que muda é a personalidade. Somos iguais, mas é perigoso encontrar vasta semelhança entre nossos semelhantes, porque todos nós sentimos a necessidade de ter identidade. Em um papo com minha irmã esta noite, ela se queixou de que esse mundo está muito igual. Estamos perdendo o assunto, perdendo a direção. Aliás, parece não existir mais direção. Seria como se já houvéssemos alcançado algum certo limite, despejamos tudo isso no chão tal como um vasto mar, e agora estamos nadando desorientados sobre ele, tentando continuar, seguir adiante. Mas e se não houver mais para onde seguir? Já preenchemos todas as lacunas desse mundo, e nada mais parece ser novidade.

As respostas? Ainda não as tenho, mas o pouco que posso dizer é que isso é uma coisa muito individual. Eu apenas joguei a questão. A resposta se dá quando se olha no espelho.


Através do Espelho E o Que Vi Lá

Hoje escrevo assim, sem compromisso.
Sem querer saber muito do nada.
Obrigado
De nada
Escrevo um pouco sem querer muito, e não querer ser mais ou menos.
Apenas ser menos.
Mostrar que sou menos.
Palavras desconexas como aprendi
Com alguém que não posso crer.
Abrir a porta do tribunal e descobrir que ali está um belo jardim.
Cavar um buraco e plantar uma árvore,
E que ao invés de semente,
Devo usar do conteúdo científico químico muito perigoso para a saúde.
Escrever e reler o escrito,
Tentar entender o que escrevi.
Assim é melhor que me ver no espelho.
Escrevo hoje, tentando empurrar goela abaixo de quem lê
Uma parte de meu narcisismo de escritor.
Mostrar um pouco que a roda roda e empaca.
Mas pacas!
O que fazer?

Quero não ler notícias, só hoje.
Não quero pensar no futuro.
Quero não planejar o dia,
Nem a noite.
Nem o amanhã.
Só hoje não quero nada.
Quero sair de casa sem carteira, sem roupa, sem cara, sem nada.
Quero que o sentido seja íntegro e único.
Não quero nada.
Deixa eu ir.
Solta a minha mão e deixa eu ir
Deixa eu caminhar em direção alguma.
Não me diga pra onde ir.
Não me diga por favor.
Não me diga para fazer, não me diga para querer.
Não me diga que não posso escrever:
- Me deixa caminhar em direção alguma.
Através de seus olhos eu vejo o que eu deveria ser.
E através dos meus eu vejo o que eu quero ser.
Deixa eu beber.
Me deixa caminhar, cair, chorar e me machucar.
Deixa-me
Me deixa
Deixa em
eixadem.
Deixa eu me aceitar como sou.
Me deixa.

Hoje queria escrever por escrever.
Mas eu não me permiti não querer.

Hoje queria escrever pra você.
Queria escrever por você.
Hoje eu queria ser você
Hoje eu queria você
Hoje eu você
Hoje você
Amanhã eu
Mas não é, não vai ser e não será.
Porque hoje
Hoje eu queria você ser eu.
E ser o que todos queriam ser
O eu em você.
E viver em paz.

Mas eu sou apenas eu.
E os outros.

Hoje escrevo assim, sem compromisso
Sem querer nada além disso
Sem desejar algo bonito
Sem rimar isso com aquilo.
Pois se algum dia houve momento
Que a rima de encantamento
Combinasse com vida sem sofrimento
Esse dia não viu ainda o tempo.
Por isso hoje
Hoje escrevo assim, sem compromisso
Sem rimar aquilo com isso
Sem rimar nada com compromisso.
Sem querer nada com compromisso.

Eu queria hoje
Estar presente na melhor das lembranças
De quem hoje não posso ser.
De quem hoje não querer.
Crer.

Hoje queria saber
O quão forte eu sou
Ou fraco deixei de ser
Se medir com esses dois
Quantidade do quanto
Sou.

Hoje queria saber que sou humano.
Hoje queria saber que humano sou.
Hoje queria saber pra onde vou.
Hoje vou saber pra onde queria.
Hoje queria ir pra onde sei
Saberia querer pra onde hoje irei?