sábado, 27 de março de 2010

A corredeira

Árvores, pedras, um rio correndo, um ruído que não dói os ouvidos e que nem fere a alma, um ar puro, uma cor verde, marrom e cinza. No céu, azul. Só. Isso é o bastante pra descrever o cenário. Não é bucolismo e nem romantismo. Trata-se daquilo que roubamos de nós mesmos.

E quando foi que deixei de ser homem e virei máquina? Tudo na hora, tudo pra cima, tudo pra baixo. Hora pra sair, pra entrar, pra dormir e pra acordar. Hora pra se amar. Tem hora até pra sexo, pois quando vou a um bordel, eu pago e me dão uma hora pra sair dali rapidinho. A hora do rush e do fast. Faster and Deeper, mas não tão deeper porque é bordel, não psiquiatra. Faria uma amizade fácil, mas uma amizade financiada.

Esquece-se de tudo na beira do rio. Ele corre e leva os pensamentos pra bem longe. Logo ali do lado um perfume estranho, outrora familiar. Ela sorri, olha pra dentro de si mesma, ou para o fundo da água, tentando se encontrar. Não há dor nem alegria, não há nada. Não há sequer um vestígio de pensamento. Eis a vantagem maior do pensamento puro, que é atingir o ponto máximo, da dificuldade de não pensar. Partid do zero, para recomeçar uma vida.

Recomeça-se todos os dias, fere-se todos dias, cura-se todas as noites.

Eu me lembro de cheiros, sonhos, cores. Eu me lembro de uma música estranha, e de um lenço colorido, quando você jogou no rosto e transformou seu olhar em uma coisa mil vezes mais misteriosa. O mistério excita. Qualquer um é capaz de arrancar as nossas roupas, mas quem será capaz de desnudar as nossas almas?

Eu me recordo de um par de mãos experientes, que já me conduziam pelos caminhos da felicidade plena. Um sentimento intenso me dava a ilusão de eternidade. Jamais confundiria tanta sensualidade com sexualidade, porque estava já mais conectada ao amor.

Eu me lembro bem de árvores, um ventinho gelado, eu sem blusa, e você vestida em mim, me abraçando, me protengendo, me dando a entender que valia a pena. Carpe Diem, carpe diem!

Eu me lembro de um perfume doce, um baton reluzente, uma música alta. Sabia mais do que você, de tudo o que aconteceria naquele dia. Parece que sempre fui capaz de prever os seus ires e vires. Ali você iria por um bom tempo. Ah matreira, foge por medo de não me machucar, não se machucar.

Recordo com ardor de um tempo escuro, como se a memória tivesse sido apagada. Eu via em cada esquina uma possibilidade de vestir na saudade, a imagem sólida da sua pessoa. A cidade é maior ainda quando se tem saudade. A distância parece quase que intransponível. Saudade. Saudade é um bicho que dói.

Por um tempo se esquece das coisas importantes, e aí acabamos por nos conformar com qualquer coisa que nos lembre dos tempos de alegria. Vamos construindo em cada qual um pouco do que tanto queríamos.

Eu me lembro de cartas, de encontros e desencontros, lembro-me bem de esperanças vazias, e de decepções tão cheias de amargura! Quanto maior o amor, maior a queda. Mas amor com queda não é amor de verdade. Aprende-se a cair, e depois agradece-se com as mãos para o céu: "Obrigado meu pai do céu!"

Lança-se saudade de norte a sul em qualquer canto ou possibilidade que esta vida nos dê. O rio ainda corre, a vida ainda flui em qualquer órbita desse universo. A impressão é de que tudo para. Saudade dói, saudade destrói. Saudade é a palavra de confirmação: "amo você".

Quantas lembranças mais carrega um coração vazio? Pois eu lembro de um reencontro, e de uma pedra, de árvores, de um rio. Uma estrada longa. Da sua raiva, da sua vontade de fugir.

Eu me lembro de cheiros, de perfumes, e de uma luz baixa e exótica. Um calor estranho. Lembro de ter saído do lugar, de ter me desconectado de mim, ou de me ter misturado em você.
Não me lembro de nada. Não penso em nada.

Debaixo da árvore, sobre uma pedra, ao pé do rio, o pensamento não flui. Apenas a vida.

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