quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Clamor

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor esperançoso
Vem enquanto minha alma
Transborda de tristeza.
Vem me dar essa paz
Joga-me na clareza.

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor esperançoso
Vem me derrubar ao sono eterno
Deixa-me torpe, emudecida.
Cure as minhas cansadas feridas
Ó desejada da minha vida

Esta noite que cai uma escuridão profunda
Eu te desajaria aqui ao meu lado
Deitada, em minhas organdis celestes
Feliz eu seria se tu me destes.

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor desesperado
Transborda minha alma de alegria
Enquanto a tristeza ainda deita-se ao meu lado
Salva-me desse infeliz drama.

Amargura

Meu coração é amplo
Vasto como o deserto do Saara

Tudo o que minha boca fala
O que o meu olhar vê
O que meus ouvidos escutam
O que minha pele sente,
Tudo já estava pré concebido
Sangrando veia a veia
Até a artéria da mente.

Ah esse amor de somente
Semente de um fruto apodrecido
Concebo o filho coxo
E ele caminha como a consequência inevitável
Dos mais incólumes atos.
Tento turvar a vista
Prender a respiração
Mas nada pode distorcer os fatos.

Sangra alma desafortunada
Alma cuja fúria divina
Deus muitas vezes o dedo apontou.
A mais maldita das mulheres
Arrasto-me como cobra asquerosa
Esgueiro a felicidade de aquém.

Sangra, e busca o refúgio na tua lágrima
Sangra ventre embebecido
Sangra coração amortecido
Amordaçado pelo erro
Ó coração amolecido pelo gesto de amar
Sangra e chora
No mundo que te negam, é tudo o que te resta
Sangrar
Chorar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Mar Adentro


Não hesite
Não pense
Atire-se no mar
Não hesite em se afundar

Não fareje,
Cheire!
Não deguste,
Devore!

Não hesite em se afogar
Não tenha medo ao se molhar

Não hesite
Em perder a respiração
Em cair em tentação
De se aprofundar.

Não hesite
Não pense
Não tema se secar
Não hesite
Quando a terra dura pisar
Não hesite em dar adeus
Quando toda essa água acabar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eu Eva - A minha irmã

E quando parei de olhar a natureza
Cresceste.

As coisas acontecem
Enquanto nosso olhar fenece no espelho
Perde a estribeira.

Faço o verso como tu pedes
Não rimo
Não rimarei.
Tu não rimas com nada!
Teu verso é único
Isolado.
Não vejo rimas para teu olhar
Nem para este teu sorriso
Cheio de ironia
Mas sábio.

Saiba
Perde-se o medo
Vira-se poesia!
Cai a pétala
Vira-se o lótus
Abre-se o fócus
Cria-se o ópus.

Atalanta de madeixas frias
Seguras a tua lança
Espetas a tua vontade nesse mundo
Pois ele também te pertence.

Ouves os sons?
Certo que eles são para teus desígnios.

Tua voz estremece
Mas o povo teme o terremoto
E finge que adormece.
Mas ouves!
Ela aquece!

E quando parei para te olhar
Para te ouvir
Te cheirar
Te ser
Ainda vejo

Crescendo...

Sobre o Medo de Você ainda estar aqui


Constantemente feminina
Ela sobe, ela desce
Ela fala Estremece.
Solta os seus pedaços de mulher menina
Em todas as tristes esquinas.

A vida me adotou subitamente
E contemplo sempre uma tristeza bela:
Os armários envelhecem.
As flores murcham.
As vidraças encardem.
Mas tudo o que é onomatopéia
No futuro lembrará ela.

Sua presença ilude
E já no presente obscuro
A saudade sem sentido
Cria seqüelas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Rio Grande do Sul, Quatro de Dezembro de Dois Mil e Nove.


De todos os lugares para se viver, o coração humano é o mais inóspito. Lugares onde vivem apenas nômades, os mesmos que tiveram coragem de abandonar seus lares seguros para se aventurarem em um terreno desconhecido. O mais precioso dos bens, território que ninguém rouba, se for conquistado com sinceridade e bom afinco. Há quem queira empilhar plásticos e ferragens em armários de mármore. Mas desde que nasci para a vida, virei um colecionador de corações.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

É Dezembro...

O ano não poderia terminar de jeito melhor. Que as minhas impressões não me enganem, e que tudo o que eu esteja vivendo não seja ilusão. A vida tende a nos iludir. A vida sempre foi ela mesma, a ilusão está na própria mente. Mas quando lhe são negadas as verdades desde a infância, e quando se acostuma a promessas não cumpridas, fica difícil incorporar a diferença entre verdade e mentira. Cabe-lhe aquilo que lhe é mais confortável. E só.


E quando a impressão fica

Dezembro das flores
Dezembro das dores
Dezembro multi falhas
Cheia de nódulos
Cheia de cores
Dezembro de preto e branco
É dezembro dos falsos
Cadafalsos de odores.

Dezembro de fim de ano
Dezembro do início dos planos
Em dezembro vira-se o barco
Caem as caras todas no charco
E sobem do lodo em renovação
Dezembro das promessas
Dezembro da ilusão

Ateam-se fogo nas lareiras
Escorrem as águas nas ladeiras
Dezembro de pratos e peneiras
Dezembro de doces torniquetes
Dezembro de santos e falsetes.

Dezembro dos olhares fechados
Das luas prateadas em fortes cadeados
Dezembro dos cortes de amargos
Das calçadas frias e dos postes enfeitados

Dezembro meu
Dos filhos eternos
E dos enteados modernos
Das juras de amor.