quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ortotanásia


Foi quando veio a academia
Que anunciaram a morte da poesia.
Juntaram uma pilha de institutos
Calcaram-na de pó para produto.

Podia eu falar da beleza da noite
Ou da tristeza dos dias
Mas com mote teimo em dizer
Da infeliz morte da poesia.

O homem inventou a roda
O Fogo
As cidades
As ventanias 
As tempestades
O riso e o pranto mudos
Inventou o homem surdo
E as notícias turronas.
E enfim por não ter mais que inventar
Inventou a si mesmo.
Tudo isso está escrito
Na tábua sábia da academia.

Mas antes disso tudo
Antes da primeira aurora
E depois do último crespúsculo
Já ela vivia livre
A nobre poesia.

Encarcerada pois ela está
Sob o peso de muitos ministros
Com quantos outros mil doutores
Vive ela vã em suas dores,
Vomitando feito registros.

E o mestre sábio da pena teimosa
Vive com ela tão cheio de glosa
Mas mais que a dor tão pretensiosa
Vive ela, pobre poesia, toda chorosa.

Já não a sente quem não a vê
Empilhada em livros entitulados
Empoeirados sob prestígios
De outros tantos pilhérios vestígios,
De insossos discursos articulados.

A poesia morta por ela mesma clama, 
E encara tão fútil a sua dura direção
Em inúteis lamentos, ela derrama
E já não faz nada 
Nem à mente nem ao coração.

Filho Pródigo I


E quando dei por mim, estava só.

Bem aventurados os que Deus tocou o coração
E já não sentem mais dor nem desespero.
Pois em certeza vivem sua ilusão.

A Praia


Dona Josefa na cadeira da praia
Busca o vazio no imenso horizonte
Onde a linha jamais se acha, se esconde.

Qual praia?
Não existe praia
A praia é só um refúgio.

Dona Josefa na praia que ninguém entende.
Os mistérios do imenso horizonte
Não são menos do que está na mente
Do que ao invés de teto vê praia,
E paira.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jardineiro Infiel

E ali está.
Pende para um lado com o vento que bate,
Murcha, quase morta, seca como a terra,
Áspera como a mão idosa do sábio,
Que não sabe de nada.

Ali está
Na espera
Na demora
Na lentidão das horas
(Que nunca passam).

Um jardineiro infiel
Plantou a semente com tanta precisão
Cavou fundo fundo, com cuidados expressos
E fugiu para não viver mais sua solidão,
Partiu em dois sua visão.

Ali está,
Pende para um lado e para o outro
Largada com desprezo insólito
Para o vento que bate e nunca cessa.
A flor tratada com pressa.

Que não sabe se morre
Que não sabe se espera.
E enquanto espera, escorre...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

kamal ka phool

 De tanto quanto quero nesta vida
Eu busco pouca coisa em pouco escopo
Família, nada, amor nenhum, amizade pouco
Na confusa vida, evito solenidades
Eu não busco beleza, busco verdades.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vida Completa


Na rua direita do meu bairro humilde
Nasceu um pequeno bebê

O choro do nascimento foi um estrondo
Escutado em todos os extremos,
Do bairro

Sentiu fome e foi amamentado
Sentiu frio e foi aquecido
Sentiu sono e dormiu.

Cerrou os olhos pequenos
E nunca mais abriu

Simples assim.