quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu Posso?


Poderia eu te dizer que não há estrelas suficientes no céu
Nem grãos de areia no mar
E me dobrar sobre esta afirmação comum
Apenas pra agir no meu gesto de amar?
Com simplicidade não me contento
Embora o amor seja complexo
E tem o simples de intento
Com atitudes sem nexo.

Pois diria a princípio, com palavras rupestres
De rudeza artística
De por pura clareza
Com suma da beleza...
Palavras sem vão
Discursos sem vão
Caminhos sem vão.

Seria o bastante apenas o olhar desejoso
O gesto carinhoso
O feito ambíguo, embora sempre preciso
O medo inimigo de ficar sem comigo
A volta insana de castelo a choupana
De Almira a Joana
De Karina a Zumira
De farinha esparsa
De alimento e farsa
Deixar minha cultura
Deixar minha política
Deixar minha loucura
Deixar minhas vestes
Deixar minhas pestes
Deixar minhas doenças
Deixar minhas benças?
Seria possível e suficiente
Agir como louco e demente
Agir como pobre doente
Agir como rico servente
Ser fértil porém negar tudo
Ou estéril e cultivar duro
O caco de veias voláteis
O naco de velas portáteis?
Seria ainda o bastante
O equilíbrio sobre o barbante
O inconciso em breve instante?

Posso com lincença te dizer
Que tudo isso é muito demais para nós?
Que desatando seremos tal pós?
Que libertando voaremos a vós?
Que aprisionando chorarás por nós?

Seria possível o impossível
De crer naquilo que é crível
De ser naquilo que é sível
De ver naquilo que é vivel?
Viver com a nau conversível?

Seria possível
Respirar com tuberculose?
Aprender de tudo com osmose?
Rimar como quem propose?
Soar sorrateiro esclerose?

Sim soa possível assim
Saber quebrantar o espírito
Surtar conviver com espirro
Suar quem jantar com esquivos.
Sim sim soa muito possível
Suar a assumida certeza
Esquecer da sua própria dureza
Molar a sua própria moleza
Seria possível viver de escureza
Seria impossível nadar sobre a mesa.

Preencher antigas lacunas
E viver com vintentos buracos
Romper com alunos alunas
Rimar sem saber suas dunas.
Seria possível absorver seu camelos
Camelôs com vidraças de gelos.

Mas nada disso importa
Não, nada disso importa realmente
A vida é já bem dita demente
A escolha é já bem dita demente
Só não quer sentir quem não sente
Ver coisa como alguém que só mente
E mentir já faz parte da vida
Pois eu minto que sou um humano
Eu pinto a farsa de mil anos
Eu vivo a reina de delanos.
E sou apenas humano.
Sou apenas
Sou humano.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ponto Crucis

O amor pertence a Deus
A Deus pertence o amor.
À dor pertence o adeus
O adeus pertence à dor.
O ardor pertence a Deus
A Deus pertence o ardor.
O adeus pertence a Deus
Adeus ao Deus do amor.
Adeus a dor ardor.

Protesto Apaixonado

Tal como o moribundo demente
Que sente a vida indo de pouquinho
E sente a pele morta já dormente
Não sente nem o toque passarinho
Sinto que sou a última do mundo
Sinto que sou como a moribunda.
Mas ao invés da pele sem o tato
O que já morto sinto é o coração.
Desse mundo carne, água e prato
Dessa alma sem intuição
Do vento frio e forte que não toca
Onde tudo é sim e nada choca.