terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Licor e Amor

Definho os olhos sôfregos por seu olhar
Deslizo pelas linhas de seus ombros
Assim como o licor desliza
Na garganta do ébrio vagabundo
Ébrio moribundo.

Sou sóbria destituída de valor
Cujo último depósito
Apostarei em teu calor.

Definho de teus olhos moribunda
Assim como a destreza de teus ombros
Sobe a garganta com carinho
Sou ébria vagabunda
Escrava de teu amor.

O Não-Itinerário


Ao descer do avião
Não havia ninguém à minha espera.
Nem ao descer do elevador,
Ao sair do aeroporto
Ao sair do táxi
Ao descer até a cama
Ao ingressar no interino dos sonhos.

Despertei no dia seguinte
E só me aguardavam na mesa de pinho
As cartas que não mandei
Fotos de antigos amigos
O café frio depositado na xícara
E o açucareiro vazio.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Além das Horas

Por ora deixemos o passado
Guarde estas almofadas velhas
De vermelho desbotado
Deixe as velhas canções de lado
Os talheres de prata desgastados.

Salto por cima do colchão
Entreolhos olho o espelho
Que tanto nessa vida procurei
Que por ti lágrimas derramei
Jaz aqui diante de mim mesma
O reflexo da minha fronte
Na córnea límpida celeste.
E onde eu me encontro em seus olhos
É onde comprazida estarei.

Veja embaixo da minha cama
Quantas poças ali acumulei
Presas em velhas garrafas alcóolicas
Cujas nunca mais eu beberei.

Mudaram as estações e as cores
Mas permaneceram as mesmas dores.
Nasceram as costumeiras flores
Que se destinavams aos mesmos amores.

Saltei por cima do minuto
E andei um passo adiante.
Larguei as taças embriagadas
Larguei a solidão das escadas.
Larguei um pouco a minha testa
E deixei a luz entrar pelos olhos.

A mesma estação que permanece
Não é a mesma, é apenas ilusão
Ora vento esfria e ora aquece
E uma hora ela certamente padece.

Mas aqui não mais fenecerei
Aqui não mais torturarei
A minha eterna expectativa.
Aqui em brando silêncio
O roxo dos meus braços curarei.

Genesis

Gemina a semente pequenina
Cuida bem da terra vespertina
Rega água pura e cristalina
Nasce uma flor, uma menina

Nasce uma dor, escondida
De fel e fundo misteriosa
Vem a alma fendida
Avança fria e sombrosa.

Olhos cor de esmeralda
Pele de flanco macio
Toque flébil esbalda
Fora cheio, dentro vazio.

Gemina o gémem
Semina o sémem
Domina o impem
Defina o hímen

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Intento Impossível


Uma música
Uma lembrança
Um sabor de última dança.

Um toque de esperança
Um beijo de saudade
Um desejo, uma vontade
Um sentimento de verdade...
Ou um engano da idade?
Não importa, saudade.

Um medo ou egoísmo?
O eu mesmo ou altruísmo?
Uma noite de paz
E mais duas de tormento.
Um suspiro cor de seda
E mais outro de renúncia
Suplicar como prenúncia
De um novo mundo igual.
Outro medo, uma denúncia.

Sabor de mel insosso
Passos tortos de uma vida
Que nos dói até o osso.

Uma voz que é a paz
E um silêncio, o tormento
Quanto menos se quer mais
Até o limite do rebento
Do amor que satisfaz
Como a gota ao sedento.

A coleta de migalhas
Que espera que um dia
De verdade ou de mentira
Forme-se uma regalia
Que acalme essa ira.

Uma raiva do impossível
Uma crença no incrível
Solidão indescritível
Coração indestrutível
Sentimento invencível.

Uma música
Uma dança
Uma lembrança, um presídio.
Um toque único de amor
Com sabor de suicídio.

Um olhar que se esquiva
E mais outro que se perde
Um semblante de estátua
Do mais belo branco gesso
Com seu interior oco
Ou de rígido maciço.

O meio toque sóbrio
Ou o descuidado bêbado
O andar cambaleante
Batimento inconstante
O tremor ar sufocante.

O excesso de palavras
A garganta dolorida
Desperdício de uma vida
Uma lembrança esquecida
De uma alma corrompida.

Um cheiro de saudade
Um toque de verdade
Um segundo, eternidade
Um amor de verdade.