quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Clamor

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor esperançoso
Vem enquanto minha alma
Transborda de tristeza.
Vem me dar essa paz
Joga-me na clareza.

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor esperançoso
Vem me derrubar ao sono eterno
Deixa-me torpe, emudecida.
Cure as minhas cansadas feridas
Ó desejada da minha vida

Esta noite que cai uma escuridão profunda
Eu te desajaria aqui ao meu lado
Deitada, em minhas organdis celestes
Feliz eu seria se tu me destes.

Vem, vem ó querida
Vem, atende meu clamor desesperado
Transborda minha alma de alegria
Enquanto a tristeza ainda deita-se ao meu lado
Salva-me desse infeliz drama.

Amargura

Meu coração é amplo
Vasto como o deserto do Saara

Tudo o que minha boca fala
O que o meu olhar vê
O que meus ouvidos escutam
O que minha pele sente,
Tudo já estava pré concebido
Sangrando veia a veia
Até a artéria da mente.

Ah esse amor de somente
Semente de um fruto apodrecido
Concebo o filho coxo
E ele caminha como a consequência inevitável
Dos mais incólumes atos.
Tento turvar a vista
Prender a respiração
Mas nada pode distorcer os fatos.

Sangra alma desafortunada
Alma cuja fúria divina
Deus muitas vezes o dedo apontou.
A mais maldita das mulheres
Arrasto-me como cobra asquerosa
Esgueiro a felicidade de aquém.

Sangra, e busca o refúgio na tua lágrima
Sangra ventre embebecido
Sangra coração amortecido
Amordaçado pelo erro
Ó coração amolecido pelo gesto de amar
Sangra e chora
No mundo que te negam, é tudo o que te resta
Sangrar
Chorar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Mar Adentro


Não hesite
Não pense
Atire-se no mar
Não hesite em se afundar

Não fareje,
Cheire!
Não deguste,
Devore!

Não hesite em se afogar
Não tenha medo ao se molhar

Não hesite
Em perder a respiração
Em cair em tentação
De se aprofundar.

Não hesite
Não pense
Não tema se secar
Não hesite
Quando a terra dura pisar
Não hesite em dar adeus
Quando toda essa água acabar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eu Eva - A minha irmã

E quando parei de olhar a natureza
Cresceste.

As coisas acontecem
Enquanto nosso olhar fenece no espelho
Perde a estribeira.

Faço o verso como tu pedes
Não rimo
Não rimarei.
Tu não rimas com nada!
Teu verso é único
Isolado.
Não vejo rimas para teu olhar
Nem para este teu sorriso
Cheio de ironia
Mas sábio.

Saiba
Perde-se o medo
Vira-se poesia!
Cai a pétala
Vira-se o lótus
Abre-se o fócus
Cria-se o ópus.

Atalanta de madeixas frias
Seguras a tua lança
Espetas a tua vontade nesse mundo
Pois ele também te pertence.

Ouves os sons?
Certo que eles são para teus desígnios.

Tua voz estremece
Mas o povo teme o terremoto
E finge que adormece.
Mas ouves!
Ela aquece!

E quando parei para te olhar
Para te ouvir
Te cheirar
Te ser
Ainda vejo

Crescendo...

Sobre o Medo de Você ainda estar aqui


Constantemente feminina
Ela sobe, ela desce
Ela fala Estremece.
Solta os seus pedaços de mulher menina
Em todas as tristes esquinas.

A vida me adotou subitamente
E contemplo sempre uma tristeza bela:
Os armários envelhecem.
As flores murcham.
As vidraças encardem.
Mas tudo o que é onomatopéia
No futuro lembrará ela.

Sua presença ilude
E já no presente obscuro
A saudade sem sentido
Cria seqüelas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Rio Grande do Sul, Quatro de Dezembro de Dois Mil e Nove.


De todos os lugares para se viver, o coração humano é o mais inóspito. Lugares onde vivem apenas nômades, os mesmos que tiveram coragem de abandonar seus lares seguros para se aventurarem em um terreno desconhecido. O mais precioso dos bens, território que ninguém rouba, se for conquistado com sinceridade e bom afinco. Há quem queira empilhar plásticos e ferragens em armários de mármore. Mas desde que nasci para a vida, virei um colecionador de corações.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

É Dezembro...

O ano não poderia terminar de jeito melhor. Que as minhas impressões não me enganem, e que tudo o que eu esteja vivendo não seja ilusão. A vida tende a nos iludir. A vida sempre foi ela mesma, a ilusão está na própria mente. Mas quando lhe são negadas as verdades desde a infância, e quando se acostuma a promessas não cumpridas, fica difícil incorporar a diferença entre verdade e mentira. Cabe-lhe aquilo que lhe é mais confortável. E só.


E quando a impressão fica

Dezembro das flores
Dezembro das dores
Dezembro multi falhas
Cheia de nódulos
Cheia de cores
Dezembro de preto e branco
É dezembro dos falsos
Cadafalsos de odores.

Dezembro de fim de ano
Dezembro do início dos planos
Em dezembro vira-se o barco
Caem as caras todas no charco
E sobem do lodo em renovação
Dezembro das promessas
Dezembro da ilusão

Ateam-se fogo nas lareiras
Escorrem as águas nas ladeiras
Dezembro de pratos e peneiras
Dezembro de doces torniquetes
Dezembro de santos e falsetes.

Dezembro dos olhares fechados
Das luas prateadas em fortes cadeados
Dezembro dos cortes de amargos
Das calçadas frias e dos postes enfeitados

Dezembro meu
Dos filhos eternos
E dos enteados modernos
Das juras de amor.

domingo, 29 de novembro de 2009

Frase IX (Ixé Ausûb Iandê)

Ensina-me o que é o amor sem me aprisionar na escravidão.
A partir daí, todas as músicas fazem sentido.

domingo, 15 de novembro de 2009

Eu, Criador de Mim Mesmo

Não planto árvores sobre a terra
Pois a terra me rejeita
Minha terra é o rio corrente
Rebelde e indolente
Triste e Solitário
Rio jocoso e salafrário
De águas venenosas e duvidosas
E ali um galho que nasce
Frenético e triste desfalece
No primeiro cotovelo
De seu curso fácil

Mas no rio
Tudo o que há é meu
As palavras
Os sons
A temperatura das salas
A largura das alas
Os critérios alfandegários
As burocracias portuárias
Os portos de ancoradouro
Os recifes que encalhei
(Sim, há recifes no meu rio)
As sacadas de serenatas
Os feiches luares de prata
São meus os risos das meninas
E o ódio por mim mesmo.

Só não me pertecem as árvores.
Em terra que só consome
Não crescem árvores.

Não planto árvores em terra firme
A terra que tenho é terra de açude
De lamaçal
De manguezal
Terra movediça e suja
Sem ânimo ou vitamina
Sem brisa fresca
Sem água de rio
(Rio seco cheio de recifes).

Saudades eu sinto
Da árvore lá de casa
De copa imensa para o menino
De sombra fresca como abraço
De folhas verdes como olhar
(O olhar e folhas que deixei escapar).

Não planto árvores em terra pura
Pois sou um péssimo agricultor
A semente da árvore que plantei
Deu-me o fruto sem encanto
Deu-me a flor invisível
De ego indivisível
Deu-me o estúpido pranto
(Bem ali, escorado no canto)
Deu-me as certezas duras
E as dúvidas burras
(Quando antes de plantar, pensei serem burras as certezas).

Oh Pai dai-me a luz
E o intento
Que roubei de mim mesmo
Destrói este vil espelho
E joga os estilhaços
Sobre os cortes de minhas veias
Dai-me o frescor das águas
E a brisa suave.

Pois fosse eu em Teu lugar
Escreveria a história do mundo com a mão esquerda.
Nasceriam árvores pelo fruto
E morreriam pela semente
Em tudo quanto é lugar.

A copa frágil
A raiz frágil
O tronco frágil
(Porém ágil em se safar)
Agitam-se pelo mais tóxico dos ventos
O vento que corta até a carne dura.

Oh árvore e rio
Rio e árvore
Rio solícito que deita sobre o leito
Da árvore sem coração e sem peito
A árvore do defeito
Rio Claro
Rio Amazonas
Rio Nilo
Rio Édem
Dali de onde surgiu o barro eterno
Abraça-me a árvore oh lama sagrada.

Oh lama abençoada
Faça-se a separação e o firmamento
E apareça a porção seca
Mas não seque completamente
Faça-se mais pura do que fértil.

Oh Deus misericordioso
Se me permite escolhar agora
Entre colher o fruto bom
Ou pisar no galho demente
Por que não me deixou escolher outrora
Quando ainda era semente?
Oh Deus, atenta a minha prece:
Joga na terra seca
Dentre todas as sementes
A que estava mais doente
E que cresce e flerta com a dúvida
A árvore movediça e confusa
Sem raiz forte e sem folha pura
Sem fruto doce.

Não sei plantar árvores
Em terra firme
Porém a terra é boa
Depende do Sol
Depende da Lua
A árvore que é débil
Não se deita em rio de curso firme
Que derruba montanhas
Sem medo e sem trégua.

Rio seco
Terra Dura
Árvore insegura.

Desengano


Eu abro as cortinas pra falar do seu estilo
Esguio o olhar nas guisas e nos contornos
De um olhar preciso de atenção.

Ouça atentamente a voz da minha lição
Não sou profeta do passado e nem poeta do futuro
Eu lanço minhas palavras assim, no escuro.
Mas se eu raspo a tua alma e te desnudo
Eu vejo como é capa de revista.
Revista e não encontre nada!
Alma desvendada, raspada por espátulas marcadas.
Existe mais de fora do que do interior
Salve-se exceção de verbos de labor.

Sinta amigo, este sabor!
Uma palavra puxa a próxima e a anterior
Como um trem sem destino os versos soam
Mas não viaja por acaso, quer chegar em algum lugar
Veja a fumaça da Maria-Fumaça.
Maria Virgem Mãe do Jesus de Praça
Fé de fácil acesso desfalece e embaça.

Desembaça as cabaças das suas traças
A alma é antiga e a mesma há anos
E enxerga em mim com males e desenganos
Mas eu viro pombos e minhocas, gatos e tucanos.
Eu sou um tudo e um nada resumido em simples plano.
Estou com o pé na estrada dos jupterianos.
Amanhã idealizo edifícios de sonhos
E depois eu os engulo na implosão das incertezas
Mas mesmo a incerteza tem lá sua beleza.

Se sou, flor, fé e espírito, razão e cobertura
Serei um tudo e um nada resumido em candura
Serei meu próprio déspota, minha própria ditadura.
Eu ergo a minha bandeira cor de nada num mastro vacilante.
A bandeira flui com a ventania e se solta do barbante
O mastro despenca e cai por um instante
Ora chora com o ardor dos injustiçados
Mas sempre levanta e vai, como guerreiro alado.

A minha língua está confusa
Está em mim e está em tudo
A minha língua lambe o chão ausente de firmeza
E sente calafrios.
Calos frios e duros da eterna caminhada
Se eu sento eu perco tudo a minha volta
E a minha morada torna-se revolta.
Não serei profeta saudosista lamentando o que não pode.
Não poderei ser o reescritor das histórias dos deuses
E o destino a eles pertencem
Tal como as mentiras, e os desenganos...

O coração dói na ferida aberta
Mas o futuro está aí.
Liberdade custa caro.

Paga-se o preço e mal se nota o reparo.
Liberdade custa caro
Encarece tudo o que envolve
Encarece os móveis de madeira folhada
As camas bambas de tanto amor e desamor
Encarece os que vão e os que ficam
Que são caros de desilusão e carecem de amor.
Liberdade custa caro.

Pague-me o preço e vá-te embora
Torna a voltar-me sem demora
Sem demora eu me vejo no meio de coisas que não vejo
Sem demora eu percevejo
E persevero
E sem demora de tudo quanto eu quero
Pacientemente eu espero.

Pobre da alma pobre que deita sobre a alma um olhar estático
E pobre da alma que é nobre, e se deixa prender pelo esporádico
As almas são como os ventos a bater nas montanhas
E as montanhas mal podem observá-los
Apenas sentem.
Sabe-se do vento pelo balouçar das árvores
Mas há montanhas nuas e mortas
E condenadas ao esquecimento.

Esqueça por um momento que a vida é um tormento!
E a alma subirá pelas montanhas
E sem crer verá o quanto está acima de toda esta torpeza.
Ó vã mediocridade!
Ó insalubres vontades!
Ó almas como montanhas e desejos como os ventos!
Ventos livres e gélidos
Liberdade custa caro.

Liberdade é para raros
E os raros ventos são solitários
As rasas almas sempre se calam
As rosas almas sempre me falam
Dos caros momentos libertários
Dos libertinos sabores dos sacrários.

Sacramenta-se o desengano
Que é interminável
E uma palavra aqui puxa a nova
E junta à anterior
O desengano não termina
A vida não determina
E resta-se um dissabor.

A vida não determina mais do que a morte nos ensina.
Deixai que a morte em seus túmulos falem por si só
Além por si só,
E que as sentenças sejam da palavra ouvida!
Palavras olvidas valem mais que palavras escritas
Em muros sórdidos de cidades enterradas
Arqueologias falhas, morte sábia da vida que não sabe nada.
Palavras mortas no túmulo
Palavras mortas nos epitáfios dos desmandos.

Parti no deserto sem rumo e sem chão
Atrás das dunas eu me escondi.
As retinas cansadas não olham para o céu
O sol queimou os meus cabelos
E deu-me motivos para adormecer...
Adormeci perdido nas estrelas de um deserto embriagado
Ó amizades por insistência!
Não me queixei da não assistência
Assistirei à falência de sua solidão
E depositarei uma flor em seus túmulos
Para que do céu, reconheçam o valor que reconheço.
Apenas do céu.

Desengano

Caí embaixo dos panos,
Apalpa-me as faces rubras e joviais
A juventude esmorece na alma cândida
A candura me escoa da cabeça aos pés.
Flores nos túmulos sinceros de amigos
Eu espero, ah, como eu espero.
Ferro e fogo, farinha e ervas – daninha.
Vi-os enlouquecer de dores e de paixões
Vi-os esquecer da fome e da miséria
Que põe a gente séria nos caixões.
Encaixotados mortos encapuzados
Segue-se a marcha fúnebre dos desgostados
Desengano.

O espelho não me engana
Meus olhos caem com o passar dos anos
A criança olha para o céu e ao futuro
O velho olha para o chão e ao passado
Eu fico preso no estrado.
O espelho não me engana
Desengana.

Desenganam
Esqueçam sua irreprensível gana.
Se irreprensível sou deixai-me só
Deixa-me morrer e virar pó
Desengano.

Um gato assustado debaixo da chuva
Ainda assim, ele treme, vive!
A chuva passa, o gato se enxuga e pula por cima do muro.
Não há muros suficientes para os gatos
Não há gatos decentes nesse mundo
Um gato debaixo da cama.

Desengano
O desengano não termina
Determina o que é fim
A honestidade que surpreende
A sinceridade que extasia
A paixão verdadeira que assusta
E o ser  humano que é humano
E impressiona pela sua humanidade
De ser menos máquina do que homem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mar Nosso

Amar é se aprofundar
Nessa maré
O mar é se aprofundar
Nesse amor
Maré é se há mar
Nesse calor
Calar na imponência
De teu mar
Há mar na tua potência
de amar.
Há mar
Maré
Amar
O amor

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dedicatória

Há pessoas que aparecem em nossas vidas, e que de uma hora para a outra, as viram de cabeça para baixo. Isso já aconteceu comigo antes, mas posso dizer que raras foram as vezes. Em muitas delas, as pessoas que viraram a minha vida de cabeça para baixo, ficaram extremamente amedrontadas de se responsabilizarem por mim, uma vez que me teriam cativado para sempre. Pessoas assim, que involuntariamente (ou voluntariamente) roubaram um pouquinho de mim, para me deixar a dolorosa saudade, eu já descrevi em um outro dos meus poemas:

"Meu coração não é meu
Está em toda a parte dos caminhos que andei
Cada um carrega um pouco do que é seu"

(Poema Saudade, de Matheus & Borges, escrito em 11 de novembro de 2006 e publicado na página http://recantodasletras.uol.com.br/autores/bacobass).

A maior coincidência é que este poema Saudade foi escrito há quase 3 anos do dia de hoje. E hoje é um dia especial, porque descobri e redescobri um belo sentimento em meu coração. O coração endurecido é cativado pelas pessoas mais corajosas. Se o mundo é feito de pessoas, e se as pessoas se relacionam baseadas em sentimentos, então permita-me falar daquele que é o que todos tanto esnobam, por puro medo, pura covardia: o amor.

Sim, uma alma adolescente, porém nada imatura, ao contrário, uma alma cheia de energia e vida; esta alma foi quebrando com poucas palavras e simples gestos, a dura crosta que envolvia o meu coração endurecido. Esta alma merece dignamente todo o meu respeito e o meu amor, e uma demonstração disso está neste poema que para ela eu dedico.

Obrigado Renata Mulinelli. O amor não tem tempo para aparecer, ele tem apenas que aparecer pelas vias mais certas, trazidas pelas pessoas mais dignas. A sua personalidade cativante me fez relembrar disso.


Renascido

Tão nova e já tão cheia de vida.
Tão cedo e já com tantas perguntas
Tão sóbria e de respostas precisas.
Tão hoje, tão nobre, tão, querida.

O enlace desta vida
Se faz por mór desejo
Metafísico
Meta o físico da alma
E sinta a aura de sua calma

Voe voe ó querida
E busque para nós, lá naquele topo
A esperança que deixamos partir
Voe ó coração solto
voe e atravesse para nós
As nuvens mais soturnas

Dance cante, ó nossa vida
Exale este ar puro sobre nós
Embale-nos na viagem de tua voz
Ensina-nos a chegar
No reino das mais brancas paisagens
Dance cante e nos dê tua coragem.

Cave escave ó amiga
Desvende e vende por si mesma
Os segredos de nossos medos
Mostre-nos que a vida tão doída
Às vezes também pode ser brinquedo.

A cada passo que caminhas
Deixa um fundo rastro de saudades
Escorre um fluído de amizade
Transmite aventura, alegria e liberdade

Que a luz intensa de teus domínios
Aquela que te intensa ilumina
Não cegue os teus lúcidos desígnios
Não te traia no que mais te abominas.

Tão pura, tão forte, tão frágil
Tão ti, tão nobre, tão menina.
Tão jovem e com tanto pra dizer
Tão cedo enxerga a plena vida

Tão logo escolhe a trilha preferida
Tão nobre, tão forte, tão, querida.
Tão eterna até a sepultura
Tão eterna até a escultura

Tão minha amiga.


Vendaval

Começa com um sopro.
Os olhares, esguios,
Não se encontram mais.

Não é mais a voz que fala
Ela cala.

O corpo aos poucos estremece
Desescama, desencana...
As formas tomam formas
Da forma que o olhar desconhece.

A alma morta toma nota
Aviva-se em estranha calma.
A preocupação doentia fenece
E à nos, a música desfalece.

Canção noturna e sussurrada
Resplandece em tempestade de verão
E termina no frescor do amanhecer.

E a voz, aos poucos reconhece
Cai o sono no olhar estarrecido
E o corpo, dormente, adormece.

Renascido

Tão nova e já tão cheia de vida. 
Tão cedo e já com tantas perguntas
Tão sóbria e de respostas precisas. 
Tão hoje, tão nobre, tão, querida.

O enlace desta vida
Se faz por mór desejo
Metafísico
Meta o físico da alma
E sinta a aura de sua calma

Voe voe ó querida
E busque para nós, lá naquele topo
A esperança que deixamos partir
Voe ó coração solto
voe e atravesse para nós
As nuvens mais soturnas

Dance cante, ó nossa vida
Exale este ar puro sobre nós
Embale-nos na viagem de tua voz
Ensina-nos a chegar
No reino das mais brancas paisagens
Dance cante e nos dê tua coragem.

Cave escave ó amiga
Desvende e vende por si mesma
Os segredos de nossos medos
Mostre-nos que a vida tão doída
Às vezes também pode ser brinquedo.

A cada passo que caminhas
Deixa um fundo rastro de saudades
Escorre um fluído de amizade
Transmite aventura, alegria e liberdade

Que a luz intensa de teus domínios
Aquela que te intensa ilumina
Não cegue os teus lúcidos desígnios
Não te traia no que mais te abominas.

Tão pura, tão forte, tão frágil
Tão ti, tão nobre, tão menina.
Tão jovem e com tanto pra dizer
Tão cedo enxerga a plena vida

Tão logo escolhe a trilha preferida
Tão nobre, tão forte, tão, querida.
Tão eterna até a sepultura
Tão eterna até a escultura

Tão minha amiga.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Lago Interior Não Pode Secar


Ah caros amigos e raros companheiros!

Não calemos a nossa voz interior. Não depositemos o nosso brio no túmulo! Caros e Raros, sigam-me pela eternidade dos sonhos impossíveis! Oh jovens mentes, que nunca padecem, mas ora cansam e ora se enchem de alegria. Nós temos um inimigo em comum, um adversário em formato de idéia, completamente violenta. Essa idéia despeja mentiras como quem despeja água limpa a prestações baratas.

O fim do ano me trouxe fadiga, mas por ora também traz renovação. O que raios é o fim do ano? Uma idéia apenas! Teria mais vida se pudessem todos os fins dos meses serem fins de ano!

Eu acredito no efeito que a incompreensão causa, a de que uma verdade creditada por uma única pessoa vira loucura ou impossibilidade, e que uma mentira dita muitas vezes por mais de uma voz, acaba virando verdade. Pois é assim que aos poucos os valores se destituem.

Por que vê tanto negativismo nessa vida esse garoto tão jovem? - perguntam a mim. Que me abandone agora todo aquele que me vestiu nesse rótulo maldito! Onde há negativismo numa pessoa que clama pela vida? Onde há negativismo numa pessoa que se desfaz do irreal e do ilusório todos os dias de sua vida?

Quebro as cascas e me deito sobre o chão áspero de um mundo congelado. Mas eu sou a luz e o calor!

Não caros amigos, e raros companheiros, não permitam jamais que a loucura que nos vestem pareça fruto de um pensamento negativo. Ao invés disso, quando a voz for abafada pelo grito da multidão, sussurrem. Abaixarão os ouvidos para escutar o que tanto querem dizer. E quando o silêncio reinar, gritem novamente.

Eu vejo um mundo infestado de leitos e de pessoas que tem medo de curar as suas feridas. A segurança e a certeza são os maiores disfarces para as pessoas que nunca admitem que não sabem o que querem. Mas sim, sou seguro! Estarei seguro e olharei firme para o futuro, cheio de segurança. Não, ninguém é seguro de nada, apenas seguros são de suas incertezas!

Caem as máscaras e se estilhaçam pelo assoalho. Eu piso em um dos fragmentos e atiro para os dejetos da renovação.

Não se intimidem. O nosso meio de vida é apenas o meio, mas a finalidade, raros e caros, é algo ainda maior! Lutemos pela nossa finalidade, e mandemos os nossos meios para os meios diabos!

Este texto não será lido por todos, mas foi escrito para todos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Incurável Enfermidade

Eu não sou o eixo da infinita roda
Que gira da planície ao litoral.
Eu não sou o remédio das ânsias
De vidas inexistentes
E que tanto insistem em se enfeitar.

Ah Apoteóse!
Ah Infinita Náusea!
Com tal crueldade eu escuto o ruído das máquinas
Mas não vejo nada.
Não sinto mais o cheiro dos doces aromas,
Mas com tal crueldade eu sinto!
Eu sinto o cheiro do óleo
Do carbono
E do silício.

Ah penoso destino
Onde tudo se acaba em rugas e bolhas!
Onde os suores de dois corpos não se conhecem mais
Mas por hora se entendem!
Não está ao meu alcance
Desde o meu nascimento
A sensação macia de uma mão carinhosa.

Ah severa mão penosa!
Com que crueldade caí no meio da tempestade
Desnudada de meus princípios
Enrugada em meus suplícios.

Ah, as minhas escolhas!
Merecida consequência!
O açoite silencioso desses morimbundos!
Ah como me mata a morte viva desse mundo!

domingo, 2 de agosto de 2009

O olhar definitivo

Sobre uma pedra lisa da rua
Solapada sem roupa e sem moral
Deitava-se serena uma criança nua

sábado, 1 de agosto de 2009

Condenação

Não adianta ornar com rosas
Com tulipas e querubins
Nem cravos de pétalas rugosas
E menos azaléias vistosas
A árvore que já se condena.

Seus galhos retorcidos assim permanecerão
Recurvada sobre a própria sombra
Com a copa estarrecida e faminta
De folhas secas acinzentadas.

Não há o que lhe tire da situação
Uma vez que a raiz caiu no solo
E já atinge as profundezas do inferno
Aquecendo-se vacilante
Neste eterno inverno.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ortotanásia


Foi quando veio a academia
Que anunciaram a morte da poesia.
Juntaram uma pilha de institutos
Calcaram-na de pó para produto.

Podia eu falar da beleza da noite
Ou da tristeza dos dias
Mas com mote teimo em dizer
Da infeliz morte da poesia.

O homem inventou a roda
O Fogo
As cidades
As ventanias 
As tempestades
O riso e o pranto mudos
Inventou o homem surdo
E as notícias turronas.
E enfim por não ter mais que inventar
Inventou a si mesmo.
Tudo isso está escrito
Na tábua sábia da academia.

Mas antes disso tudo
Antes da primeira aurora
E depois do último crespúsculo
Já ela vivia livre
A nobre poesia.

Encarcerada pois ela está
Sob o peso de muitos ministros
Com quantos outros mil doutores
Vive ela vã em suas dores,
Vomitando feito registros.

E o mestre sábio da pena teimosa
Vive com ela tão cheio de glosa
Mas mais que a dor tão pretensiosa
Vive ela, pobre poesia, toda chorosa.

Já não a sente quem não a vê
Empilhada em livros entitulados
Empoeirados sob prestígios
De outros tantos pilhérios vestígios,
De insossos discursos articulados.

A poesia morta por ela mesma clama, 
E encara tão fútil a sua dura direção
Em inúteis lamentos, ela derrama
E já não faz nada 
Nem à mente nem ao coração.

Filho Pródigo I


E quando dei por mim, estava só.

Bem aventurados os que Deus tocou o coração
E já não sentem mais dor nem desespero.
Pois em certeza vivem sua ilusão.

A Praia


Dona Josefa na cadeira da praia
Busca o vazio no imenso horizonte
Onde a linha jamais se acha, se esconde.

Qual praia?
Não existe praia
A praia é só um refúgio.

Dona Josefa na praia que ninguém entende.
Os mistérios do imenso horizonte
Não são menos do que está na mente
Do que ao invés de teto vê praia,
E paira.