segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Grinalda

Sinto falta d'amar te amiga
E o doce toque alvéolo dado
O toque simples e concentrado
De peito leve entregado.

Não foi com espada que fizestes o mundo,
Foi só com terra, semente e água.
A mão calejada da costureira
Com canções de ninar embalava.

Por muito tempo adormeci
Caí no sono mais delicado
Vivi o sonho mais comportado
Sumi deste mundo sem me perder.

Ornaram-te a fronte de grinaldas
Com rosa e branca e alecrim
No centro dela um diamante
Que brilho forte ao teu sorriso.

E cada pétala da grinalda
Caía-te como um conta gotas
E eu tão pueril preparando a próxima
Desprevenida não dei por mim

Caiu a última com tanta dor
O diamante não mais brilhou
Tua mão gentil descalejou
O teu sorriso desfez-se e mim.

E agora vejo, e como vejo
Amar-te amiga doeu em mim
A morte amiga que eu desejo
Desfez-se assim, desfez-se assim.

Doeu amar-te, minha rainha
Princesa sóbria é o que restou
E com amargas salivas minhas
Tão sozinha é como estou.

E agora aqui eu quebro a rima
Pois minha vida não tem mais rima
Sou verso solto sem poema
O poema falhou, a grinalda murchou.

O toque simples aveludado
Em vento frio se rebelou
Vento frio, noite sozinha
Nem a grinalda mais me restou.

Soluço oco, peito oco.
Bate um coração que não quer mais
E tão sozinha é como estou...

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"Mãezinha, se existe céu, então guarda um lugarzinho pra mim, porque eu sei que é pra lá que você iria."

Orquestra Incompleta


Cansei de ti amor
Sai de mim, me deixa só!
Cansei da tua delicadeza
Que disfarça o perverso em pureza.

Segue o cego arrastado
QUe não quer ver tudo o que vê
Pois quando vê, só vê a si mesmo
Cancela o óbvio racional
Vira morimbundo passivo
E faz da própria alma um internato.

Cansei de ti amor
Que olha para o certamente impossível
E me engana que a tarefa
Com força e fé é certamente passível.

Cansei de ti por me enganar
Me faz de tolo irracional:
Eu vejo o homem morto de fome
A criança de ferida aguda
A operária muda
E o cobrador surdo
Todos felizes cantarolando
De braços dados em um jardim
Ignorando o seu fatídico
É o que eu vejo, amor estúpido!

Com tanta gente me falando ao ouvido
Sinto-me incapaz de crescer.
Parem de me falar ao ouvido!
Parem de me falar ao ouvido!

Estou cansado de estar cansado
Quero adormecer meu espírito
Enxergar a natureza
Cá, eiras e beiras quero enxergar
Purificar as feridas alheias.

Esquece de mim amor estúpido
Em mim se aloja sem pedido
De mim se apodera sem sentido
Depois se alitera com lírios e louros
Me branda em parte dividida
Arranca do peito a minha carne
Que parte com outra deixando a ferida.

Não sou poeta médico
Sou paciente!
E por tua culpa estou sempre doente
Doença imatura e egoísta
Esqueço do mundo, esqueço da vida.

De ti cansei, mas não o nego.
E vou seguindo pior que o cego
Que não vê nada, mas ouve a tudo
Ouve as notas das baladas
Do jazz triste lamentado
Do blues arrastado
Da bossa nova enterrada
Do samba parado e síncopado
Como o coração do apaixonado
Que ouve a tudo mas não vê nada.

Coração sem ritmo que não progride
E só um tom sabe tocar
Só de uma cor que pinta ao mundo
E só escreve se for amar.

Não quero mais ser só amor
Serei cérebro, tristeza e dor
Serei raiva crescendo e allegro
Apatia andante do cego
Permita-me outro senão o amor
Dê-me a raiva razão e dor.

Podia ser ao menos ingrato
Virar-me as costas sem aviso
Partir sem carta de despedida
E acordaria assim sem sentir falta
Eu tenho raiva do seu caráter
De ficar aqui me afagando
Mas amor não tem costa, nem afago, nem carta
Amor só tem a mim amor
E aquilo que vejo além dos olhos.

E entretando o seu caráter
É traiçoeiro inocente
A mim me afaga
E a mim me afoga.

Saia daqui com este espelho
Acende a luz que se ausenta
Da raiz do cabelo ao podre artelho
A escuridão me mostra mais
Que a luz que cega minhas verdades.

E em verdade o amor contigo
É o amor que está comigo.
Vai-te embora e me deixa só
Me deixa aqui misturado ao pó.
E dali me empenharei em apagar a chama.
Rega este coração com água
Que já está seco de tanto amar.
Para que ao invés da chama forte
Nasça a árvore da razão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Lua, minha e sua

Meia Lua
Meia calça
Meia beijo
Meia alça

Meia vida.

Pra curar minha ferida
Que a lua seja meia lua cheia.
Eu te dou a minha tralha
Em meio corpo lua inteira.

Sou às vezes lua nova,
Mas nova serei inteira.
E cheia sempre serei
Se cobrir-me com o céu.

Se o teu céu me conforta e me consola
Não digo que serei sua,
Digo que serei tua.

Mesmo a lua sendo só lua
E sendo ela a lua de todos,
Serei cheia,
Serei tua.