quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Varal

Uma roupa no varal pode lembrar muita coisa. Mas vai depender da roupa, e mais ainda, vai depender do varal. É claro que não falei ainda da lavadeira. Ah, que cheiro fresco de sabão de coco e roupa estendida.

Então esse é um varal de casa de campo. Longe de tudo o que conhecemos, mas perto de tudo o que quase ninguém conhece. Assim, um lençol, balançando como se balançam as flores, está ali imponente e bem lavado. Gota a gota seca, devolve à terra o que dela foi tomada, a água.
Balança e emite com a sua dança mágica as imagens de ontem, de anteontem, do século passado, quando ainda era semente. 

Ah, lavadeira esperta. Lava a roupa rindo, mas não porque está feliz com seu ofício. Lava o lençol porque precisa, pra usar de novo. Com as mãos enrugadas e gastas na beira do tanque, sonha ainda com a próxima lavada, e a próxima. O vestido leve lhe contorna o corpo robusto, as pernas grossas, com manchinhas tímidas aqui e ali. Manchas para ela. Mas para ele, é só mais um temperinho. A pele negra, mais escura de sol, mas que brilha como uma jóia rara.

Ninguém sabe bem o que é, mas o seu sorriso traduz tudo. O lençol fresco? Pobre dele, é um coitado mudo. Mas fechando os olhos, respirando o ar verde e azul e escutando as melodias, pode-se deduzir um pouquinho do que aconteceu.

Aquelas pernas negras e fortes, uma levantada sobre o pé, a outra presa, firme ao chão. E o riso. O riso gostoso, cheio de lembrança. O riso que te levou dali a fazer uma viagem ao tempo. Ontem. O lençol de ontem. Hoje já não é mais o mesmo, devidamente lavado e comportado. Mas ela espera sujá-lo de novo.

Joga água, ensaboa, uma mão segura firme, a outra empurra e puxa, eliminando as lembranças físicas. Vai levantando a espuma em movimento sedutor que só ela sabe, mas não sabe. Porque quem sabe mesmo é ele. Ele que a carrega como roupa passada, deixa-a, plenamente cuidadoso, sobre a cama. Para quando puder, que sejam guardadas num baú, ou usadas mais uma vez no dia-a-dia. Mas ele diz que não gosta de roupa nova, gosta mesmo é de roupa usada. Ela ri. E se deixa sujar inteira, com suor, com esforço. Suspiros de dor e prazer, pra ser lavada no dia seguinte.

Pois como toda mulher de sorte adora ser tratada como roupa nova, ela gosta apenas de ser lavada e deixada inteiramente seca. Ele é um homem que não esquece as roupas que tem no varal. Nossas condições não implicam. Falta um pouco de comida, falta um pouco de água, falta um pouco de tudo. 

Mas sobra muito lençol. Homem que gosta de lavar roupa. Que coisa gostosa de se guardar com carinho. Quando vejo um lençol estendido no varal logo penso numa mulher. Mas um homem, pra ela é tudo.

Ah belo lençol estendido no varal, como eu te amo.

Nascer do Sol

Ó puro anjo inexistente
Leva-me daqui para o sempre
No coração do sol nascente!

Leva-me pro conforto incoerente
Onde ali jaz minha descendência
Pois não quero viver na indolência!

Leva-me daqui junto com meus anjos
De alma negra e estômago vazio

Mas deixa no varal o lençol branco
Com a mancha do sangue proibido
Como nosso aviso de partida.

Parmi Le Vie Et Rien


Se antes do divino despertar me perguntassem:

- Deseja seguir pela escada ou jogar-se da sacada?

Diria eu inconsistente:

- Nem um e outro. Entre estes prefiro o nada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Madre Pérola (III)


Caiu a Madre Pérola
Como quem cai da árvore da fé
Mas caiu simples
Brilhante
Reluzente.

E caiu como quem tem alma de anjo puro
Que brilha quente e forte espantando o escuro
Rolou, rolou pra longe
E um dia é pra lá que eu irei
Ou meio sem vontade
Ou com triste dor e coragem
Mas um dia
É pra lá que eu irei.

Madre Pérola (II)


Tão pura e sólida era a Madre Pérola
Que em dia de outono debaixo d'uma árvore
Até mim ela rolou com sua castidade.

Ó pérola dourada, tu és o meu estigma.
Quão forte é a dor que ainda sinto
E quanto mais ainda sentirei?

A pérola rosada que o túmulo embeleza
Deitar ali seria meu único conforto
De ter em mim tão próxima tua alma
De resumir minha dor em simples calma
Angústia é o que jaz vivo no homem morto.

Ó Pérola dourada, tu és o meu estigma
Minha alma ali está e ainda sinto
E enquanto ali estiver não sentirei.

Madre Pérola (I)


Deitou-se no meu colo um dia
O colar da Madre Pérola
Doze anos esperei
Doze anos aguardei lustroso dia!

Deitou-se no meu colo um dia
O colar da Madre Pérola
E o calor imperou
Tanto tempo aguardei caloroso dia!

Mas antes que minhas mãos a alcançassem
A mão fria despedaçou-a em meus sonhos
Mão política ou fanática
Mão cristã ou judia
Não importa

Tal mão depositou em mim imensa dor
Rolou, rolou pra longe meu amor
E agora o alívio em suspiros eu espero
Como espero ansioso por este dia.

sábado, 25 de outubro de 2008

Amores e Amantes


Estou farto

Do amo mas não digo
Do digo mas não quero
Do quero mas não faço
Do faço mas não assumo
E do assumo
Mas não te peço perdão.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dialogando o Tic-Tac


O Tic e o Tac
É o controle da nossa trilha
Que vem já de longas milhas
Manter o café na mesa
O almoço na marmita
E a janta no sofá.

O Tic e o Tac
Agora compreendo
Um vem para derrubar paredes
E o outro para construir
Mas não pelos que derrubaram
E sim pelos que muito choraram.

O Tic e o Tac
É o nosso alimento
O ar que respiramos
A música que cantamos
O livro que não compramos
Por faltar água e trigo
E energia elétrica.

O Tic e o Tac
Entendo
Vêm de elétrica e atersanal
Vêm do bem e vêm do mal
Mas só do mal se alimenta
E do bem, bem, orienta.

O Tic e o Tac
É sem mistério
É sou ouvir no monastério
É sou ouvir no cemitério
É sou ouvir no ministério.

Agora vou sair
Meu relógio está quebrado
E sem ele eu perco a vida
E sem ele não tenho norte
Não tenho dia nem noite
Nem de nascido nem de morte
O Tic e o Tac eu preciso
Tanto quando o paraplégico
Necessita se sentar.

sábado, 18 de outubro de 2008

Maçãs


Foi ali debaixo daquela macieira
Onde despencou do mais alto galho
A bela maçã vistosa

Doce
Sensual
Tentadora

E quando caiu no chão
Ruiu as estruturas da alma
Tremeu as bases da calma

Fortaleza
Tremores
Restos

Maçãs mesmo com casca são gostosas
E provar do líquido suave
É provar do pecado grave
É viver de súbita culpa
Por desejar a bela maçã
Que sem querer despenca do alto
E querendo nos faz descobrir
A maior lei da gravidade.

Lodo


Vem aqui o hipócrita novamente
Novamente vem o falso doente
Lamentar

E o lamento dessa vez
É pela imensa estupidez
De ter na pele quente a mão
E um amor oculto no coração

O rumo se perde todo
Quando ao invés de arco de grinaldas
Encontra no meio da praia
Aquela que se fez do lodo.
Do lodo que veio daquela
A qual feita foi da costela.

E desde a infância sonho
E não paro de sonhar
Que em grama verde vou
Ao belo lodo me entregar.
Mas há lodo que se faz lama
Mesmo em cores e pingentes
(Cores vermelhas e quentes)

Não escuto mais
Os risos que nunca ouvi na infância
Escuto apenas na lembrança
Do impossível desejo
De voltar a ser criança
E encontrar em toda esquina
A princesa que escolhi.

Numa cama de viúva
Não se ouvem mais as brisas
Não há perfumes elísios
Não há o inexplicável delírio.
Numa cama de viúva
Hoje há apenas o grito.
Um cigarro aceso
Um copo que queima
Um olhar que não vê
Uma voz que não fala
E um coração que não bate.
A fumaça sobe e dissolve
Junto com o sonho inútil
Mas o sonho fica
Enquanto o grito se dissipa.

Tudo que há de belo
Está descrito em belo túmulo
E junto a este há o esterco
De onde surgirá a grama
Para se fazer o lodo
E para destruir-se todo.

Triste Mês de Maio


Faça chuva
Ou faça tempestade
Não importa a firmeza da estaca
Uma fêmea com olhar de bondade
Onde o silvo dos olhos rasga
Até a mais imune alma
Arrancará dali
O suporte das mesas de maio.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

No Restaurante


O garçom:

- O que vai ser senhor?

O cliente desesperado:

- Eu desejo carne ao molho de lavanda.

O garçom sobrolhando, olhando os dedos do cliente:

- Sinto muito, o senhor está à mesa algemado.

O cliente resignando:

- Perdi a fome então.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Desejo Íntimo


Escreverei sobre os belos lugares
Belos espaços vistosos
Voluptosas noites que não existiram
Diversas garrafas que não entornei
Dos olhares que me tiraram o fôlego
E dos olhares que me tiraram o intento
E a concentração

Para só assim preencher
Na mente imaginária
Os buracos que eu mesmo criei

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Frase VI

Aquele que depende de uma instituição de ensino para adquirir conhecimento está duplamente falido: financeiramente e intelectualmente.

Há a Luz, Entretanto


Eu sinto que quero abraçar o mundo
Eu sinto que quero que o mundo me abrace
Que tire a minha alma do impasse
De ser um riso fútil pelo dia
E um choro um tanto inútil no noturno.

Estas cordas vis
Que presas aos meus braços
Lhes dão o movimento
E uma maior
Hospedada no cérebro
Evitam o choque com a persuasão

Eu uso o toque
Com a sensação
De que estou dopado
Do meu conhecer.

As falas que eu quero
Não me pertencem
E a língua que eu uso
E em alto grau de desuso
São como as asas do burro recluso.

sábado, 4 de outubro de 2008

Das Impurezas do Templo

Eu vivo numa alcova sagrada
E diariamente um anjo bom
Visita-me despindo-se do manto
Que herdou do pai que eu não creio.

A flecha sibilou do inexistente
Ruidosa e poderosa atingiu-me
O coração morto amortecido.
Que agora devidamente aquecido
Virou um nômade de espírito ardente.

De olhar preciso e espada quente
Me ataca em pose indefesa
E se o ato ao invés de sacro é de morte
Então mate-me e depois jogue minha carcaça
Sorrindo para ser levada ao mar
Entregue às divindades e à sorte.

Desacostumado


Estou habituado às alegrias complexas:

Um olhar de verdade
Um toque de verdade
Uma voz de verdade.

Trocar a noite pelo dia...
Não, não.
Não é do meu feitio.
Encarar a face magenta da multidão
E descobrir pacientemente ali no meio
Alguma perebazinha digna de nota.

Pular de praia em praia
Correr de braços abertos
E cantar a liberdade
(Com notas desafinadas)
Abraçar a espuma corrosiva da água do mar
Cheirando a enxofre e peixe morimbundo.

Rir para o nada
Pois o nada é mais engraçado
Fazer nada
Pois fazer nada, é mais confortável.

Não estou habituado
A não sofrer como os desgraçados
Que se embebedam de livros e idéias
E não conseguem debater alguma
Pois a música é muito alta
E os ouvidos são muito surdos.

Só estou habituado à voz
Que em silêncio sagrado atinge
Os tímpanos da alma doente
Que lamenta ao fantasma impassível
Aquele que com apenas um dedo
Amargura o espírito inquieto.

À voz que me tange de água fresca
E me faz pensar por hora
Que sou imortal.

Deserdada

Louca, louca e como sofro!
A dor da indulgente desgraçada
A dor de uma megera deserdada
De uma mente insana inconformada

Eu tinha em pote o ouro afortunado
Tinha a flecha esperta presa ao peito
Doces pétalas perfumando o leito
Qu'em abundância viva, era estreito.

Mas hoje só o assola a mágoa escura
Hoje, ai, hoje é só de pranto
O pranto que em delongas se perdura.

Pois se antes tinha eu a vida flora
Sozinha destruí a todo encanto
E agora a minha alma se deplora.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Frase V

A TV, os jornais, as revistas e a internet foram grandes invenções. Muito úteis para acelerar a idiotice da humanidade.