sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Humano / Desumano


Humano

Quero imaginar uma vida sem marcas
Onde eu não precise comprar a alegria
Pagar a felicidade
E financiar a tristeza

Onde o bem estar venha numa brisa
E não encaixotada e de presilha

Quero me lavar nas águas límpidas da verdade
E arrancar a casca e o pus
Das feridas em liqüidação.

Às carcassas fétidas e mentirosas
A essas quero dizer não!
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Desumano*

Se no mundo não houvesse nenhuma marca
Não haveria também a diferença
Se há alguém que criou isso
É porque há quem compre e quem venda.

O bem estar vem de uma brisa de onde for
Apenas precisamos desprendê-la

A verdade está nos olhos de quem vê
E na busca que cada um faz da sua vida
Na real, não existem as feridas.

Se o mal e a mentira não existissem
Ninguém sentiria falta da verdade

Lola Marin

*Desumano é o poema resposta que minha colega de classe (pseudônimo de Lola Marin) escreveu espontâneamente assim que leu o meu texto. Achei extremamente criativo e é como se tivesse sido feito para completar a minha idéia. Agora aí estão, os dois lados da moeda. O desespero Humano e a Desumana solução.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dança arritmada num domingo à tarde

I - Escolhi meu par e fui dançar

Quando fechei os olhos e pra longe
Dancei na minha confusa ilusão,
Um anjo bom e puro, não sei onde
Abraçou-me a espantar a solidão.

O anjo não tem sexo
O anjo não tem cor.
A cor provém da alma
de sexo pecador.

E dos lábios, proferidas com ardor,
Como vento aos ouvidos sussurava
Palavras de suave e belo amor.
- É  um dom! - eu, que quase acreditava.

II - A Dança avançava deixando-me em transe:

E como se dentro do aconchego
Do ventre materno refugiada
As palavras guiavam-me ao eterno,
Ao eterno criador desta morada.

O Deus que não tem sexo
O Deus que não tem cor.
A cor e sexo vêm
Do Diabo pecador.

E agora em idéia impossível
Perdi do início e o fim a compreensão.
Se era homem ou mulher, já não sei não.
Pois já nem via mais o que é cabível.

Porém...

III - O Acordeon perde o ritmo:

Num estalo de um céu que relampeja
Vi a clara realidade nua e crua.
Vi o homem que vinha de bandeja
Vendendo simples doces pela rua.

Estonteada vi os postes e paredes.
Luzes e vitrines, mesas e suas redes.
Botas femininas e batas masculinas
Desperta fui igual a uma lamparina.

Lamparina que se acende quando tudo fica escuro
Que se apaga sempre no bem estar do outro dia.
E é pena, pois dessa ilusão eu já não duro.
Nem daquelas histórias, que eu dormia.

E o anjo que outrora me afagava
Na tépida névoa cinza dissolvia.
Minha mão inútil de esperança apapalva
As mãos do anjo que desaparecia.

Ao ouvido do meu par eu sussurava:
(Se era a fé ou se era anjo, não sabia).

IV - A Dança chega ao fim e o coração aperta:

Ó anjo, ó anjo que eu quase carreguei,
E de novo em confusão me encontrei.
Pra voltar à ilucidez o que eu daria?
De mim nada tem valia.
Mas Deus, como eu queria