quarta-feira, 23 de abril de 2008

Mal Boro

02h00 A.M.

- Toma aqui: acende...

Está aceso e a chama o consome. Bem pouquinho, vai indo. O vento bate no meu rosto e eu não sinto nada. Estou dormente, morta, só esqueceram de me pôr num caixão. Vai consumindo, aos poucos, aos poucos... Entra a toxina, sai a fumaça branca, pura... sopro um pouco da minha alma em cada vez. Você acaba de consumir mais de 4000 toxinas diferentes, não há instruções de consumo seguro para este produto.
Tomei aqui, acendi.
Ei demônio! Demônio está aí? Eu sinto que tem um demônio aí fora me rondando e me roubando de mim mesma. É o demônio de fora? Ou o demônio de dentro? Quem é você demônio?
Já foi?

- Então toma, acende outro.

Fshhhh faz o barulho que queima. Consome outro, que logo acaba, aos poucos, aos pouquinhos... É só uma picadinha moça, só uma. Doeu? Doeu.
Quero flertar com o anjo bom pra ele preencher minha alma. Deus, Deus! Ajuda a menina que está aqui! Vou ligar para a Lídia. Não... Vou ligar para papai. Não, melhor a mamãe... Ai meu Pai, que tarde. Tarde? Isso só acontecia à noite... que horas são?

02h20 A.M.

Ser ou não ser, ser ou estar, ser... não ser, não estar.

Estou?
Estou aqui, alguém! No poço, no fundo. Tem água fresca aqui, mas não consigo ver. Estou cega, não consigo ver. Estou muda! Estou surda! Estou morta...

Ai, ai, cadê meu amado no cavalo branco, cristalino? Cadê meu guerreiro? Vem aqui meu amor, matar esse fantasma pra mim! Papai. tem um fantasma no meu quarto, não quero dormir, não quero ficar acordada, socorro.
Socorro papai está acabando, me ajuda!
Calma, já vai passar, já vai passar. Acende outro

Acende mais um.

Mais 4000. E as que já estavam aqui dentro? Tem cura? Eu quero aquele elixir que vai me lavar por inteira, pois não lembro quando foi que me atirei nessa poça cheia de esterco. Fede. Eu tenho ânsia, vomito até acabar com meu estômago, busco lá do fim da minha garganta. Ai, meu pai, dói! Papai! Dói papai, dói!
Eu descobri que meu anjo tem cabelos vermelhos. Vermelho não é a cor do pecado? Então eu amo o pecado. Quero ser salva pelo pecado, o pecado dos seus lábios. Não ri assim pra mim enquanto segura esse telefone. Está ligando pra mim? Liga aqui pra mim. Me manda uma carta, um pombo correio. Grita meu nome que eu escuto e vou correndo, procurarei a vida inteira assim com já procurei. Eu já encontrei, segura minha mão. Segura as duas, estou caindo.

02h40 A.M.
Outro... outro... outro...

Não é mais outra. Toma um fósforo. Fósforo? Com o isqueiro é mais rápido e prático. Tudo é mais rápido, tão mais que não consigo acompanhar. Você não é mais outra, vem aqui e segura minha mão.
Os sofrimentos da Jovem Belle. Werther? Você passou por isso também?
Vermelho é a cor do pecado aqui? Vamos para a China então que lá não é. Nos amaremos livres... o passarinho no telhado é livre. O cachorro na calçada é livre. É? Eu queria ser um pássaro pra...

Toma aqui esse outro

Ai Augusto, você e suas idéias. Não é que estava certo?
Da licença, vou ao banheiro vestir a máscara e já volto; O que? Quero dizer, vou ao banheiro só retocar a maquiagem. Papai, não me olha assim. Sou uma moça já bonita e que sabe se cuidar, quando temos essa idade já sabemos nos cuidar. Mas eu quero que alguém cuide de mim. Arde esse gosto amargo aqui dentro, puxa e solta a fumaça branca, já não é mais tão branca, sai um pouco preta. Minha alma.
Deixa-me tragar um pouco desse pecado para ter minha alma vermelha. Seus lábios me salvariam por um segundo. Por uma hora. Duas horas. Isso, acho que está certo agora.
Deixa-me rir porque mamãe não gosta que eu chore por que senão ela chora mais.
Deixa-me aqui. Não me deixa aqui.
Ai minha mãe, que tarde minha mãe, segura minha mão. E quem segura a sua? Papai. E a dele?

02h45 A.M.

Mais um.

Esconde essa cinza.
Se eu estou fumando papai? Se eu estou fumando?!
Dá-me um espacinho aqui pra eu encostar a cabeça e explodir. Vou sair.
Tomo um banho e não sinto a água. Não sinto o cheiro dos melhores perfumes, não sinto o gosto do melhor...
Desculpem. Ânsia.

Enquanto minha vida está por um fio e nem sinal de acabar... se eu estou fumando? Por favor, deixa que eu chore aqui em paz. Eu pergunto de doçura você fala de capataz. Eu pergunto de amor e você fala de trator. Eu escrevo com rimas pobres e você corteja mulheres ricas!
Mamãe...

Acende outro.

Não! Acabou!
Não... Acabou...

03h00 A.M.

Frase IV

Cansei de ler a chuva, a flor, o amor, a dor, a nuvem, o pássaro, a virgem.
Quando o que na verdade vejo é o lixo!

Oração à Hlin

Quem pisar no assoalho
Através das minhas portas
Com andar de quebrar galhos
No chão encontrarão mortas
As lágrimas derramadas
Por olhos secos e falhos

Ambas mãos tão gordurentas
Tolas. Força fria e pálida.
Tão amargas e nojentas,
Falsa impressão doce e cálida.
Faces vultas macilentas,
Lábios murchos língua árida.

Na aurora sempre bebo
Do mais puro e nobre vinho.
No crepúsculo o medo
Do incógnito vizinho
O fantasma que com o dedo
Mi’alma rouba de pouquinho.

E aqui permaneço indene,
Pr’aquele próximo, esperando,
De alma grande e solene
Que em seus braços carregando
Minha lágrima perene
Para os céus irá levando.

E no inferno permaneço
No chão frio do assoalho
Que adormeço, que mereço!
Que explodindo entre galhos.
Desta vida do avesso
De olhos secos e falhos.