quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A Porta Branca do Paraíso

Duendes em volta do meu leito
O cheiro, que cheiro!
Perfumes que me deixam nostálgica
Cores do cavaleiro. Ai! Que cavaleiro
Veio aqui, nessa noite mágica.

Estrelas mortas caem do céu como lágrimas
E cada uma que despenca se explode, se destrói
Pelo desejo tão pedido que não foi realizado
E em lugar da esperança, um corrói
E um negro espaço cósmico de mim apoderado

O cheiro de água me lembra a tarde
O calor úmido gostoso e abraçado
As flores grisalhas de um tempo que não foi meu
O riso que não foi meu
Do rosto que não foi meu
Da alma que não foi minha
E nem foi a estátua afrodítica no aguardo de uma alma pobre.

Pobre alma, feita de carne podre
Carne fétida enlamaçada
Escorando pela parede deixando manchas estrábicas.

O piso branco ensangüentado em cada passo pisado
Feridas profundas entre os dedos pesados
Arrasto e escorrego nesse chão duro da mortualha
E com a língua lavo o solo amargo avermelhado

Não é da carne enlamaçada que o sangue escorre
Esse é o sangue da alma que chora e da alma que morre
Pelo amor não consumado.

O Impossível Desejo


Veio vindo pela calçada o velho
Idoso já da idade cansadíssima
Viveu vinte e sete anos vegetando.
E repentinamente vinha
Cruel e veloz
Violenta
A motocicleta da morte, que lhe tirou a vida.

O secretário Divino ao ver o registro de óbito disse:

- Isso está errado, o senho morreu em outro lado.

Veio vindo pela calçada o velho
Mesmo
Já idoso da idade estrapolada
Vinte e sete anos de uma vida degradada
Chegou em outro canto e deu mais uns passos
Viveu mais uns dias
E morreu de infecção urinária no hospital quase sem placa.

Acordou um dia desses o velho, respirando livre o ar da vida
Satisfeito das ressurreições mágicas da medicina
E morreu do coração amando uma menina.

Recorreu à sua culpa, numa ultima tentativa
O secretário já cansado, deu-lhe uma alternativa
Mesmo assim a vida insistia em se deixar vencer
E caiu mais outra vez sem ao menos perceber.

Fecharam sua porta agora em definitivo
Enterrado ao lado dos seus conterrâneos
Na lápide haviam escrito:

"Mesmo morto, em nossas memórias viverá,
SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE... ... .... ... ..."