segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Grinalda

Sinto falta d'amar te amiga
E o doce toque alvéolo dado
O toque simples e concentrado
De peito leve entregado.

Não foi com espada que fizestes o mundo,
Foi só com terra, semente e água.
A mão calejada da costureira
Com canções de ninar embalava.

Por muito tempo adormeci
Caí no sono mais delicado
Vivi o sonho mais comportado
Sumi deste mundo sem me perder.

Ornaram-te a fronte de grinaldas
Com rosa e branca e alecrim
No centro dela um diamante
Que brilho forte ao teu sorriso.

E cada pétala da grinalda
Caía-te como um conta gotas
E eu tão pueril preparando a próxima
Desprevenida não dei por mim

Caiu a última com tanta dor
O diamante não mais brilhou
Tua mão gentil descalejou
O teu sorriso desfez-se e mim.

E agora vejo, e como vejo
Amar-te amiga doeu em mim
A morte amiga que eu desejo
Desfez-se assim, desfez-se assim.

Doeu amar-te, minha rainha
Princesa sóbria é o que restou
E com amargas salivas minhas
Tão sozinha é como estou.

E agora aqui eu quebro a rima
Pois minha vida não tem mais rima
Sou verso solto sem poema
O poema falhou, a grinalda murchou.

O toque simples aveludado
Em vento frio se rebelou
Vento frio, noite sozinha
Nem a grinalda mais me restou.

Soluço oco, peito oco.
Bate um coração que não quer mais
E tão sozinha é como estou...

*****************************************************

"Mãezinha, se existe céu, então guarda um lugarzinho pra mim, porque eu sei que é pra lá que você iria."

Orquestra Incompleta


Cansei de ti amor
Sai de mim, me deixa só!
Cansei da tua delicadeza
Que disfarça o perverso em pureza.

Segue o cego arrastado
QUe não quer ver tudo o que vê
Pois quando vê, só vê a si mesmo
Cancela o óbvio racional
Vira morimbundo passivo
E faz da própria alma um internato.

Cansei de ti amor
Que olha para o certamente impossível
E me engana que a tarefa
Com força e fé é certamente passível.

Cansei de ti por me enganar
Me faz de tolo irracional:
Eu vejo o homem morto de fome
A criança de ferida aguda
A operária muda
E o cobrador surdo
Todos felizes cantarolando
De braços dados em um jardim
Ignorando o seu fatídico
É o que eu vejo, amor estúpido!

Com tanta gente me falando ao ouvido
Sinto-me incapaz de crescer.
Parem de me falar ao ouvido!
Parem de me falar ao ouvido!

Estou cansado de estar cansado
Quero adormecer meu espírito
Enxergar a natureza
Cá, eiras e beiras quero enxergar
Purificar as feridas alheias.

Esquece de mim amor estúpido
Em mim se aloja sem pedido
De mim se apodera sem sentido
Depois se alitera com lírios e louros
Me branda em parte dividida
Arranca do peito a minha carne
Que parte com outra deixando a ferida.

Não sou poeta médico
Sou paciente!
E por tua culpa estou sempre doente
Doença imatura e egoísta
Esqueço do mundo, esqueço da vida.

De ti cansei, mas não o nego.
E vou seguindo pior que o cego
Que não vê nada, mas ouve a tudo
Ouve as notas das baladas
Do jazz triste lamentado
Do blues arrastado
Da bossa nova enterrada
Do samba parado e síncopado
Como o coração do apaixonado
Que ouve a tudo mas não vê nada.

Coração sem ritmo que não progride
E só um tom sabe tocar
Só de uma cor que pinta ao mundo
E só escreve se for amar.

Não quero mais ser só amor
Serei cérebro, tristeza e dor
Serei raiva crescendo e allegro
Apatia andante do cego
Permita-me outro senão o amor
Dê-me a raiva razão e dor.

Podia ser ao menos ingrato
Virar-me as costas sem aviso
Partir sem carta de despedida
E acordaria assim sem sentir falta
Eu tenho raiva do seu caráter
De ficar aqui me afagando
Mas amor não tem costa, nem afago, nem carta
Amor só tem a mim amor
E aquilo que vejo além dos olhos.

E entretando o seu caráter
É traiçoeiro inocente
A mim me afaga
E a mim me afoga.

Saia daqui com este espelho
Acende a luz que se ausenta
Da raiz do cabelo ao podre artelho
A escuridão me mostra mais
Que a luz que cega minhas verdades.

E em verdade o amor contigo
É o amor que está comigo.
Vai-te embora e me deixa só
Me deixa aqui misturado ao pó.
E dali me empenharei em apagar a chama.
Rega este coração com água
Que já está seco de tanto amar.
Para que ao invés da chama forte
Nasça a árvore da razão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Lua, minha e sua

Meia Lua
Meia calça
Meia beijo
Meia alça

Meia vida.

Pra curar minha ferida
Que a lua seja meia lua cheia.
Eu te dou a minha tralha
Em meio corpo lua inteira.

Sou às vezes lua nova,
Mas nova serei inteira.
E cheia sempre serei
Se cobrir-me com o céu.

Se o teu céu me conforta e me consola
Não digo que serei sua,
Digo que serei tua.

Mesmo a lua sendo só lua
E sendo ela a lua de todos,
Serei cheia,
Serei tua.

domingo, 30 de novembro de 2008

Sob A Tua Manta


Teu nome é como o cair das águas
Que cura dor, sofrimento e mágoas
Tua voz é como o suave vento
Que torna em ânimo o desalento.

Teu toque é igual ao dos evangelhos
Que livra a alma do vil tormento
E o teu sorriso, que nunca falha
Ele é o dom do meu alegramento!

Na Árvore


De cima da árvore eu vejo a luz
Trespassa sombras
Galhos
Folhas

Só não rompe com a verdade
De que há mais árvores sobre a minha.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Suave na Manhã


No suave amanhecer
Despertava a delicada brisa
Que o Senhor despejara
No berço da humanidade

Quatro estrelas despencaram do céu
Um mar se abriu e engoliu a correnteza
Três homens derrubaram uma árvore
Uma cozinheira despejou o seu tempero no feijão
E uma viúva lamentava a morte do major

Mal abrira os olhos
E sentiu pesando na moleira
O teto que se despencava

Ainda assim em tontura e confusão
Contemplou que como buda
Assentavam sobre ele 
A imagem de seus pais.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Corpo Docente e o Decente


"Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado." - Artur Schopenhauer - Sobre a Erudição e os Eruditos.


A minha postagem de hoje eu começo com um trecho de um trecho. Existe um livrinho que andam vendendo por aí, atribuído à autoria de Schopenhauer, cujo título é A Arte de Escrever. Tal livro, na verdade, não existe. A Arte de Escrever é uma coletânea de escritos extraídos de outra obra do autor chamada Parerga e Parelipomena, ou traduzida como Pensamentos isolados, todavia ordenados sistematicamente, sobre diversos assuntos (1851), de onde vieram os capítulos Sobre a Erudição e os Eruditos, Pensar por si mesmo, Sobre a escrita e o estilo, Sobre a leitura e os livros e Sobre a linguagem e as palavras, dentre outros capítulos sobre temas diversificados que ainda remetem ao problema da teoria do conhecimento.

Na época em que adquiri esta pequena coletânea, muito bem organizada por sinal, eu tinha com intuito descobrir um meio de escrever objetivamente, tal como na obra Discurso do Método de René Descartes, ou na obra Ecce Homo de Friedrich Nietzsche. Mas qual a minha surpresa ao me deparar com idéias tão modernas e lúcidas a respeito dos problemas envolvendo conhecimento, seus meios de adquirí-lo e as suas finalidades. Schopenhauer dilui toda essa crosta suja que envolve o conhecimento puro, e com muita maestria desmascara a petulância e soberba dos eruditos da época.

Um grande discípulo de Schopenhauer, um pouco distante, mas cuja influência não se deixa disfarçar, Machado de Assis, escreveu também: "Muda-se a farda mas não muda-se a pele". Os tempos mudam, mas a mesma sujeira permanece debaixo dos tapetes.

Quando chegamos no ensino médio e vamos nos aproximando do vestibular, muito se fala sobre a vida na Universidade e as promessas das maravilhas do acesso à informação, e as portas que se abrirão dali em diante, etc, etc. Ilusões eu digo, puras ilusões. O Vestibular é visto como a Copa Libertadores da vida escolar. Caso consiga o campeonato, você pula para a modalidade dos verdadeiros campeões, do Campeonato Mundial de Interclubes, ou a Universidade. E é com essa mentalidade competitiva que ingressamos no tal curso superior, que começa já desde a preparação para os exames vestibulares, exigindo com tamanha ignorância uma quantidade descomunal de informações que serviria apenas para o abalo da auto-estima e o constante sucateamento do, não sistema educacional, mas, conhecimento. A partir daí, para os que conseguem e os que não conseguem ingressar nas tais melhores universidades do país, passa-se por um processo de meses para compreender o merecimento ou não de um título que só funciona na imaginação: estou ou não dentre os melhores/piores estudantes do país? Pouco importa, o terror maior está em quem empunha a arma mais letal de uma nação: giz e lousa.

Qual a finalidade do conhecimento universitário afinal? Um amigo meu (e faço questão de mencionar, pela sua mais refinada inteligência, João Massuia) me deu uma luz certa vez, dizendo que o conhecimento universitário é a capacidade de refletir universalmente, extrapolando os limites de sua área de conhecimento e entendendo que este (conhecimento) faz parte de um todo. É engraçado notar que as mentes mais puras dentro da sociedade divergem sempre para o mesmo lugar. O conhecimento puro tem como finalidade a compreensão de si mesmo num universo tão imenso. É o conhecimento para somar, não para competir. Outra sociedade que tinha a mesma pureza e sabedoria de pensamento do meu amigo era a sociedade indígena. Os textos védicos, dos Hindús, de lá do Sri Lanka, também presam pelo mesmo princípio, do ser pelo todo.


O Corpo Docente e o Decente - 03/10/2008


De rosto bondoso ameniza-se o clima
Pois nossos clientes nos são muito caros
- Oh caros colegas, não me percam a estima
Os válidos brados ouvidos são raros,
E má vontade não é - a ordem vem de cima.

Agimos assim que é pra vosso bem
E nesta didática que eu tanto creio
Eu rogo a Deus pois poucos a tem.
(Contudo se a esse desatre sem freio
A prole do corpo docente abstem).

Mas vão lá com brio mostrar vossas graças
E Ração, festa, valsa, serão compensados
Contanto que eleve o nome que preso
Por qual o meu bolso se torna pesado.
Não vire a glória em pura desgraça!

Pois diga o que? Tu algo disseste?
Se a minha voz tem as mãos atadas
E com compaixão eu imagino
As suas humildes e aleijadas
Não clame desgraças co' que vestes.

A ordem é grande e muito complexa
Começa daqui da mediocridade
Percorre a grade incompetente
E para em algum lugar da cidade
No prédio de estrutura convexa.

Mas fique aqui, não se vá agora
Teu nome é o grão de areia da praia
Com outros grãos é grã importância
O meu é o lar imenso da arraia
Há outros que querem caso vá embora.

Dança no Labirinto

Estava calor demais. Mais do que o próprio quarto.

Ela pensava na próxima, ele pensava nos próximos. Ambos corpos desfalecidos, amortecidos porém vivos. O suor secando na pele. O peito dela reluzia. Subindo e descendo em suspiros, recuperando as forças que ele havia tomado. Ele recuperando o seu estado racional, tentando não se perder nela. Ela só pensava na próxima. Seu sorriso era diferente agora. O olhar esguio, os olhos semi-cerrados tentando exibir alguma sensualidade inocente. Os olhos se perdiam.

Nunca se está apenas a dois num quarto a dois. Uma nuvem de lembranças corre por aquelas paredes mal pintadas. Lembranças que existiram, e as que existirão. Ele bem sabe. A dor que teme sentir, mas prefere sentir o conforto do colchão, entregar-se ao momento.

Vive mais quem se limita a prever apenas os próximos cinco minutos. O futuro é grande demais, distante demais. "Nós vamos morar naquele apartamento ali", diz a voz tola cheia de medo do prédio ser derrubado no dia seguinte. Foi-se o prédio e o sonho junto com o pó.

"Você é única, incomparável". O sorriso se faz no rosto de novo. O peito já está seco, ela olha com ternura, mas com uma ternura cuidadosa, tentando não ser terna demais: "Você é tão... bom." Morde os lábios. Mas ela é a única mesmo assim.

Quando sair dali ele pensa em escrever um texto. Mesmo que nada daquilo tenha existido. Vai escrever e depois, no futuro distante, em meio ao pó, vai reler, e rir-se daquilo. Ou vai sentir vergonha de si mesmo por ter dito as coisas que disse, ou ter feito as coisas que fez. "Mas eu fiz", ele vai se consolar assim. "Que saudades eu sentirei, mas eu preciso sair daqui primeiro." Estará perdido no que sente.

Quando sair dali, ela pensa em tomar um banho, dormir, e respirar o ar da segunda-feira, da terça e da quarta-feira também. Quem sabe o ar de Sábado. O domingo é sagrado demais pra isso. "Que vontade de dormir."

Por onde seguir? Há uma bifurcação à esquerda. Mas ali fica o coração pulsante e morto.

Ela se levanta, e é como se uma obra-prima se mexesse. Sempre dizem que não tem assim tanta noção de estética, não sabe medir o que diz. Mas é a própria arte renascentista. O braço caído por sobre a fronte. O cabelo jogado pra trás, revelando sua testa firme e feminina. Seu sorriso de mulher. Agora ela é mesmo uma autêntica mulher.

O que há por trás destes olhos afinal? Uma tela de cinema? Quem é o diretor do filme? Você mesmo, pelo jeito. Afinal o que há de renascentista nesse sofrimento todo? O homem apaixonado fica obcecado tanto por si mesmo quanto pela sua obra. Mas é apenas uma mulher.

Mulher renascentista, é sim. Pele alva, branquíssima mesmo. Branca, suada e vermelha. De todos eles, talvez eu fosse o único que estivera tentando transformá-la em arte.

Veja bem que há duas saídas desse quarto. Saia daí vendo que o sol é apenas um astro incandescente que tem por objetivo de existência apenas queimar, como o é há milhões de anos. Ou saia daí pensando que as estrelas brilham para cada passo que caminhar, pensando que elas estarão iluminando o seu próprio caminho.

Ou você sairá pensando que é parte do universo, ou que o universo faz parte de você.

Ele não quer sair dali. Quer que o tempo pare.

Começa a chover. São lágrimas? Não, apenas chuva.

Como vamos sair agora? Ela não quer sair dali. quer que o tempo voe em paz.

"Mas e as horas?". Deixe as horas voarem à vontade. Não as tranque no seu calaboço de obrigações. Pobres horas, veja como soam tristes. Elas querem poder sentir a chuva que cai. Seu sorriso se abre de novo, o olho sonolento, desfalecido. Que imagem linda. Quantas dessas ela pode me proporcionar? Para o espectador do filme, apenas uma. Mas para o diretor, há inúmeros sentidos. Ela é o seu achado, a sua obra-prima, até tudo ficar seco e desgastado e ela se julgar imperfeita demais pra fazer parte desse seu espetáculo em que só você pagaria pra assistir.

Está tudo perfeito.

Quer acreditar nisso tanto quanto acha que acredita em si mesmo. O que há por trás destes olhos? Um mistério. Um mundo diferente. Pede para entrar nele, mas fica apenas à porta. "Você se perderia em meu mundo. No meu mundo apenas eu sei caminhar, e só eu sei a saída."

Mas já estava absolutamente perdido nele. Estava mais calor que o normal e precisava de ajuda para sair. A porta estava bem ali adiante. "Não sei como chegar nela." Mesmo num quarto a dois, quando nunca se está sozinho. Até de lá é difícil sair. Ele não queria sair. Ela também não. Ele queria que o tempo parasse. Ela queria que as horas voassem livres.

Chuva.

São lágrimas? Não, apenas uma chuva de verão. "Acho que já passei por aqui antes."

Assim estava mesmo, completamente perdido.

Mais reflexões

É engraçado, mas nunca vi muita graça nessa vida.

Desculpem o tom de voz, ou da fala, ou do discurso, que seja, mas não consigo falar de outra coisa. Isso é deveras engraçado. Quando por mais que digam para ser o senhor da minha mente, eu me entrego, deixando ser levado para onde quer que essa desgraça de pensamento me leve. Imagine se estamos viajando e de repente sou largado no deserto? Lugar quente de dia, gelado de noite, cheio de areia para todos os lados. Até embaixo. Grande dificuldade.

Um amigo certa vez disse que não há nada mais chato nesse mundo do que um poeta. Tudo o que acontece ele quer pôr em linhas. Vangloriar-se dos casos corriqueiros, tão inóspitos de glória. A poesia serve pra isso. A poesia e tudo o que vem da nossa mente. Não sou teórico, nem filósofo, mas nesse mundo dizem tantas coisas. Tomei a liberdade de dizer algumas também.

Se nos olharmos por nós mesmos. Não, não quero ninguém aqui cometendo suicídio e depois dizendo que a culpa foi minha. Cada um é o senhor da sua mente, não é o que dizem? Isso seria ridículo!

Na verdade, ridículo é ficar escrevendo por escrever. Esvaziar o coração. Deixar de sentir... Saudade? Não é bem isso. Um remorso qualquer. Uma vontade de ser Deus e mudar o curso da vida a meu favor. Só um pouquinho que seja. É ridículo.

É ridículo suspirar. Mas não é à toa. Apesar de tudo, é uma pessoa que está ali.

Quem sabe paixão? Não é só isso. Já ultrapassei os limites do odiar. Não consigo nem enxergar o que é verdade. Apenas o que é bondade.

Quem sabe amor. É cedo demais? E quando é a hora certa então? E quantas pessoas certas.

Quem sabe? Amor.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Flor de Belasiel


Mesmo que seja a mais bela das flores
Jamais seria sem meu tronco forte.
Tem como âmago o choro e as dores
De quem só clama pelo medo da morte.

Não é de raiva que faço esse escrito
É um simplório aliviamento
E sempre me vejo um tanto restrito
Por seus inexplicáveis tormentos.

Mas não te cales a voz da alma
Em cada linha tua sou carregado
Para o mais profundo da calma
Do tormento de um desgraçado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Politicamente Amor

Faltam-me os excessos da política?
Sobram-me os excessos de amor.
Pois não falo do verbojar estúpido
Das palavras mentirosas?
E dessa vontade vil de se encharutar?

O vinho é bem mais suave
Os pés grossos pisoteando a uva
Gostoso
Enquanto que o suco lhe escorre viscoso
Entre as pernas e os dedos.
Ao mesmo tempo que briga por cifras
Por quantas terras desbravarás
Desbrava-me o sertanejo que a cifra compra
Mas que tua burrice jamais pagará.

Enterras os corpos que matarás
Enterram-me a vida que desfruto.
Discutes os pontos que te orgulham
Descubro-me os pontos que me borbulham.

Sim, entendo bem do teu discurso
E vejo até o amarelo
De teu falso sorriso branco
Mas jamais estará em lençol brando.

Compraze tua boneca
Ao orná-la de aromas duvidosos
O único e certo aroma
O único que creio
É do suor que cai do peito
E desliza-me ao ventre.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Descascado


Não são só palavras que me lembram você. Nem o seu cheiro, nem a sua voz, nem o seu olhar. Nem mesmo você me lembra você mesma.

Uma folha caindo me lembra você. Uma música qualquer me lembra você. O som de um carro passando, ou de um copo sendo lavado na pia. Também me lembram você a noite alta, fria, porém confortável como o colo da minha mãe. As estrelas opacas, ofuscada pelos postes de iluminação. A vontade de fugir daqui pra sempre, isso me lembra muito você. As frutas na fruteira, o começo da chuva de verão. A dor no peito e a dor de estômago me lembram você.

Preciso de coisas que me façam te esquecer. Até a minha imagem me lembra você.

Não vou mentir pra mais ninguém e menos ainda pra mim mesmo. Que uma árvore verdinha me lembra você. Mas uma maçã descascada também me lembra você.

O que cai primeiro? A folha da árvore ou a maçã da macieira?

E quando cai foge pra sempre. Eu piso na folha que é mais fácil, e isso a faz se machucar. Pisar na maçã é mais difícil, ainda quando escorrego e tombo, sinto a dor terrível da queda e não consigo levantar.

================
Esse texto é pra você e pra você. Minha folha verde e minha maçã descascada.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Flor Bela Flor Pura

Lavo a flor límpida, sagrada e pura
Com as lágrimas mais obscuras
Dos erros que cometi.

Mesmo sem crer que a luz eterna
Dê força aos meus braços sôfregos
E ânimo à vida torpe,
Não posso deixar,
E não deixarei,
Que caia a flor sobre o jardim que cultivei.

Tão cheia de rancor e nada sinto.
Tão sóbria de desgraça e nada vejo.
Só a flor que me anima o meu desejo
De ser o que não sei que eu serei.

Lavo a flor bela, bela e pura
Com lágrima única que perdura
Dos erros que esperam pela cura.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Escorpião

Aceitando a cura dos venenos
Navegando na falsa alegria
Instante de amor e de loucura
Tardia e confusa melodia
Sádico sabor de gostosura
Instigado torpor de aventuras
Regado de renegados desejos
Caio porventura no leito estúpido

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Varal

Uma roupa no varal pode lembrar muita coisa. Mas vai depender da roupa, e mais ainda, vai depender do varal. É claro que não falei ainda da lavadeira. Ah, que cheiro fresco de sabão de coco e roupa estendida.

Então esse é um varal de casa de campo. Longe de tudo o que conhecemos, mas perto de tudo o que quase ninguém conhece. Assim, um lençol, balançando como se balançam as flores, está ali imponente e bem lavado. Gota a gota seca, devolve à terra o que dela foi tomada, a água.
Balança e emite com a sua dança mágica as imagens de ontem, de anteontem, do século passado, quando ainda era semente. 

Ah, lavadeira esperta. Lava a roupa rindo, mas não porque está feliz com seu ofício. Lava o lençol porque precisa, pra usar de novo. Com as mãos enrugadas e gastas na beira do tanque, sonha ainda com a próxima lavada, e a próxima. O vestido leve lhe contorna o corpo robusto, as pernas grossas, com manchinhas tímidas aqui e ali. Manchas para ela. Mas para ele, é só mais um temperinho. A pele negra, mais escura de sol, mas que brilha como uma jóia rara.

Ninguém sabe bem o que é, mas o seu sorriso traduz tudo. O lençol fresco? Pobre dele, é um coitado mudo. Mas fechando os olhos, respirando o ar verde e azul e escutando as melodias, pode-se deduzir um pouquinho do que aconteceu.

Aquelas pernas negras e fortes, uma levantada sobre o pé, a outra presa, firme ao chão. E o riso. O riso gostoso, cheio de lembrança. O riso que te levou dali a fazer uma viagem ao tempo. Ontem. O lençol de ontem. Hoje já não é mais o mesmo, devidamente lavado e comportado. Mas ela espera sujá-lo de novo.

Joga água, ensaboa, uma mão segura firme, a outra empurra e puxa, eliminando as lembranças físicas. Vai levantando a espuma em movimento sedutor que só ela sabe, mas não sabe. Porque quem sabe mesmo é ele. Ele que a carrega como roupa passada, deixa-a, plenamente cuidadoso, sobre a cama. Para quando puder, que sejam guardadas num baú, ou usadas mais uma vez no dia-a-dia. Mas ele diz que não gosta de roupa nova, gosta mesmo é de roupa usada. Ela ri. E se deixa sujar inteira, com suor, com esforço. Suspiros de dor e prazer, pra ser lavada no dia seguinte.

Pois como toda mulher de sorte adora ser tratada como roupa nova, ela gosta apenas de ser lavada e deixada inteiramente seca. Ele é um homem que não esquece as roupas que tem no varal. Nossas condições não implicam. Falta um pouco de comida, falta um pouco de água, falta um pouco de tudo. 

Mas sobra muito lençol. Homem que gosta de lavar roupa. Que coisa gostosa de se guardar com carinho. Quando vejo um lençol estendido no varal logo penso numa mulher. Mas um homem, pra ela é tudo.

Ah belo lençol estendido no varal, como eu te amo.

Nascer do Sol

Ó puro anjo inexistente
Leva-me daqui para o sempre
No coração do sol nascente!

Leva-me pro conforto incoerente
Onde ali jaz minha descendência
Pois não quero viver na indolência!

Leva-me daqui junto com meus anjos
De alma negra e estômago vazio

Mas deixa no varal o lençol branco
Com a mancha do sangue proibido
Como nosso aviso de partida.

Parmi Le Vie Et Rien


Se antes do divino despertar me perguntassem:

- Deseja seguir pela escada ou jogar-se da sacada?

Diria eu inconsistente:

- Nem um e outro. Entre estes prefiro o nada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Madre Pérola (III)


Caiu a Madre Pérola
Como quem cai da árvore da fé
Mas caiu simples
Brilhante
Reluzente.

E caiu como quem tem alma de anjo puro
Que brilha quente e forte espantando o escuro
Rolou, rolou pra longe
E um dia é pra lá que eu irei
Ou meio sem vontade
Ou com triste dor e coragem
Mas um dia
É pra lá que eu irei.

Madre Pérola (II)


Tão pura e sólida era a Madre Pérola
Que em dia de outono debaixo d'uma árvore
Até mim ela rolou com sua castidade.

Ó pérola dourada, tu és o meu estigma.
Quão forte é a dor que ainda sinto
E quanto mais ainda sentirei?

A pérola rosada que o túmulo embeleza
Deitar ali seria meu único conforto
De ter em mim tão próxima tua alma
De resumir minha dor em simples calma
Angústia é o que jaz vivo no homem morto.

Ó Pérola dourada, tu és o meu estigma
Minha alma ali está e ainda sinto
E enquanto ali estiver não sentirei.

Madre Pérola (I)


Deitou-se no meu colo um dia
O colar da Madre Pérola
Doze anos esperei
Doze anos aguardei lustroso dia!

Deitou-se no meu colo um dia
O colar da Madre Pérola
E o calor imperou
Tanto tempo aguardei caloroso dia!

Mas antes que minhas mãos a alcançassem
A mão fria despedaçou-a em meus sonhos
Mão política ou fanática
Mão cristã ou judia
Não importa

Tal mão depositou em mim imensa dor
Rolou, rolou pra longe meu amor
E agora o alívio em suspiros eu espero
Como espero ansioso por este dia.

sábado, 25 de outubro de 2008

Amores e Amantes


Estou farto

Do amo mas não digo
Do digo mas não quero
Do quero mas não faço
Do faço mas não assumo
E do assumo
Mas não te peço perdão.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dialogando o Tic-Tac


O Tic e o Tac
É o controle da nossa trilha
Que vem já de longas milhas
Manter o café na mesa
O almoço na marmita
E a janta no sofá.

O Tic e o Tac
Agora compreendo
Um vem para derrubar paredes
E o outro para construir
Mas não pelos que derrubaram
E sim pelos que muito choraram.

O Tic e o Tac
É o nosso alimento
O ar que respiramos
A música que cantamos
O livro que não compramos
Por faltar água e trigo
E energia elétrica.

O Tic e o Tac
Entendo
Vêm de elétrica e atersanal
Vêm do bem e vêm do mal
Mas só do mal se alimenta
E do bem, bem, orienta.

O Tic e o Tac
É sem mistério
É sou ouvir no monastério
É sou ouvir no cemitério
É sou ouvir no ministério.

Agora vou sair
Meu relógio está quebrado
E sem ele eu perco a vida
E sem ele não tenho norte
Não tenho dia nem noite
Nem de nascido nem de morte
O Tic e o Tac eu preciso
Tanto quando o paraplégico
Necessita se sentar.

sábado, 18 de outubro de 2008

Maçãs


Foi ali debaixo daquela macieira
Onde despencou do mais alto galho
A bela maçã vistosa

Doce
Sensual
Tentadora

E quando caiu no chão
Ruiu as estruturas da alma
Tremeu as bases da calma

Fortaleza
Tremores
Restos

Maçãs mesmo com casca são gostosas
E provar do líquido suave
É provar do pecado grave
É viver de súbita culpa
Por desejar a bela maçã
Que sem querer despenca do alto
E querendo nos faz descobrir
A maior lei da gravidade.

Lodo


Vem aqui o hipócrita novamente
Novamente vem o falso doente
Lamentar

E o lamento dessa vez
É pela imensa estupidez
De ter na pele quente a mão
E um amor oculto no coração

O rumo se perde todo
Quando ao invés de arco de grinaldas
Encontra no meio da praia
Aquela que se fez do lodo.
Do lodo que veio daquela
A qual feita foi da costela.

E desde a infância sonho
E não paro de sonhar
Que em grama verde vou
Ao belo lodo me entregar.
Mas há lodo que se faz lama
Mesmo em cores e pingentes
(Cores vermelhas e quentes)

Não escuto mais
Os risos que nunca ouvi na infância
Escuto apenas na lembrança
Do impossível desejo
De voltar a ser criança
E encontrar em toda esquina
A princesa que escolhi.

Numa cama de viúva
Não se ouvem mais as brisas
Não há perfumes elísios
Não há o inexplicável delírio.
Numa cama de viúva
Hoje há apenas o grito.
Um cigarro aceso
Um copo que queima
Um olhar que não vê
Uma voz que não fala
E um coração que não bate.
A fumaça sobe e dissolve
Junto com o sonho inútil
Mas o sonho fica
Enquanto o grito se dissipa.

Tudo que há de belo
Está descrito em belo túmulo
E junto a este há o esterco
De onde surgirá a grama
Para se fazer o lodo
E para destruir-se todo.

Triste Mês de Maio


Faça chuva
Ou faça tempestade
Não importa a firmeza da estaca
Uma fêmea com olhar de bondade
Onde o silvo dos olhos rasga
Até a mais imune alma
Arrancará dali
O suporte das mesas de maio.