segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O Pecado

Da névoa ao acre
Do acre à gastrite
Da gastrite à serenidade
Da serenidade à lucidez

Náuseas enxaquecas
E uma perna enroscada no lençol
Não me lembro se quando adormeci
Era rude como um pavão
Ou delicada como um leão.

Mas enquanto a luz
Apaga e causa a tempestade
Acende e arromba a puberdade
Lembro que era vermelha,
Da cor da minha paixão.

Letícia Setubal Damasceno

Ah, se minhas letras tivessem cor!
A cor dos meus desejos, das impulsões.
Tivessem a cor dos dedos, e apontassem a direção dos meus segredos.
E te mostrassem a direção dos meus braços, das minhas pernas.
Das minhas pernas paradas nas esquinas.
Que me levam para duas direções
 - vou para onde primeiro me puxarem -

E se elas tivessem voz...
A voz de gritar
Alto
Máscula
Áspera
Rouca
A máxima expressão de minhas paixões
A dor máxima do frio das esquinas
Dos meninos das meninas
O máximo frio dos velhos lençóis e colchões

Se elas tivessem o cheiro azul das camas dos hospitais
O gosto cinza das guias das avenidas
Os sons amarelos das alamedas aformigadas
O toque branco, fosco, da luz espelhada no chão noturno.

E se ainda, e por último, por enquanto
Tivessem calor!
O abraço brando eriçando os pelos!
Ai, os pêlos! Hum, os pêlos!
E a maciez das madeixas me cobrindo o corpo
Tapando-me o sofrimento
Preenchendo-me o vazio
Por fora e por dentro
Ao menos neste momento.

Enquanto o sangue corre firme
O braço e o coração pesam
Os olhares aqui, porém lá, que lesam
Violentos são.
Duros, macios, viscosos, entre duas abas
Escorrendo língua abaixo
Percebo que minhas letras não podem falar
(mas se pudessem)
Eu não voltaria para a febre escura
Das escadas dos apartamentos...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Porta Fechada

Depois de um ou duas dobrada em trouxa
Soltando labaredas pela boca frouxa
Vomitando a leviandade entre as marcas coxas
Na fornalha de cetim, paredes velhas, cortinas roxas.

Encontrará aqui minha porta fechada
Fechada às cegas na embriaguez.
Em distração mera apaixonada
Deixando fora mais uma vez.

E segurando tua mão direita
Como mordida lacraia à espreita
Envenenada morta enquanto deita
Desgraça vil, tristeza feita.

Vejo-te preso do lado de fora
Empurrado grosso na minha cólera
Lutando contra minha resignação
Gritando: Não! Não vá embora!

Na Janela

Vejo daqui de cima
Daqui de cima vejo,
Vejo meu amor passar.

Apoiada no queixo
No queixo apoiada
Vejo meu amor passar.

Carregada entre suspiros
Suspiros entre carregadas
Vejo meu amor passar.

Fecho a janela
Nela já fecho
E vejo meu amor passar.

Vejo meu amor passar
Passar o meu amor vejo
Vejo minha vida passar,
Vejo minha vida pesar.