terça-feira, 24 de julho de 2007

Porta Aberta

Saia de imediata prontidão
Carregue o seu saco de pedras
Pise por cima de minhas lágrimas
Atravesse as alamedas mortas do jardim
Feche o portão, feche a rua, feche a avenida
Mas encontrará no fim da sua vida aqui minha porta aberta.

Estarei deitada entre um soneto de perdição e outro
Com uma rosa atravessada na mão e outra
Copo de medida veneziana e outra
Alucinação regurgitante e outra*
Ácido na garganta e outra
Minha porta aberta.
Meu corpo
Morto.
E outro.
E outra.

Alma Traça

Através das prateleiras de uma livraria
Descobri em um volume, acho de Madalena
Ousadas muito velhas escrituras de Maria
Premiada fui então por ser digna de pena.

Entre as páginas abertas, a página daquela
Em cada uma que folheio outra me espanca
Renasço todo dia sempre em forma de Flor Bela
De pele reluzente, mas espírito que manca.

Achei-me, muito vivas entre as letras corroendo
De verniz, enxovalhada identidades às traças
Levantei uma garrafa e aos convivas morrendo:
- Pela honra deste amor, bebamos as nossas taças!

domingo, 22 de julho de 2007

Um de Isabelle La Fleur

Isso é um caso trágico de vida inconsequente que resultou na minha mudança de cidade. Regado à insônia, vinho (bebida dos loucos pretensiosos), vodca, cigarros e a droga de uma recordação.


Ah Letícia, por que me deixou?

O seu olhar me olhava de um pra sempre que me deixava estática, segura. Amigas para sempre! Por que foi embora, hein? Hein? Seu cheiro. Tenho saudades do seu cheiro, aquele seu cheiro me lembrava depois de amanhã, que ninguém tem coragem. Eu olhando essa cidade toda amena me lembra você. Um homem cego apoiado em sua vara foi chegando e sentou ao meu lado, de barba e tudo, com a calça jeans amarela batida. Tocou-me a perna na perna.

- Escuta mocinha? - como sabe que sou mulher só me pegando na mão?
Não saberia dizer de olhos fechados se era a mão da Letícia ou do Rodrigo. Ele nem se conforma, mas amantes são assim mesmo Rodrigo. Não se contenta, se desespera. Olha-me com calmo, olhos cínicos, mentirosos, mas por dentro está em estado de guerra civil, desordenada sem líder. Uma completa anarquia sentimental. Devia dar a ele uma casa de espelhos. Amantes são assim mesmo meu bem. Acontecem acontecendo, sem aviso, premeditações. É aquela calcinha fofa, favorita que se acha na liquidação do Brás. Comparada à que está usando o coração pulsa com sangue novo. É um renascimento. Rebirth of a woman!  Vão-se enterrando assim no coração da gente, sem pedir, tentando achar um cantinho aqui ou ali. Quando vi, já estava usando a calcinha nova! Tão mais justa. Delineada parecia bumbum de photoshop, me sentia mais mulher, levantando a calcinha pra ajeitar olhando, reolhando, girando os olhos como em passarela. Ah não! Dessas não. Parece que a cara foi pintada com um sorriso publicitário de valor inestimável. Prefiro as calcinhas do Brás, justas e baratas. Um achado!

- Ei mocinha? - sacudiu-me. Cora Isabelle. Não enxerga o homem que te chama? Ele não. É assim mesmo, os olhos causam a cegueira dos ouvidos, e a boca, ai a boca, de todo o resto do corpo.

- Me avisa quando vier o que vai pra Praça da República sim? - sim. Letícia que saudades suas. Sim, que saudades. Até a sujeira da Praça da República me lembra você. O Centro inteiro é você. Lembra quando foi atacada pelo mouro debaixo do viaduto do Chá? A prefeitura pressionando a cabeça de todo mundo que passa ali embaixo. De manhã e de noite, em cima, o terno municipal secando ao sol, debaixo eles catam as migalhas entre cuspes e o cheiro seco de mijo. Uma lasquinha daquele muro daria uma pesquisa antropológica antropofágica inteira! Um achado! Mas um pedacinho de Letícia é como encontrar a cidade de Tróia. Atlântida, perdida sob o mar, ninguém nunca viu, mas acredita! Eu acredito. Um pedacinho do seu cabelo liso como cortina do teatro Municipal. Que espetáculo me oferecerá quando se abrir da próxima vez? Você é mais espetacular que o Centro inteiro. Que Barão do café que nada! Letícia é a Baronesa. Foi-se. 

- Ai minha filha, eu te avisei!

- Me desculpa -falei com irritação desajeitada - estava distraída.

- Tente ser cega que nem eu! Cá eu nessa necessidade. Devia se apaixonar depois que eu pegasse o ônibus. 

- O amor não tem itinerário senhor. Meu coração é uma Avenida sem fim - disse eu com a mão sobre o peito.

- E o meu é hipertenso e de uma arritmia sem fim, com bolhas na circulação sanguínea! Mal bate por mim. Não vê que tenho que ir no médico? Olha minha vara como treme na mão!

- E eu que nem tenho cura, nem vara, nem nada - Deus me daria a cura dessa dor. Mas da mesma forma como não conheci nenhum médico não conheci a Deus. É o médico hetero.

Letícia é o coveiro do meu coração. Logo enterrará o seu defunto. Como é possível que doa tanto! Pior deve ser ficar debaixo daquela laje de mármore, tadinha dela. Debaixo da minha coberta era tão quente. Pior para o mouro lá no Chá. Eles tomam chá gelado. Seu teto é o céu. Antes fosse o meu, mas agora nem teto e nem chão eu tenho. De todos nós só sobrou a coberta. Essa sim, se dobrada direitinho e amaciada com o Confort perfume das Camélias vai durar para sempre. Daqui a 200 anos alguém se aqueceria. Ai se ele falasse. Contaria as histórias mais gostosas de ouvir. De tirar o sono. 

Ai Letícia, se ao menos eu pudesse falar. 

Poema de Pedra


No fim
Lá atrás, entre a colheita mal feita e o vinho maltrapilho,
Construí uma igrejinha de pedra, de São Bananais,
Santo meu, criado meu.
Jesus Cristinho derrubou as taças, os pratos, as pratas.
Na igreja de São Bananais.

Cavei com as unhas na pedra o nome do Nosso Senhor.
A pedra voltou-se a mim amarela, empoeirada desfalecendo.
Fica agora, cai ou não cai. Morre ou não morre.

E o morre desmorre da vida desvida que não vai.
Nem vem.
Nem vai.

Entre o vinho maltrapilho, escolhido no mercado, atrás do balcão de                [carnes e frios.
Não tem imagem de São Bananais.
Jesus Cristo tomou-me as mãos e salvou-me por enquanto.
Mas enquanto eu derramava o vinho, a mão escorrega.
Embriagado morre. Escorrega vive. Vai, não vai.
Colhi da escolha de Não Bananais.
Não, pedra.
Sem fumaça de algodão doce cheirando na alma.
Não, pedra.
A mulher, madura, cheirando a carne mordendo a cruz.
Não, pedra.
O travesseiro frio, a luz, a luz, a luz...
Não, pedra.
A boca rosada, cor de curiosidade, lambendo a palma.

Lambe a palma, lambe a palma.
Amor de pedra da gávea!

A colheita foi ruim este ano, ano que vem é pior!
Tem um navio preto (por que sempre preto?) encalhado na doca.
Doca canavial, lugar do meu coração.
Tem um navio no meu coração.
A imagem de Jesus presa na cabine do capitão.
Ah não tem mais, capitão mandou tirar dali.
Onde encontrar a palma do meu Senhor então?

Está voando, está voando! Abobado, deita!
A doca canavial de feira livre tem muita.
Mas tem um navio preto lá
No meu coração.
Amanhã a gente vai e arruma uma nova.
Esquece o navio e pega a menor embarcação.

Mas a água virou pedra mole até que fura.
Desfalecendo em minhas mãos...
O nome.
Que trabalho! Sumiu agora, só resta o navio preto.
Não embarca, o vinho sublime sujou a rampa,
A colheita inundou de proa à popa.
E o coração ruiu
Sumiu
Morreu
Empedreceu!
No começo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Boca

Desce o decote e o suor vivo do teu peito
A ânsia amarga cobre a língua do meu leito
Mechas vivas meneantes cambaleiam
Braços fortes como farinha esperneiam.

Boca, vil e doce.
Diz palavras da inatingível distância
De mãos dadas subimos sete degraus
Descemos rolando três
E paramos no parapeito do apartamento.

Bateu a porta
Entrei pela direita
Jogou-me suas bonecas de diversas facetas
Rodávamos felizes, palavras, caretas.
E a sua boca.

Entreabertas linhas curvilíneas
Baba escorre pelas beiras
As carnes quentes laterais
Líquido aos conteúdos viscerais.

Boca,
Dela que dá origem à vida
E daí então até à morte
Ter-te comigo é plena sorte

Mechas vermelhas insanas
Rodelas pratas carinhosas
Cachos negros agressivos
Réguas louras abusivas.

Boca de gritos
Boca de amor.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A Cadeira

Cadeira de cedro, esculpida, contemplada.
Tão fina, em formas quadradas ogivais.
Mas o que ali morta, burra ou estática se assemelha,
Vejo e ouço a figura eterna de meus pais.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Redundância

Vai o poeta rolando a ladeira
Passa por si mesmo
Bate na cadeira
Volta pelo povo
Para na madeira

E vai o poeta rolando na cadeira
Bate pelo povo
Passa na madeira
Volta por si mesmo
E volta pra ladeira

E volta o poeta rolando na madeira
Bate em si mesmo
Chora na ladeira
Volta pelo povo
Morre na cadeira.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Mundo

Daí de baixo de tudo
Com olhos virgens
Boca baba
Respira e arfa.
Coraçãozinho brando
Sonho meu mundo infantil

O petróleo baixou o preço.
Mas tem o sapo perto da guia
A bolinha rolando na pia
O doce grudando na mão
O balão no infinito sumiu!
Sonho meu mundo infantil.

Casa de Espelhos

Desperta da erupção
Tuas mãos leves tocam meus ouvidos
Ardem ainda as marcas nas costas
Escorre-me a vida pelo lençol
Sorriso débil de encantamento

Mas é um espanto!
Choro convulsiva desespero!
Apavorada por ingrata atitude
Pois trocou todo o amor que tenho
Por essa vil casa de espelhos.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

J'aime la femme

E s cusa-me imenso amor, oh Lídia
D e sfaço da minha vida inteira
E x cessos de estupor, perfídia
M o mentos de mania trigueira.

E c rustrada no canto do quarto
V o u remoendo as faces molhadas
A m adas vezes gestos amada
E por vezes sempre apedrejada

S a lvo teu amor pela certeza
A m enizada sempre beleza
F o me sentida pelo teu beijo
O r a de amiga, ora desejo.

Noites

Parto do egocentrismo esmero rutilante
Palavras sem sentido vulcões erupções
Artes geográficas parábolas diastráticas
Meninas solitárias vis acontecimentos
Espaços vazios erros tormentos

Tudo o que eu quero é um beijo seu
Tua boca rósea de seda
Teus medos morais
Tuas vozes imortais
O amor à minha imagem e semelhança.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Às Flores

Quem olhar para o céu agora
Verá uma aura cor de rosa
Cor de qualquer coisa
Como o arco-íris.

E qualquer seria se fosse qualquer coisa
O mel em meus lábios
É ferrão nos dos outros
Pois olhos de flechas
Não atingem a armadura dos nossos corações.

E estes mesmos olhos que consigo colidem
E qualquer coisa não verão
Pois o amor que falsamente se propaga
E nestes vis olhos se estraga
Como doce fruto em meu peito se aloja.

Trazendo-me das mais impuras noites
Desde as mais insanas orgias
Em alucinações céticas embrigadas.

O mais doce canto de tua mãe
Sob a relva que repousa tuas angústias
O mais puro encanto de meu pai.
O mais doce néctar de teu ventre.