quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Pequeno Mito Grego

A dúvida era certa, mas o prazer de se estar vivo era inexplicável. Aquela criança tinha um Hércules no sorriso. Sabem do que falo, daqueles sorrisos que até fazem eco nos corredores da escola. O sorriso que corre junto, na hora que bate o sinal do intervalo da escola. Era um pequeno Hércules, já com os dons da retórica apenas no caminhar. O seu andar era um discurso político. Debate político. No dia seguinte todo mundo comenta, rindo gostosamente no aperto do ônibus (aquela bendita maldita linha para o Terminal Bandeira, como prato de pedreiro transbordando, assim pelas bordas). Era tal o poder do sorriso do menino.

Chovia sim, chovia muito. Mas na hora em que abriu os olhos e refletiu neles o céu, o próprio céu, grandioso se compadeceu. Abriu-se todo, mostrou sua claridade morna. Aquele cheio gostoso do verão, cheiro de mato e terra molhada. E vem aquele morno acumulado pelo excesso de lixo nas ruas, a rua tão quentinha e quase lavada que dá até vontade de deitar.

Vem correndo. Trotando. Com aquela gargalhada engasgada. O nhô, que nunca sei o nome, ali sentado com a perna manca desde 1992, quando era minha vez de descer por aquela rua pra comprar um pirulito; ainda com a mesma perna, observando o novo fôlego, correndo em círculos, sem querer chegar aonde. Assim é que é bom, andar sem ter por onde, sem chegar nunca. Sinto pena de todos os que caminham querendo chegar. Quando chegam plantam ali a estaca do bem adquirido e determinam outra rota. E assim vão. O menino nunca quer chegar, simplesmente quer.

O seu sorriso azul com perfume de recém-tomado-banho monta na motocicletinha. Até o moço da cocada parou, e ficou olhando ali, querendo ser o pequeno herói grego. E a risada ecoando no corredor da rua.

O pai não sabia o que fazer. Foi uma existência nula, mais nula do que cinza de fim de fogueira de São João, onde o início da manhã é friazinha daquele jeito, e o leve cheiro de enxofre no ar, que arde as narinas de um jeito gostoso. O caminhar rápido, ofegante indo pegar o ônibus das seis da manhã, na hora em que o dia ainda não decidiu se clareia ou se se mantém escuro. É o menino.

Não, ainda não, diz ele. Mas vai o senhor da obrigação dizendo: sim senhor, vamos que é hora. Hora de quê? Hora de levantar. Eu levanto outra hora... não que aí é hora de deitar. Deitar porque se já to deitado? Deitar pra levantar de novo. E vira para o lado sendo domado pela preguiça, com o corpinho leve todo pesado de sono. O menino levanta e deita a hora em que o corpo manda.
E continua correndo, com as perninhas gordas empurrando o velocípede, encantando até aos cachorros de rua, que abaixam mais ainda a cabeça diante dele. Deveras, esse é o poder de um semideus.

A rua que vai descendo e torcendo para a direita, fica reta, inclina-se muito para vê-lo. As árvores chacoalham e o menino vai, todo ele, sempre ele. A idade? Não sei, essas coisas não importam nessas horas afinal, o mundo inteiro é tão grande pra ser descoberto. A boquinha semi-aberta, o olho com fulgor arregalado, quase extrapolando os limites das pálpebras, enquanto vê um avião passar no céu. Vai correndo atrás, vai, vai que você alcança. Um dia alcança, eu desejo.

Logo param todos, a rua inteira, o mundo inteiro né menino? para vê-lo imponente, subindo e descendo em círculos, cuidando para não bater contra a guia. Ali estão todos que querem entender o fascínio que ele está sentindo. Não há mais cotas de movimento para os outros, por isso estão todos estáticos. Nada disso! Mera desculpa, o fato é o que o menino é o senhor da hora, e todos devem ficar parados em respeito até que ele se canse. Jamais se cansará, um semideus não se cansa nunca!

Num acesso de raiva por não saber explicar o que está sentindo, o pai pega pelo braço e leva pra dentro de casa. A fúria. Um choro estridente que vai mais longe que o eco, pois quem então não prestava atenção na alegria, parou pra ouvir o choro. O berro rasgado que arde a garganta durante dias, meses. Arde a alma, nunca mais se esquece. Pergunta-se por que? porquê ele não sabe. A tristeza é geral, até da perna, até do cachorro. O céu se fecha mais uma vez e começa a pingar pingando, bem pouquinho. Chuva quente, de ar quente, abafado, como uma almofada.

O que aconteceu?

O que aconteceu é que o papai não agüentou ver que é possível ser criança em dia de chuva, em dia de sol, em dia de escola ou de trabalho. O papai, menino, não vê que pode ser criança até quando está perto de outra criança. Mas não liga menino, você é o guerreiro mais poderoso da Grécia.
Continuei caminhando pedindo em oração para que aquele menino não crescesse nunca. Jamais. Mesmo assim, a chuva continuou em cima de mim. Não tenho mais os meus poderes de Afrodite.

A Boneco de Pano

Tem olhos de plástico
Costura em linho
Mas pele em vime
De olhar estático.

E solta bolinha
Por baixo da saia
De falso cetim de
Vermelha Fitinha

Vigia de cima
Da jacarandá
Em cubo esculpida
A jovem menina

Que chora tão triste
Olhando pra estante
Aquela boneca
Que nunca desiste.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Fotosofia Filográfica


Olhou a tela medindo-a com o pincel.
Com o olho esquerdo fechado, respirou.
Analisou.
E sentiu o pulsar das cores.
Nas retinas do imaginário.

- O que pensa você dessa arte?
- Estou aprendendo a gostar.

Olhou o relógio o coração disparou vestiu o casaco apanhou a pasta
            [apanhou a torrada apanhou o café
            [apanhou a chave abriu a porta saiu
            [levando tudo nos calcanhares

Tirou a fotografia da Avenidade Principal
        Fotografia Digital
Olhou fascinado a vivacidade das cores apressadas
E a estaticidade do movimento da imagem
Mas desta vez não sentiu nada nas retinas

- O que pensa você dessa arte?
- Estou aprendendo a gostar...

Quase parando de andar.

Reflexão Pública


Enquanto passeava no calçadão da 13 de maio
A Multidão chovia na minha cabeça
Quinhentos homens e quinhentas mulheres
Caíam diante de mim.
Caíam arredor dos clamores
Caíam um por um, em rufos militares.
Estendi as mãos vagas, em flores
Não apanhei nenhuma e nenhum
Recolhi os braços mudos em dores
De todos que tombaram, sou mais um.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O Pecado

Da névoa ao acre
Do acre à gastrite
Da gastrite à serenidade
Da serenidade à lucidez

Náuseas enxaquecas
E uma perna enroscada no lençol
Não me lembro se quando adormeci
Era rude como um pavão
Ou delicada como um leão.

Mas enquanto a luz
Apaga e causa a tempestade
Acende e arromba a puberdade
Lembro que era vermelha,
Da cor da minha paixão.

Letícia Setubal Damasceno

Ah, se minhas letras tivessem cor!
A cor dos meus desejos, das impulsões.
Tivessem a cor dos dedos, e apontassem a direção dos meus segredos.
E te mostrassem a direção dos meus braços, das minhas pernas.
Das minhas pernas paradas nas esquinas.
Que me levam para duas direções
 - vou para onde primeiro me puxarem -

E se elas tivessem voz...
A voz de gritar
Alto
Máscula
Áspera
Rouca
A máxima expressão de minhas paixões
A dor máxima do frio das esquinas
Dos meninos das meninas
O máximo frio dos velhos lençóis e colchões

Se elas tivessem o cheiro azul das camas dos hospitais
O gosto cinza das guias das avenidas
Os sons amarelos das alamedas aformigadas
O toque branco, fosco, da luz espelhada no chão noturno.

E se ainda, e por último, por enquanto
Tivessem calor!
O abraço brando eriçando os pelos!
Ai, os pêlos! Hum, os pêlos!
E a maciez das madeixas me cobrindo o corpo
Tapando-me o sofrimento
Preenchendo-me o vazio
Por fora e por dentro
Ao menos neste momento.

Enquanto o sangue corre firme
O braço e o coração pesam
Os olhares aqui, porém lá, que lesam
Violentos são.
Duros, macios, viscosos, entre duas abas
Escorrendo língua abaixo
Percebo que minhas letras não podem falar
(mas se pudessem)
Eu não voltaria para a febre escura
Das escadas dos apartamentos...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Porta Fechada

Depois de um ou duas dobrada em trouxa
Soltando labaredas pela boca frouxa
Vomitando a leviandade entre as marcas coxas
Na fornalha de cetim, paredes velhas, cortinas roxas.

Encontrará aqui minha porta fechada
Fechada às cegas na embriaguez.
Em distração mera apaixonada
Deixando fora mais uma vez.

E segurando tua mão direita
Como mordida lacraia à espreita
Envenenada morta enquanto deita
Desgraça vil, tristeza feita.

Vejo-te preso do lado de fora
Empurrado grosso na minha cólera
Lutando contra minha resignação
Gritando: Não! Não vá embora!

Na Janela

Vejo daqui de cima
Daqui de cima vejo,
Vejo meu amor passar.

Apoiada no queixo
No queixo apoiada
Vejo meu amor passar.

Carregada entre suspiros
Suspiros entre carregadas
Vejo meu amor passar.

Fecho a janela
Nela já fecho
E vejo meu amor passar.

Vejo meu amor passar
Passar o meu amor vejo
Vejo minha vida passar,
Vejo minha vida pesar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Poema Contreto I


O mundo é de quem tem sorte, determinação. 
O mundo é de quem tem sorte. 
O mundo é de quem tem!
O mundo é de quem?
O mundo é de: 
O mundo é... 
O mundo. 
Ô!
Ô!
Ô!
ô
oh... 

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Morfina

Nesta vida
Cheia de agitações tardias,
Conformo-me com a frieza dos dias
Onde sinto na alma o sumo açoite
De entregue ao corpo estranho pela noite.

E assim mesmo, sacudida, não me ama
E não me vê, não me olha, não me chama
Mas deste prêmio corpo eu divido a cama
E se a alma esfria, o lábio tenso inflama.

E engano-me com o canto colibri de flautas
Quando há mesmo o som de um murmúrio em praça incauta
E envergonho-me enquanto o choro sobressalta
Por uma febre que temo e assusta, mas falta.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Porta Aberta

Saia de imediata prontidão
Carregue o seu saco de pedras
Pise por cima de minhas lágrimas
Atravesse as alamedas mortas do jardim
Feche o portão, feche a rua, feche a avenida
Mas encontrará no fim da sua vida aqui minha porta aberta.

Estarei deitada entre um soneto de perdição e outro
Com uma rosa atravessada na mão e outra
Copo de medida veneziana e outra
Alucinação regurgitante e outra*
Ácido na garganta e outra
Minha porta aberta.
Meu corpo
Morto.
E outro.
E outra.

Alma Traça

Através das prateleiras de uma livraria
Descobri em um volume, acho de Madalena
Ousadas muito velhas escrituras de Maria
Premiada fui então por ser digna de pena.

Entre as páginas abertas, a página daquela
Em cada uma que folheio outra me espanca
Renasço todo dia sempre em forma de Flor Bela
De pele reluzente, mas espírito que manca.

Achei-me, muito vivas entre as letras corroendo
De verniz, enxovalhada identidades às traças
Levantei uma garrafa e aos convivas morrendo:
- Pela honra deste amor, bebamos as nossas taças!

domingo, 22 de julho de 2007

Um de Isabelle La Fleur

Isso é um caso trágico de vida inconsequente que resultou na minha mudança de cidade. Regado à insônia, vinho (bebida dos loucos pretensiosos), vodca, cigarros e a droga de uma recordação.


Ah Letícia, por que me deixou?

O seu olhar me olhava de um pra sempre que me deixava estática, segura. Amigas para sempre! Por que foi embora, hein? Hein? Seu cheiro. Tenho saudades do seu cheiro, aquele seu cheiro me lembrava depois de amanhã, que ninguém tem coragem. Eu olhando essa cidade toda amena me lembra você. Um homem cego apoiado em sua vara foi chegando e sentou ao meu lado, de barba e tudo, com a calça jeans amarela batida. Tocou-me a perna na perna.

- Escuta mocinha? - como sabe que sou mulher só me pegando na mão?
Não saberia dizer de olhos fechados se era a mão da Letícia ou do Rodrigo. Ele nem se conforma, mas amantes são assim mesmo Rodrigo. Não se contenta, se desespera. Olha-me com calmo, olhos cínicos, mentirosos, mas por dentro está em estado de guerra civil, desordenada sem líder. Uma completa anarquia sentimental. Devia dar a ele uma casa de espelhos. Amantes são assim mesmo meu bem. Acontecem acontecendo, sem aviso, premeditações. É aquela calcinha fofa, favorita que se acha na liquidação do Brás. Comparada à que está usando o coração pulsa com sangue novo. É um renascimento. Rebirth of a woman!  Vão-se enterrando assim no coração da gente, sem pedir, tentando achar um cantinho aqui ou ali. Quando vi, já estava usando a calcinha nova! Tão mais justa. Delineada parecia bumbum de photoshop, me sentia mais mulher, levantando a calcinha pra ajeitar olhando, reolhando, girando os olhos como em passarela. Ah não! Dessas não. Parece que a cara foi pintada com um sorriso publicitário de valor inestimável. Prefiro as calcinhas do Brás, justas e baratas. Um achado!

- Ei mocinha? - sacudiu-me. Cora Isabelle. Não enxerga o homem que te chama? Ele não. É assim mesmo, os olhos causam a cegueira dos ouvidos, e a boca, ai a boca, de todo o resto do corpo.

- Me avisa quando vier o que vai pra Praça da República sim? - sim. Letícia que saudades suas. Sim, que saudades. Até a sujeira da Praça da República me lembra você. O Centro inteiro é você. Lembra quando foi atacada pelo mouro debaixo do viaduto do Chá? A prefeitura pressionando a cabeça de todo mundo que passa ali embaixo. De manhã e de noite, em cima, o terno municipal secando ao sol, debaixo eles catam as migalhas entre cuspes e o cheiro seco de mijo. Uma lasquinha daquele muro daria uma pesquisa antropológica antropofágica inteira! Um achado! Mas um pedacinho de Letícia é como encontrar a cidade de Tróia. Atlântida, perdida sob o mar, ninguém nunca viu, mas acredita! Eu acredito. Um pedacinho do seu cabelo liso como cortina do teatro Municipal. Que espetáculo me oferecerá quando se abrir da próxima vez? Você é mais espetacular que o Centro inteiro. Que Barão do café que nada! Letícia é a Baronesa. Foi-se. 

- Ai minha filha, eu te avisei!

- Me desculpa -falei com irritação desajeitada - estava distraída.

- Tente ser cega que nem eu! Cá eu nessa necessidade. Devia se apaixonar depois que eu pegasse o ônibus. 

- O amor não tem itinerário senhor. Meu coração é uma Avenida sem fim - disse eu com a mão sobre o peito.

- E o meu é hipertenso e de uma arritmia sem fim, com bolhas na circulação sanguínea! Mal bate por mim. Não vê que tenho que ir no médico? Olha minha vara como treme na mão!

- E eu que nem tenho cura, nem vara, nem nada - Deus me daria a cura dessa dor. Mas da mesma forma como não conheci nenhum médico não conheci a Deus. É o médico hetero.

Letícia é o coveiro do meu coração. Logo enterrará o seu defunto. Como é possível que doa tanto! Pior deve ser ficar debaixo daquela laje de mármore, tadinha dela. Debaixo da minha coberta era tão quente. Pior para o mouro lá no Chá. Eles tomam chá gelado. Seu teto é o céu. Antes fosse o meu, mas agora nem teto e nem chão eu tenho. De todos nós só sobrou a coberta. Essa sim, se dobrada direitinho e amaciada com o Confort perfume das Camélias vai durar para sempre. Daqui a 200 anos alguém se aqueceria. Ai se ele falasse. Contaria as histórias mais gostosas de ouvir. De tirar o sono. 

Ai Letícia, se ao menos eu pudesse falar. 

Poema de Pedra


No fim
Lá atrás, entre a colheita mal feita e o vinho maltrapilho,
Construí uma igrejinha de pedra, de São Bananais,
Santo meu, criado meu.
Jesus Cristinho derrubou as taças, os pratos, as pratas.
Na igreja de São Bananais.

Cavei com as unhas na pedra o nome do Nosso Senhor.
A pedra voltou-se a mim amarela, empoeirada desfalecendo.
Fica agora, cai ou não cai. Morre ou não morre.

E o morre desmorre da vida desvida que não vai.
Nem vem.
Nem vai.

Entre o vinho maltrapilho, escolhido no mercado, atrás do balcão de                [carnes e frios.
Não tem imagem de São Bananais.
Jesus Cristo tomou-me as mãos e salvou-me por enquanto.
Mas enquanto eu derramava o vinho, a mão escorrega.
Embriagado morre. Escorrega vive. Vai, não vai.
Colhi da escolha de Não Bananais.
Não, pedra.
Sem fumaça de algodão doce cheirando na alma.
Não, pedra.
A mulher, madura, cheirando a carne mordendo a cruz.
Não, pedra.
O travesseiro frio, a luz, a luz, a luz...
Não, pedra.
A boca rosada, cor de curiosidade, lambendo a palma.

Lambe a palma, lambe a palma.
Amor de pedra da gávea!

A colheita foi ruim este ano, ano que vem é pior!
Tem um navio preto (por que sempre preto?) encalhado na doca.
Doca canavial, lugar do meu coração.
Tem um navio no meu coração.
A imagem de Jesus presa na cabine do capitão.
Ah não tem mais, capitão mandou tirar dali.
Onde encontrar a palma do meu Senhor então?

Está voando, está voando! Abobado, deita!
A doca canavial de feira livre tem muita.
Mas tem um navio preto lá
No meu coração.
Amanhã a gente vai e arruma uma nova.
Esquece o navio e pega a menor embarcação.

Mas a água virou pedra mole até que fura.
Desfalecendo em minhas mãos...
O nome.
Que trabalho! Sumiu agora, só resta o navio preto.
Não embarca, o vinho sublime sujou a rampa,
A colheita inundou de proa à popa.
E o coração ruiu
Sumiu
Morreu
Empedreceu!
No começo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Boca

Desce o decote e o suor vivo do teu peito
A ânsia amarga cobre a língua do meu leito
Mechas vivas meneantes cambaleiam
Braços fortes como farinha esperneiam.

Boca, vil e doce.
Diz palavras da inatingível distância
De mãos dadas subimos sete degraus
Descemos rolando três
E paramos no parapeito do apartamento.

Bateu a porta
Entrei pela direita
Jogou-me suas bonecas de diversas facetas
Rodávamos felizes, palavras, caretas.
E a sua boca.

Entreabertas linhas curvilíneas
Baba escorre pelas beiras
As carnes quentes laterais
Líquido aos conteúdos viscerais.

Boca,
Dela que dá origem à vida
E daí então até à morte
Ter-te comigo é plena sorte

Mechas vermelhas insanas
Rodelas pratas carinhosas
Cachos negros agressivos
Réguas louras abusivas.

Boca de gritos
Boca de amor.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A Cadeira

Cadeira de cedro, esculpida, contemplada.
Tão fina, em formas quadradas ogivais.
Mas o que ali morta, burra ou estática se assemelha,
Vejo e ouço a figura eterna de meus pais.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Redundância

Vai o poeta rolando a ladeira
Passa por si mesmo
Bate na cadeira
Volta pelo povo
Para na madeira

E vai o poeta rolando na cadeira
Bate pelo povo
Passa na madeira
Volta por si mesmo
E volta pra ladeira

E volta o poeta rolando na madeira
Bate em si mesmo
Chora na ladeira
Volta pelo povo
Morre na cadeira.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Mundo

Daí de baixo de tudo
Com olhos virgens
Boca baba
Respira e arfa.
Coraçãozinho brando
Sonho meu mundo infantil

O petróleo baixou o preço.
Mas tem o sapo perto da guia
A bolinha rolando na pia
O doce grudando na mão
O balão no infinito sumiu!
Sonho meu mundo infantil.

Casa de Espelhos

Desperta da erupção
Tuas mãos leves tocam meus ouvidos
Ardem ainda as marcas nas costas
Escorre-me a vida pelo lençol
Sorriso débil de encantamento

Mas é um espanto!
Choro convulsiva desespero!
Apavorada por ingrata atitude
Pois trocou todo o amor que tenho
Por essa vil casa de espelhos.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

J'aime la femme

E s cusa-me imenso amor, oh Lídia
D e sfaço da minha vida inteira
E x cessos de estupor, perfídia
M o mentos de mania trigueira.

E c rustrada no canto do quarto
V o u remoendo as faces molhadas
A m adas vezes gestos amada
E por vezes sempre apedrejada

S a lvo teu amor pela certeza
A m enizada sempre beleza
F o me sentida pelo teu beijo
O r a de amiga, ora desejo.

Noites

Parto do egocentrismo esmero rutilante
Palavras sem sentido vulcões erupções
Artes geográficas parábolas diastráticas
Meninas solitárias vis acontecimentos
Espaços vazios erros tormentos

Tudo o que eu quero é um beijo seu
Tua boca rósea de seda
Teus medos morais
Tuas vozes imortais
O amor à minha imagem e semelhança.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Às Flores

Quem olhar para o céu agora
Verá uma aura cor de rosa
Cor de qualquer coisa
Como o arco-íris.

E qualquer seria se fosse qualquer coisa
O mel em meus lábios
É ferrão nos dos outros
Pois olhos de flechas
Não atingem a armadura dos nossos corações.

E estes mesmos olhos que consigo colidem
E qualquer coisa não verão
Pois o amor que falsamente se propaga
E nestes vis olhos se estraga
Como doce fruto em meu peito se aloja.

Trazendo-me das mais impuras noites
Desde as mais insanas orgias
Em alucinações céticas embrigadas.

O mais doce canto de tua mãe
Sob a relva que repousa tuas angústias
O mais puro encanto de meu pai.
O mais doce néctar de teu ventre.

domingo, 3 de junho de 2007

Dor e Amizade

Teus olhos me lembram o tempo da escola
E agora debaixo da goiabeira eu faço o madrigal
Cada teco de tinta é uma lágrima de lamento
Pelos dias que não vivi.
Desde o dia destes olhos que eu vi...

E para longe foram eles minha raiva carregando
Que era máscara para a minha covardia.
Vivemos promessas de eternas alegrias,
Mas sempre em decepções voltávamos chorando.

E não importa
Com quantas moças ou rapazes nos deitemos,
Por que ao fim do dia, quando tudo parecer perdido,
Com doces olhos, na real, nos encaremos,
E um ou outro suspirando irá dizer:
Você vai sempre estar comigo!

quinta-feira, 29 de março de 2007

Amor Cristão

Quando das costelas de Adão
Surgiu a mais perfeita de toda a criação
Tirou Eva de suas entranhas uma nova existência
E a ela eternamente devo a minha obediência.

sábado, 17 de março de 2007

Embriagado

Estes olhos profundos,
Propagadores do descaso,
Conturbam-me a moral.
Desde a breve sanidade
Ao meu último suspiro de renúncia.
Em verdade vos digo, arrependido,
Tanto pelo pecado cometido
Como pela ação não concebida.
Em verdade vos digo
Tamanha conseqüência deste erro
E como fardo, carrego este legado.
Porém por esta noite,
(Só por esta noite meu Deus!)
Estou apaixonado!

sexta-feira, 16 de março de 2007

Rosa Azul

Não tenho vergonha de regar minhas flores
Que antes negras e reprimidas
Sorriem em liberdade sem as pétalas da moral
Pois na moral meu sorriso se perde.
Quando do perfume de teu peito
Me vejo entre as brumas quentes do teu leito
E hoje carrego uma rosa em minha fronte
Sou um anjo que não distingue os anjos
Sou amante dos Anjos.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Cata-Vento


De cima da estante, meus olhos sofriam estáticos:

Fitava sempre sorrisos incompreensíveis, cheirando a álcool.
E os cata-ventos mudando a direção dos ares.

- Peteus, desce da estante meu filho.

Ai mamãe, tenho medo dos cata-ventos.

quinta-feira, 1 de março de 2007

O Sol Nascente

Quando de teus olhos roubei o pouco do néctar,
Trai meu próprio coração.
Chorou amargurado despedaçado em dores canalhas.

Na quietude, na paz.
Viestes do outro lado,
Fugindo da guerra.

Roubou-me o fôlego
Desorientou-me as certezas.

Atravessou oceanos, mares inteiros.
Continentes montanhosos e argilosos.
Matas densas e proibidas, 
Atravessou tudo.
Para atravessar-me o coração.

Já pendurado no balaustre contemplado em admiração.
Mas corrompido em impureza e traição.