domingo, 8 de maio de 2005

Prelúdio Urbano

I. Moderato


Tarde de Sol escaldante no bairro
Um casal se prosta à beira da porta
O Gato se entrelaça aos pés da moça
O cão do moço, dorme, escondido e envelhecido,


         Quase morto atrás da porta.


Estendem-se muros velhos,
Onde as crianças brincam de esconder;
Ninguém sabe onde se encontra ninguém.


Estendem-se trepadeiras secas e cadavéricas,
Onde deveriam estar ramalhetes.
As donzelas já não são mais donzelas
E o amor põe-se a chorar no coração dos moços
Dando lugar a notícia.


Os sinos das Igrejas tocam descompassados
Só vejo agora, anjos feitos de papel, flores de plástico
DEUS À BEIRA DO PENHASCO
E o nosso desejo acima de qualquer suspeita.


II. Allegro non troppo


No meio do terreno baldio, 
De onde se ouvia o prelúdio urbano
Havia um homem comendo micróbios. 
De trás da sucata, 
Um menino o comia com os olhos.


No meio da avenida um amor perdido
De onde se ouvia o prelúdio urbano.
Um coração dilacerado e sangue pra todo lado
Ai, e aquelas exclamações apocalípticas que matam...


Mas havia uma história
Inacreditavelmente havia uma história.


O menino comendo com os olhos...
Parecia querer usar a boca, estrear as gengivas novas
Mas só podia com os olhos.


E no meio da avenida, aquela donzela inconformada
Com sangue no meio das pernas, sangue pra todo lado.
Mais um amor enganado...


O prelúdio urbano tocava, e o povo acompanhava


III. Lento con brio


O céu rasgado pela chuva que devia brotar,
Mas essa chuva só chove, só molha, só esfria...
A chuva que lava o sangue derramado
Ai, no meio da avenida, o prelúdio urbano,


Havia uma vida...

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Faminto

Perdi a fome quando me apaixonei
Não comi por três longos anos
Longos, longos, longos...

Se eu dissesse que era um ovo
Não era um ovo
Se eu dissesse que era um vôo
Não era um vôo
Se eu dissesse ser um vovô
Não era um vovô

Perdi a paixão quando senti fome
Não me apaixonei por três breves meses
Mas na fome que não é fome
Só comi.

sábado, 23 de abril de 2005

Para a Música Sem Nome

Eu podia morrer agora
Fama talvez.
A mais nova notícia do noticiário do povo.
Nem que fosse ao menos por uma semana
Meu sangue anêmico esparramado ao chão seria notado enfim,
Já que não em minhas veias tristes e dilaceradas em vida.
Melaria e avermelharia um pedaço de terra e de história,
E uma música soaria.

Essa música que não tem nome.

Talvez pudesse se chamar 
“Noturno triste contemporâneo em Mi menor”
Tristeza contemporânea
Iguais as de hoje em dia.
Tristeza esparsa, vã e mentirosa.
Tristeza que todo mundo sente
Tristeza que ninguém quer sentir.

Ou talvez pudesse ser a música que todo mundo queira ouvir
Daquelas que a gente não acredita!
[que às vezes o dia é desagradável e não tem retorno.
Mas a gente não acredita e muda de estação.

Daquelas em que eu sonho com a princesa de Minas Gerais
Daquelas em que eu acho que a princesa tem um sorriso lindo
Lindo de morrer
E que é pra mim, mas na verdade é a música que me deixa assim.
Quando eu digo que te amo e acho que obtenho uma resposta.
Mas é só a música.

terça-feira, 12 de abril de 2005

Viajante Cacique

Não sou daqui, sou de qualquer lugar
Sou de onde meu coração mandar
Não sou daqui, sou de lugar nenhum
Sou de onde o tambor ainda faz tum!


Sou das Minas às Serras Cantareiras
Sou Urupês, Irapuá e Tabajaras
Canaviais, Honolulus, Parises e Milãos.
Sou da terra de todos os irmãos.


Sou de Belém, Carfanaum, Jerusalém,


Sou das Terras sem nome
Por que antes não tinham.
Hoje só têm pra me separar de ti.


Sou o típico Italo-americano das tribos de Itapecerica.
Sou o filho do baiano comedor de mexericas.


Sou o Alfa, o Ômega e sua semelhança.
Sou começo, o meio e o fim de toda a dança.


Sou o último raio da estrela, a esperança.