terça-feira, 18 de novembro de 2003

Mariposa

Viver me fez entender um pouco que há sempre uma mariposa
                [branca rasgando o céu.
Ela vem voando, vem voando
Se eu nunca a olhar
Talvez ela vá voando, vá voando e eu nunca mais olharei.

domingo, 19 de outubro de 2003

Rosa Proibida

Nasceu uma linda Rosa no meu jardim
O meu jardim é cheio de cravos e espinhos
No seu profundo jaz a Madre Pérola


A Rosa pintou os Cravos com as cores confusas
Mas a Rosa não fez nada... 
Foi o Jardineiro astigmático e míope.

segunda-feira, 29 de setembro de 2003

Doce Mentira

Meu Deus, meu santo Cristo.
Como eu queria
Ah! Como eu gostaria de saber mentir.
As doces mentiras da convivência, das juventudes alheias.
Como eu gostaria de ver as flores dessa vida.


Mas eu só falo a verdade
Eu só vejo a verdade
Eu ouço a verdade de ouvidos feridos


A poesia da vida é uma gota d'água num mar tempestuoso


Nada como um dia após o outro
Eu suspiro
- É nada como um dia após o outro...


Meu mar de rosas não tem pétalas.
Só espinhos e sangue.

domingo, 3 de agosto de 2003

Eis a Estrela (Para Manuel Bandeira)

Flagraram a Estrela
na plenitude de sua humilhação. 
Com um assaltante e um assassino
Encontrava-se fatigada e ofegante
Mas que importa?
Acharam a Estrela!


O delegado austero, fardado
Com o papel constituinte e todo o rigor de sua lei nas mãos
Bateu, gritou, xingou, cuspiu e prendeu os dois homens.
A Estrela
Fatigada e docemente delicada
Limpou-se na farda policial
Arrumou-se e foi ter com outro cliente.


Mas que importa?
Acharam a estrela da manhã!

domingo, 27 de julho de 2003

Ecos do Menino

Um menino de 12 anos que nasceu preso no túnel.
Caminhou errante, dando pequenos passos pelo complexo 
                   [túnel comprido.
Ele tinha medo e tinha frios.
Um menino de 12 anos.


Num ato de loucura chorou:
Socorro!!!
...Corro...
...Corro...
  ...Corro...


O choro não atingiu alma nem coração
Apenas paredes de mármore frias.
O menino nasceu preso no túnel comprido.


A resposta que veio, que matou o último suspiro
Do menino de 12 anos
O grito que parecia ruídos estranhos.


Camorra!!!!
...morra...
...morra...
...morra...


Fechou os olhos e sentiu sua mente se diluir.
Abriu novamente e notou que o túnel não tinha fim.
O túnel... ele não tinha fim.

domingo, 15 de junho de 2003

A Vida Segundo Brás Cubas


Morri!
Não tive filhos. 
Não me casei com Virgília, nem com Marcela, nem com ninguém. 

Adoeci!
Gastei meus dias com dinheiro. 
Tive amantes. 
Vivi minha vida. 
Fui maldito, miserável. 
Não me casei com ninguém. 

Formei-me em Direito. 
Formei-me em Medicina. 
Formei-me em tudo. 
Não me casei com ninguém. 

Quis todos os emplastos, 
mas não tive nenhum, 
não gozei de nenhum. 
Não me casei com ninguém. 

Fui Jovem
Peralta
Adolescente
Traquinas
Criança
Nasci. 

E eis que aí, tudo se terminou.

quarta-feira, 9 de abril de 2003

O Escárnio da Morte

Aqui estou!
Sobre teu leito de morte,
a indesejada da tua vida.

Aqui estou
Dura como teu coração
onde a glória fora unção.

Chama-a!
Veja se impede
Que o verme sacie tua fome


Fome, não.
Mas o desejo
daquele verme da terra.

Apago essa luz,
Apago aquela 
E a de toda humanidade.

E a paz reinará na terra, nos céus e no inferno.

segunda-feira, 7 de abril de 2003

O Cemitério dos Poetas

Luiz Vaz de Camões escreveu. 
Oswald de Andrade escreveu. 
Fernando Pessoa; escreveram
Machado de Assis, Alvarez de Azevedo, 
Manuel Bandeira e Drummond
também escreveram. 

Mas Camões está morto. 
Oswald está morto. 
Pessoa, morto. 
Machado de Assis, Alvarez de Azevedo, 
Manuel Bandeira e Drummond. 
Todos eles estão mortos e enterrados de poeira. 

E o coveiro, onde está?
Foi assistir TV.

quarta-feira, 5 de março de 2003

Não Há Lados



Esquerda
Direita
Esquerda direita
Direita esquerda

Em cima

Embaixo
Em cima embaixo
Embaixo em cima


Preto
Branco
Preto branco
Branco preto


Chega! Esse mundo é de dar torcicolos.

segunda-feira, 3 de março de 2003

Tenho um só motivo para escrever

Tenho um só motivo para escrever
Tenho um motivo só para escrever
Tenho um motivo para escrever só

Escrever tenho um só motivo para
Para escrever tenho um só motivo
Motivo para escrever tenho um só
Só motivo para escrever tenho um
Um só motivo para escrever tenho
Tenho um só motivo para escrever

Só tenho um motivo para escrever
Só escrever para um motivo tenho
Motivo para um escrever tenho só
Um tenho para só escrever motivo